sábado, 27 de junho de 2009

PE CORREIA DA CUNHA, O CONFERENCISTA

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‘’PORQUE GOSTO DE LISBOA!’’




O melhor modo de fazer justiça à vida e obra do Padre Correia da Cunha é dar a conhecer o seu pensamento e a sua obra através dos textos que nos deixou.

Com o apoio do Grupo Amigos de Lisboa é nos hoje possível transcrever esta Conferência proferida em 1954, na sede deste grupo olisiponense, no dia de São Vicente, Padroeiro de Lisboa. Este texto reúne contributos notáveis para o conhecimento da vida e obra do Padre José Correia da Cunha, na sua relação com a sua a sua cidade de coração e dos elevados conhecimentos no domínio da liturgia santoral.

Padre Correia da Cunha foi um dos mais atractivos mestres do pensamento, que até hoje tive a honra de ter podido dialogar e conviver. Será muito difícil no panorama português encontrar muitas pessoas que revelem um contributo intelectual e uma acção pedagógica que lhes permitam perpetuar a sua memória. Pe Correia da Cunha, pela sua subtileza, objectividade e frontalidade de linguagem, ficou indelével na memória de todos os que tiveram o privilégio de o conhecer e partilhar os seus profundos conhecimentos nas muitas artes que dominava profundamente.

Espero com a transcrição desta sua conferência, após cinquenta cinco anos da sua realização, seja uma homenagem adequada e avive no espírito daqueles que conviveram com Padre Correia da Cunha e que dele receberam formação, orientação, conselho e sobretudo testemunho de vida, o reconhecimento sincero do brilhante homem de pensamento e reflexão que não poderá ser esquecido.

COMEMORAÇÃO VICENTINA DOS ’AMIGOS DE LISBOA’’

Conferência, na sede, pelo PADRE CORREIA DA CUNHA, no dia do Padroeiro da Cidade em 1954

I PARTE

Não sei porquê; confesso que não atino bem com as razões que levaram a ilustre Junta Directiva desta Casa a incumbir-me de falar a VV. Exªs do glorioso Padroeiro de Lisboa.

Ao certo, ao certo, não sei. Mas quer-me cá parecer que, se aqui estou na berlinda, é apenas por estes três motivos: por ser alfacinha de gema, por morar no Mosteiro de S. Vicente de Fora, e por ser Padre Capelão da Marinha; que outra razões mais não enxergo…
Pelo contrário, reconheço, sem falsa modéstia, que me falta o saber e me não sobeja nica de tempo para estudar com profundeza o tema, aliás tão interessante, que nos reuniu aqui. Outro qualquer faria melhor.

No entanto, os motivos apontados são de si suficientes para me imporem o dever de aceitar tão honroso encargo. Ou não será dever de todo o alfacinha que se preza, como verdadeiro amigo de Lisboa, conhecer um pouco, ao menos da bela história e das lindas tradições lisboetas? E não cumpre ao hóspede da Claustra Vicentina venerar com público e devoto reconhecimento o Santo seu Anfitrião e Orago?

E que dizer do Padre que não tivesse a mais pequena notícia de uma das maiores figuras Martirológio, para mais Capelão da Marinha que já sulcou as águas do Mar Oceano no mesmo sentido e rumo que seguiu a Nave do invicto Mártir S. Vicente?

E eis porque aqui estou, pondo á prova a paciência de VV.Exªs,!

Prometo, porém, desde já, fazer todo o possível por que tal provação lhes mereça a palma do Martírio nem as honras dos Altares.
E daí…nada se sabe! Verdade seja que a minha fala não pretende ser conferência (ao contrário do que foi anunciado), mas simplesmente palestra, conversa fiada, que eu desejaria fosse cavaqueira amena. Porém, ao fim e ao cabo, VV. Exªas é que dirão de sua justiça!








PORQUE GOSTO DE LISBOA






Nado, baptizado e criado nesta urbe feiticeira, sou Amigo de Lisboa desde que me conheço.
Cedo, bem cedo, me deixei enfeitiçar pelo sortilégio desta cidade.



E, desde então, sempre me habituei a vê-la no mistério da sua dupla personalidade: senhoril no porte, coroada de uma auréola de luz e cor verdadeiramente únicas no mundo, e, ao mesmo tempo, simples e modesta, atavios ou enfeites pretensiosos, nimbada apenas da beleza natural que Deus lhe deu. Dir-se-ia uma Rainha de Sonho que por entre as outras passa, esbelta e cheia de encanto, com a graça de uma varina.

E esta imagem faz-me lembrar aquela velha lenda que, embora conhecida, não resisto á tentação de contar.

Era uma vez…

(E a lenda reporta-nos á velha Idade Média, quando os Senhores Cavaleiros se davam á folgança de torneios e justas em honor de suas Damas por quem suspiravam coitas de amor e a quem ofertavam gestas valorosas).

E foi o caso que, de certa feita, todos os Príncipes do Sacro Império se reuniram em grande e original torneio, não para se determinar qual o mais valente e destro, no manejo das armas, ou mais inspirado e hábil nas cantigas de amor, mas para se decidir qual de entre eles era o mais nobre.

E aconteceu que, num cortejo esplendoroso, montados em cavalos ricamente ajaezados, esses cavaleiros lá foram desfilando pelo vasto terreiro, seguidos do numeroso séquito de seus vassalos. Faziam alarde vaidoso de suas riquezas e troféus e ostentavam com orgulho os pergaminhos da sua linhagem. Até que chegou o momento de se apresentar um cavaleiro ainda novo, príncipe também de sangue e de alma, embora pobre, que não levava luxos nem grandezas, mas se fizera acompanhar por todos os seus leais súbditos. Chegado que foi ao centro do terreiro, acenou á multidão para que se calasse um pouco.
E mal se fez silêncio, disse:

- ‘’ Senhores! De todos é sabido que eu pouco tenho ou nada; mas considero-me o mais rico e nobre dos Príncipes da Cristandade, por ter um Paço em cada casa dos meus vassalos e em cada peito deles, um coração amigo! ‘‘

E reza a lenda que todos o aclamaram vencedor.

Pois quer-me parecer que a história, com pequenas alterações, se pode aplicar a um imaginário torneio entre as cidades do mundo. E estou certo de quem, depois de terem passado as grandes capitais vaidosas de suas grandezas, quando chegasse Lisboa, na sua Nau Catrineta, sorrindo como Ela sabe,



Toda a gente com certeza,
Desde os Chins as Esquimós,
Diria a uma só voz:
- Tu és do mundo a Princesa!


De resto, deixem dizer-lhes muito aqui á paridade (não venham acusar-me de plagiário…), esta ideia não é nova; já foi cantada em oitava rima pelo nosso Épico:


E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
Facilmente das outras és princesa,
Que edificada foste do facundo
Por cujo nome foi Dardânia, acesa,
Tu, a quem obedece o Mar profundo…


(C. III – E. 57)


Mas, se, nem no tempo de Camões, tal cortejo se realizou, bem será que se não faça nunca, para que apareça por aí, através da imprensa, da rádio ou da televisão, a infausta notícia de que a nossa Lisboa vai partir para Hollywood, contratada por algum magnate do cinema…

Pois (como ia dizendo), eu gosto de Lisboa; sou deveras seu Amigo.
Quantas vezes me não pondo a olhar para Ela e, absorto, a não contemplo, dali, do morro de Almada! Como se mostra bela e formosa, quando, pela tardinha, toda inundada d sol, se revê embevecida nas águas especulares do seu Tejo!

Que maravilha!

