quinta-feira, 19 de março de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E A 1ª COMUNHÃO

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O VERDADEIRO AMOR É UMA DÁDIVA DE DEUS. O AMOR NÃO SE DEFINE, SENTE-SE.




Bem doutrinados ao longo de três anos de catequese, chegava o tão esperado Dia da Primeira Comunhão. Dia de grande Festa! Aquela quinta-feira santa era importante para todos. Não só se celebrava a primeira comunhão como se comemorava a primeira missa, repetição da Última Ceia em que Jesus instituiu este sacramento.

O Padre Correia da Cunha escolhia sempre esta data para esse grandioso evento na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.


A cerimónia ocorria durante a parte da tarde, na Igreja Paroquial de São Vicente de Fora, completamente lotada, em tempo de semana santa. A doutrina estava bem sabida, sem falhas. O Padre Correia da Cunha, que a todos dedicava um grande afecto, queria-nos distinguir naquele dia, preparando-nos uma pequena oração para lermos durante a oração universal.


Muito cedo chegávamos à igreja com os nossos fatos brancos, sapatos novos e as meninas nos seus vestidos alvos, parecendo umas autênticas noivas. Alinhados à direita e à esquerda do altar, ao longo da nave, os avós, os pais, os tios e os primos tinham os olhos postos nas princesas e príncipes desta grande festa.



Começava a bonita cerimónia e a festa lá ia decorrendo em harmonia com os ritos, e em esplêndido cerimonial. Antes do importante discurso e de recebermos pela primeira vez o Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, o Padre Correia da Cunha ajoelhava-se diante de 12 dos seus pobres e começava a lavar-lhes os pés, numa atitude de humilhação, fragilidade, súplica e submissão.



"Jesus pegou uma toalha e cingiu-se com ela. Depois colocou água numa bacia, e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido"(Jo 13, 4-5).


Em todas estas festas da semana santa eram habitualmente escutados extensos sermões de Padre Correia da Cunha, autênticas peças admiráveis da oratória sagrada e que o povo, em respeitoso silêncio, ouvia com muito agrado. Estas eram as maiores oportunidades que o povo tinha de ouvir o seu estimado pároco.





  






Grande especialista em Liturgia da Semana Santa,  o Padre Correia da Cunha buscava um equilíbrio entre Ritos, procurando dessa forma que o mistério perene da Salvação fosse celebrado com muita dignidade e postura. Aproveitava as celebrações da Semana Santa, cuja participação da comunidade era muito considerável, como força impulsora a da sua evangelização nesses tempos fortes.

Finalmente chegava a temida hora do discurso. Subíamos então ao alto de um banco, transformado em púlpito, e fazia-se um silêncio profundo. Numas vozitas trémulas e receosas, os discursos começavam empolados em estilo de retórica sacra.


Para todos, aquelas palavras assumiam desde logo o aspecto de um "importante" discurso pois eram ditas no decurso de uma relevante cerimónia.


O cerimonial da Quinta-Feira-Semana era muito longo e lembro-me da imensa paciência para guardar o rigoroso jejum, como era de regra antes do Concílio Vaticano II. Nessa altura, comer fosse o que fosse, antes de receber a Sagrada Comunhão, era considerado pecado.





PADRE CORREIA DA CUNHA, ACOL. REIS E VALENTINA





Em fila indiana lá nos dirigíamos ao altar para receber, naquela divina hora, o pão e o vinho (para o Padre Correia da Cunha a comunhão era sempre nas duas espécies). Quando os tomávamos, sentíamos descer o bálsamo inspirador do próprio Espírito Santo que enchia, de um amor muito profundo, o nosso coração. E em profundo recolhimento agradecíamos:

- Obrigado, Jesus, por teres querido fazer do meu coração a casa onde Tu queres habitar. Eu gosto de receber-te, Jesus.


Entretanto, nos Claustros da Paróquia, havia uma grande azáfama. Era dia de grande festança e preparavam-se por ali várias qualidades de doces, saborosas sandes e não era esquecido o delicioso leite com chocolate.O  Padre Correia da Cunha gostava de proporcionar a todas estas crianças um excelente lanche que comiam lambareiramente num grande ambiente de convívio e de muita alegria fraterna.


Eram assim os dias da Primeira Comunhão nos anos sessenta, que todos revivemos com uma imensa saudade.


Também eu sinto nostalgia desse dia único. Gostaria que todos os que possuam crónicas e fotos do seu dia de Primeira Comunhão, com o Padre Correia da Cunha, as divulgassem através deste blogue. Seria muito reconfortante para todos revisitarem esses doces momentos.

No próximo texto deste blogue irei prestar uma singela homenagem à nossa querida ANA THEMUDO BARATA (ANITA), presidente da Catequese Paroquial de São Vicente de Fora, desde finais dos anos sessenta até inícios dos anos oitenta e com quem tive o privilégio de trabalhar em perfeita simultaneidade como representante da Comunidade de Catequista, junto da Vigararia I do Patriarcado de Lisboa. 

Recordo com muita saudade esta querida amiga.

















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segunda-feira, 16 de março de 2009

PE CUNHA E O SACRAMENTO DO MATRIMÓNIO

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‘’ Eles já não são dois mas um só…’’



Um casamento era sempre uma grande e jubilosa notícia numa Comunidade Paroquial como a de São Vicente de Fora. Era um verdadeiro acontecimento de emoções. Ouviam-se os sinos da Igreja tocarem. Que alegria! Era um dia festivo para os noivos e uma oportunidade de reencontros tantas vezes adiados para os convidados. O casamento da Guida, responsável pelo Cartório Paroquial de São Vicente de Fora nos anos sessenta, valoriza imenso a colecção autêntica deste blogue, não só pela representatividade do acto mas pela excelência que este registo encerra.



A Guida marcou muitos dos paroquianos de São Vicente de Fora pela sua brilhante dedicação ao serviço da Comunidade Paroquial. Era aquela amiga que sempre tinha um brilho nos olhos e um sorriso na boca para contagiar as pessoas que a envolviam. Ela encontrava-se totalmente disponível para ajudar e apoiar os que dela precisavam. A sua postura era de uma elevada sensibilidade e possuidora das mais refinadas e caridosas emoções.

