quinta-feira, 11 de março de 2010

PE. CORREIA DA CUNHA E O ORGÃO IBÉRICO

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''A nossa igreja enche-nos os olhos... O nosso majestoso órgão eleva-nos a alma e extasia os nossos ouvidos. ''PCC





A igreja de São Vicente de Fora tem um monumental órgão, que se vê através do alto baldaquino, e que muito deslumbrava Padre Correia da Cunha. A bem da verdade deve ser dito que ele possuía um verdadeiro amor e uma encantadora atracção às harmonias desse artístico e precioso órgão ibérico.



Entre o fim do século XVII e meados do XIX, despontou na Europa uma sumptuosa colecção de órgãos de igreja que, até hoje, se distingue pelas dimensões monumentais, pela riqueza de ornamentos e por um som de nitidez incomparável.



De valor inestimável para a arte sacra e a música erudita, tendo sido uma das principais ferramentas de trabalho de muitos compositores, um desses órgãos é o da Igreja de São Vicente de Fora. Ao fundo do templo, e ao alto, assente sobre uma robusta e elegantíssima pianha em conchas de boa escultura doirada, e de exagerado entalhe recobertos de ouro, ostenta-se o famoso órgão de São Vicente de Fora, o mais belo de Lisboa e certamente da Península Ibérica. A construção deste magnifico órgão é do ano 1762, sete anos após o grande terramoto de Lisboa (que como sabemos provocou a queda da imensa cúpula da igreja filipina) e é da autoria do organeiro espanhol João Fontanes de Maqueixa, que , morreria em Mafra no ano 1770.





Este órgão ibérico é o maior de Portugal, obra do século XVIII, doação do Rei D. João V- o Magnânimo, segundo se crê.



‘’Ibérico é um órgão de características regionais relativas ao ideário estético da escola de organaria ibérica, cultivado em Portugal e Espanha desde o séc. XVI. Estes instrumentos possuem apenas um só manual (embora existam instrumentos com dois, mas são raros) que se encontra dividido em duas secções (tiples e baixos). O número de teclas é inferior ao dos órgãos modernos, cifrando-se muitas vezes em 45, 47 ou 54 notas. As trombetas dispostas na horizontal são a principal característica do órgão ibérico.’’


O órgão ibérico de São Vicente de Fora possui 2 manuais e 60 meios-registos, num total de 3.115 tubos. Tem interiormente três andares, e na sua beleza decorativa, avista-se todo o templo através do baldaquino rasgado, que desafoga o quadro de uma equilibrada majestade cénica.






Nenhum instrumento produz, sozinho, acordes tão ricos quanto os órgãos barrocos. O seu princípio de funcionamento é o de um instrumento de sopro, que no lugar do pulmão humano, recorre a foles que enviam o ar para dezenas de tubos que emitem o som. É como se fosse um conjunto de flautas gigantes, com até 10 metros de altura. O que distingue os modelos barrocos dos restantes, é que este permite escutar simultaneamente e com uma nitidez incrível um grande número de acordes. O seu mecanismo garante que o ar chega imediatamente aos tubos quando o teclado é accionado (processo que leva até meio segundo nos demais modelos – suficiente para a perda de limpidez do som). Estes órgãos também se diferenciam pela concentração de finíssimos tubos, de onde saem tons de um agudo extremo.
A partir de meados do século XVIII, o órgão entra num período de esquecimento devido à chegada do período clássico e que é, em grande medida, uma negação dos princípios estéticos do barroco. Com estes novos ventos, o órgão deixa de ter grande interesse enquanto instrumento solístico e praticamente deixa-se de compor repertório que tenha em vista a utilização plena das capacidades do órgão.














Padre Correia da Cunha muito lutou e se envolveu para que se procedesse ao restauro do seu grande tesouro, que era aquele órgão barroco. Lembro-me de no tempo de Padre Correia da Cunha se ter levado a efeito o restauro deste imponente órgão ibérico, pelo organeiro Sampayo, e de grandes reparações na sala dos foles.








Padre Correia da Cunha era um apaixonado pelo seu orgão barroco e promovia grandes concertos com organistas que vinham de toda a Europa para conhecerem este maravilhoso órgão.


Em 1994, no âmbito de LISBOA, capital europeia da cultura, o órgão voltou a sofrer um grande restauro por Claude e Christine Rainolter, de França, uma vez que se trata de um dos melhores exemplares da organaria portuguesa do século XVIII.






Fotos : cedidas por Robert Descombes
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segunda-feira, 1 de março de 2010

PE. CORREIA DA CUNHA-VIVER EM COMUNIDADE

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Criar novas memórias, novos sorrisos, novos momentos, novas lembranças.




Desde muito novo ouvi a Padre Correia da Cunha que para se viver em comunidade tínhamos que esforçar-nos em superar muitos dos nossos egoísmos e fortalecer a imensa capacidade, que havia no interior de cada um de nós para a partilha e solidariedade…

Não era difícil viver em comunidade, em São Vicente de Fora, quando existia Amor e confiança. Quando amamos e confiamos nos outros, somos capazes de fazer grandes coisas …

Todos sabíamos que os conflitos eram inevitáveis. Eles existiam também na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, mas contribuíam para nos ajudarem a crescer… Só junto com os outros é que aprendemos a falar, a construir ideias e a comunicar. Todos somos aquilo que somos devido ao grupo onde nos integramos. Ter bons amigos era vital para os nossos relacionamentos e desenvolvimento. Há um ditado popular que traduz de uma forma muito simples esta ideia: “Diz-me com quem andas e eu dir-te-ei quem és.”