Quem ainda a não viu dali, defronte, não conhece bem a sua beleza, e não sabe o que perde…

O rio, antes de se fazer ao mar, por despedida, atira-lhe furtivos beijos (não vá o Sol ter ciúmes) e oferta-lhe, como presente para o enxoval, alvas rendas de bilros que as suas Tágides tecem ao som da melopeia murmura das ondas. E Ela, que lhe percebe o gesto, mostra-se ao Sol sorridente e mimalha (para que Ele não fique amuado), e desce á pressa dos seus paços do Castelo, embrenha-se no labirinto de Alfama, benze-se á porta da Sé, encomenda-se a Santo António e vai, num pulo, ao Terreiro do Paço estender-lhe os braços gentis. Depois, tiquetaque pela calçada, sobe a Santa Catarina para o ver mais a preceito e lhe dizer: ‘’ Aqui estou. Eu não te deixo! ‘‘

E com o Rio tem de andar, também Ela acompanha, sempre correndo ligeira, quanto as forças lho permitem, até quase sair da barra. E vendo que mais não pode, na Torre de S.Vicente, ali adiante a Belém, se fica triste e saudosa, de lenço branco na mão, acenando, acenando…até ao pôr-do-sol.

Depois volta, ao lusco –fusco,
ainda mais bela e formosa, porque a luz do seu olhar tem um véu feito de pranto; e fica por momentos a rezar á Senhora de Belém pelo seu noivo marinheiro – o Tejo.


Padre José Correia da Cunha

Continua
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sexta-feira, 19 de junho de 2009

PADRE CORREIA DA CUNHA - TESTEMUNHO II

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‘’Obrigado Senhor, por através de Padre Cunha me teres ensinado a seguir o seu exemplo…’’



Desde menino, quando apenas conhecia os anjos, já escutava, na telefonia, a bela voz da Amália. A minha mãe lavava a roupa no tanque, num saguão de uma casa na freguesia de São Vicente de Fora, e cantava desconhecidas cantigas da Beira Serra.

Fui crescendo e um dia, no início dos anos 60 do século passado, descobri por acaso os caminhos que me conduziram, durante muitos anos, à Igreja de São Vicente de Fora.

Tinha então onze anos! Meus pais, com raízes Cristãs, não frequentavam a igreja nem obrigavam os filhos a irem à missa.

A luta pela vida era tremenda! Levantavam-se pelas 4 horas da manhã, apanhavam o eléctrico que os levava à Praça da Ribeira onde se abasteciam de legumes com que governavam a vida no mercado de Santa Clara. Era um tempo em que aqueles mercados pululavam de gente; em que os espaços reservados aos pequenos comerciantes (lugares e pedras) eram disputados e bem pagos nos leilões do Município de Lisboa.

- Antes carregar duas sacas de batatas cruzadas à cabeça que andar com um molho de mato e a passar fome! – Dizia minha mãe.

Recordo que trabalhavam duramente toda a semana e o único dia que lhes restava para descansarem era o Domingo. Talvez aqui esteja a explicação para não ser assíduos frequentadores da igreja.


- Rogério! Estamos os dois para aqui fechados em casa!

Dizia o meu pai, ainda na semana passada, e continuava:

- Se não fosse o Santana Lopes a fechar o mercado de Santa Clara a tua mãe e eu, mesmo com os meus 86 anos, ainda estaríamos vendendo frutas e hortaliças, convivendo e vivendo, no Mercado de Santa Clara.
Têm razão os meus pais. Os mais velhos só servem para votar e aí sim – até os vão buscar aos lares ou ás suas casas!


Quando ao mercado de Santa Clara era, e foi, parte integrante das suas vidas. Fecharam o mercado! Está às moscas! É um espaço morto.

Volto aos meus onze anos.

Frequentava, então, o Liceu Nacional de Gil Vicente quando pela primeira vez entrei nos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora.







Nesse tempo as portas estavam abertas e tirando o Panteão da Dinastia de Bragança que tinha segurança, tudo aparentava um completo abandono e desleixo.

Foi assim que conheci o Mosteiro de S. Vicente de Fora.
Comecei a caminhar para lá – até que um dia, quando frequentava a Escola Comercial, Deus colocou no meu caminho o caminho para a Igreja Católica. Por coincidência, ou não, era o dia em que o Padre Correia da Cunha tomava posse como Pároco de São Vicente de Fora (1).

A história conta-se assim:

Andava eu pelos claustros do Mosteiro quando, em cima da hora das cerimónias de posse do novo pároco, faltou à chamada um menino do coro! Mas… o Padre Cunha fazia questão em ter doze rapazes! Doze eram os Apóstolos e ele só tinha 11.

Tudo tinha sido verdadeiramente programado, ensaiado ao mais pequeno detalhe: os mais pequenos à frente! Tudo em carreirinha, em duas filas! Túnicas novas, feitas por medida!


Sobrava uma! Era grande – como ela tivesse sido feita de propósito para mim!

Já não recordo o nome do meu antigo Professor de Religião e Moral (2) do Liceu que ia concelebrar na missa, porém, foi ele que aconselhou o Padre Cunha: O Rogério, seu antigo aluno, podia substituir o 12 menino do coro.

Pois bem! Não é que fui pescado quando por ali andava perdido…
Vestiram-me uma túnica branca.
Cingiram-me com um cordão vermelho.

Em poucos minutos ali estava eu, menino do coro repescado, a caminho do Altar, lado a lado com o meu bom e saudoso António Melo e Faro(3), ocupando um lugar na última de duas filas.

- Faz o que eu faço. Dizia o Melo e Faro. E fiz!
Foi assim que Deus chamou por mim! Foi a minha primeira ida voluntária à missa. Fui o único menino do coro a não comungar nesse dia…

Bem! A história já vai longa e a procissão vai no adro…

Vou terminar por hoje.

A partir desse dia tornei-me um efectivo membro daquela Comunidade!

A partir desse dia comecei a frequentar a catequese. Foi bem cedo Catequista e até dirigente Diocesano da JOC.

A partir desse dia passei a apreciar ainda mais a bela voz da Amália no gravador de fita do bom Padre Cunha!

A partir desse dia comecei a escutar e a gostar de música de órgão tocada no grande e extraordinário órgão de S. Vicente de Fora!

A partir daí, e nos tempos livres, passei a ser cicerone e tomei o gosto pela história, nomeadamente, pela vida e obra dos Monarcas que ali repousam.

A partir desse dia comecei a aperfeiçoar a minha formação moral e tudo graças a um Homem extraordinário – polémico certamente para muitos – OBRIGADO: PADRE JOSE CORREIA DA CUNHA




Texto de : Rogério Martins Simões


1) - 1960 - Tomada de posse da Paróquia de S. Vicente de Fora na festa de Todos os Santos (1 de Novembro) ‘’ Fazei Senhor, que o nosso pároco saiba dar-nos sempre, o PÃO da Palavra e o PÃO da Vida! ‘’Pe. J.Correia da Cunha

2) Padre José Feliciano Rocha Alcobia - Pároco na Vigararia XI do Patriarcado de Lisboa.



3) António Maria Nunes Melo e Faro (1949-2004) homenagem em memoriam em 9 de Junho, neste blogue.




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domingo, 14 de junho de 2009

SANTO ANTÓNIO EM SÃO VICENTE DE FORA

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‘’O Santo do Mundo inteiro… iniciou-se em S. Vicente de Fora. ‘’



D. Afonso Henriques, como já referido no texto de Padre Correia da Cunha “O primeiro voto do primeiro Rei de Portugal”, mandou construir dois templos após a conquista de Lisboa aos Mouros.

A igreja de Santa Maria dos Mártires, onde Padre Correia da Cunha foi pároco nos anos quarenta, e local onde foram sepultados os cruzados ingleses e normandos. A igreja de São Vicente de Fora, onde Padre Correia da Cunha foi pároco de 1960 até 1977, no local que servira de sepultamento aos cruzados germânicos e flamengos.
Os sacerdotes que tinham vindo com os cruzados ficaram na cidade conquistada, exercendo posteriormente o seu ministério pastoral nestas igrejas.

D. Afonso Henriques, dado reconhecer a enorme importância que os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho tinham na renovação da igreja ocidental à época, intercedeu junto de D. Teotónio, prior de Santa Cruz de Coimbra para que este enviasse cónegos crúzios para S. Vicente de Fora, confiando-lhes este mosteiro.