O tempo completa as nossas memórias a um ritmo constantemente imparável. Sempre na sua evolução, hábitos se alteraram, comportamentos se modificaram e até formas de apresentação em sociedade se actualizaram. No entanto, há uns quantos eventos sociais em que os princípios vão teimosamente perdurando inalteráveis no tempo, independentemente das evoluções naturais que sempre as transições geracionais produzem socialmente. É o caso dos casamentos canónicos, onde noivos e convidados sempre se fazem mostrar com o que de melhor têm no guarda-roupa para estas ocasiões solenes.

E nesse já longínquo ano de 1966, a regra se acatava, podendo-se ver nesta foto os nossos saudosos e queridos amigos: Anita Themudo Barata e Carlos Barradas, todos aperaltados com todo o imprescindível rigor cerimonioso.


O casamento da Guida, presidido pelo seu grande amigo Pe Correia da Cunha, será o primeiro a publicar neste blogue. É nos casamentos que acontecem os grandes encontros familiares e de uma forma geral, a reunião das pessoas consideradas mais chegadas por laços de amizade. Os catequistas de São Vicente não fugiam a esta prática, fazendo parte integrante da família da formosa noiva.





Por tradição, todo o envolvimento é registado fotograficamente, mas há um momento sempre indispensável neste tipo de cerimónia: o retrato de grupo. Utilizando essa enorme possibilidade de podermos recordar, de uma forma mais abrangente, os casamentos de muitos amigos de Pe. Correia da Cunha e dos amigos de São Vicente de Fora de várias gerações, ocorreu-me a ideia de dirigir a todos estes, um aliciante desafio, o de contribuírem para a publicação, aqui no blogue de Pe. Correia da Cunha, com esses testemunhos tão especiais para todos os que amam São Vicente de Fora desde a sua infância e ali fizeram questão de celebrar esse importante e memorável evento. Aguardo as vossas contribuições.


A Guida foi viver com o seu marido para o Alentejo, pelo que após a sua partida se sentiu muito a sua falta e uma enorme saudade. Mas nem a distância cessou essa enorme amizade. Pe. Correia da Cunha, quando organizava viagens com os seus paroquianos e catequistas às sublimes vilas e cidades deste nosso belo Alentejo, lançava sempre o desafio à Guida e família para se encontrarem com os seus antigos e fiéis amigos da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. A ideia era, acima de tudo, compartilharem recordações comuns porque a amizade nunca acaba mesmo que o espaço nos possa separar.

Mesmo que as pessoas reorganizem as suas vidas, os amigos devem ser amigos para sempre, e era sempre um enorme prazer e felicidade partilhar as memórias de São Vicente de Fora, com a Guida, quando Pe. Correia da Cunha era seu prior.



PORQUE A AMIZADE NÃO SE EXPLICA ELA SIMPLESMENTE ACONTECE!!!!







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sábado, 14 de março de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA - LISBOA ANTIGA

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’LISBOA TEM A BELEZA NOSTÁLGICA E ALTIVA...’’





Como sabemos, o Padre Correia da Cunha (1917-1977) nasceu na freguesia de Arroios em Lisboa. O Padre Correia da Cunha era um alfacinha da gema, admirava e mantinha uma grande paixão pela sua cidade. Era um grande e obstinado AMIGO DE LISBOA.

É chegado o momento de publicar três textos da autoria de Padre José Correia da Cunha sobre:

- LISBOA ANTIGA
- O VOTO DO PRIMEIRO REI DE PORTUGAL
- A NOSSA IGREJA



Os seus originais estão redigidos em língua francesa. Só graças à prestável e amável colaboração da Drª. Maria Luísa Trincão de Paiva Boléo, é possível tornar visíveis estes textos inéditos na língua de Camões.










Entre as grandes cidades da Europa mais sedutoras, para quem as descobre, Lisboa ergue-se na extremidade ocidental do continente, atlântica e mediterrânica, sentada diante do seu estuário, toda cor-de-rosa e salpicada de campanários brancos, misturando os seus bairros bem alinhados do Sec. XVIII, ou modernos, com aqueles que foram poupados pelo terramoto de 1755, como o ruidoso labirinto de Alfama.

Lisboa tem a beleza nostálgica e altiva que se respira perpétuamente nos fados duma cidade com a história à flor da pele.

E tem uma história complexa e movimentada. A ocupação deste local privilegiado na margem direita do Tejo perde-se na noite dos tempos. Os Fenícios e os Cartagineses precederam quatro longos séculos de dominação romana. No século I A.C., Lisboa é um município. No Séc. V começam as invasões inicialmente vindas do Norte: os Álamos, depois os Suevos, depois ainda os Visigodos, misturam-se com a população local, já de diversas origens, que ocupa a colina do Castelo e as numerosas casas que a rodeiam. A partir de 714, o invasor vem do Sul: a dominação muçulmana dura mais ou menos tanto tempo como a romana. Os cristãos do Reino de Leão e os Mouros sucedem-se à volta do Castelo, ora assaltantes ora cercados, até Lisboa cair definitivamente nas mãos do primeiro Rei Português, D. Afonso Henriques, em 1147.



Começa então um desenvolvimento rápido que transborda das muralhas mouriscas, nascem novos bairros à volta dos edifícios religiosos espalhados pelos vales e colinas circunvizinhas. No fim do Séc. XIV, o Rei D. Fernando faz rodear a cidade agora capital do reino de Portugal com novas fortificações.


O Séc. XV, D. João I e o Infante D. Henrique tornam Lisboa senhora de mares até então desconhecida. O caminho para as Índias conquista-lhe a sua hora de maior glória: a Lisboa da Renascença, da exuberante decoração manuelina, que se pode admirar no Mosteiro dos Jerónimos e na Torre de Belém, e que se torna num dos centos cosmopolitas mais famosos da Europa… de tal modo que nem a opulenta Veneza resiste a tal competição…









Competição talvez exageradamente eufórica: o último quartel do Séc. XVI apresenta-se como o reverso dessa idade de ouro. A derrota de Alcântara reúne Portugal à coroa de Espanha, até à Revolução de 1640, que abre Lisboa para um Séc. XVII florescente.