A paróquia de São Vicente de Fora era o lugar onde podíamos encontrar os nossos melhores amigos. Porquê? Era por iniciativa e chamamento do próprio Cristo que integrávamos aquela comunidade.







Padre Correia da Cunha socorria-se muito da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, do Capitulo 12, que referia: “Que somos um corpo com muitos membros. Todos eles são importantes. Todos dependem uns dos outros. Mas, não são os membros, tais como: mãos, pés, coração, olhos etc., que escolhem o lugar ou os outros membros. Cristo colocou quem quis ao nosso lado e serão essas pessoas que vos ajudarão a crescer e a formar a vossa indulgência.” Na Comunidade de São Vicente todos éramos muito importantes independente das tarefas que cada um desempenhasse… Padre Correia gostava que nos sentíssemos importantes. Era a sua forma discreta de elogio, pois sem ele não poderia haver uma visão positiva e dinâmica.

Jesus Cristo era o centro e o motivo que nos fazia viver felizes e em comunidade. Havia pluralidade de tarefas, mas os objectivos eram comuns: ajudar na construção e expansão do Reino.

Os valores indicados por Padre Correia da Cunha eram os da compreensão, perdão, inter-ajuda… as tensões para ele eram meios naturais de salutar crescimento. Com a sua sábia intervenção, todos os conflitos eram resolvidos numa duradoura e fecunda reconciliação.

Padre Correia da Cunha não era casamenteiro, mas ajudou, assistiu e celebrou imensos matrimónios, cujos amores brotaram daquelas puras amizades cimentadas pelos grandes valores cristãos apreendidos e vividos na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.


Quando escrevo este post não tenho a intenção de matar saudades e falar de memórias. Quero apenas reavivar a memória de muitos que tiveram como guia e inspirador Padre Correia da Cunha e nutriam por ele sentimentos de grande e fraternal amizade. Hoje poderiam a ajudar a construir novos momentos de crescimento e novos momentos de felicidade, gerando novos sorrisos; dando testemunho do que era o companheirismo na Paróquia de São Vicente de Fora. Junte-se a nós!


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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CARLOS BARRADAS, SAUDADES!

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‘’SAUDADE É AMAR UM PASSADO QUE AINDA NÃO PASSOU…’’


Ao contemplar esta foto da Direcção da Catequese Paroquial de São Vicente de Fora, dos anos 60, recordo com muito carinho esta boa gente que tanta influência teve na nossa educação cristã e tanto contribuiu para a nossa formação como homens. Sinto que tenho saudades. E quem não as tem? Saudade – palavra bem portuguesa e de tão nobres e profundos sentimentos.

Reconheço que todas as coisas passam, mas houve momentos nas nossas vidas que deixaram marcas e que permanecerão para sempre. A existência deste blogue, de homenagem a Padre José Correia da Cunha, é bem o espelho das vivências que nos marcaram e ficaram indeléveis, não as deveremos ocultar pois elas próprias rasgam o véu das nossas almas e deixam transbordar tudo aquilo que ela tem de melhor…

É bom às vezes experimentar as saudades. É bom sentirmos saudades, quando elas são o alimento que contínua a nutrir uma calorosa e honesta amizade.

Aprendi a pensar e a compreender que também é uma boa forma de recordar os bons momentos que partilhámos e vivemos na Comunidade de São Vicente de Fora com Carlos dos Anjos Barradas, no dia que passam dois anos sobre o seu chamamento para junto do PAI.

Queremos agradecer a Carlos Barradas, que foi um grande apóstolo, a sua infinita entrega à sua Paróquia de São Vicente de Fora. Era um incansável servidor do seu grande amigo Padre Correia da Cunha.

Escrevo este post sob a emoção de falar de uma pessoa que é emblemática da história da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. Como Padre Correia da Cunha era determinado, íntegro, sério, honrado e muito humilde.

Padre Correia da Cunha confiou a Carlos Barradas, Anita Themudo Barata e Teresa Taledo (ver foto), a Catequese Paroquial como seus fortes aliados nessa nobre missão de evangelização: ‘’IDE E ENSINAI…’’

Carlos Barradas, que nesta data quero recordar, era um homem profundamente humano mas com uma elevada espiritualidade, vivendo com grande simplicidade no serviço de entrega às várias missões que desempenhou com toda a sua lealdade na sua amada paróquia, visando sempre o serviço à pessoa humana.

Carlos Barradas deixou em todos que com ele conviveram um sentimento de saudade e agradecimento. Ele esteve sempre presente nos momentos mais marcantes da vida de várias gerações de São Vicente de Fora, quando era pároco Padre Correia da Cunha.


Termino lembrando Pablo Neruda : ‘’ SAUDADE É AMAR UM PASSADO QUE AINDA NÃO PASSOU E INSISTIR EM RESISTIR UM FUTURO QUE SE APROXIMA. ‘‘







Os amigos que partiram…

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IN MEMORIAM

CARLOS DOS ANJOS BARRADAS

1926-2008






Carlos dos Anjos Barradas (1926-2008), natural de Lisboa, freguesia de Santo Estêvão – Alfama, nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1926.