Na verdade, os cónegos, que estavam desde o séc. VIII, comandados por normas próprias, sofrem uma profunda renovação nos finais do séc. XI, derivada da Reforma Gregoriana. O papa Gregório VII, ao contrário do que era o desejo dos monges, aponta-lhes não a retirada do mundo mas sim a sua conquista, procurando com isto incentivar todos aqueles que uma espiritualidade muito mais intensa e participativa contribuiriam para a renovação da Igreja, como aliás se viria a concretizar no Concílio Ecuménico de Latrão realizado entre 1123 e 1130.

Os cónegos regrantes de Santo Agostinho seguiam a regra escrita de Santo Agostinho, que os orientava de forma a viverem a vida espiritual num activo relacionamento com o mundo político, económico e cultural: uma nova aptidão de interferência de comunicação e até de assimilação. Iniciaram a sua presença em Coimbra, em comunhão estreita com o nosso primeiro Rei, operando logo no plano económico, agrícola e comercial. Coimbra tinha uma presença moçárabe e, por outro lado, ficava na rota dos fluxos de conquista e de migração que, deslocavam mouros e cristãos a necessitar de ajuda, onde era sentida a presença efectiva dos cónegos.







O objectivo dos Cónegos Regrantes era assegurar o bem comum, que como se depreenderá na Idade Média, se centrava no bom ordenamento das coisas espirituais. O serviço divino e a oração litúrgica eram considerados fundamentais à Comunidade. Em face disto havia necessidade de ser feita a aprendizagem e o ensino da Sagrada Escritura, tendo-se criado várias escolas canonicais, onde era ministrada a leitura e a escrita da Bíblia e dos ensinamentos da Igreja. Muitos cónegos iam frequentar outros mosteiros no país e até no estrangeiro, onde melhoravam a sua formação.

Hoje, através dos arquivos herdados das Ordens Religiosas, sabemos muito sobre o que se estudava nos mosteiros dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, nomeadamente em São Vicente de Fora e Santa Cruz de Coimbra. Ainda hoje se conservam obras da cultura monástica de São Gregório Magno, Santo Isidoro de Sevilha, Hugo de S. Vítor…

Quero hoje aqui referir a riqueza cultural auferida por Santo António nesta escola, que frequentou no Mosteiro de São Vicente de Fora no séc. XIII. Ali recebeu uma sólida cultura eclesiástica e humanística, que fica bem expressa nos seus Sermões Dominicais e Festivos. Lembro como em Santo António há um fenómeno curioso. Não é frade austero, não é teólogo assombroso: é um Santo alegre, folgazão e até brejeiro, daí certamente o grande afecto que o povo amorosamente lhe dedica.



No séc. XX, em São Vicente de Fora, um homem com uma fascinante inteligência e invulgar cultura foi um excepcional mestre que marcou a vida de milhares de jovens, ao longo de dezassete anos passados como prior da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. O mestre Padre Correia da Cunha, cuja competência, sentido humanista e espírito aberto atraiu o interesse a admiração de todos os jovens da Paróquia. Ainda hoje temos a grata recordação desse património, pela qualidade dos ensinamentos e do seu singelo estilo brejeiro de o transmitir. À semelhança de Santo António também tivemos o privilégio de ali recebermos uma sólida formação.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E OS SANTOS POPULARES

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´´ERA A UNIÃO PERFEITA DO SAGRADO E DO PROFANO´´




O mês de Junho era repleto de festas populares pelos típicos bairros de Alfama, Graça, Castelo e São Vicente de Fora…

Para Padre Correia da Cunha estas festas de Lisboa enchiam-lhe o coração de uma imensa alegria e satisfação. Para muitos alfacinhas, o Santo Padroeiro era Santo António. Padre Correia da Cunha aproveitava estas iniciativas para desfazer esse equívoco histórico, religioso e popular. O verdadeiro padroeiro da sua querida e amada cidade de LISBOA era São Vicente. Reconhecia a grande devoção popular a Santo António que nasceu nos alvores da nacionalidade portuguesa, numa casa diante da porta da Sé e entrou no Mosteiro de São Vicente de Fora (foto acima: imagem de Santo António com hábito de cónego regrante de Santo Agostinho pertença da Paróquia de São Vicente de Fora) para responder à sua vocação para cónego regrante de Santo Agostinho.

Todos em São Vicente de Fora tínhamos um longo convívio e uma profunda devoção a Santo António.
‘’ E se António era luz do Mundo, como não haveria de sair da Pátria? Saiu como luz do Mundo e saiu como Português. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, Portugal; para morrer, o Mundo. ‘’.
Lembro que é na Igreja de São Vicente de Fora que se encontram os restos mortais de sua mãe Teresa Taveira.







Padre Correia da Cunha gostava do seu povo, por isso fazia questão de congregar todos os seus paroquianos para estas tradicionais festas de cor, alegria e folia onde se sentia radiosamente confortável e feliz no seu meio.

Os arraiais dos Santos Populares, organizados por Padre Correia da Cunha, na Cerca do Mosteiro de São Vicente de Fora, eram de um enorme sucesso, chegaram a ser transmitidos em directo pela RTP, pelos encantos de decoração em honra de Santo António colocado pelo amor popular no seu grandioso trono e São Vicente sob a guarda dos corvos na sua grandiosa barca.
Estes festins possuíam barracas de diversões, jogos tradicionais, quermesses…. e um magnífico local para se saborear as belas e tradicionais sardinhas assadas, as saborosas febras assadas, o caldo verde… claro que estavam sempre por perto umas boas saladas mistas com pimentos e o bom pão. Para acompanhar as rainhas da festa Pe. Correia da Cunha providenciava sempre um magnífico vinho de categoria.



A festa só estava completa como muita boa música que o Padre Correia da Cunha seleccionava cuidadosamente para animar estes grandiosos festejos que nos envolviam numa mística de cheiros aos sons das belas marchas populares que conquistavam os corações de todos. Eram manifestações de muita alegria, no seu melhor e como era evidente tinham sempre um pé de dança à mistura.








 





















 

(baile na cerca do mosteiro de São Vicente de Fora )

Estas organizações permitiam angariar fundos para a Paróquia, pelo que isto congregava muitos dos seus amigos a colaborarem generosamente e activamente nestas suas iniciativas.

Os arraiais em honra de Santo António, S. João e São Pedro em São Vicente de Fora eram contributos essenciais para Pe. Correia da Cunha manter bem viva a confraternização da família paroquial e realçar o culto dos seus padroeiros e onde nunca esquecia de incluir sempre o jovem São Vicente.

Era principalmente no mês de Junho, ao longo do qual se celebravam os Santos Populares, que todos os elementos dos vários movimentos paroquiais entravam com grande empenhamento e labuta nestas animadas festas tão populares e assim contribuíam para a angariação de fundos para as actividades paroquiais.




Quem não se lembra destes arraiais de Padre Correia da Cunha? Se houver quem disponha de fotos ou imagens destes grandiosos eventos partilhe-os neste blogue.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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terça-feira, 9 de junho de 2009

ALA DOS AMIGOS DE PE. CORREIA DA CUNHA

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Os amigos que partiram…





IN MEMORIAM


ANTÓNIO MARIA NUNES MELO E FARO



1949-2004




António Maria Melo e Faro era natural de Lisboa, Freguesia do Socorro, nasceu no dia 9 de Junho do ano1949, foi um grande amigo de Pe. Correia da Cunha e merece ser recordado pelo seu empenhamento nas actividades que desenvolveu com total e generosa dedicação na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, como acólito, catequista e membro do Patronato de Nuno Álvares Pereira, onde era muito estimado e querido por todos os que tiveram o privilégio de o conhecer e de com ele conviver. Era um grande e leal amigo, muito alegre e genuinamente simpático para toda a gente.

António Melo e Faro era um jovem singular, de uma enorme nobreza e de uma total disponibilidade para ajudar todos seus amigos. Era muito apreciado pela sua inteligência apurada e rara, tendo-se revelado um excelente e brilhante aluno no seu percurso estudantil, com uma aptidão nata para as ciências, não esquecendo que com muita facilidade aprendia línguas, falando correctamente vários idiomas. Iniciou a sua instrução primária, na Escola do Patronato de Nuno Álvares Pereira, onde foi aluno da grande mestra Senhora D.Carlota.