Mas, em 1755, um terramoto destrói toda a parte baixa da cidade e causa graves prejuízos noutros edifícios – a cúpula da Igreja de S. Vicente de Fora desmorona-se.

O labirinto das ruas medievais é em muitos casos substituído pela geométrica baixa do Marquês de Pombal. Desde então, Lisboa não tem parado de crescer: bairros novos, porto, metropolitano, etc.…


A partir do rio chega-se à Igreja de S. Vicente de Fora pela Rua do Paraíso e deixando-se à direita a Feira da Ladra, desembocando-se pelo norte nos degraus da escadaria de S. Vicente de Fora.



Et toi, noble Lisbonne, qui dans le monde
Es facilement dês autres la princesse,
Bâtie que tu fus par l’homme éloquent
Dont la supercherie incendia la Dardanie
Toi à qui obéit la mer profonde,
Tu as obéi à la force portugaise,
Egalement appuyée par la flotte puissante
Qui dês régions boréales avait été expédiée…



Lusíadas III


Por Padre José Correia da Cunha



Próximo texto: - O VOTO DO PRIMEIRO REI DE PORTUGAL

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quarta-feira, 11 de março de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O OBJECTIVO

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‘’Construir uma Comunidade mais Justa, Fraterna e Humana. ‘’




O ano de 1971 é marcado pela agitação estudantil. As reivindicações dos jovens estudantes ficaram conhecidas em todo o país, onde a juventude reclamava pela liberdade e contra o fim da guerra


 Nesse ano dava-se início, na Paróquia de São Vicente de Fora, ao primeiro movimento no sentido de juntar todos os jovens da paróquia, criando-se o GRUPO DE JOVENS OBJECTIVO, com cerca de cinquenta elementos. Era função de qualquer cristão evangelizar e os jovens faziam-no com a sua forma de estar. Os jovens eram conhecidos pela sua irreverência, festividade e rebeldia. Assim de repente estas características podiam ser julgadas como más, mas quer queiramos, quer não os jovens eram assim.


Era a sua cultura, quase todos universitários, e a sua forma de estar que os levavam assumirem a defesa de nobres valores que há época eram reprimidos pelo regime.



O grupo de Jovens OBJECTIVO deixava assim um convite a cada jovem: seguir Jesus Cristo, não abdicando da sua energia para debater e defender os seus direitos e contribuir para a criação de uma sociedade mais livre, humana, fraterna e justa. Participavam na paróquia, ajudando a dinamização de acções de solidariedade para com os mais desfavorecidos. Lembro-me dos importantes cursos de alfabetização para adultos.

Como se compreenderá PE. CORREIA DA CUNHA tinha uma formação política um pouco conservadora, mas manifestava uma verdadeira tolerância activa e dialogante. Não se baseava na sua impotência ou na sua incapacidade para obrigar os jovens assumir as suas convicções mas respeitava, com alguma dificuldade, a autonomia de cada pessoa no domínio ideológico. Todo o ser humano pode adoptar a sua própria benignidade em fontes diferentes. O pluralismo de pensamento era uma oportunidade, um desafio ético e uma promessa da valorização do humanismo cristão.

Segundo a sabedoria juvenil da época, a Igreja devia contribuir com maior eficácia para ajudar a instaurar a justiça como ordem social e política, noutros termos a justiça era uma virtude pessoal que deveria incidir no bem da Comunidade, que implicava um empenho pessoal. Os jovens de São Vicente de Fora manifestavam o desejo sincero de colaborar, intervindo activamente em debates, com propostas que eram discutidas calorosamente, sentindo que a sua força e união constituiria uma força viva para levar por diante a transformação da sociedade num mundo melhor.

É obvio que Pe. Correia da Cunha ficava surpreendido com o teor destas discussões, manifestando, por vezes, a sua absoluta discordância e desejando uma evolução lenta, gradual que passasse pelo coração de cada um. Ele costumava afirmar que sabia bem o que era melhor para a Comunidade. Em público era determinado, firme e por vezes hostil. Em privado era afável e humilde na abordagem destas temáticas.






Confesso que o testemunho memorial sobre o passado deste importante Grupo de Jovens dos finais dos anos sessenta e inícios de setenta é para mim uma interpretação de reconstrução. Mas não pode ser de outra forma, a menos que me considerasse o dono da verdade absoluta. Escrever um testemunho sobre uma experiência que não vivi, na sua total profundidade, coloca-me uma série de filtros.



Sinceramente gostaria de ter sobre o Grupo de Jovens OBJECTIVO outras verdades. Seria bom que Rui Aço, Carlos Pereira, Zélia Nunes, Mila, Natália Oliveira e Pe. Ismael, ‘’líderes’’ do Grupo Objectivo, partilhassem com todos as suas experiências e leituras sobre esse passado.
Se o fizessem, ficaríamos muito felizes, veríamos certamente alguns nichos sagrados que associamos à nossa memória e que seriam relativizados.

É evidente que também poderiam contribuir com documentação sobre esses tempos tão importantes para a nossa formação de jovens na busca da fé. Deus continua a ter futuro nos Jovens.
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domingo, 8 de março de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E OS LIVROS

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Grande parte das noites de Pe. Correia da Cunha eram passadas entre uns agradáveis jantares num ambiente de amenas cavaqueiras, na companhia dos seus amigos mais próximos. As noites decorriam sempre num ambiente de boa disposição e de animado convívio.


Mas quantas noites, ele me convidou para irmos jantar à baixa pombalina, ao célebre ‘’Atrium’’. Depois fazíamos longos passeios pelas ruas da Baixa e do Chiado, visitando as mais recentes novidades de livros nas históricas livrarias de Lisboa, locais privilegiados para o encontro com os mais recentes ‘’tesouros’’ literários.