Ao longo da sua caminhada, Deus proporcionou-lhe assistir e participar nos mais admiráveis acontecimentos da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, com o seu amigo próximo Padre Correia da Cunha.


Sempre procurou servir com a maior dedicação e lealdade a sua Comunidade Paroquial. Modesto, com uma clareza da Verdade no pensamento, impondo à sua acção o lema de conduta, terá sido um daqueles que possuía na alma o sentido da generosa e genuína voluntariedade.

Bastava-lhe como única riqueza: o consolo moral e espiritual da sua total entrega aquilo que mais amava – servir a sua comunidade paroquial e os muitos fraternos amigos que ali preservava.


A actividade de Carlos Barradas, na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, ajustou-se perfeitamente ao seu temperamento, integrava-se no seu ser e formava um homem completo e estruturalmente sólido de carácter e de uma bondade inexcedível. Com uma formação sólida de ex-seminarista, foi um grande educador da fé, como catequista e presidente da Catequese Paroquial nos anos sessenta e que retomaria após o falecimento da saudosa ANITA THEMUDO BARATA em 1982. A sua vocação inspiradora para servir os mais desprotegidos levou a que assumisse por longos anos a presidência da Conferência de São Vicente de Paulo da Paróquia de São Vicente de Fora. Como cristão empenhado, prestou relevantes serviços na preparação para o matrimónio (CPM) dos jovens noivos da sua comunidade…

A capacidade artística de Carlos Anjos Barradas levava a que Pe. Correia da Cunha não resistisse a pedir-lhe o arranjo dos placares e dos diplomas da Primeira Comunhão, Profissão de Fé e Crisma, com a sua letra tipo “gótica”, a que ninguém ficava indiferente dadas as frequentes exclamações de beleza rara.


Recordando Carlos Barradas, como membro do Conselho Paroquial na sua época, quero testemunhar a simpatia que granjeava a sua colaboração e o seu sentido de responsabilidade no Conselho Paroquial. O carinhoso interesse que manifestava nas suas argumentações eram reveladoras do empenhamento e atenção que lhe mereciam todas as actividades paroquiais. Carlos Barradas deu sempre a medida do seu grande valor, como cristão empenhado e actualizado, atento aos grandes problemas do seu tempo.


Pela sua constância e vontade de bem servir a Comunidade Paroquial de São Vicente, é justo prestar esta homenagem e exprimir em nome de todos os afectuosos amigos um agradecimento à dedicação de longos anos de trabalho de Carlos Barradas à sua paróquia.

Com diria Santo Agostinho: “ Aquele que tem a caridade no coração, tem sempre alguma coisa a dar.” É para mim um enorme prazer escrever estas simples palavras para falar de um homem de grande verticalidade e dignidade. Viveu fervorosamente com elevada paixão. O seu grande fascínio de servir a Deus e a Igreja, num espírito de grande afectividade e amizade com todos os membros de todos os movimentos da paróquia de São Vicente de Fora.


No dia 19 de Fevereiro de 2008, foi repousar na Glória de Deus. Hoje junto do PAI e de seu amigo e pastor Pe. Correia da Cunha, continua a interceder por todos nós que fomos seus amigos.

São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixou em todos muitas saudades.

RECEBEI, SENHOR, NA GLÓRIA DO VOSSO REINO O NOSSO IRMÃO.


Publicado no dia 9 de Maio 2009




















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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

UM ANO SEM CASIMIRO FEREIRA

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Santo António de Lisboa um grande pregador do Evangelho e um intercessor poderoso. ...

17 Fevereiro 2009 – 17 Fevereiro 2010




Hoje, dia 17 de Fevereiro, comemoramos um ano de falecimento do nosso querido e estimado amigo Casimiro Nunes Ferreira.

Foram muitos anos de presença na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. Ali deixou muitas marcas no trabalho pastoral, sobretudo nas actividades caritativas e doutrinais, como zeloso servidor da sua paróquia na companhia do seu grande amigo e Pastor Padre Correia da Cunha. Evoco hoje a sua dedicação e o seu caminho de simplicidade… Para quem conviveu com Casimiro Ferreira, estou seguro que teve a felicidade de ter vivido momentos gratificantes e abençoados e ter podido contar com tão grande amigo.

Ao escrever este post num ambiente de silêncio, fico a pensar: é difícil acreditar que um ano já se passou desde a sua partida do nosso convívio. Tudo aconteceu muito rápido. Soube viver a vida este homem de grandes virtudes, daí ter construído tantas amizades e admiradores…

Legou um enorme testemunho de grande devoção ao seu Santo Protector: Santo António de Lisboa.

Queremos agradecer-lhe os exemplos de vida e fé, mesmo não estando fisicamente entre nós, continua merecedor de todas as nossas orações e homenagens de gratidão.

Casimiro, hoje, junto de São Vicente e do seu protector Santo António de Lisboa, continuará a intensificar em cada um de nós, que somos seus amigos, uma forte amizade.




Os amigos que partiram….
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IN MEMORIAM

CASIMIRO NUNES FERREIRA

1928-2009



Casimiro Nunes Ferreira (1928-2009), natural de Monforte da Beira – Castelo Branco, nasceu no dia 8 de Maio de 1928. Era um homem simples e bom. Frequentou o seminário e chegou a ser colega de curso do Reverendíssimo Sr. D. António Marcelino, bispo emérito da Diocese de Aveiro.