É na Escola Naval que inicia a sua vocação pela técnica náutica, à qual dedicou parte da sua vida como distinto oficial. Creio que seja unanimemente reconhecido que o Capelão primeiro-tenente Correia da Cunha tenha sido modelo inspirador para este seu destino de dedicação à Marinha Portuguesa, com notabilíssimo desempenho e excelente competência de Oficial de Engenharia de Máquinas Navais, até o final da sua vida.

António Melo e Faro era um homem de espírito aberto e positivo, a sua morte não estava anunciada – ele não a aguardava, nem tão pouco os seus familiares e amigos. Chegou! Veio subitamente, sem avisar ninguém, silenciosa e traiçoeira, com tanta violência que seu ‘’grandioso coração’’ não lhe resistiu. São os insondáveis chamamentos do Senhor …

Foi companheiro de muitas horas de sã camaradagem e partilha de muita amizade que conservamos no silêncio dos nossos corações. É mais que justo prestar esta sentida homenagem ao Melo e Faro, em nome de todos os amigos de Pe. Correia da Cunha. Este sempre lhe manifestou muito apreço pelas suas qualidades intelectuais e de liderança, dedicando-lhe muita da sua sábia inteligência e perspicácia para o ajudar na sua previsível progressão de bom cidadão de sucesso e assim como de um cristão exemplar.

Foi no dia 21 de Fevereiro de 2004 que António Melo e Faro nos deixou. Fica-nos a sua memória, ele foi repousar na Glória de Deus. Hoje junto do Pai e de seu grande amigo Pe. Correia da Cunha, estão à nossa espera e entretanto continuarão a interceder por todos nós que não queremos nem podemos esquecer a sua lembrança.


Deixo para os comentários, de muitos seus amigos vivos, que deverão prestar a merecida homenagem à memória deste nosso saudoso e grande amigo de São Vicente de Fora e que teve um coração universal, do tamanho desse Mar sem fim, que tantas vezes cruzou.

São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixou em todos muitas saudades.


RECEBEI, SENHOR, NO REINO DOS JUSTOS O NOSSO IRMÃO.
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA O POETA

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Tu és no mundo o primeiro! Segue o teu rumo a cantar!




Padre Correia da Cunha tinha o amor da Pátria e o culto vivo pela memória de quantos a ergueram, engrandeceram ou mantiveram, em todos os campos, através dos tempos. Considerava que deveria ser fomentada esta cultura para servir de esteio seguro à continuidade do seu muito amado Portugal.

Escreveu este lindo poema para solenizar a memorável vida dos grandes marinheiros que ajudaram e contribuíram à elevação da dignidade desta sua ditosa amada e querida Pátria.

Padre Correia da Cunha foi um fascinado desde sempre pelo amor ao mar e à Marinha Portuguesa.
Aqui ficam porém, escritos estes versos da autoria do 1º Tenente Correia da Cunha, dedicados a todos os marinheiros que continuam a honrar os pergaminhos da Armada Portuguesa e permanecem exortando o amor ao nosso grande Portugal.


PORTUGAL MARINHEIRO

As ondas do mar infindo,
Andam todas a cantar.
Esse poema tão lindo,
Que Deus quis beijar o mar.

E o Mundo maravilhado
Por tal prova de grandeza
Ouve o mar enamorado
Cantando, como quem reza

Meu Portugal Marinheiro,
Noivo das ondas do mar,
Tu és no mundo o primeiro!
Segue o teu rumo a cantar!

Por sobre as ondas do mar,
Na formosa Nau da Glória,
Vai Portugal a traçar
Rumos novos à História!


Força os Portais dos Segredos
do Mar-Oceano fundo
E, vencendo antigos medos,
Dá novos mundos ao Mundo!


Na linda Nau Catrineta
Portugal se faz ao Mar,
Bom marinheiro e Poeta,
Deus o quer sempre a cantar.

O seu heróico passado
É bem digno de memória
E será por nós honrado
Com novos feitos de Glória!


Para o Capelão da Armada Correia da Cunha, a Marinha Portuguesa estava ligada intimamente aos grandes feitos da Pátria tendo escrito das mais belas e assinaladas páginas do historial lusíada.







Lembrava que a divisa da Marinha se encontrava inscrita sempre em local bem visível nos navios NRP que serviu: «HONRAI A PÁTRIA QUE A PÁTRIA VOS CONTEMPLA» e era assumida como uma vivência de toda a tripulação.









Há quem desconheça este seu dote artístico e apenas recorde o Pe. Correia da Cunha pelos palavrões que deixava escapar na sua linguagem de antigo e castiço marujo. Eram recursos extremamente válidos e criativos que dotavam o seu vocabulário de expressões que traduziam com maior fidelidade os seus mais fortes e genuínos sentimentos. Ele era do povo e tinha a linguagem deste, mesmo utilizando vulgarmente o latim. Muitas vezes dizia que estas expressões se manteriam um dia…porque a voz do povo é a voz de Deus.


Hoje quero comemorar com este lindíssimo poema e o seu poeta, homem de grande sensibilidade e refinada linguagem, cujo amor dos portugueses sempre enalteceu e se esforçou por manter e alargar aos jovens da Paróquia de São Vicente de Fora.

Honra e glória a Padre Correia da Cunha que foi exemplo de um grande marinheiro que se manterá vivo nos nossos corações. Pe Correia da Cunha soube utilizar como ninguém os recursos linguísticos apreendidos como marujo para nos ensinar, numa linguagem corriqueira, grandes valores de amor a Deus e ao nosso próximo e consequentemente à Comunidade Nacional.




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segunda-feira, 1 de junho de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA – OLHOS NOS OLHOS

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'Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se'.
(Gabriel García Marquez).





Velhos e bons tempos os das nossas infâncias e adolescências.

A felicidade com que víamos as nossas vidas era muito importante, para os nossos futuros sonhos de homens maduros e responsáveis na construção de uma sociedade de valores humanos e cristãos.

Na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora havia amizade e cumplicidade entre nós, amigos, nos bons e maus momentos.

Brincávamos uns com os outros como nunca, aproveitávamos todas as oportunidades para estarmos juntos e confesso que até fazíamos algumas travessuras, que eram alvo de fortes reprimendas de Pe. Correia da Cunha, mas no fim corria tudo bem. Fomos educados pelo Padre Correia da Cunha a nunca denunciar o infractor. O importante era corrigir os erros e não crucificar o seu autor.

Lembro-me das tardes soalheiras de verão, soprando uma pequena brisa quente no Largo de São Vicente. Lembro-me da saudosa Tia Alice sentada na sua mesa, vendendo os bilhetes que davam acesso à visita do Mosteiro de São Vicente de Fora, com muita vaidade e grande orgulho pelos seus pequenos que ela ali via crescerem e que brilhantemente exerciam as funções de cicerones aos vários turistas que ali se deslocavam para visitar o Panteão da Dinastia de Bragança…

Lembro-me que a Tia Alice tudo fazia para nos manter unidos e a União fazia a força, conforme nos mostrava aquele belo painel de azulejos das fábulas de La Fontaine, existente no extenso claustro do mosteiro.

Que saudades que tenho daqueles tempos! A aventura estava sempre presente! Arranjávamos mil e uma maneiras de nos divertirmos e sob conselho da Tia Alice devorávamos livros de literatura clássica, história, religião e como não podia deixar de ser, os tão em moda nos anos 50/60, livros aos quadradinhos de cowboys. Com a ternura que sentíamos uns pelos outros aprendíamos a ser confiantes, e hoje sentimos um grande amor uma grande segurança para seguirmos esta vida com esses testemunhos no dia-a-dia. Que belos tempos ali passámos…e com as gorjetas dos turistas éramos economicamente ‘’independentes’’.






A Tia Alice, nos seus setenta anos vividos e passados ali, tinha uma vida de alegrias proporcionada pelos prezados e admirados jovens que a rodeavam. Triste desde da morte rude e prematura do seu querido filho adoptivo, Hermani (NA), a Tia Alice ficou só, carregando consigo o enorme desgosto de uma morte inesperada que lhe tirara o chão debaixo dos pés e que a consumia constantemente.