Estas peregrinações, em que o acompanhava, eram uma festa aberta ao ar livre que convidavam a espreitar os livros expostos nas imensas livrarias. A entrada por essas catedrais fazer-se-ia no dia seguinte, caso se deixasse enamorar por algumas obras. Só a leitura das capas permitia-lhe fazer-me resumos e falar-me da riqueza do conteúdo dos exemplares expostos.






Pe. Correia da Cunha tinha uma grande paixão pelos livros. Se aceitarmos que a nossa casa espelha a nossa alma, a sua estava cheia de livros, diria mesmo revestida desses tesouros. Pe. Correia da Cunha gostava do calor e da familiaridade do seu escritório de trabalho, das estantes atravancadas de livros. Creio mesmo que cada livro tinha seu valor e uma história sentimental. O seu universo era os livros, as revistas de liturgia e teologia em várias línguas, os mais recentes contos, ensaios e crónicas…












A leitura era o seu mundo e onde se sentia rei e experimentava a felicidade, deixando-se levar por altas horas da madrugada. Passei muitas noites na sua companhia a ouvir predilecções e críticas literárias sobre os autores contemporâneos. Haviam bons e maus.


O seu gabinete de leitura era uma floresta de livros e tinha como pano de fundo o rio Tejo e a sua adorada cidade. Cheguei a ter a sensação que sobre o movimento das águas passavam livros.

A sua biblioteca, composta de muitos milhares de livros, tinha cheiros, memórias, ideias soltas … e sonhos de um homem que abraçava ambiciosamente todas as sabedorias.

Pe. Correia da Cunha era um assíduo frequentador do Grémio Literário, na Rua Ivens, no romântico Chiado, onde participava em lançamentos de livros, conferências sobre temática literária e recitais de música clássica…

Tenho na memória as prendas de Natal dos seus amigos, que o conheciam bem. Para Pe Correia da Cunha, os livros eram uma magia e uma essência de contentamento.

Pe. Correia da Cunha confessou-me que herdara do seu antecessor, Mons. Francisco Esteves, uma magnífica biblioteca composta de vários exemplares de primeiras edições, autografados pelos autores com dedicatórias. Naquela época já a tinha quintuplicado pois reconhecia-se como coleccionador de boas obras de história, filosofia, poesia e autores clássicos…não esquecendo os seus livros de liturgia dos mais variados Ritos. Dizia surpreendente: - Deixei que o acaso funcionasse de modo a que os livros, uns atrás dos outros, entrassem na minha vida.

A casa-museu de Pe. Correia da Cunha era um ponto de encontro cultural para quem amasse livros e até se respirava uma solidão alegre com uma elegante esperança…

Ouvi a Padre Correia da Cunha:

-Um país sem livros é um país sem futuro e não entendia porque razão os livros não faziam parte da vida quotidiana de todos os portugueses.
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quinta-feira, 5 de março de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA, CONSTRUTOR DE COMUNIDADE

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‘’Eu sou a videira; vós sois as varas. ‘’



O acolhimento carinhoso que o blogue Padre Correia da Cunha está a despertar, por parte de muito boa gente de São Vicente de Fora, leva-nos a agradecer a todos os que com carinho nos incentivam a manter viva a memória de Padre Correia da Cunha e esses espaços do Mosteiro de São Vicente de Fora, que mantemos no nosso coração para sempre como nossos.

Foi naqueles espaços que recebemos as nossas primeiras lições de vida que abrigamos no mais profundo nicho da nossa alma: a noção da Santa Liberdade dos Filhos de Deus, que ali nos foi transmitida pelo grande mestre Padre Correia da Cunha, um grande construtor de comunidade.


É com imensa pena que hoje constato o ostracismo cultural e de vivência cristã a que esse lugar e as suas gentes foram votados pelo poder eclesial, que colocaram em primeiro lugar a referência do interesse patrimonial em detrimento do humano.

Onde está a Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora?



Neste contexto, queremos realçar tudo o que for considerado importante sobre o ponto de vista de vivência cristã, cultural e humana, respeitante à Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, dos saudosos anos em que os seus grandes e inesquecíveis pastores foram: Monsenhor Esteves e Padre Correia da Cunha.
Nunca devemos esquecer o passado, sobretudo para lembrar as coisas boas e evitar cometer as mesmas ou idênticas falhas.
Nunca nos podemos esquecer de todos aqueles que connosco se cruzaram e que, talvez, não tivessem merecido da nossa parte a melhor atenção.
Publico algumas fotografias de São Vicente de Fora onde aparecem alguns que já partiram, é importante recordá-los e, sobretudo, aprender que temos de tirar o maior proveito e alegria da oportunidade que nos foi e é dada de contactar, viver e conviver com tantos e tão bons amigos.





Há oito anos Rogério Simões, veemente apelava para a mobilização da Comunidade. Hoje assistimos ao encerramento da Igreja e desmobilização dos Amigos, que não queriam ser estranhos quando entrassem em S. Vicente de Fora.




Não há interesse nem empenho para abrir as portas aos actuais e antigos grupos de leigos, alunos do patronato, catequistas, meninos do coro ou acólitos, grupos corais e a tantos outros que, tal como nós, frequentaram e amaram profundamente S. Vicente de Fora.




Não vamos ouvir de novo o nosso canto. Mas a memória tem uma importância capital na construção e no cimentar da nossa identidade. Nada do que somos hoje, surgiu do nada. Há uma sucessão de acontecimentos e vivências que nos trouxeram até ao momento presente e que se mantém viva no coração de cada um de nós





Eis a palavra-chave que norteia este blogue de Padre José Correia da Cunha, Partilhar.
Partilhar é mais do que dar, é colocar em comum algo que é nosso, o que somos, o que sabemos, o que fazemos, o que pensamos…Partilhar é desprendermo-nos do nosso comodismo e irmos ao encontro do outro, criar laços.
Partilhar exige dedicação, tempo, disponibilidade, não só para estar mas também para permanecer.
Assim, espero que este sítio seja um ponto de encontro, onde todos possam colocar em comum partes dos agradáveis momentos de convívio e de crescimento, tanto humano como de cristãos empenhados EM CONSTRUIR COMUNIDADE, que chegou a ser o slogan do GRUPO DE JOVENS – OBJECTIVO, que iremos também um dia recordar.

