quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA, O ENGENHEIRO

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Lisboa cultural da boémia e coração da vida nocturna…




Em 1974 era instalado no nosso País o primeiro acelerador de partículas (1), num grande centro hospitalar da capital, cujo Director era um prestigiado paroquiano de São Vicente de Fora e com quem o Padre Correia da Cunha mantinha uma relação de amizade muito próxima.

Aquando da sua instalação, a empresa multinacional produtora do equipamento, de origem francesa, fez deslocar ao nosso País uma conceituada equipa de técnicos e paralelamente o seu Presidente (PDG) e Vice-Presidente em visita de cortesia.

No decurso do almoço de representação comercial, o Presidente da multinacional manifestou muito interesse em assistir a um espectáculo de fado nesta nossa encantadora cidade de Lisboa. O anfitrião, pouco experimentado nestas fainas, lembrou-se logo do seu bom e querido amigo Padre Correia da Cunha.

O Padre Correia da Cunha não recusou o simpático convite e lá foram os quatro companheiros para o velho Bairro Alto à descoberta do Faia, casa recomendada pelo Reverendo. Convidado de Carlos do Carmo, seu amigo, o Padre Correia da Cunha era um honrado frequentador deste espaço.




Estamos em 1974, no mês de Maio. Quando chegaram à Casa de Fados, a mesma encontrava-se encerrada. Neste período (PREC), os habituais frequentadores deste tipo de espectáculo diminuíram consideravelmente.
Bateram à porta e lá veio um empregado que confirmava o encerramento do estabelecimento, a que o Prof. Dr. replicou:

- Vieram estes meus dois amigos de França para ouvirem o fado no Faia e não há espectáculo!

Perante esta reivindicação, o empregado pediu para esperarem um pouco, que ia ver o que se podia fazer. Passados uns momentos regressou com a informação que se iriam abrir as portas da casa.

Entraram para a sala os convidados, enquanto o Pe. Correia da Cunha foi interpelado pelo porteiro, dizendo que não podia entrar sem gravata, ao que ele respondeu que estava correctamente indumentado com o seu cabeção (colarinho) de clérigo.

- Peço imensa desculpa, mas são ordens da gerência, só se pode entrar com gravata.

Interrogou o Prof. Dr.:

- E agora?

- Não há problema, tenho aqui um armário com gravatas, é só o Sr. escolher.

Perante uma dezena de gravatas, o Pe. Correia da Cunha lá elegeu a que lhe parecia mais sóbria.

Mas de imediato surgiu logo outro problema, o Pe. Correia da Cunha não sabia fazer o clássico nó de gravata. Valeu-lhe o Prof. Dr. que o executou com extraordinária perfeição, colocando a gravata sobre o seu cabeção.

Já comodamente instalados na sala, decorada com belíssimos painéis de azulejos e pratos antigos, deu-se início a uma noite mágica com um substancial jantar ao som de grandes talentos da arte, onde se destacava a voz de Lucília do Carmo, tida como uma das melhores vozes do fado clássico. O fado Maria Madalena emocionou profundamente os franceses, pela força, corpo, alma e voz inesquecível de Lucília do Carmo.

Tenho o prazer de transcrever parte dessa letra que é uma riquíssima relíquia:

Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu

Jesus só nos quis mostrar
Que o amor não se condena
Por isso quem sabe amar
Não chore, não tenha pena!

A Virgem Nossa Senhora
Quando o amor conheceu
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu

E de tanta que pecou,
Da maior á mais pequena
E aquela que mais amou
Foi Maria Madalena

Há a referir que a sala se foi compondo com grupos de turistas que também se sentiram atraídos por este modo de cantar que tão bem espelha a nossa nacionalidade. O espírito do povo português: a crença no destino como algo que nos subjuga e ao qual não podemos escapar; o domínio da alma e do coração sobre a razão que levam a actos de paixão e desespero e que traduzem naquele lamento tão triste mas tão belo.

As conversas em francês (Padre Correia da Cunha falava correctamente francês) foram muito agradáveis e prolongaram-se até às 3 horas da madrugada num fraterno ambiente de encantamento de boa e pura amizade.

Uma das artes abordada, para além do fado, foi a da riquíssima azulejaria portuguesa que Padre Correia da Cunha também tanto gostava e conhecia.




Independente da hora, o Padre Correia da Cunha prontificou-se a proporcionar uma visita ao maior Painel de Azulejos, do Séc. XVIII, existente em São Vicente de Fora, que representa a entrada solene em Roma da embaixada enviada em 1513, pelo Rei D. Manuel I ao Papa Leão X, chefiada por Tristão da Cunha. D. Manuel oferece ao Papa uma onça muito mansa e um elefante, aquele que foi o primeiro a aparecer na Europa.

A mágica noite prolongou-se até às 5 horas da manhã, hora a que deixaram os seus convidados franceses no Hotel Ritz em Lisboa.

No dia seguinte, domingo, com muita surpresa sua, o Presidente do Grupo Multinacional, católico praticante, estava presente na MISSA DOMINICAL das 10 horas da manhã celebrada pelo Reverendo Padre Correia da Cunha. Ficaram grandes amigos e passaram a trocar muita correspondência, visando prolongar aquela admiração e simpatia que granjearam naquela inesquecível noite.



Em 1975, quando Portugal atravessava um período revolucionário que podia levar à implantação de uma nova ditadura, desta vez de esquerda segundo as informações que os principais jornais franceses divulgavam, o Presidente dessa prestigiada empresa de engenharia de ponta enviou ao Prof. Dr. uma missiva e creio que a Padre Correia da Cunha, oferecendo-lhes altos cargos na empresa em França e residência num dos seus apartamentos em Paris (exílio politico).