Restava-lhe a companhia dos imensos e adoráveis jovens que a rodeavam e a quem Tia Alice continuava a transmitir os seus valores de amor a Deus e ao próximo.

À semelhança de Padre Correia da Cunha, Tia Alice dizia que todos precisávamos de uma abraço bem apertado, para nos sentirmos gente, seres humanos, que têm coração que pulsa, que bate. Todos precisamos de ter bons amigos para convivermos e crescermos de uma forma sã e integral.

Tia Alice a todos acarinhava e isso ajudava-nos a sentirmos empenhados como construtores da amizade e fraternidade. O resultado era espectacular: Tanta jubilosa harmonia! Tanta verdadeira Paz!













Pe Correia da Cunha e a Tia Alice deixaram em todos nós uma herança perene, que ainda hoje perdura nos nossos corações muito agradecidos. Esta educação de valores fez de nós cidadãos activos e edificadores de uma sociedade fraterna.






Não éramos ricos, éramos remediados mas tínhamos orgulho de ter como Mestres esta boa gente que nos comunicava as grandes virtudes e os princípios da solidariedade, olhos nos olhos, por isso acrescentaria esta expressão de Gabriel Garcia Marques: um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se'.

É minha intenção prestar uma homenagem in memoriam a Maria Alice Fonseca Roque Alves (Tia Alice), querendo perpetuar o cimento da monumental obra de gratidão de todos os jovens de São Vicente de Fora de meados do século passado. Ainda hoje recordamos os seus sábios ensinamentos.






Todos devemos respeito à memória desta saudosa e querida amiga, de muitas gerações, que tanto carinho e amizade nos dispensou. Necessitava de informação sobre os seus dados biográficos e uma foto. Creio que haja quem possa ajudar a concretizar este meu propósito. Fico aguardar.



Grandes amigos dos velhos tempos este video é para ser admirado pelos saudosistas.
É dedicado aos bons tempos de uma juventude que não acaba e que será eternamente lembrada, recordada e celebrada.

João Paulo Dias



quinta-feira, 28 de maio de 2009

TESTEMUNHO I

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Foi no Palácio Teles de Melo, construído em 1701, que serviu de habitação à nobreza, à data Teles de Melo que era secretário da guerra dos reis D. João V e D. José I, que o Dr. Carlos Vieira lançaria uma obra ao serviço da PAZ e do AMOR.

JORGE CABANELAS , o teu testemunho sobre este ilustre benemérito merece honras de post, assim passo a publicar o texto que tiveste a amabilidade de enviar sobre um grande e dedicado amigo de Padre Correia da Cunha, que deve ser reverenciado por todos e, em particular, pela Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. A sua obra foi um modelo de amor e muito contribuiu para melhorar as condições de vida e educação de muitos jovens e adultos carentes, que merece ser conhecido.






UM HOMEM DE DEUS






Dizer algo sobre o Dr. Carlos Vieira torna-se deveras muito complicado, pois contemplar todas as suas características, qualidades e capacidades como homem, pai de família, amigo sincero e desinteressado, cristão assumido e empresário responsável, com toda a certeza que ficará muito por se dizer.



No entanto, não quero deixar escapar o desafio, lançado pelo meu querido amigo, catequista, companheiro e irmão em Cristo, João Paulo e atrevo-me, ainda que com todas as limitações, a dizer algo desse grande homem de Deus que para mim e para muitos outros, foi e continua a ser, um verdadeiro sinal de Deus no mundo: Carlos Alberto Vecino Vieira.



E para isso, escolhi escrever sobre a grandiosa, benéfica e importante obra que nasceu das mãos do Dr. Carlos Vieira.



Trata-se do Centro de Acolhimento e Orientação de S. Vicente de Fora (CAO). Obra nascida nas instalações da própria residência do Dr. Carlos Vieira, na Calçada do Cascão e que tinha como finalidade acolher e orientar aqueles que por ali buscavam um pouco de conforto, carinho, alegria, paz, companhia para a sua solidão e, se tal fosse possível, um emprego ou uma ocupação que lhes permitisse uma vida melhor.



O CAO recebia, diariamente, desempregados, toxicodependentes, marginalizados, pobres, idosos, pessoas sem ninguém, para aí encontrarem uma resposta – por mais pequena que fosse – para aliviar as suas dores e as suas tristezas.



Formada por uma pequena equipa de três elementos (o Sr. Adelino, o Sr. José e a Paula Sofia), contava também com a colaboração da D.ª Agostinha que se ocupava das limpezas e da presença sempre amiga, atenta e protectora do Serrinha ( um Serra da Estrela, de enorme estatura mas com a docilidade e fidelidade de uma criança). A coordenação pertencia ao Dr. Carlos Vieira que, sempre com a sua simpatia, amabilidade, generosidade e sempre de coração aberto ao bem, a todos transmitia (aos seus colaboradores e a todos aqueles que ao CAO se deslocavam) a presença viva de Jesus Cristo no meio dos homens.



“Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” – diz-nos Jesus.
No caso do Dr. Carlos Vieira, atrevo-me a dizer “Bem aventurado o puro de coração, porque dará a conhecer a face de Deus”.



Com grande esforço e espírito de sacrifício, até por vezes pessoal e económico, o Dr. Carlos Vieira, sempre de sorriso nos lábios e com as “altas” gargalhadas que eram uma das suas características muito particulares, conseguia manter esta “obra de caridade”, para que os mais pobres e necessitados gozassem de um espaço de partilha, confraternização e até mesmo de verdadeiras amizades.



Perdoe-me, Dr. Carlos Vieira por este modesto testemunho acerca da sua pessoa. Sei que pouco disse e que muito mais haveria para dizer.



Só me resta a certeza de poder afirmar, com toda a convicção do coração, que o Dr. Carlos Vieira é um Homem de Deus, vive para Deus e para os irmãos e dá a conhecer este Deus que é Amor, Misericórdia e Felicidade a todos aqueles que o rodeiam.
Que Deus o abençoe para sempre Dr. Carlos Vieira.





( do seu sempre amigo Diácono Jorge Cabanelas )
27 de Maio de 2009




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segunda-feira, 25 de maio de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O ECONOMISTA

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‘’Para ele só as pessoas contavam…’’





Na Paróquia de São Vicente de Fora, nos dias da semana, eram celebradas por Padre Correia da Cunha duas missas diárias: uma pelas 9,30 horas e outra pelas 18,30 horas. Estas celebrações eucarísticas tinham normalmente a duração de 30 minutos.

Naquele final de tarde do principio dos anos setenta, cinzento de Outono, a celebração eucarística teve a duração de uma hora e dez minutos. Padre Correia da Cunha estava a viver um difícil problema. Tinha assumido solenemente, com o Vigário Geral do Patriarcado de Lisboa, a liquidação de todos os emolumentos em atraso pertencentes à Paróquia desde 1960 – ano da sua chegada à Paróquia. Para acatar essa exigência era colocada por Padre Correia da Cunha a hipótese de se desprender do seu património de arte sacra. Não dispunha de dinheiro para o efeito, dada a pobreza da Paróquia.

O Padre Correia da Cunha entendia que a Graça de Deus não podia ser paga por nenhum dinheiro deste mundo, tinha que estar disponível graciosamente para todos como o Coração de Deus está disponível para todos que o ambicionem. Assim não cobrava qualquer tipo de emolumento pelos serviços sacramentais prestados. Os donativos dos fiéis cobriam mal as despesas correntes (água, electricidade, limpeza …) e pouco mais. Não tinha abraçado a vocação sacerdotal para ser contabilista ou gestor de uma fábrica… Era estruturalmente um desordenado no tocante aos aspectos financeiros e burocráticos da sua paróquia. As dificuldades financeiras eram diárias, que com ajuda da providência Divina lá as ia ultrapassando. Para ele só as pessoas contavam.