Como referia Pe. Correia da Cunha, a Igreja é como um organismo vivo do qual os órgãos dirigentes formam parte e aos quais não lhes pode ser indiferente o estado do seu funcionamento. Todos somos importantes.

Contamos com a vossa preciosíssima colaboração.






Fotos cedidas gentilmente pelo Catequista Rogério Martins Simões.

terça-feira, 3 de março de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E A TABERNA

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Taberna na Rua do Salvador

‘’ O alcoolismo é combatido pelo consumo do vinho. ‘’Bertillon


Como prior de uma paróquia de muita gente pobre e desalentada, Pe Correia da Cunha gostava imenso de visitar amiudadas vezes os doentes, aproveitando para lhes dirigir umas palavras de ânimo, consolo e presenteá-los com a Sagrada Comunhão. Este serviço, Pe Correia da Cunha encarava-o com uma superior perícia e caridade, e conseguindo muitas vezes por estes seus cuidados obter rápidas e recuperadoras melhoras. Colocava nesta sua missão excessivo empenho e delicadeza.

Pe Correia da Cunha saia da sua igreja em batina e junto ao peito um pequeno relicário, contendo as partículas sagradas e na sua mão esquerda uma pequena pasta com a estola, sobrepeliz e outras alfaias.


Ambiente de Taberna



Nestes tempos, Lisboa apresentava-se cheia de tabernas onde ao final do dia alguns trabalhadores bojudos e suados se vinham embebedar entre uns bons copos de vinho. Nessa época, esta calamidade contribuía para a elevação da raça portuguesa. É de todos conhecida a célebre frase: ‘’Beber vinho é dar Pão a um milhão de Portugueses. ‘’. O vinho era considerado a mais saudável e higiénicas das bebidas nacionais. O vinho criava comportamentos eufóricos e que resultavam por vezes em provocações ofensivas.







Um dia ao final da tarde, Padre Correia da Cunha, em sotaina, descia a Rua das Escolas Gerais em Alfama, na sua missão de visita aos seus doentes. Quando ao passar junto a uma taberna, um safardanas, em má hora, se lhe dirigiu com o seguinte comentário:

- Já perdi o dia…por ver um homem de saias…

O Padre Cunha da Cunha seguiu o seu destino em profunda compenetração e em espírito de oração, tendo apenas fixado o rosto do indivíduo. Após terminada a sua missão, junto dos doentes que o aguardavam, regressou à igreja, despiu a sua batina e em traje de fato e cabeção dirigiu-se à Taberna para se encontrar com o ingénuo provocador.

Abeirou-se da criatura, agarrou-a pelos colarinhos sebosos e levantando do chão, contra a uma parede, disse-lhe com toda a frontalidade e autoridade:

- Oh, seu safardanas nojento, sou tão Homem que sou capaz de lhe partir agora aqui as ventas…

Houve logo uma solidariedade absoluta em torno do Pe. Correia da Cunha e não faltaram então as repreensões e berros, por parte dos parceiros de copos do indivíduo, pela estupidez, ingratidão e vinhaça.

Um inexcedível e amigo dedicado de Padre Correia da Cunha, que ali se encontrava e que retirara essa rude personagem das mãos do Reverendo, obrigou-o a fazer um favor que não custaria nenhum sacrifício: pedir desculpas formais ao Padre Correia da Cunha. Este amigo comum considerava a sua provocação como uma grande e humilhante traição a todos e principalmente ao Senhor Padre Cunha que tanto contribuía para o bem comum da paróquia de São Vicente de Fora.

Taberna no Campo de Santa Clara

Mas beber um copo de três fazia parte da cultura popular, o Padre Correia da Cunha, inevitavelmente, teve de mandar vir e pagar uma rodada para todos os presentes, incluindo o insultuoso e lá saboreou com todos eles esse néctar dos deuses que à época era um alimento de primeira ordem.

Após este desarrufo e já num clima de grande amizade fraterna entre todos, os presentes na catedral do afamado vinho tinto nacional receberam uma lição de catequese relativa ao respeito que todos nós devemos merecer, independentemente das nossas crenças, bem como deveremos prezar o génio e a cultura de cada povo.

No final lá se retirou, deixando os odres no seu habitual cenário dando continuidade à grande tradição: ‘’ QUEM BEBER VINHO CONTRIBUI PARA O PÃO DE MAIS DE 1 MILHÃO DE PORTUGUESES’’

Padre Correia da Cunha era muito querido pelo seu apoio à população e obras de humanidade.














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domingo, 1 de março de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA, O PSICÓLOGO

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Pe. Correia da Cunha

‘’ SÓ PODEMOS AMAR O QUE CONHECEMOS ‘’


No início de 1960, uma jovem paroquiana de S. Vicente de Fora andava em exames e tratamentos médicos na busca da solução para um seu problema: a cabeça embora cheia era o mesmo que estivesse vazia. A sensação de vazio permanentemente exigia-lhe procurar algo…o que apenas misturava, confundia e atrapalhava tudo. Olhava para tudo mas não enxergava nada. Era como se os olhos estivessem apontados para dentro da sua cabeça, onde estavam os problemas mas também as soluções.

Afastada desde criança da vida cristã, esta jovem teria sido baptizada por tradição não deixando contudo, passados todos esses anos, de ouvir no seu coração a voz da sua infância: “Terás que desabrochar a semente de fé que trazes contigo…”

Fez várias tentativas, frequentando com alguma assiduidade a Igreja de Santa Engrácia, da Graça e de São Vicente de Fora mas as práticas cristãs, que não as entendia, não lhe transmitiam nada e tão pouco tinham sentido.

Pe. Correia da Cunha tomava posse da Paróquia de São Vicente de Fora, no dia 1 de Novembro de 1960. Na igreja havia uma enchente de amigos e paroquianos para se associarem à Solene Celebração Eucarística, onde participaram também vários concelebrantes. A liturgia escolhida por Pe. Correia da Cunha tornou esse louvor com tons de uma grande festa cristã. Chamada por Deus (?), a jovem encontrava-se presente casualmente neste evento.