Foi um bom esposo, um bom pai, um bom paroquiano e um cristão exemplar. Morreu depois de algumas semanas de doença grave.

Casimiro Nunes Ferreira, pela sua simplicidade e dedicação, tornava-se de imediato querido e estimado por quem o conhecesse ou lidasse com ele. Foi catequista na Paróquia de São Vicente de Fora e membro do Conselho Paroquial presidido pelo Padre José Correia da Cunha. Membro activo da Conferência de São Vicente de Paulo.

As celebrações do seu funeral, realizaram-se hoje dia 18 de Fevereiro, na Igreja Paroquial da Graça. Foram presididas pelo Reverendo Padre António Carreto, antigo pároco de São Vicente de Fora e contou com a presença do concelebrante Padre João Beato, assim como do nosso Diácono Jorge Campos.

Profundamente sensível, generoso e humano, a maior parte da sua actividade na nossa paróquia dedicou-a ao apostolado da caridade (CVSVP). Para muitos de nós ficará também a recordação da sua dedicação ao serviço da liturgia.

Casimiro Ferreira foi meu Catequista do 4º Volume da Catequese no grupo cujo orago era Santo António de Lisboa, seu protector. Sabia despertar em cada um de nós aquilo que havia de bom.

Celebrou suas Bodas de Ouro em 2003 a 20 de Outubro; Casimiro Nunes Ferreira e Maria Helena da Conceição Ferreira. A comemoração realizou-se na Igreja Paroquial "Senhor dos Passos" da Graça, onde também foi realizado o seu casamento.

O nosso amigo foi ao encontro de Deus, ficando à nossa espera no céu. E, sem dúvida, que ele lá estará com seu pastor e amigo de tantos anos; Padre Correia da Cunha.

São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixando em todos muitas saudades.

RECEBEI, SENHOR, NA GLÓRIA DO VOSSO REINO O NOSSO IRMÃO.


Publicado no dia 18 de Fevereiro 2009
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ROBERT DESCOMBES – TESTEMUNHO III

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ET LE TEMPS N'EST PLUS - DIEU MERCI POUR SES QUALITÉS ET BRAVOURE. PCC.










Robert Descombes é titular e conservador do órgão d'Orgelet, um dos mais antigos instrumentos de Franche Comte, e um dos poucos instrumentos do século XVII, existente em França. Como tal, é uma das grandes jóias da sua cidade.

Pela sua enorme reputação, que vai para além das fronteiras, já recebeu visitas regulares de organistas de todo o mundo. Os organistas são pessoas de grandes e eternas paixões. Este grande organista titular e grande apaixonado pelo maravilhoso órgão ibérico de São Vicente de Fora, enviou-nos um testemunho comovente sobre a sua grande e profunda amizade com o Padre Correia da Cunha, que passo a torná-lo público.









Robert Descombes


Foi uma enorme alegria ter encontrado o Blogue da Justa Homenagem a Padre José Correia da Cunha. Fui um seu grande amigo. Sou organista em França. Travei conhecimento com ele no ano de 1967, quando fui a Portugal para descobrir o extraordinário órgão da Igreja de São Vicente de Fora, na cidade de Lisboa. Passei ir a Lisboa cada ano, especialmente pelas grandes festas litúrgicas: Natal e Páscoa.

O Padre José Correia da Cunha sempre referia que eu era o organista itinerante da Paróquia de São Vicente de Fora, pois à altura não havia organista residente.

Lembro com muita emoção todas as pessoas que ali conheci: a Tia Alice (1906-?), o Senhor Abel Varela (1925-2013) e a muita juventude que frequentava a Comunidade Paroquial, assim como a boa gente desse típico bairro de Lisboa.

Aquela época foi uma das mais felizes da minha vida. Era muito jovem e contava com apenas 25 anos de idade, mas nunca esquecerei o indescritível carácter tão forte das cerimónias celebradas pelo saudoso Padre José Correia da Cunha, especialmente a Vigília Pascal (Sábado-Santo), com o imenso fogo nas escadarias da igreja. Sinceramente, sinto uma grande e profunda saudade…

Recordo aqui ainda o seu carro (mini-cooper), que o Padre José Correia da Cunha conduzia com muita velocidade pelas estreitas ruelas de Alfama…

Lembro-me das casas de fado em Alfama, onde ele me levava e onde ele também cantava, com fervor, um dos seus fados preferidos: ‘’ Igreja de Santo Estevão’’. Ainda me vêm as lágrimas aos olhos quando penso naqueles belos momentos. Fui seu hóspede assíduo até ao ano de 1975.

Desde esse ano, deixei de contactar pessoalmente com o Padre Correia da Cunha e só mais tarde soube da sua morte… foi uma imensa tristeza. Sabia que ele estava muito doente.

Quero também aqui trazer à memória o Padre José Diogo d’Orey Mousinho de Albuquerque de Mascarenhas Gaivão (1934-1980), que era coadjutor em São Vicente de Fora. Nunca mais voltei a Lisboa!!! Tenho 63 anos, sou professor aposentado e desejo sinceramente voltar a Lisboa, sobretudo a São Vicente de Fora para reviver algumas das pessoas que ali conheci.