Conclusão:

Perderíamos um bom pastor e um bom amigo, mas ganharíamos um excelente engenheiro em terras de França?!



(1) Os aceleradores de partículas são importantes no campo da radioterapia para o tratamento do cancro.
































segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O FATO

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‘’ O BAPTIZADO É UMA FESTA SOLENE POR EXCELÊNCIA. ‘’



O filho de um notabilíssimo industrial do nosso país desejava baptizar o seu filho na Igreja Paroquial de São Vicente de Fora. Este fazia questão que o celebrante do baptismo do seu primeiro filho fosse o Pe. José Correia da Cunha.

Depois de se inteirar de todos os procedimentos necessários para a realização do acto litúrgico, cumpri-os religiosamente conjuntamente com sua extremosa esposa.


PROCEDIMENTOS PARA O BAPTISMO















- Frequência de duas sessões de preparação para o Baptismo que visavam chamar atenção dos pais para as responsabilidades que iriam assumir na educação cristã dos filhos.

- Apresentação da liturgia do rito do baptismo para que no dia do cerimonial, os pais e padrinhos tivessem conhecimento da simbologia e da profundidade do acto sacramental.

Normalmente, quando o Padre Correia da Cunha convidava os pais e padrinhos para estas acções de formação do Baptismo era de imediato confrontado com a seguinte solicitação dos pais: a sua dispensa com alegação que não tinham tempo disponível e que tinham frequentado a catequese, e portanto sabiam muito bem o que desejavam para o seu filho. Já sabiam tudo sobre essa formação.

O Padre Correia da Cunha, com humildade e sabedoria nata, alegava com os seguintes argumentos:

- Se não podeis disponibilizar do vosso tempo duas horas para estas sessões, como podereis dispensar o tempo necessário na educação do vosso filho? Penso que deverão ser muitas horas ao longo de toda a sua vida…

- Acredito que tendes uma boa educação cristã e já sabeis tudo; e de imediato interrogava:

- Sabeis que neste momento estamos todos a respirar? É um acto simples e tão natural, mas sem ele não viveríamos. Foi necessário, neste preciso momento, chamar a vossa atenção para nos darmos conta deste acto tão banal como é respirar. Sei que tendes os conhecimentos, mas há necessidade de vos despertar para essas aprendizagens, é como o elementar acto do respirar.

Depois destas observações lá se disponham a vir às sessões e no final até comentavam que o tinham feito com muito gosto e tinham sido muito úteis.

Bem, mas vamos lá ao Baptizado do neto do distintíssimo industrial.

O avô da pequena criança fazia questão que houvesse uma grande festa, com a presença de todos os seus copiosos amigos, para celebrar este grandioso e importante acontecimento, tendo providenciado uma empresa da especializada para que se pudesse viver esse dia de grande sonho. O local seleccionado para o evento foi o Palácio de Seteais, na Serra de Sintra.

O Padre Correia da Cunha, pelo convite formal recebido, apercebeu-se que estava a ser chamado para um evento que requereria a máxima formalidade no traje, tratava-se de um evento solene.

Os Pais da criança, amigos próximos de Padre Correia da Cunha, faziam imenso prazer e gosto que o celebrante estivesse presente na FESTA DE BAPTISMO de seu filho.

Padre Correia da Cunha agradeceu tão amável e simpático convite, mas comentou que não poderia estar presente fisicamente na festa.

Não se conformando com essa sua posição, os pais da criança tudo fizeram para o demover da sua recusa.

Depois de tanta insistência, o Padre Correia da Cunha confessou que não tinha indumentária para se fazer representar nessa luxuosa recepção.

Perante o conhecimento deste facto e depois de informado o avô da criança da situação do impedimento, no dia seguinte chegaram à Paróquia, ao cuidado do Padre Correia da Cunha, três fatos com todos os acessórios, para que a sua presença fosse concretizada conforme era vontade dos pais e amigos.

Já no Palácio de Seteais, e perante o enorme número de distintos convidados, o pai da criança fez questão de apresentar pessoalmente Padre Correia da Cunha a seu Pai, que agradavelmente conversava com os seus amigos mais próximos.

- Peço desculpa, Senhor Meu Pai, tenho imenso prazer lhe apresentar o Sr. Padre Correia da Cunha.

- Viva Reverendíssimo, é para mim uma grande honra e um imenso prazer conhecê-lo pessoalmente e podê-lo saudar.

O Padre Correia da Cunha correspondeu com a sua agradabilíssima voz:

- E como vai o ILUSTRÍSSIMO DONO DO FATO?

O distinto industrial ficou primeiro um pouco confuso mas de seguida esboçou um discreto e suave sorriso.

Os presentes não deram conta desta tão estranha forma de saudação mas sei que a partir dessa data, Padre Correia da Cunha e o ilustríssimo dono do fato ficaram grandes e bons amigos. O Padre Cunha manteve por muitos anos uma excelente relação com aquele notabilíssimo industrial.

O Reverendo fez questão de agradecer aos seus anfitriões antes de sair, escrevendo logo no dia seguinte um cartão a agradecer todos favores e gentilezas. O Padre Cunha demonstrava sempre uma educação exemplar.

São histórias simples como esta que tornam possível reconhecer a qualidade de inteligência e o requinte de tal ilustre figura. O Padre. José Correia da Cunha tem um história muito rica e quanto mais completa estiver mais interessante se torna. Enviem-nos as vossas histórias!
















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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O VINHO

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DIVINAIS BANQUETES…



Toda a rebelião e contestação dos anos 60 também estavam espelhadas nos jovens de S. Vicente de Fora. Esta rebeldia estalava na exploração das TORRES da Igreja, procurando nos seus forros e cimalhas caçarem os pombos que ali se acolhiam, que originavam boas patuscadas e um são convívio entre jovens.