Nesse dia compreendeu cada palavra de frontalidade, que energicamente Pe. Correia da Cunha pronunciava no decurso da sua brilhante homília, e encontrou o que realmente procurava. Tudo era diferente. Este novo registo na sua vida carregou-o silenciosamente no seu coração.

O Padre Correia da Cunha costumava afirmar que ninguém consegue Amar o que não conhece ou não entende.

A partir daí teve um sentido bastante profundo para iniciar um novo percurso na sua vida de iniciação cristã.

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Após esta Eucaristia de louvor, a jovem passou a participar diariamente nas Celebrações presididas por Pe. Correia da Cunha. Passadas algumas semanas, impelida interiormente, a jovem sentiu uma vontade de contar toda a sua vida e os seus longos e tão pesados anos a Pe. Correia da Cunha. O Reverendo reconfortou-a, acarinhando-a e prometendo-lhe tirá-la da sua vida tranquila, para a mergulhar nas agitadas preocupações dos outros.

Sobre a sua orientação, o Padre Correia da Cunha encarregou-a da seguinte missão: ir com muita humildade, numa atitude de serviço, ao encontro dos pobres despojados de todos os bens essenciais e que lutam diariamente pela sobrevivência, que vivem ocultamente, espalhados pelos recantos e ruelas da nossa paróquia.


Fortalecida pela confiança do seu ‘’amado’’ e admirado Pe. Correia da Cunha, partiu em missão, ao encontro desses seus irmãos necessitados. Mais do nunca e sobretudo, tendo tanto a fazer e a pensar, começou-se a mergulhar nos problemas dos outros que eram tantos e tão duros, que se esqueceu dos seus próprios problemas. Começava a Viver.

Esta sua nova missão estava expandir a sua realização de uma forma plena e pelo o dom da fé começava a enxergar o essencial da Vontade Divina que comunicava com o seu íntimo. Deus ama-nos verdadeiramente com um coração de Pai.

Quando já se movimentava nestes terrenos da pobreza, num acto de entrega total e após ter já efectuado um exaustivo levantamento das suas necessidades, Pe. Correia da Cunha chamou-a e entregou-lhe um maço com 200 notas do Banco de Portugal no valor facial de 20 escudos (estamos em 1961/62), encarregando-a de efectuar a sua distribuição de acordo com o seu critério e com total liberdade. Perante esta nova responsabilidade e novo desafio de Pe. Correia da Cunha, compreendeu claramente que devia oferecer a sua vida pelos mais desfavorecidos que a enchiam de muita felicidade e alegria.

Crianças pobres na Paróquia de São Vicente de Fora

Muitas vezes dizia não sentir nenhum sofrimento perante a desgraça de tantos irmãos que passavam dificuldades indescritíveis. Nos meados do século passado, infelizmente, havia muita miséria.

João Paulo, dizia-me ela com suprema confidência da sua experiência e sabedoria: “tudo devo ao nosso saudoso e amado Padre Cunha. O que me pode faltar no capítulo do religioso está na minha abnegação que me une fortemente a Deus. Há quarenta e tal anos, essa descoberta foi feita por esse grande sacerdote e um grande amigo que não consigo esquecer. Nada mais justo que uma Homenagem a PE Correia da Cunha, continuo apaixonada pelos seus frontais, claros, simples e singelos ensinamentos”.

Esqueceu sim os seus ‘’pequenos problemas ‘’ para se entregar aos grandes problemas dos outros. Continuou ligada activamente por muitos e longos anos à Conferência de São Vicente de Paulo da Paróquia de São Vicente de Fora.

O padre Correia da Cunha sempre teve uma resposta e uma solução para as necessidades de cada um. Era para além de um grande pastor espiritual também um bom psicólogo.

Finalmente a pedido desta “jovem”, não posso deixar de prestar uma merecida Homenagem à bondosa Senhora D. Emília Caldeira Prieto Bourbon, que sempre se evidenciou no anúncio do bem. Foi presidente da Conferência Feminina de São Vicente de Paulo na Paróquia de São Vicente de Fora que tão bons serviços prestou aos mais necessitados. Senhora D. Emília Caldeira entregou-se de alma e coração a esta grande obra de humanidade a que aplicou toda a sua atenção e brilhante inteligência. Era uma protectora de Pe. Correia da Cunha, tratando-o com enorme delicadeza e contribuindo financeiramente para a prosperidade das suas grandes obras caritativas na Paróquia de São Vicente de Fora.





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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A GERAÇÃO DE 60 DE S.VICENTE E A PONTE SOBRE O TEJO

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Uma ponte para a eternidade.


As primeiras ideias de uma ponte a ligar as duas margens do Tejo surgem ainda no século XIX mas, só em Novembro de 1962, finalmente começam os trabalhos de construção da ponte sobre o Tejo. Com o nome oficial de Ponte Salazar, esplendor e circunstância foi construída seis meses antes do prazo previsto. Após o 25 de Abril de 1974, recebe o nome de ponte 25 de Abril para assinalar a data da Revolução dos Cravos, nome que se mantém até aos dias de hoje.

A ponte foi inaugurada solenemente em 6 de Agosto 1966. As festividades começaram com uma missa, celebrada por sua Eminência D.Manuel II Gonçalves Cerejeira-Cardeal Patriarca de Lisboa, em memória dos operários falecidos durante a construção, seguindo-se uma cerimónia de inauguração na praça da portagem, e um almoço de gala em Montes Claros.

O acto incluiu ainda uma recepção nos Paços do Concelho e uma deslumbrante exibição de fogo de artifício no rio Tejo.

A capital do país estava em festa, os jovens da Paróquia de São Vicente de Fora não se podiam divorciar deste grande acontecimento. Sempre que haviam eventos de realce na nossa cidade, Pe. Correia da Cunha convidava os jovens para os assinalarem com o dobrar dos seculares sinos de S. Vicente de Fora. Eram uma alegria…os nossos ''concertos'' de carrilhão.