Deixo aqui o meu e-mail. Termino dizendo que gosto muito de Portugal e da língua portuguesa… Foi uma grande alegria ter encontrado este seu maravilhoso Blogue e assim poder transmitir este meu sincero testemunho sobre a grande amizade que mantinha com esse Saudoso e Querido Padre Correia da Cunha.

Obrigadinho!!!

Cumpre-me agradecer do fundo do coração a Robert Descombes o seu simpático e sentido testemunho sobre o Padre José Correia da Cunha. Era bom que muitos dos seus amigos, ainda vivos, pudessem seguir este nobre gesto, permitindo assim que a memória de Padre Correia da Cunha continue viva e a iluminar o caminho de tantos os quantos que o conheceram, ouviram e foram seus dedicados e zelosos servidores.

Há muitos documentos, cartas e fotografias na posse de vários amigos. Estes têm uma importância muito grande, ao contrário do que possam pensar. Ajudem a manter vivo este blogue.

Obrigadinho!!!


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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

PE. CORREIA DA CUNHA E N. SENHORA DO Ó

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… tinha um amor para com a Mãe Celestial!







MARIA tem um templo em cada coração cristão, já que depois de Jesus Cristo Ela é o objecto dos nossos amores. Mas se isto é a verdade de todos os crentes, mais o era de Padre Correia da Cunha, que tinha na sua vida espiritual uma orientação muito especial para com a Nossa Senhora do Ó.


Padre Correia da Cunha demonstrava um singular carinho dirigido à Imagem de Nossa Senhora do Ó, que tinha no seu quarto no Mosteiro de São Vicente de Fora. Esse seu amor para com a Mãe não era só afectivo, mas também, e sobretudo efectivo. Segundo testemunhos de muitos seus amigos, o jovem Padre Capelão da Marinha todos os dias bem cedo conversava com a sua Mãe, pedindo-lhe que o ajudasse a imitar todas as suas virtudes, reproduzir em si mesmo a sua radiosa fisionomia moral: ser humilde, caritativo, generoso, como Ela soube sê-lo durante a sua vida mortal. Era uma longa e privada conversa entre Mãe e filho.


Nos seus momentos mais críticos, nas suas horas mais graves, nas suas necessidades mais prementes, sempre Ela esteve presente na sua vida como farol que o acompanhava nos oceanos tempestuosos, que calcorreou ao longo da sua vida de marujo.


Creio que Padre Correia da Cunha muito se inspirava nessa magnífica imagem de madeira do séc. XVIII, trabalhando infatigavelmente para dilatar o Reino de Jesus Cristo na sua Comunidade.


Quando foi nomeado pároco de São Vicente de Fora, essa imagem foi colocada sobre uma pedestal junto da sacristia e da porta que dava acesso ao templo. Penso que a Mãe de Deus fazia vibrar as fibras mais íntimas do seu coração, quando por SI passava e se dirigia para as celebrações litúrgicas.

Não será Ela, com efeito, depois de Jesus Cristo, o alvo de todos os nossos afectos e nossa suprema esperança?

Colocada no seu pedestal, no centro dos claustros, quantas vezes apareceu vandalizada pela miséria moral e pelas ovelhas desgarradas, que Padre Cunha teimosamente a reabilitava e apresentava renovada. A Virgem era como uma guardiã vigilante e um modelo de humildade e simplicidade, apesar de ter sido excelsa entre todas as criaturas, porque daquele gestante ventre que deu a vida ao Verbo feito carne.

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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ANITA 28 ANOS DE DOCE SAUDADE

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As flores são para si!
27 Janeiro 1982 - 27 Janeiro 2010


Anita é memória sempre viva na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. Com certeza que deixou muitas saudades em todos que tiveram o privilégio de conviver com ela. Mas é uma saudade doce, pois todos sabemos que tudo o que ela queria e ansiava era: ter a paz e amor eterno do seu Deus, a quem fielmente serviu.

Para Anita a morte não era o fim de tudo. Ela não era senão o fim de uma coisa e o começo de outra. A sua alma tinha sede do absoluto e o absoluto não era deste mundo.

Queremos agradecer do coração, à Anita, que de alguma forma fez parte de muitas vivências e experiências das crianças, adolescentes e jovens da Paróquia de São Vicente de Fora.

Queremos agradecer sinceramente os muitos sábios ensinamentos bem com as inolvidáveis experiências partilhadas, que em tanto enriqueceram as nossas vidas, apoiando-nos e incentivando-nos a prosseguirmos no amor a Deus e ao próximo.

Incansável na entrega ao serviço do seu pároco, Padre Correia da Cunha, como uma grande apostola da catequese sempre a víamos com a grande defensora do que era justo e correcto. Possuía um coração maior do que ela mesma.

Zelosa e verdadeira no seu jeito de tratar todas as pessoas, o que é facto é que todos percebíamos, que através do olhar e das suas atitudes, ela era confiante e extremamente fiel seus sólidos princípios cristãos.

Naturalmente conseguia encantar a todos com a sua personalidade, única e sempre com uma sensatez admirável.
Somos felizes, abençoados e privilegiados por havermos tido a possibilidade de conhecer uma alma tão generosa, sensível e bela como a sua. Eternamente gratos por termos vivido ao lado de uma mulher incomparável e inesquecível.

As flores são para si!