Eram pequenos bandos de rapazes a desafiar as ordens e regras estipuladas pelo o Padre Correia da Cunha, que não permitia o acesso a essas áreas do edifício pelos riscos e insegurança que representavam para os seus jovens.

Naqueles tempos era ‘’ proibido proibir’’, desafiar o risco era uma forma de os jovens contestarem aquilo que consideravam serem mentes envelhecidas, que não os deixavam desenvolver e crescer em liberdade…

Os jovens buscavam situações de provocação, rompendo os bons ensinamentos que diariamente o Padre Cunha lhes ministrava. Esta situação era referida pelo Padre CUNHA como: SANGUE NA GUELRA.

Depois da visita a essas áreas de exploração interditas, que os deixava cansados pelo esforço desprendido, era chegada a hora de invadir a Sacristia para se refrescarem com um bom copo de vinho sacramental (missa). Todas acções eram desenvolvidas com o máximo cuidado, de forma a não serem detectadas pelo Padre CORREIA DA CUNHA, no caso de falha era de imediato ‘’reprimidas’’ com o respectivo correctivo, um puxão de orelhas e a chamada dos pais ao cartório da Paróquia.

Enquanto um bebia, os restantes vigiavam atentamente os caminhos que conduziam à Sacristia.

O consumo de vinho sacramental começou apresentar níveis inaceitáveis, que obrigou a serem tomadas providências junto de Padre Correia da Cunha, pelo empregado da igreja.

Ao tomar conhecimento desta situação, o Padre Cunha, mandou que se comprasse três litros de vinagre e que fossem colocados nas garrafas vazias do vinho sacramental. Devendo o vinho da missa ser guardado em lugar mais seguro. Esta decisão apenas era do conhecimento do empregado da igreja e do Padre Correia da Cunha.

Na invasão seguinte à Sacristia, o primeiro a saborear o agradável vinho sacramental, ficou logo sufocado com o tão horrível e acre sabor que já não houve coragem de alguém querer repetir a prova.

Remédio santo, a partir dessa data, o consumo de vinho sacramental retomou o seu consumo normal, ficando colocado no seu lugar habitual. Nunca houve da parte do Pe. Correia da Cunha interesse em saber quem eram os apreciadores do divinal vinho. O seu lema era que não fosse repetida a situação.




Seminário dos Olivais
Em 1982, aquando das Celebrações do IV Centenário da Reconstrução da Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora, Padre Teodoro Marques, colega de seminário do Padre Correia da Cunha, contou a seguinte história:

- O seminarista Correia da Cunha gostava muito de organizar petiscos. No Seminário, lá conseguia de vez enquanto afincar um entrecosto uns chouriços e umas morcelas, depois de bem assados eram comidos na mão em cima de uns bons nacos de pão com o seu grupo de amigos mais próximos. Estas comezainas eram feitas num dos recantos do jardim do Seminário.

O seminarista José Correia da Cunha era o responsável máximo da Capela do Seminário e pelos seus consumíveis. Para estes petiscos, José Correia da Cunha providenciava sempre uma garrafa do bom vinho sacramental, que tornava aqueles momentos de convívio entre amigos em faustosos banquetes.

Um dia chegou ao conhecimento do Reitor do Seminário, Mons. Pereira dos Reis, a utilização do vinho da missa nos celebres convívios promovidos pelo jovem seminarista.

Monsenhor Pereira dos Reis viu-se na obrigação de chamar Correia da Cunha ao seu gabinete.

- Sei que estás a utilizar nas tuas petiscadas, que tanto gostas, vinho da missa.
Porque não pedes antes na cozinha uma garrafa de vinho como requisitas os restantes ingredientes?

- Sabe, Monsenhor, a qualidade das minhas patuscadas são como divinais banquetes para a boca e para o espírito exigem um vinho divino de qualidade superior. Com um vinho corrente do Seminário não seria a mesma coisa!

- Zézito!

Os anos 60 foram vividos de diferente maneira, de acordo com a sociedade vigente. Os ideais contestatários dos jovens manifestavam-se consoante a liberdade que lhe era dada. O Padre Correia da Cunha sempre aproveitava os acontecimentos para chamar atenção para os riscos e apontar caminhos. Eu creio que ele também conhecia e sabia o que era ser irreverente.

O PADRE CORREIA DA CUNHA PROCUROU ENCONTRAR SEMPRE A ALTURA CERTA PARA EFECTUAR CONNOSCO UMA REFLEXÃO SOBRE ESTES EXTRAVAGANTES ACONTECIMENTOS.














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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA, ESTRATEGO

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“Só ao Senhor teu Deus adorarás e servirás”.





 

Em 1940 iniciou-se em Portugal o processo de canonização do Beato Nuno, que era na altura a encarnação suprema da Pátria Portuguesa.

Na Igreja de São Vicente de Fora, a sua imagem estava no altar mais rico e belo do templo, o de Nossa Senhora da Conceição da Enfermaria, totalmente revestido em mármores embutidos do séc. XVIII.

O culto reconhecido e merecido estava nos corações dos portugueses, fiéis que viam nele o símbolo do amor pátrio.

Muitos dos seguidores desde culto, para Pe. Correia da Cunha, invertiam a essência do catolicismo, depositando ramos de flores, fixando placas de mármore com anotações das graças recebidas … e passando pelo sacrário sem um mínimo de reverência ao ‘ Dono da Casa’, presente no Sacrário. Já não se tratava de uma veneração ao Monge Beato mas de uma adoração ao Soldado Herói.

Pe. Correia da Cunha, visando a pronta solução a este delicado problema e dados os desafios de percurso inesperados e complexos, sentiu a necessidade de organizar uma estratégia, definindo alvos, alavancas e um rumo com muita sensibilidade e competência.