A igreja erigida num dos morros ocidentais beneficiava de uma óptima situação geográfica, com o rio Tejo que preenche um papel fundamental no cenário lisboeta. No alto das lindas torres tínhamos a oportunidade de observar toda cidade. A vista propiciava sensações únicas, onde a contemplação, o relaxamento e o deslumbramento se misturavam, proporcionando um sentimento de conforto indescritível. A amálgama de ruas, travessas e becos de Alfama, de recorte medieval, compunham o cenário, com o rio Tejo a servir de pano de fundo, brindando-nos com uma agradável brisa.




Os jovens de 1966, com os cabelos desalinhados, tinham os olhos no horizonte não querendo perder pitada da grande festa de inauguração da ponte para a eternidade.

Aproveito para publicar fotos dessa data histórica da cidade de Lisboa, registada pelos jovens de São Vicente de Fora.




Subir às Torres da Igreja de São Vicente de Fora era uma Festa.
Aproveitavam-se estes momentos raros, proporcionados pelo Pe. Correia da Cunha, para realizarmos um lanche, no topo do edifício renascentista, marcado de apetitosas sandes e suculentos bolos… e como complemento a quem saciava a gula, os olhos também comiam destas deslumbrantes vistas panorâmicas. O último debruçar era sobre a vista imponente sobre o Castelo de S. Jorge, desviando os olhos em direcção a sul desvendava-se o Seixal, Almada e Cacilhas.

A esta geração dos anos 60, que detenham documentos e fotos destes belos tempos de São Vicente de Fora, pedimos que os partilhem. Esperamos pela vossa cooperação.
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sábado, 21 de fevereiro de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E A CATEQUESE II

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Vila Viçosa - Princesa do Alentejo



No final de cada ano catequético, Pe. Correia da Cunha realizava um passeio com os seus catequistas. Naquele ano, Padre Correia da Cunha decidiu, e julgo em boa hora, irem de viagem até Vila Viçosa – Santuário de Nossa Senhora da Conceição, a qual o Rei Restaurador do Reino, D. João IV, em 1646, escolheu como Padroeira de Portugal. Ele lhe dedicou o Reino. O seu solar era, por isso, um lugar de peregrinação e de muita devoção mariana.
Bem cedo, estrada fora, atravessando o Alentejo, aproveitava-se esse tempo para compartilhar experiências entre umas boas risadas. O ambiente era são e de fraterno convívio. E neste ambiente, lá se chegava a Vila Viçosa, Princesa do Alentejo e terra que viu nascer Florbela Espanca, ilustre nome das letras nacionais.




Grupo de Catequistas de S. Vicente de Fora com Padre Correia da Cunha


Já no interior da igreja, depois de uma SOLENE SAUDAÇÃO à Virgem Santa Maria Nossa Senhora da Conceição, Padre Correia da Cunha mostrava as belezas do templo: Remodelado após o terramoto de 1755, o templo sofreu profundas alterações nos fins do século XIX, assumindo o seu exterior as linhas sóbrias que ainda hoje conserva.

O interior, de três naves, apoiadas em fortes colunas dóricas, é amplo e acolhedor.

Do seu inventário artístico fazem parte, além do precioso conjunto de azulejos azuis e amarelos e de bom desenho do século XVII, peças de raro valor artístico como o precioso sacrário do século XVII da Capela do Santíssimo, a relíquia do Sagrado Espinho da Coroa de Cristo, as tribunas e mesas das confrarias e, ainda, valiosas jóias do tesouro.

Na capela-mor, com pinturas a óleo e excelente talha dourada, venera-se a imagem de Nossa Senhora da Conceição, cuja escultura primitiva se atribui ao século XIV, protegida por grade de rótulas de prata branca. Numa das paredes laterais expõe-se a bandeira portuguesa da vitória de Montes Claros (1665), oferecida pelo Marquês de Marialva.




Grupo de Catequistas no Passeio a Vila Viçosa em 31 Julho 1966



A recompensa vinha depois com o almoço de confraternização entre todos, no interior das muralhas do castelo. Eram bons amigos e excelentes companheiros de viagem, Pe Correia da Cunha tudo fazia para que os momentos, em que estava reunido o grupo, fossem momentos de muita união, partilha e tranquilidade. Ainda hoje, todos os recordam como boas e agradáveis experiências das suas vidas. Depois de partirem com destino ao Paço Ducal de Vila Viçosa, um edifício imponente com uma monumental fachada Maneirista de dois registos, um de ordem toscana e outro jónico, à qual foi acrescentada, em 1610 um terceiro piso, Pe. Correia da Cunha aproveitava para fazer uma resenha histórica sobre tão magnífico edifício.

Nos primeiros anos do século XVII, o palácio recebia um erudito programa decorativo, considerado “um dos mais ricos acervos de pintura mural de fresco e têmpera que se encontra na paisagem artística portuguesa”. Este conjunto de pinturas, “maioritariamente fiel aos cânones estéticos do Maneirismo italianizante” estende-se pelas alas novas do paço ducal, nomeadamente a Galeria de D. Catarina, e os tectos das salas de Medusa e de David. Estas composições foram executadas entre 1600 e 1640 por diferentes pintores. A Tomás Luís, afamado pintor lisboeta, são atribuídos os tectos da Sala da Medusa e a gallerietta da duquesa D. Catarina. José de Avelar Rebelo pintaria os tectos da Câmara da Música do paço, uma obra já patrocinada pelo duque D. João, futuro rei D. João IV. Depois da subida de D. João IV ao trono, o Paço de Vila Viçosa deixaria der ser a residência oficial dos Duques de Bragança. No reinado de D. João V, em 1716, o monarca ordenou novas obras no palácio, só terminadas no tempo de D. José. O palácio voltaria a ser remodelado no final do século XIX, sendo então um dos locais preferidos pela Família Real para as suas temporadas fora da capital do reino.