Os amigos que partiram…
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Publicado em 20 de Março 2009 - Ala dos Amigos de Padre Correia da Cunha
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

PE. CORREIA DA CUNHA E O PADROEIRO

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Ínclito mártir… Padroeiro do Patriarcado de Lisboa



Na Comunidade de São Vicente de Fora, o dia de São Vicente era feriado paroquial.


Pe. Correia da Cunha, no dia 22 de Janeiro de cada ano, efectivava grandes festas litúrgicas em honra de São Vicente Mártir. As suas homilias realçavam os grandes exemplos de coragem deste jovem no testemunho da fé em Cristo, que continuavam válidos para os jovens cristãos do final do Séc. XX. São Vicente defendeu o Evangelho e a verdade cristã até às ultimas consequências (não fugiu com o rabo à seringa como referia Padre Correia da Cunha), derramando o seu sangue por amor a Jesus Cristo. Era um modelo de vida.

Padre Correia da Cunha sempre nos ensinou a viver a verdade e a humildade nas nossas relações humanas e a praticarmos a solidariedade com o nosso próximo para que pudéssemos usufruirmos da verdadeira liberdade e do amor filial de Deus.


Padre Correia da Cunha sabia que São Vicente continuava a velar pela sua Comunidade Paroquial e particularmente pelos os jovens, ajudando-os no seu crescimento enquanto instrumentos de humanidade e empenhados num generoso serviço à comunidade. Estes contribuíam assim para tornar a nossa sociedade mais humana, justa e fraterna.


Desde a primeira hora, em que sentimos a necessidade de proceder a uma Justa e Merecida Homenagem ao nosso saudoso Pároco, o Dr. Raimundo Serrão (um dos seus afeiçoados discípulos) disponibilizou a sua arrebatadora arte com o intuito de servir a causa. À semelhança do ano passado, aqui deixo alguma dessa arte publicada na sua maravilhosa monografia a São Vicente, editada no ano de 2004.

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Tentaram-no em vão. Não conseguiram.
Não era deste mundo um tal vigor.
Para Santo Agostinho foi milagre
Ultrapassar assim tamanha dor.

Guardaste as Escrituras que estudaste
Não as lançasse ao fogo iniquamente
Aquele Daciano que as tentava
Trocar por vida inocente.

O louco então mandou deitar o Santo
Numa cama de ferro incandescente
Com brasas repartidas sobre o corpo
E sal, sobre as feridas, inclemente.

Vicente olhava o Céu tranquilamente
Perante a colectiva admiração
E o louco pagão nada mais fez
Que mandá-lo para lúgubre prisão.

Uma luz que provinha das Alturas
Se derramou então sobre Vicente
Que sem qualquer vestígio das torturas
Deitou suave aroma de repente.

Aquele espaço escuso e medonho
Tornou-se um recanto angelical.
Nem os guardas deixaram de sentir
A força do Além celestial.

E Daciano deu estranha ordem:
O Santo em leito brando dormiria.
Mal seu corpo, porém, ali foi posto,
Sua alma pura aos Céus se elevaria.

Furibundo, o pagão abominável
Quis o corpo p’ró pântano arrastado
A fim de ser comido pelas feras,
Mas foi por belos corvos bem guardado.

Lançaram-no então ao mar profundo
Para evitar dos fiéis a piedade,
Mas o Senhor à praia quis levá-lo,
Sendo por almas boas sepultado.


Versos dedicados a um dos mais brilhantes e cultos clérigos do Patriarcado de Lisboa do seu tempo, Padre Correia da Cunha.

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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

PE. CORREIA DA CUNHA E OS COMPORTAMENTOS

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‘’Viver a caridade na vida quotidiana e ter um coração grande é a mais bela das orações…’’ Pe. Correia da Cunha







Durante o muito tempo que convivi e acompanhei Padre Correia da Cunha, não me lembro de ele ter sido um pregador de muitos legalismos ou de acusar alguma vez comportamentos humanos. Lembro-me, porém, de se acusar todos os dias de ser pecador e de servir uma igreja pecadora. No cânon da eucaristia onde estava escrito: ‘’ oremos pela Santa Igreja…’’ Padre Correia da Cunha improvisava logo: “oremos por esta Igreja pecadora”.

Sempre tive muitas dúvidas sobre aqueles que acusam os outros sem reconhecerem que antes de acusar, a razão da acusação pode estar neles mesmos.

Creio que um dos seus grandes e sábios segredos era o de não condenar, mas antes o de apontar caminhos indulgentes, que cada um, dentro da sua Santa Liberdade de filho de Deus pudesse optar…tudo era permitido desde que o amor e o respeito da dignidade de filho de Deus do próximo imperasse.

Jesus Cristo não foi condenando a desventurada prostituta que conquistou o seu coração.

Ninguém poderá contar com um ‘’amigo’’ que condena, castiga e culpa e aponta o dedo para a chaga que certamente causará já por si um enorme e humilhante sofrimento. O Deus que Padre Correia da Cunha experimentava era um Deus de misericórdia e de amor. Nós, quando jovens, éramos mais interpelados pelo respeito e serviço aos irmãos que ele considerava a mais verdadeira das orações, do que por incumprimento de regras ou comportamentos considerados pelos mais puristas, menos dignos.