Para Padre Cunha : Só DEUS é merecedor de Adoração.

‘’ E outra vez conquistemos a Distância – do mar ou outra , mas que seja nossa’’
Fernando Pessoa


Seria o Tempo o grande objectivo estratégico - por mar ou outro modo – contanto que nunca nos fuja!











Assim, providenciou a passagem do Sacrário para o Altar mais rico e sublime da igreja e procedeu à colocação da imagem de Beato Nuno Alvares Pereira na Capela gradeada do Santíssimo, onde inicialmente se encontrava o Sacrário. O Altar retomou a sua beleza natural e riqueza, vendo-lhe retiradas centenas de placas de mármore.


Pe Correia da Cunha repetia muitas vezes que todas as peças antigas são belas quando bem conservadas nas suas formas originais. Ainda hoje me revejo nesse seu ensinamento.

É exactamente pela capacidade de realizar estas mudanças, ajustando-se a novos tempos que em geral as instituições sobrevivem, vivem e, não raro, se perenizam, apesar de frequentemente terem que enfrentar condições muito adversas ao longo de determinado período.


Pe Correia da Cunha tinha uma grande ancoragem que o protegia: O altar mais nobre e rico do templo deve ser reservado ao Sacrário.
As missas durante a semana passaram a ser celebradas nesse preciosíssimo altar.


Nenhum processo de mudança avança realmente sem a legitimação dos fiéis, salvo raríssimas excepções. Obviamente que houve indescritíveis obstáculos humanos e culturais de obstinados seguidores da ‘’adoração’’ a Beato Nuno Alvares Pereira.

Creio que a sua pureza, delicadeza de sentimentos e sensibilidade no trato com o seu rebanho, também em muito contribuíram para a concretização da sua correcta estratégia.

Passados cinco anos, liberto já de quaisquer peias, o seu verdadeiro sonho corporizou-se:

O Sacrário voltou à sua Capela natural e a imagem de Beato Nuno está no seu Altar porque a Igreja o reconhece merecedor de culto de veneração. Beato Nuno Alvares Pereira está nos corações dos paroquianos de São Vicente de Fora, como no dos Portugueses.


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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

RECORDAR S. JOÃO DE BRITO

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A aclamação da santidade exemplar, na pessoa dos santos portugueses.


Os santos que sejam verdadeiras testemunhas de Cristo e do seu Evangelho são escutados pelos homens contemporâneos. PE. CORREIA DA CUNHA recordava este Santo Português nascido na Calçada de Santo André (Costa do Castelo), como um elemento constitutivo da Igreja e da Comunidade cristã, que hoje queremos recordar:


O dia 04 de Fevereiro é dedicado a São João de Brito.


Venerado com especial fervor pelo povo português, São João de Brito é filho de D. Salvador de Brito Pereira, governador-geral do Brasil no tempo de D. João IV, e de Dona Brites de Portalegre, tendo nascido na calçada de S. André (Costa do Castelo)*, em Lisboa, no dia 10 de Março de 1647.


De ascendência fidalga, foi educado na corte portuguesa. Na adolescência, é vítima de uma grave enfermidade, tendo a sua cura marcado uma viragem na sua vida, dado que para dar cumprimento à promessa de sua mãe, teve que vestir o hábito de S.Francisco Xavier. São João de Brites ingressou na Companhia de Jesus aos 17 anos de idade.

Fez estudos em Évora e Coimbra e foi ordenado sacerdote em 1673.





São João de Brito partiu em missão para a Índia, onde adoptou o modo de viver dos monges brâmanes saneasses e assumiu a língua e costumes locais para melhor poder espalhar a Boa Nova do Evangelho.

A sua figura é emblemática do novo método de evangelização seguido na Índia pelos missionários.


São João de Brito foi perseguido, preso e açoitado até ser deportado para a corte portuguesa.Ultrapassando todos os obstáculos volta a partir para a Índia a 8 de Abril de 1690 para a pregação do Evangelho.

Corre célere a fama do Apóstolo. Os poderosos locais olham-no com desconfiança e a condenação à morte não tarda, acontecendo a 4 de Fevereiro de 1693.O cadáver é amputado de pés e mãos, sendo os despojos dados às feras e aos abutres. Os cristãos recolheram o crânio e alguns ossos, e começaram a venerar o local do martírio.Séculos mais tarde, o Papa Pio XII mandou canonizar o santo missionário português a 22 de Junho de 1947.

* Fotografia da casa onde nasceu S.João de Brito na Costa do Castelo e da imagem do Santo na fachada do Panteão Nacional, sito na Paróquia de São Vicente de Fora.


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA: O BISPO

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…ascensão Episcopal por uma noite.



No início dos anos sessenta, um notabilíssimo casal da Paróquia de São Vicente de Fora comemorava o seu vigésimo quinto ano de venturoso matrimónio.

Elegeu a igreja da sua Paróquia para a auspiciosa Celebração Litúrgica.


Para o tão fausto acontecimento, o altar da celebração foi devidamente enfeitado com flores vindas da Ilha da Madeira, sendo especialmente solenizado com a convocatória de um grupo coral, para que a celebração da Eucaristia desse dia fosse o mais digna possível no que aos cânticos dissesse respeito.


O celebrante previsto era um Digníssimo e Reverendíssimo Prelado, ainda com ligações afectuosas a esta família aristocrata da nossa paróquia, mas que uns dias antes dirigiu a seguinte mensagem:

‘’Quanto ao convite que muito me honra, já tive a oportunidade de dizer aos meus ilustres e fantásticos amigos que não posso estar fisicamente mas, como sempre, estais no meu pensamento, assim como a família….
Uma Especial Bênção. ‘’

O casal, família e convidados reuniram-se para participar na Eucaristia em que o par renovou o seu ‘’SIM’’. Estiveram também presentes, muitos paroquianos que se quiseram associar a esta grande Festa de Acção de Graças.