Naquela tarde, aproveitou a celebração da Eucaristia para lançar um repto aos presentes sobre a gravidade da situação. Aproveitando a inspiração das leituras do dia, em forma de um improviso que lhe era habitual, o Padre Correia da Cunha fez uma empolgante e frontal homilia, com toda a energia que o seu coração permitia:

- Meus queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, como cristãos e paroquianos desta paróquia, temos o dever de contribuir e participar activamente na sua vida. Necessitamos de catequistas, necessitamos de visitadores dos doentes, necessitamos de Vicentinos, necessitamos de pessoas que animem o canto nas celebrações, necessitamos de alguém que saiba de contabilidade que ajude a colocar em ordem as contas da igreja...

Meus queridos Irmãos, temos de colaborar na vida da nossa família paroquial ou então andamos todos aqui a enganar-nos uns aos outros… Ser cristão é muito mais do que vir à Igreja ‘’papar hóstias’’, é assumir o compromisso de servir a comunidade e os irmãos que de nós precisam… Cristianismo sem caridade vivencial é uma ilusão… Meus Queridos amigos, ou nos empenhamos na vida da comunidade paroquial ou o melhor é colocar um cartaz na porta da igreja com a seguinte inscrição: Trespassa-se para mudança de ramo. Lembro que os cristãos não podem fugir nunca com o rabo à seringa…


Depois desta surpreendente reprimenda todos lá se dirigiram para as suas vidas, o Padre Correia da Cunha para a Sacristia e depois para o Cartório Paroquial.


Cerca das 20,30 horas, quando descia as escadarias da sua igreja para ir jantar, saiu ao seu encontro um jovem de trinta e poucos anos muito bem apresentado e vestido impecavelmente, que o interrogou:

- Desculpe! O Sr. é que é o Padre que celebrou a missa de fim da tarde?

- Sim, sou eu mesmo.

- Estive ali no meu automóvel a pensar nas palavras da sua prática. Sou Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras, paroquiano da Freguesia de São João de Deus. Creio que podia ajudar o Reverendo na contabilidade. Não conheço o plano contabilístico da igreja mas certamente com a sua ajuda… Queria era desde já disponibilizar-me para essa tarefa, caso o Sr. Padre naturalmente o aceite.

- O Sr. Dr. vai-me desculpar, mas o que faz aqui por estas bandas? Nesta Paróquia de pelintras?

- A minha noiva vive aqui nesta paróquia.

- Muito bem. O Sr. Dr. poderá por favor passar amanhã por cá para abordarmos com todo o detalhe as nossas necessidades e mostrar-lhe os livros da fabriqueira.
O seu preenchimento penso que não seja difícil mas amanhã aportaríamos todas essas questões. Resta-me desde já agradecer do fundo do coração toda a sua imensa generosidade. Deus Nosso Senhor o abençoe.

Nessa mesma noite, na reunião do Conselho Paroquial, o Padre Correia da Cunha descrevia aos seus membros este sui generis episódio ocorrido nesse final de dia assim como as aparentes dúvidas sobre tão inesperada disponibilidade e magnificência de um jovem empresário, que manifestara tanta boa vontade para colaborar com uma paróquia pobretana como a sua.

No dia seguinte lá estava o Sr. Dr. para dar início à sua nova nobre missão… por muitos e longos anos. A partir dessa altura todos os meses eram afixados na entrada da igreja o balancete sobre a débil situação financeira da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.

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HOMENAGEM AO DR. CARLOS VECINO VIEIRA



Hoje, quero em nome de todos os amigos do Padre Correia da Cunha, prestar uma sincera e merecida homenagem ao Dr. Carlos Alberto Vecino Vieira, que durante muitos anos contribuiu com total dedicação e generosidade na organização das contas da Igreja Paroquial de São Vicente de Fora. Carlos Vieira veio a tornar-se num dedicado e fiel amigo de Padre Correia da Cunha.

Deus concedeu a Carlos Vieira um coração de um excelente esposo, pai, empresário e paroquiano, (chegou a viver na Paróquia de São Vicente de Fora) repleto de grande humanidade. A chama da sua grande crença em Jesus Cristo arde em seu peito e irradia-se através de todo o seu ser. A fé habita o seu rosto e exprime-se numa enorme e genuína bondade.

Para o Carlos Vieira os pobres são realmente seus irmãos. É um grande homem. Para ele o mais importante é viver o Evangelho e vivê-lo na ajuda permanente dos seus irmãos mais carenciados. Dou muitas graças a Deus, por me ter dado a oportunidade de conviver de perto tantos anos com este grande Cristão de uma elevada riqueza espiritual, que coloca todas as suas forças no Amor a Deus e ao seu próximo sem pretender nenhuma glória humana.

Este cristão exemplar muito contribuiu para ajudar todos os jovens e homens de boa vontade da Paróquia de São Vicente de Fora na busca de um projecto de vida, assegurando-lhes o acesso ao trabalho. Muitos continuam a seguir o seu bom exemplo: sendo fiéis aos ensinamentos de Jesus Cristo e empenhados no respeito à dignidade da pessoa humana.

Estou certo que continua a ser um grande fã e admirador da memória do Padre José Correia da Cunha. Cheguei a ouvir dizer-lhe: ‘’ que era difícil encontrar pessoa de mais iniciativa e mais expedito do que este benemérito pároco de São Vicente de Fora’’.

O Dr. Carlos Vieira conto consigo para ajudar a manter viva a memória deste grande e saudoso amigo que continua a iluminar o caminho de quantos o conheceram, conviveram e muito apreenderam com a sua brilhante e apurada inteligência.

Tomei conhecimento recentemente da publicação de uma obra sua com o título: Sentir Ser Português. “Nesse livro o Dr. Carlos Vieira pretende apresentar uma reflexão sobre as causas que poderão estar na origem do actual mal-estar e desalento sentido pelos portugueses.

Estas razões de que a Economia, apesar de importante, não é mais do que um efeito, deveremos procurá-las numa desconcertante ruptura com o passado recente e distante.

Os elementos essenciais da nossa integridade como Nação: Independência Nacional, Pátria, Manifestação Pública da Fé, Serviço Público, Criação de Riqueza Familiar, Paz e Tolerância Social, um rumo, por muitos esquecidos ou maltratados, constituirão motivo suficiente para se detectarem sérios riscos de desagregação que urge corrigir.
Pretende-se deste modo contribuir para uma recuperação desejada e aguardada, mas de momento adiada”.

Recomendo a todos os homens de boa vontade a sua leitura.


Nota: Pagela de Jesus Cristo – Tenho um amigo que me AMA, que me foi oferecida pelo Dr. Carlos Vieira, nos anos 70.


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sábado, 23 de maio de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E OS DOENTES

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‘’Sou chamado a anunciar a esperança e o amor do Pai’’




Pe. Correia da Cunha, quando jovem, como sabem, foi capelão do Hospital da Marinha em Lisboa.
A sua dedicação ao serviço dos doentes e dos mais necessitados sempre foram prioridades da sua vocação sacerdotal.



Um seu paroquiano, oficial superior do exército, foi internado por motivos de saúde no Hospital Militar Principal na Estrela. Pe Correia da Cunha, ao tomar conhecimento dessa situação, sentiu de imediato a necessidade de ali o ir visitar e levar-lhe a sagrada comunhão.



Um belo dia, muito feliz, vestiu a sua batina e lá se deslocou ao Hospital Militar para visitar esse seu querido amigo paroquiano.

Ao entrar na enfermaria, onde se encontrava seu amigo na companhia de mais dois companheiros de armas, depois de os saudar e desejar-lhes a PAZ, Pe Correia da Cunha, dirigiu-se ao seu paroquiano nestes modos:


- Aqui vem este burrinho carregado com Nosso Senhor, cansado não com o peso Dele mas do peso dos meus pecados.

 

Houve um silêncio absoluto no local. Depois de se inteirar do estado de saúde do seu amigo e dos restantes parceiros de quarto, Pe. Correia da Cunha improvisou sobre uma mesa-de-cabeceira um lindo altar, onde expôs o Santíssimo e deu início a uma harmoniosa liturgia de adoração e a um brilhante cerimonial próprio da ocasião. Não faltaram os cânticos, os salmos e as leituras, assim como a distribuição da Comunhão no final. Obviamente, que Pe. Correia da Correia não podia esquecer a homilía, própria para a circunstância. Um cerimonial sem esta prática não era cerimonial para Pe Correia da Cunha.
 