A Padre Correia da Cunha várias vezes lhe ouvi tecer a seguinte afirmação: as pessoas só são capazes de respeitar uma regra se a compreenderem. Se não, nunca a respeitarão. Se a regra for imposta pela via do medo ou pelo confrangimento, na hora em que estiver isolada destes, ou daqueles que impõem as regras, ela desfaz-se. Desde sempre, a maior preocupação de Padre Correia da Cunha era a de que tudo teria de ser bem compreendido e interiorizado. Ninguém vive e ama aquilo que não compreende ou que não consegue interiorizar pela luz da fé.

O cristianismo era muito mais do que o cumprimento de regras e rituais. Era uma vivência consciente e permanente. Não eram as muitas missas, nem as muitas leituras dos devocionários, nem reza de muitos terços e orações escritas que nos redimem. E tudo isso só teria algum valor se trouxesse um profundo sentido à nossa vida e se fosse gerador de uma transformação do coração, tornando-o cada vez mais generoso e misericordioso e com maior disponibilidade para amar o próximo. E o próximo era aquele com quem vivemos e convivemos diariamente; pois acusar os erros do mundo era e continua ser o mais fácil…

Para Padre Correia da Cunha não adiantava muito rezar se continuássemos a ser arrogantes, hipócritas e intolerantes… As suas pregações eram cheias de frontais reprimendas, mas pela falta da vivência da caridade. O cristianismo sem caridade era um profundo engano. Jesus Cristo veio para nos libertar e ensinar amarmo-nos uns aos outros. Como ele referia: ‘’parece tão simples mas tão difícil de concretizar na prática’’.


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

PE. CORREIA DA CUNHA E OS VICENTINOS

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‘’O AMOR É TANTO MAIS ARDENTE, QUANTO MAIS PERFEITO FOR O CONHECIMENTO’’




Para Padre Correia da Cunha, a caridade devia ser a marca distintiva de todo o cristão e, sem dúvida, era a dos imensos membros das Conferências de São Vicente de Paulo da Freguesia de São Vicente de Fora. Neste início de ano quero lembrar de uma forma muito especial e com grande carinho esses membros: Carlos Barradas (1926-2008), Casimiro Ferreira (1928-2009), António Geraldes Simões (1925-2007), António Nunes, António Batista da Silva, Armando das Neves Alves (....-2009) Emília Caldeira, Fernanda França, Mª. Agostinha da Silva, Patrocínia Dias (1929-1989), Maria José Ribeiro, Carolina Azevedo Coutinho, Carolina Saraiva, Carlos Diamantino… (1) ( e muitos outros que aguardo a vossa informação para aqui colocar os seus nomes).

Formados na escola do distinto São Vicente de Paulo e na de Frederico António Ozanam, que lhe legou o espírito, foram com o seu Pastor obreiros do grande fogo que Jesus veio acender na terra: a Caridade.

Sei que, felizmente, assim foi e lembro-me de Padre Correia da Cunha se congratular com toda essa boa gente de tão grande e generoso coração.

Era uma bela vocação e sublime o apostolado a que dedicavam as suas vidas. Com os olhos da fé viam nos seus irmãos mais desprotegidos a própria pessoa de Jesus Cristo.

Como muita vez ouvi a Padre Correia da Cunha: o bem deve ser realizado, humildemente e silenciosamente, pois quem dá aos pobres, empresta a Deus…

Eram, portanto, benditos e, no mundo onde imperava tanta dificuldade e miséria, tiveram sempre bem alta a bandeira do serviço aos irmãos.

Na presente época, de tantas dificuldades, muito me consolaria e aplaudiria se houvesse muita desta gente que vivesse ao serviço dos irmãos mais necessitados e sobretudo dos que sofrem com um doce sorriso (isto é, hoje são forçados a receber o auxílio sem com isso percam a dignidade e se sintam humilhados). Como Padre Cunha fazia questão de dizer: tudo deveria ser feito no silêncio de encontro de irmãos e na mais fina delicadeza.

Esta gente era verdadeiramente abnegada por dons naturais e verdadeiros discípulos dos seus grandes mestres: São Vicente de Paulo, Frederico Ozanam e Padre Correia da Cunha.

Creio que Padre Correia da Cunha, hoje, junto do Pai com alguns destes irmãos continuará agradecer silenciosamente pelas misérias que aliviaram e pelas muitas lágrimas que enxugaram aos seus irmãos da Paróquia de São Vicente de Fora.

No tempo de Padre Cunha havia na Paróquia a Conferência de São Vicente de Paulo Feminina que tinha como protecção Santa Úrsula e a masculina cujo padroeiro era São Vicente Mártir.



(1) – Poderia continuar esta enorme lista, mas com a finalidade de tornar mais activo o Blogue, fico aguardar as vossas informações para poder acrescentar a esta lista os muitos vicentinos de São Vicente de Fora.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

AUTO DO NATAL - PADRE CORREIA DA CUNHA

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Padre Correia da Cunha levou ao palco diversas vezes, na Paróquia de São Vicente de Fora, o seu admirável Auto do Natal.

Passados 48 anos da sua primeira representação é torturante pensar que esta extraordinária obra venha a desmoronar-se e o papel amarelecido pelo tempo a cair no esquecimento da indiferencia… como refere Rogério Simões há muitos dos personagens deste Auto de Natal ainda vivos, e em todos eles ainda fervilha um forte sentimento de colocarem em boca de cena esta preciosidade que nos foi doada por Padre Correia da Cunha.