O celebrante de recurso, Pe. Correia da Cunha desejou aos sempre noivos e família desejos com extraordinário entusiasmo: a continuidade da felicidade que os tinha acompanhado e para persistirem a partilhar o amor, o respeito e amizade que vivia com eles desde a primeira hora…










A maioria da comunidade decerto corrobora esta homenagem, formulando votos de que continuem a "Amar-se e a Dar-se sem medida", com saúde e alegria para que a "prata" deste casamento se transforme em ouro...










No final do dia realizou-se um grande banquete para homenagear o distinto casal.


O CONVITE, enviado para os convidados, fazia menção que a Celebração Eucaristica das suas bodas de prata seria Celebrada por Sua Eminência Reverendíssima… que conforme foi descrito não veria ocorrer.


Pe. José Correia da Cunha foi convidado a participar no Banquete deste evento. No lugar que lhe foi atribuído na mesa, estava a seu lado uma Médica, que por motivos profissionais não pode participar na Celebração Liturgica realizada, no final de tarde, na Igreja Paroquial de São Vicente de Fora.

No banquete foram servidos e preparados elogiados pratos. No decurso do mesmo, a Doutora aproveitou a presença do Reverendo, para com ele comentar os mais diversos temas da actualidade, assim como da música, arte, literatura e incluído assuntos da religião e da teologia.

No final do cerimonial, que contou com a presença de personalidades e autoridades, a Senhora Doutora agradecia a recepção aos anfitriões com a seguinte mensagem:

- Agradeço imenso a gentileza do vosso convite e foi um enorme prazer conhecer Vossa Eminência que se revelou para mim um ‘’oásis ‘’ de inteligência, cultura e de um extraordinário valor humano no deserto seco e árido da estupidez e egoísmo dos homens. É um notável prelado da nossa Igreja Católica.

Os donos da casa perante este rasgado elogio a ‘’Sua Eminência’’… remeteram-se ao silêncio!

O AMOR esteve patente nestes festejos, emocionando todos, por saberem que nesta família feliz, e que continua a sorrir há um forte sentimento de felicidade e união à Fé em JESUS CRISTO.

Pe Correia da Cunha, nas palavras que lhes dedicou, demonstrou a sua enorme satisfação interior por ter presidido à Celebração Eucarística deste prospero acontecimento.

Só anos mais tarde, Pe Correia da Cunha soube da sua ascensão Episcopal por uma noite.






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domingo, 1 de fevereiro de 2009

PE CUNHA E A PROFISSÃO DE FÉ

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Padre Correia da Cunha e Vítor Soares



"A PROFISSÃO DE FÉ OU CREDO É UM SIM CONSCIENTE A DEUS, À PALAVRA ILUMINADA."



Nos finais dos anos sessenta, o Padre Correia da Cunha extinguiu a Festa da Profissão de Fé na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.

Nessa época, o plano de catequese era constituído por 4 volumes do catecismo nacional e um ano de preparação para a Profissão de Fé. Após a realização desta, os adolescentes passavam a gozar de um diploma que dava a garantia de terem concluído o ‘’ curso’’.

Grande parte destes adolescentes afastava-se do convívio paroquial e da participação nos actos litúrgicos, o que se afigurava como uma séria preocupação para o Padre Correia da Cunha.

A profissão de fé não é um sacramento, mas um rito que sinaliza visivelmente a confissão pública da fé. As famílias davam muita importância a esta festa e a cerimónia atingia cumes de um elevado exibicionismo. Cuidadosamente vestidos os rapazes com as suas alvas brancas e as raparigas com os seus vestidos de "noiva" reuniam-se assim todas as condições de êxtase para que  todos os membros das famílias se reunissem à volta de uma festa que mais parecia de "noivado" antecipado. A maior preocupação recaía na fotografia do fim deste estádio...um verdadeiro folclore sem sentido.


OPTOU…

Em cada semana, o Padre Correia da Cunha convidava os membros da comunidade a relembrarem os seus baptismos. Nesse momento, já mais crescidos, todos renovávamos as promessas dos nossos pais perante a pergunta professada no acto de fé. A resposta sentida, vivida e proclamada era individual: SIM EU CREIO.

Passados todos estes anos, este debate de terminar ou não a Profissão de Fé está aberto em muitas Comunidades Paroquiais, tendo defensores que não se deve terminar com a Festa da Profissão de Fé e os que defendem que este rito, nos termos tradicionais de festa, não faz sentido.

Gostaria que partilhassem a vossa opinião.

0 Padre Correia da Cunha compartilhava estas suas preocupações com os membros do Conselho Paroquial e defendia que a Profissão de Fé tinha que ser assumida com relevo no lugar próprio que lhe cabe em cada Celebração Eucarística Dominical.

Só uma comunidade consciente dos compromissos de fé assumidos pode dar testemunho claro e sentido no mundo que vivemos, daquilo que acreditamos e que afirmamos solenemente em cada festa dominical da Eucaristia.

O Padre Correia da Cunha tinha a preocupação de inserir, no término da catequese formal, os adolescentes em grupos de reflexão e convívio, onde prosseguiam assim a sua caminhada de fé até ao Crisma, sacramento por excelência da maturidade cristã.


Profissão de Fé de João Paulo Dias


Relembrando esses primeiros Domingos, a seguir aos Domingos de Páscoa, escolhidos para a realização desta Festa da Profissão de Fé, em São Vicente de Fora, publico fotos da Profissão de Fé do Vítor Soares na companhia do Padre Correia da Cunha e da minha profissão de fé junto ao altar de Nossa Senhora de Fátima.