 
A pouco e pouco a enfermaria foi-se enchendo de pessoas havendo a necessidade de abrir as portas para as muitas pessoas que já enchiam o longo corredor.

Durante o cerimonial os rostos dos doentes, como dos participantes, irradiavam uma imensa alegria de satisfação interior.
No final, todos se interrogavam sobre: - quem era aquele Sr. Padre e exclamavam que bela cerimónia tinham presenciado e participado.

O Sr. Oficial, muito vaidoso, orgulhoso e muito contente lá ia informando:

- É o Sr. Padre Correia da Cunha, o meu prior de São Vicente de Fora.
 
 
 

Passados uns dias a família deste oficial estava no Cartório Paroquial a agradecer a amabilidade do Pe. Correia da Cunha. Entretanto a mesma aproveitava para reclamar que o Sr. Prior se deveria deslocar de novo ao Hospital pois tanto médicos, enfermeiros e doentes o gostariam de rever … todos dias nos perguntavam quando o Sr. Prior lá iria de novo.

Enquanto esse seu paroquiano esteve hospitalizado naquele Hospital, Pe. Correia da Cunha deslocou-se ali várias vezes.




Pe. Correia da Cunha referia que ficava sempre muito feliz quando verificava que um doente que parecia perdido se recuperava. A amizade nascida nestas circunstâncias era verdadeira e mantida para sempre.



Pe. Correia da Cunha era muito procurado pelos doentes para falarem, chorarem e partilharem o seu sofrimento, sobretudo nos momentos em que se sentiam mais débeis e com muita solidão. Um sorriso, uma palavra de esperança, uma companhia, uma oração ou um simples olhar representavam muito para quem estivesse numa hora de sofrimento.

Pe. Correia da Cunha identificava-se muito com a missão do seu serviço aos irmãos doentes. Perante essa realidade, não tinha dúvidas que do encontro com estes seus irmãos em sofrimento, a esperança passava pelo anúncio da Palavra de Deus, pois Deus é Pai e tem um amor muito particular pelos que sofrem.

Quando acompanhava Pe. Correia da Cunha, nas visitas aos doentes da Paróquia, lembro-me de ele dizer logo à entrada com uma voz vinda do fundo do coração: ‘’ PAZ A ESTA CASA ‘’. Fazia a aspersão com a água benta e acrescentava:

-Senhor Jesus Cristo! Com o vosso humilde e pecador sacerdote, entre também nesta casa a felicidade duradoura, a prosperidade em Deus, a alegria serena, a caridade benfazeja e a saúde inalterável.


Nas suas visitas aos doentes Pe Correia da Cunha levava o conforto da oração da Igreja e a entrega da sagrada comunhão. Estas suas visitas recordavam-me o amor misericordioso do Senhor: ‘’ Deus visitou o seu povo’’. Também procurava sempre dar uma palavra de conforto e solidariedade à família. Sempre vi Pe Correia da Cunha interessado e empenhado nesta sua nobre missão em prol dos seus irmãos doentes.


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quarta-feira, 20 de maio de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E A FEIRA DA LADRA

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‘’Mais do que a história, a Feira da Ladra exalta a tradição. ‘’






A Feira da Ladra teve início no Chão da Feira, junto ao Castelo de São Jorge, no séc. XIII, tendo mais tarde passado para o Rossio. Depois do Terramoto de 1755, instalou-se na Cotovia de Baixo (actual Praça da Alegria), estendendo-se mesmo pela Rua Ocidental do Passeio Público. Em 1823 foi transferida para o Campo de Santana, onde esteve apenas cinco meses, voltando para a Praça da Alegria. Em 1835, voltou ao Campo de Santana, onde se conservou até 1882. Fixou-se na Paróquia de São Vicente de Fora em 1903, no Campo de Santa Clara, onde permanece até aos dias de hoje. Ocorre semanalmente às terças-feiras e sábados.



A Feira da Ladra é uma das feiras mais antigas de Lisboa. Ali se comercializam todo o comércio de antiguidades, velharias e objectos de segunda mão lado a lado com artigos novos







Pe Correia da Cunha era um assíduo frequentador desta popular e secular feira. Ao romper da manhã lá se dirigia, para com os olhos bem abertos, observar todo o tipo de tralhas velhas, antiguidades e objectos raros. Para Pe. Correia da Cunha estas suas visitas eram eventos muito populares e apresentavam sempre novas revelações. Eram uma fonte inesgotável de objectos impensáveis. Um labirinto de coisas mas também de pessoas que muito considerava e com quem mantinha excelentes relações de amizade e carinho. Não havia um só vendedor da Feira da Ladra que o não conhecesse e não alimentasse por ele consideração e estima.



Pe. Correia da Cunha não era um coleccionador amador ou um curioso de arte, começou muito jovem como oficial da Marinha a coleccionar peças de arte sacra, adquiridas nos melhores antiquários de Lisboa com pagamentos a prestações, e desde então não parou mais. Tinha grandes amigos com essa ocupação que o visitavam frequentemente para ouvirem a sua opinião sobre determinadas peças de arte.





Pe. Correia da Cunha, possuía uma impressionante colecção de arte Sacra e não só: desde pratas lavradas do séc. XVI até séc. XVIII, a quadros originais do séc. XVI ao séc. XX, pinturas e esculturas contemporâneas, assim como excelentes peças de mobiliário original do séc. XVII …
Todas as suas peças de arte tinham uma história, uma vivência. Tinha quadros a óleo do séc. XVII e XVIII e móveis comprados na Feira da Ladra por preços insignificantes, pois para muitos os seus destinos seriam o lixo.



A sabedoria estava na escolha das peças que depois de devidamente restauradas, nas oficinas de seus amigos peritos no restauro, e repostas na sua originalidade (que por vezes as próprias peças a possuíam devido a má conservação e restauro) ficavam irreconhecíveis, ganhando valor extremamente elevado.



Pe. Correia da Cunha defendia que as antiguidades são magnificas peças desde que bem conservadas e repostas na sua primitiva originalidade.










Pelo chão do vasto Campo de Santa Clara, à sombra da sua igreja e mosteiro, Pe. Correia da Cunha quase sempre encontrava antiguidades, peças de cerâmica, livros antigos e tudo o mais que possamos imaginar. Os feirantes que o conheciam muito bem e nutriam por ele muito afecto e apreço e sabiam bem das suas preferências, reservavam-lhe por vezes peças até só com o intuito de ouvirem a sua opinião de grande especialista na matéria. Estas suas consultas eram pagas nos descontos efectuados na aquisição de peças.



Embora a Feira da Ladra possa estar associada à pobreza, lembro que nos anos cinquenta e sessenta esta dispunha de extraordinária riqueza em peças de arte e mobiliário, que hoje só se encontram disponíveis em famosos antiquários. O espelho que hoje apresenta a Feira da Ladra não reflecte a extraordinária riqueza das relações humanas e da procura que tinha por parte dos lisboetas e turistas nos meados do século passado. Como diria o poeta: ‘’ mudam-se os tempos mudam-se as vontades…’’


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domingo, 17 de maio de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E CRISTO REI

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‘’Venha a nós, o Vosso Reino…’’





Hoje, dia 17 de Maio, o Santuário de Cristo Rei celebra cinquenta anos de existência.

A primeira ideia de se construir um monumento a Cristo Rei surge do Eminentíssimo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel II Gonçalves Cerejeira, no ano de 1934, aos pés da magnífica escultura do Cristo do Corcovado, quando nesse ano visitou a cidade Rio de Janeiro no Brasil. Tendo esta imponente obra brasileira sido inaugurada, dois anos antes, no ano de 1932. Sentiu-se atraído para fazer uma imagem semelhante na capital portuguesa. Mas só em 1946 numa nota pastoral se anunciou a sua construção. Erguido num morro de Almada, a 215 metros do nível do mar oferecendo uma panorâmica de 360º sobre as duas margens do Rio Tejo, este é um ponto de visita obrigatória para se observar a nossa muito amada e querida cidade de Lisboa.