O objectivo principal destas viagens, com Pe, Correia da Cunha, era dar a conhecer o máximo possível do lugar, a sua cultura e seus principais pontos de interesse artístico bem com consolidar uma fraterna amizade que jorrava dum amigo comum Jesus Cristo. Viajar com Padre Correia da Cunha, em grupo de verdadeiro e sincero companheirismo, era maravilhoso! Sob o céu azul e o Sol que se despediam, metiam-se de novo à estrada, muito felizes e bem dispostos. Em Lisboa, o nosso Patrono São Vicente esperava-los. São estes momentos que nos transportam no tempo e nos deixam um sorriso nos lábios. Eram jovens e alimentavam ilusões de transformar o mundo.
Com as suas contribuições sobre essas vivências podem ajudar a melhorar o mundo de todos aqueles que viveram esses agradáveis momentos na companhia de Pe. Correia da Cunha. Ajuda-nos enviando documentação.








Continua…







Fotos: cedidas gentilmente pelo Catequista Rogério Martins Simões




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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E OS CORVOS

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Lembro-me do Vicente e do Valério…





O Padre Correia da Cunha conservou durante longos anos, nos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora, dois bonitos corvos negros, os quais eram um encanto de pitoresco alfacinha e símbolos da nau da heráldica olisiponense, como tão bem sabemos.

Estes corvos, que se passeavam com movimentos lestos e com o seus olhares sempre em alerta pelos claustros, foram ‘’ baptizados’’ pelo Padre Correia da Cunha com os nomes de: VALÉRIO E VICENTE.










Não sei bem a origem desta história pitoresca!... Sei contudo que dois corvos vieram do Cabo de Sagres, empoleirados na nau que trouxe o corpo de São Vicente. Na noite de 16 de Novembro de 1173, a nau foi ancorar junto à Igreja de Santa Justa e Rufina onde o corpo do Santo fora recolhido por D.Múnio, prior. Os corvos permaneceram no telhado.

Depois fez-se uma grande procissão para a Sé, e os corvos seguiram no cortejo, ficando na Sé por muitos e longos anos e permanecendo para sempre nas Armas do Brasão da nossa Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa.

O Valério e  o Vicente eram provavelmente descendentes destes tão notáveis corvos, tornando-se por isso comensais de Padre Correia da Cunha, que os acolhia com um tratamento diferenciado e de grande calor humano…

Eram de uma simplicidade cândida religiosa e poética da Lisboa dos anos cinquenta e sessenta.

Em São Vicente de Fora eram ‘’ venerados ‘’ e todos lhe queríamos muito bem!


Os corvos estão ligados à tradição de São Vicente mas também às naus, a toda a história da marinharia lusa. O Padre Correia da  Cunha era um marinheiro e vivia no mosteiro de São Vicente.

Será que  o Padre Correia da Cunha quereria colocar nos roteiros de Lisboa uma peregrinação aos seus reverenciados corvos de São Vicente?


Esta imagem forte tem alguma ingenuidade e beleza, nenhuma cidade do mundo possui coisa assim. No silêncio sepulcral e serenidade do mosteiro, não grasnavam os corvos do Padre Correia da Cunha mas ‘’falavam’’ ambos muito com ele…

…Até que o Vicente veria morrer afogado, na sua talha de água, o seu companheiro  Valério, permanecendo por muitos anos solitário e triste. Valério, ao contrário de Vicente, veio a morrer num sono reparador no chão do claustro renascença.

Continuam representados nos pórticos  da cidade, em pinturas, em preciosas cerâmicas de azulejos, em frontais opulentos e na memória dos que os acarinharam durante a sua longa estadia no Mosteiro de São Vicente de Fora.

Hoje lanço aqui um desafio: Quem tem um verdadeiro apontamento sobre esta SINGULAR HISTÓRIA, ou uma lembrança fresca do tempo dos corvos Vicente e Valério, afamados hospedes no Mosteiro de São Vicente de Fora?

Foto: Padre Correia da Cunha e o corvo Vicente no claustro de São Vicente de Fora


















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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

ALA DOS AMIGOS DE PE. CORREIA DA CUNHA

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Os amigos que partiram…









IN MEMORIAM



CASIMIRO NUNES FERREIRA



1928-2009





Casimiro Nunes Ferreira (1928-2009), natural de Monforte da Beira – Castelo Branco, nasceu no dia 8 de Maio de 1928. Era um homem simples e bom. Frequentou o seminário e chegou a ser colega de curso do Reverendíssimo Sr. D. António Marcelino, bispo emérito da Diocese de Aveiro.

Foi um bom esposo, um bom pai, um bom paroquiano e um cristão exemplar. Morreu depois de algumas semanas de doença grave.

Casimiro Nunes Ferreira, pela sua simplicidade e dedicação, tornava-se de imediato querido e estimado por quem o conhecesse ou lidasse com ele. Foi catequista na Paróquia de São Vicente de Fora e membro do Conselho Paroquial presidido pelo Padre José Correia da Cunha. Membro activo da Conferência de São Vicente de Paulo.

As celebrações do seu funeral, realizaram-se hoje dia 18 de Fevereiro, na Igreja Paroquial da Graça. Foram presididas pelo Reverendo Padre António Brás Carreto, antigo pároco de São Vicente de Fora e contou com a presença do concelebrante Padre João Beato, assim como do nosso Diácono Jorge Campos.

Profundamente sensível, generoso e humano, a maior parte da sua actividade na nossa paróquia dedicou-a ao apostolado da caridade (CVSVP). Para muitos de nós ficará também a recordação da sua dedicação ao serviço da liturgia.

Casimiro Ferreira foi meu Catequista do 4º Volume da Catequese no grupo cujo orago era Santo António de Lisboa, seu protector. Sabia despertar em cada um de nós aquilo que havia de bom.

Celebrou suas Bodas de Ouro em 2003 a 20 de Outubro; Casimiro Nunes Ferreira e Maria Helena da Conceição Ferreira. A comemoração realizou-se na Igreja Paroquial "Senhor dos Passos" da Graça, onde também foi realizado o seu casamento.

O nosso amigo foi ao encontro de Deus, ficando à nossa espera no céu. E, sem dúvida, que ele lá estará com seu pastor e amigo de tantos anos; Padre Correia da Cunha.

São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixando em todos muitas saudades.

RECEBEI, SENHOR, NA GLÓRIA DO VOSSO REINO O NOSSO IRMÃO.





























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