JUSTA HOMENAGEM


Aproveito para homenagear a Religiosa Salesiana Ir. Gina Magagnotti, minha querida catequista da Profissão de Fé, que durante largos anos colocou a sua generosidade de entrega aos outros, o seu espírito de serviço e toda a sua alma, a tempo inteiro e com total dedicação, ao serviço das jovens da Casa Pia de Lisboa, no Colégio de Santa Clara. Ir. Gina Magagnotti, Directora dessa instituição, deu toda a sua vida pelo crescimento destas jovens ao serviço da dignidade humana e de um projecto de vida.



Bem-haja IRMÃ GINA MAGAGNOTTI



Faleceu no Monte Estoril a 18 de Abril de 1989. '' Recebei, Senhor, na Glória do Vosso Reino, a vossa serva Ir. Gina Magagnotti que sempre alimentou a nossa Fé com o Pão da Palavra.''


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O PATRONATO

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TEMOS QUE CONHECER A HISTÓRIA, PARA ERROS NÃO REPETIR!






Nem sempre uma história recente tem um princípio, um meio e um fim. Devemos ser nós que a vivemos para dar-lhe coerência. Talvez vá aqui assumir o papel de vencedor, dando testemunho nessa óptica. Este é também um pretexto para avivar a memória de muitos que fizeram parte integrante da História do Patronato Nuno Álvares Pereira.

O Patronato de Nuno Álvares Pereira, fundado nos inícios do Sec. XX (?), por Monsenhor Francisco Esteves, pároco de S. Vicente de Fora até 1959, foi criado com o objectivo de proteger as crianças do sexo masculino, ministrando ensino num ambiente de confiança, camaradagem e ternura. Tentando sempre que possível ser um meio alegre e acolhedor, o Patronato promovia a integração social, ajudando as crianças as enriquecerem a sua experiência da vida pessoal e comunitária. Mais do que isso, o Patronato pretendia formar cidadãos livres, responsáveis, com o máximo de autonomia, solidários e capazes de valorizar a dimensão humana e cristã do trabalho, tomando em consideração as suas necessidades.

Além da escola, havia um lugar de convívio, cooperação, entusiasmo, alegria entre Jovens. Pelo Patronato de Nuno Álvares Pereira passaram centena de jovens, senão mesmo milhares. Nesse espaço desenvolviam-se as mais diversas tarefas lúdicas e desportivas. Havia uma educação tradicional porque ali passavam a maior parte da sua vida.

O Patronato de Nuno Álvares veria a ser suspenso pelo Padre CORREIA DA CUNHA, em meados dos anos 60. PADRE CORREIA DA CUNHA interpretava os sinais dos tempos e verificava que na época anos sessenta se multiplicavam na sociedade um leque de ofertas muito amplo, desde conferências, sessões de canto, recitais, competições desportivas, excursões, teatro, organização de bailes, que proporcionavam uma aproximação entre rapazes e raparigas. Há uma nova aura e uma nova juventude que busca novas regras de comportamento. A própria reforma do sistema educativo melhorou muito, nessa fase, as condições de bem-estar da sociedade portuguesa.
Havia necessidade de se abrirem novos caminhos para novos tempos…

O Padre CORREIA DA CUNHA procurava constantemente, melhorar a qualidade das coisas, mantendo uma insatisfação positiva permanentemente, que por vezes era difícil entender.

Ainda hoje há uma condenação implícita desta operação de suspensão do Patronato de D. Nuno Álvares Pereira, que muitos nunca conseguiram apagar da sua memória, tendo-se nos anos oitenta fundado a ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DO PATRONATO DE NUNO ÁLVARES PEREIRA, reabilitadora do antigo Patronato de Nuno Alvares Pereira.

Considero as antigas amizades como um elo muito importante e fundamental na vida de qualquer pessoa, sobretudo quando há principios e valores que se partilharam em comum.

As minhas boas vindas ao associativismo, mas onde há sentimento de amizade temos de respeitar os outros que eventualmente pensarão diferente de nós. Quando as pessoas se respeitam umas às outras não há nada melhor.


























Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.

'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver! Nuno Álvares Pereira

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
faz que o ar alto perca
seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
que o Rei Artur te deu.

'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
ergue a luz da tua espada
para a estrada se ver!




Trinta e um anos decorridos sobre a morte do nosso saudoso e querido Padre CORREIA DA CUNHA importa acender esta memória histórica. Para que não vença a ignorância e o esquecimento.

Com seu contributo poderemos conhecer melhor a Historia para não corrermos o risco de um dia a virmos repetir… procurando mais aquilo que nos une do que aquilo que nos pode separar.

Temos de prestar uma Homenagem merecida ao Patrono do Patronato : SANTO CONDESTÁVEL!

O Patronato Nuno Alvares Pereira era sediado na Rua das Escolas Gerais,69 em Lisboa.

Continua…
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O FADO

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"NÃO HÁ PINCÉIS QUE DESCREVAM AQUELE SOBERBO QUADRO."


As raízes do Pe. Correia da Cunha cresceram profundas na cidade de Lisboa, como sabemos era natural de Arroios. Desde a sua infância que adorava Lisboa, não só pelos seus espectaculares monumentos mas sobretudo pelas suas gentes humildes e simples. O Pe Correia falava-nos das cores, cheiros e aromas únicos desta cidade.

O fado era um dos tradicionais cartões de visita desta sua cidade – canção com origens desconhecidas, mas indiscutivelmente de cunho urbano.


Para o Padre Cunha, o fado não era apenas uma canção acompanhada à guitarra. Era um pouco da própria alma do povo português. O ‘’marinheiro’’ Correia da Cunha sentia a presença do mar nas palavras do fado. A saudade e o infortúnio estão muito presentes na vida dos marinheiros na hora da despedida.