Em 1954, Pe. Correia da Cunha escrevia sobre esse local, onde se situa o actual Santuário de Cristo Rei, o seguinte:

‘’ Eu gosto imenso de Lisboa; sou deveras seu Amigo.
Quantas vezes me não pondo a olhar para Ela e, absorto, a não contemplo, dali, do morro de Almada! Como se mostra bela e formosa, quando, pela tardinha, toda inundada de sol, se revê embevecida nas águas especulares do seu Tejo!

Que maravilha!

Quem ainda a não viu dali, defronte, não conhece bem a sua beleza, e não sabe o que perde… ‘’


Pe Correia da Cunha muitas vezes visitou esse Santuário e onde aproveitava sempre para contemplar apaixonadamente a sua cidade de eleição. Lisboa que ele tanto amava!

Desde há cinquenta anos que Cristo Rei lá está olhando o Tejo, os barcos… de braços abertos para abraçar e proteger este nobre povo lusitano, que tem Cristo como seu verdadeiro Rei. Cristo único redentor do Homem!

A primeira pedra foi colocada no ano de 1950, mas só em 1959 é que solenemente foi inaugurado, nesse local, o Santuário de Cristo Rei como agradecimento por Portugal não ter integrado a II Guerra Mundial, estando presentes na sua inauguração mais de 300 mil pessoas.








Nesse dia 17 de Março de 1959, o Cardeal Cerejeira com o calor do seu coração afirmava: ‘‘ Portugal está todo aqui aos pés de Cristo Rei…para se consagrar… Este é o monumento da gratidão! Portugal foi ouvido! O voto está cumprido! Cristo Vence, Cristo Reina, Cristo Impera. Naqueles que crêem Nele’’.


A obra é da autoria do Arquitecto António Lino e do Eng.º D. Francisco de Mello e Castro, que depois de construída, à mão num trabalho de minúcia do grande mestre escultor Francisco Franco foi esculpida no detalhe da imagem de Cristo Rei.


Na base do monumento está a capela de Nossa Senhora da Paz, onde se destaca a imagem de Nossa Senhora de Fátima, criada pelo famoso escultor Leopoldo de Almeida.

No programa, das comemorações do cinquentenário está prevista a repetição da viagem de Nossa Senhora de Fátima peregrina ao Santuário de Cristo Rei. A Marinha Portuguesa vai associar-se a este grandioso evento transportando a imagem que será um grande momento de peregrinação desta procissão marítima. Em 1959, Pe Correia da Cunha, esteve na qualidade de Capelão da Armada, dinamizando esse belíssimo cortejo marítimo.

Colocando Cristo Rei no alto do pedestal, Portugal cumpriu o pagamento da sua dívida. Junto das nuvens durante o dia e envolvido na escuridão da noite lá está Ele indicando o caminho da salvação. Estou certo que continuará por muitos mais dias, anos e séculos… para que os portugueses sintam que a imagem de Cristo Rei de braços erguidos nos lembra que Ele é e será o único redentor do mundo.



Cristo Reina.mp3 -

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E FÁTIMA

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‘’FOI FÁTIMA QUE SE IMPÔS À IGREJA… ‘’



Para o Pe. Correia da Cunha, Fátima não era um dogma de fé mas mantinha na sua alma cristã uma grande emoção e um especial carinho por este Santuário Mariano. Fátima era o altar do mundo, um recanto do Paraíso na terra; um lugar sagrado.

Foi lá que o Pe. Correia da Cunha celebrou as suas bodas sacerdotais, no dia 29 de Junho do ano de 1964, pedindo a protecção de sua mãe Maria Santíssima para o seu múnus sacerdotal.

O Padre Correia da Cunha referia que no Santuário de Fátima se respirava uma atmosfera sobrenatural, parecendo que se encurtava em muito, a distância que separa o Céu e a terra.

Naquele árido planalto, desceu um dia a Virgem Maria. Mãe de Jesus e nossa Mãe. Fazia-nos sentir orgulhosos de sermos Portugueses por termos sido presenteados com a visita, que fez Maria à nossa querida e amada terra, tão pequenina em extensão, mas certamente grandes países teriam uma santa inveja deste generoso gesto e favor da Mãe do Céu a Portugal.



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Hoje, dia 13 de Maio, é tempo de dirigir uma palavra a todos quantos impelidos por verdadeiro espírito de fé cristã e de devoção mariana se reúnem naquele santuário. Obrigado, por manterem bem viva a grande fé dos portugueses.
Passados noventa e dois anos penso serem sábias as palavras do Eminentíssimo Cardeal Patriarca, D. Manuel II Cerejeira, grande admirador de Pe. Correia da Cunha, quando afirmou: ‘’NÃO FOI A IGREJA QUE IMPÔS FÁTIMA; FOI FÁTIMA QUE SE IMPÔS À IGREJA. ‘’

Tudo, nessa história humano-divina, concorre para acreditarmos em algo da sua autenticidade.
Pense-se na ingenuidade cristalina e na inocência angélica das três crianças, Lúcia, Jacinta e Francisco a quem a Virgem Santíssima confiou os seus segredos.

Padre Correia da Cunha recordava que a Virgem Maria não tinha vindo dar altas lições de sabedoria humana, nem, muito menos, tratados ou dissertações filosóficas ou teológicas.

Mensagem muito simples e singela: que os homens vivam o amor e a simplicidade evangélica e não esqueçam a oração e a penitência.

Conceda-nos o Senhor ver realizados os pedidos de Nossa Senhora de Fátima.

Mãe clemente e piedosa faz que sobre este mundo actual que luta com grandes dificuldades contra a injustiça e a equidade, surja um Mundo Melhor, onde domine a verdade, a justiça, o amor e a paz.


O culto de Maria é decisivo na história dos portugueses. Fátima é o termómetro do fervor religioso e um sustentáculo da fé. Comove, atrai, motiva, entusiasma. O Pe. Correia da Cunha era muito confiante e muito gostava de proclamar comprometida mente este belíssimo Hino: 


 Enquanto houver Portugueses, tu serás o seu amor.


Salve, nobre Padroeira
Do Povo, teu protegido,
Entre todos escolhido,
Para povo do Senhor.

(Coro - intercalado)

Ó glória da nossa terra,
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver Portugueses,
Tu serás o seu amor.

Com tua graça e beleza
Um jardim não ornas só,
Linda flor de Jericó,
De Portugal és a Flor!

Flor de suave perfume,
Para toda a Lusa gente,
Entre nós, em cada crente
Tens esmerado cultor.

Acode-nos, Mãe piedosa,
Nestes dias desgraçados,
Em que vivemos lançados
No pranto, no dissabor.

Lobos famintos, raivosos
O teu rebanho atassalham,
As ovelhas se tresmalham,
Surdas à voz do pastor.

Da fé a lâmpada santa,
Que tão viva outrora ardia,
Se teu zelo a não vigia,
Perde o restante fulgor.


Ai! da Lusa sociedade,
Se o sol do mundo moral
Se apaga… Ó noite fatal!
Ó noite de negro horror!

És a nossa Padroeira,
Não largues o padroado
Do rebanho confiado
A teu poder protector.


Portugal, qual outra Fénix,
À vida torne outra vez.
Não se chame Português
Quem cristão de fé não for.

Pe. Padre Francisco Rafael da Silveira Malhão

O Pe. Correia da Cunha realizava todos os anos uma peregrinação com a sua Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora ao Santuário da Cova da Iria. Tinha elaborado, nos anos cinquenta, para a peregrinação dos marinheiros portugueses, quando era capelão da armada, um magnífico guião. Este opúsculo foi posteriormente reeditado para as várias Peregrinações da Paróquia de São Vicente de Fora.

Era um esplêndido documento do peregrino com rumo ao santuário de Nossa Senhora de Fátima.


Solicitava algum de vós, se ainda conservar este admirável livro da autoria de Pe. Correia da Cunha, que façam chegar-me uma cópia para o publicar neste blogue.



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