O Padre Correia da Cunha era um frequentador dos recantos de fado em Alfama, entendendo o fado enquanto expressão de música popular característica de Lisboa. O fado era uma manifestação cultural, que ganhou espaço na literatura, adquirindo uma dimensão nova.





A voz do fado, em AMÁLIA RODRIGUES, era tão bela que lhe lembrava a harmonia dos anjos serenos e abençoados ainda que tristes.

VIVER em São Vicente de Fora, em paredes-meias com os bairros históricos de Lisboa - Alfama e Mouraria, convidava a calar muitas noites o ruído das conversas perante a surpreendente ordem: ‘’Silêncio, que se vai cantar o fado. ‘’


Conheço um local no coração de Alfama, onde o Padre Correia da Cunha ouvia o fado, com a sua grande companheira a guitarra portuguesa. Juntos, fado e guitarra, contam a essência de uma história simples ligada ao mar.

Era:

“O Cantinho do António”, onde António actuava para os clientes e amigos que o visitavam. Homem afável e simpático, era frequentemente visitado pelos fadistas que faziam questão de o abraçar e cantar no seu recinto.

O fado de António Santos foi lentamente desviando-se para um género único lisboeta, nostálgico e dolente, da balada coimbrã, numa presciente antecipação de um estilo que nos anos sessenta se tornaria importantíssimo.

Aproveito também para evocar, pelo dinamismo e entusiasmo na organização de NOITES DE FADO no adro da igreja de Santo Estêvão – Alfama, onde foi pároco, e onde o Padre. Correia da Cunha era sempre seu convidado, Padre António Emílio, recentemente falecido. A paróquia de São Vicente teve boas recordações deste seu bom amigo. O Homem e Padre, António Emílio estará sempre vivo nos nossos pensamentos.

O Padre Correia da Cunha ainda teve possibilidade de escutar o fado moderno que se iniciou nos anos 60 e teve o seu apogeu com Amália Rodrigues. Foi ela quem popularizou fados com letras de grandes poetas, como Luís de Camões, José Régio, Pedro Homem de Mello, Alexandre O'Neill, David Mourão Ferreira entre outros.

Passámos muitas noites em amena cavaqueira em casa do Padre Correia da Cunha, bebendo as nossas cervejinhas e escutando os sublimes fados de Amália Rodrigues. A voz de Amália transformava todo o ambiente, envolvia-nos a todos num estado de elevação e emoção indescritível.

O Padre Correia da Cunha era um grande fã de Amália Rodrigues e exprimia essa sua paixão na seguinte expressão: foi abençoada por Deus...

Mas recordo que quando regressava a sua casa pela madrugada adentro, o fado que trauteava era:









IGREJA DE SANTO ESTÊVÃO

Na igreja de Santo Estêvão
Junto ao cruzeiro do adro
Houve em tempos guitarradas;
Não há pincéis que descrevam
Aquele soberbo quadro
Dessas noites bem passadas

Mal que batiam trindades
Reunia a fadistagem
No adro da santa igreja
Fadistas, quantas saudades
Da velha camaradagem
Que já não há quem a veja

Santo Estêvão, padroeiro
Desse recanto de Alfama
Faz o milagre sagrado
Que voltem ao teu cruzeiro
Esses fadistas de fama
Que sabem cantar o fado

O fado é hoje em dia cantado nas "casas de fado" e com o acompanhamento tradicional. As melhores casas de fado encontram-se nos bairros típicos de Alfama,Mouraria,Bairro Alto e Madragoa. Mantém as características dos primórdios: o cantar com tristeza e com sentimento de mágoas passadas e presentes.

Aos parceiros do fado e das noitadas peço que enviem informação sobre essas noites bem passadas!



















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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E ARTE

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‘’EU NÃO SEI QUE TEM S. VICENTE PARA QUE ELE ME PRENDA TANTO? ‘‘

Pe. José Correia da Cunha


Quando nos anos quarenta chegou ao Mosteiro de São Vicente de Fora, Pe Correia da Cunha ficou apaixonado pelo registo de beleza e de arte manifestada nas paredes daquele espaço conventual e naqueles claustros. A arte dos azulejos era uma bênção. Criaram nele uma relação, tecida de uma maneira intuitiva, provocando-lhe uma enorme e eterna paixão.

O mosteiro de São Vicente de Fora representa alguma da importância desta arte na cultura e arquitectura portuguesa.

Para o Padre Correia da Cunha, São Vicente de Fora na sua relação com o Tempo, não era um espaço como os outros. Quem viveu naquele espaço procurou o sentimento do ‘’Tempo que se passou’’. Busca naqueles painéis de azulejos, diálogos e sentimentos de nostalgia tão portuguesa.

O azulejo é um elemento que exprime a Cultura Portuguesa, revelando algumas das suas origens mais profundas. O azulejo constituía para o Padre Correia da Cunha uma das manifestações mais populares e mais requintada da arte que se fazia em Portugal. Aqueles painéis representavam a história e a cultura de um povo ou motivos das gentes.




Nalguns daqueles painéis encontramos a representação das fábulas de La Fontaine, onde através daquelas pinturas a azul e branco podemos encontrar o nosso próprio retrato…que iremos abordar posteriormente, com mais detalhe.

Cenas religiosas, marítimas, de caça, mitológicas e satíricas foram transportadas para azulejo por artífices sem formação académica. O Padre Correia da Cunha, com uma operação de delicadeza, aproveitava para nos estimular a nossa sensibilidade para com esta arte singela e pobre. O Padre Cunha dizia que o amor à arte do azulejo deve começar por uma postura de espírito aberto; devemos confiar no que nos transmite aquele objecto. Uma consciência crítica à priori não nos permite sair de nós.

Foi com o Padre Correia da Cunha que aprendi o gosto pelos revestimentos cerâmicos, concebidos em sintonia com o espaço, sagrado ou civil, com belos temas religiosos, cenas campestres, relacionadas com o dia-a-dia de um povo que sabia amar e sofrer.
O Padre Correia da Cunha era consciente que tinha a missão de educar o nosso gosto e despertar principalmente a nossa sensibilidade. A sua implicação era de uma disponibilidade total.

Para o Padre Correia da Cunha, SÃO VICENTE era um pequeno museu arquitectónico e artístico. Tem vários testemunhos temporais, os que marcaram o passado e os que devem fazer o futuro para continuar a ser amado … por tudo o que representa para nós.

Creio que encontramos finalmente a resposta à interrogação: ’EU NÃO SEI QUE TEM S. VICENTE, PARA QUE ELE ME PRENDA TANTO? ‘‘

Os azulejos constituíram uma das suas paixões por serem a expressão mais popular e singela de uma delicada arte.
Felizmente, esta arte continua a fazer-se em Portugal, sendo no azulejo que muitas vezes atestamos a nossa história e a vasta riquíssima cultura portuguesa.

Os azulejos de SÃO VICENTE são do século XVIII onde aparecem representadas cenas de caça ou marítimas, e vida palaciana, históricas, pastoris … com grandes flores, sempre, no entanto, em azul: é o chamado século da grande expansão do azulejo em Portugal.

Visitem o Mosteiro de SÃO VICENTE DE FORA e enviem-nos informações da vossa relação com este espaço e com estes belos exemplares da azulejaria portuguesa.





















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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E A BEIRA-SERRA

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O POVO ABANDONOU A ALDEIA
COM TRISTEZA E EMOÇÃO
PROCURARAM OUTRAS TERRAS
PARA TER MELHOR CONDIÇÃO

José Augusto Simões – Pampilhosa da Serra



Em meados do Século XX, Portugal era um país essencialmente rural e relativamente pobre.

Agudizavam-se as tensões entre a sociedade urbana, em vias de industrialização e o mundo rural tradicional e arcaico. Perante este cenário iniciava-se um surto migratório crescente que se dirigia para ‘’ a encosta de’’ São Vicente de Fora e Alfama, oriunda da BEIRA-SERRA (Pampilhosa da Serra, Oliveira do Hospital, Lousã, Arganil, Tábua…).

Em SÃO VICENTE DE FORA eram bem acolhidos e tinham a possibilidade de ganhar dinheiro, arranjar um bom futuro para os seus filhos, sem terem de deixar este seu querido e amado PORTUGAL.

Grande parte desta mão-de-obra era colocada na indústria hoteleira, panificação, estiva, tráfego e carregadores do Porto de Lisboa.

Para que a saudade não matasse e não esquecessem a sua amada ‘’santa terrinha ‘’, toda esta gente voltava regularmente, todos os anos, às suas origens para celebrarem as festas e romarias tradicionais.

O PADRE CORREIA DA CUNHA reconhecia que estas pessoas traziam consigo uma entidade religiosa tradicional mas ao mesmo tempo um grande património cultural.

As suas prioridades na cidade assentavam no duro trabalho, sem nunca perderem a semente cristã que um dia havia sido plantada nos seus corações.

Como referia Padre Correia da Cunha a sua vivência cristã na cidade era como os motores dos automóveis a três tempos: BAPTISMOS, CASAMENTOS E FUNERAIS.

Como agir?

Em colaboração com os párocos das paróquias vizinhas,o Padre CORREIA DA CUNHA procurava reunir num Encontro de Amizade e Regionalismo, toda esta gente, aproveitando esse momento para evangelizar e mostrar que a comunidade paroquial muito contribuía para o desenvolvimento humano e cristão dos seus filhos. A educação dos filhos era da responsabilidade dos pais, mas a catequese podia cooperar para a uma formação mais plena.




Estes encontros fraternais eram iniciados com uma Eucaristia, lembrando todos aqueles que já partiram para o PAI e aproveitando igualmente para orar por todos os presentes que fazem parte desta Igreja peregrina e pecadora.

Após a Eucaristia decorria um jantar partilhado nos claustros do convento de São Vicente de Fora.

Estes encontros da BEIRA-SERRA tinham sempre um elevado número de participantes, contando sempre com pessoas ligadas ao movimento associativo, incluindo muitos padres dessa região.

As questões regionalistas agradavam-no em pleno e confessava que sentiu a necessidade de partir na companhia do seu amigo Padre JOSÉ VICENTE em busca dessas terras, visitando aldeia por aldeia desses concelhos da Beira Serra que muito o engrandeceram.

Depois dessa encantadora viagem, os diálogos abriam espaços, e tornavam mais fácil a relação com todos estes honrados paroquianos, trabalhadores, inteligentes e seus bons amigos.

História:

Um belo dia um Professor Catedrático, muito conhecido num seminário temático, perguntava ao Padre Correia da Cunha:

- Qual é a paróquia do SR.PADRE CUNHA?

O Padre Correia da Cunha, com a sua habitual serenidade, respondeu:

- Paróquia da Beira-Serra.

O Professor ficou intrigado com a resposta e retorquiu:

- Em LISBOA

- SIM – Na encosta da serra de SÃO VICENTE.

- SÃO VICENTE DE FORA.

- SIM

Perante esta resposta, resta-me apenas dizer que o Padre Correia da Cunha tinha um grande amor à BEIRA-SERRA.

Acredito que essa boa gente quer perpetuar este homem de carácter, que visitou essas belas terras e continua presente nos seus corações. Creio que os vossos testemunhos eram muito importantes para as gerações mais jovens que não o conheceram, mas terão oportunidade de ler esses sinais. Enviem informação.



















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