Precisamos de pessoas de boa vontade que por este país fora queiram carregar essa excepcional tarefa. Na celebração do jubileu da vida deste auto (2011), muito nos congratularíamos se houvessem pessoas que nos pudessem oferecer este transbordante e sagrado momento e que contribuíssem assim para a felicidade da nossa existência.

Creio que esse momento pode chegar! Espero pelas boas novas!





Um excelente ano de 2010! São os votos dos AMIGOS DE PADRE CORREIA DA CUNHA para todos visitantes!


‘’A primeira representação deste AUTO DE NATAL, em 24 de Dezembro 1961*, só foi possível graças ao entusiasmo do Povo da Freguesia de São Vicente de Fora e à valiosíssima colaboração de Catarina Avelar, na voz de Maria, de Álvaro Benamor, na de São José e de Luís Filipe que fez o papel do Narrador.

A Pedro Lemos se ficaram a dever as suas preciosas indicações de encenação e os ensaios dos restantes figurantes – gente do povo – e à Câmara Municipal de
Lisboa o alto patrocínio com que secundou a iniciativa.

Bem Hajam!


Padre Correia da Cunha’’

* nas escadarias da Igreja de São Vicente de Fora-Lisboa

I - ACTO


NARRADOR (Dirigindo-se a toda a Assembleia):

Senhoras e Senhores,
Operários ou doutores,
Velhinhos ou crianças,
Que andais nestas andanças
A que chamamos VIDA,
- Parai aí um pouco em vossa lida
E vinde meditar neste mistério
Tão repetido pelos séculos fora!...
(Seja dito sem ofensa ou vitupério
Da pobre Humanidade pecadora.)

A acção que vai ser representada
Pode chamar-se, à bela moda antiga,
O AUTO DA ESTALAGEM OU POUSADA,
Ou, se quiserem, boa gente amiga,

Poderemos chamar-lhe assim também
(Ao jeito da moderna poesia):
ALGÚÉM LÁ FORA BATE À MINHA PORTA!...

… Qualquer designação lhe fica bem.
É só questão de gosto ou fantasia.
Mas, francamente, o nome pouco importa.
Tudo pode chamar-se
Este Auto de ONTEM, de HOJE e de AMANHÃ…
? Ou não será verdade
Que a nossa pobre Humanidade
(E até muita alma que se diz cristã)
O que sabe fazer é só fechar-se,
Mesmo quando JESUS lhe bate à porta?...
Púnhamos, pois, de parte o nome a dar
Ao Auto que se vai representar,
Que o nome, francamente, pouco importa.


Mas, atenção, ó Bons Amigos meus!
Ouçamos em silêncio e muito a sério,
Pois vai aqui tratar-se do mistério
De cada um de nós com o próprio Deus!...

Aí, nesse primeiro patamar
Desta tão bela e nobre escadaria,
Muita gente andará em gritaria,
Apenas a vender e a comprar,
Trocando os bens e … honra por dinheiro…
(Não é assim que faz o mundo inteiro?)
Oh! Que tristeza é transformar a vida
Numa FEIRA DA LADRA… e nada mais!

Nesse mesmo local,
Cantigas, algazarras e berreiros
Se ouvirão depois num ARRAIAL
De jogos vis e gozos traiçoeiros,
De alegria bruta, falsa e oca!

Oh! Que tristeza é tanta gente louca,
Pensando só em si, no seu prazer,
Esquecendo o luto e a dor que vão lá fora!..
Triste alegria a que não sabe ter
Um coração aberto p’ra quem chora!...


Mais adiante, além,
Aquela casa de aparência calma
É a nossa POUSADA DE BELÉM,
Ou, se quiserem, a figuração
Da mísera POUSADA DA NOSSA ALMA,
Que fecha a porta à própria salvação!


Aqui, ali, de lado, à frente, atrás,
São ruas e caminhos,
Estradas boas e más,
Da sempre actual ALDEIA DE BELÉM.

Cansada de uma longa caminhada,
Anda aflito um PAR DE POBREZINHOS,
Batendo a toda a porta, aqui e além,
À procura de abrigo ou de pousada,
…Que a Senhora está prestes a ser Mãe…

Será preciso pôr-se mais na carta,
Para saberem já de quem se trata?
- È JOSÉ E MARIA, pois de certo!

Não os veremos, não. Mas andam perto,
Tão pertinho de nós
Que todos ouviremos sua voz.

Um coro de homens está além, de lado,
Representando a pobre Humanidade

Que geme sob o peso do pecado
E sofre a fome da felicidade…

Ei-los sempre a pedir a salvação,
Que, afinal, não aceitam, quando vem!...

È sempre o mesmo drama de Belém,
O drama da humana condição…


Coro dos Homens:

SENHOR DEUS, MISERICÓRDIA!
(3 vezes)

Coro dos Anjos:

(Solo): GLÓRIA IN EXCELSIS DEO!
(Todos): GLÓRIA IN EXCELSIS DEO!

(Dueto): Anjinhos Celestiais,
Cantemos hinos de louvor
Ao grande infinito amor
Do SENHOR pelos mortais!


(Todos): GLORIA… etc.

(Dueto): Sabeis que se vai passar,
O que vai acontecer?
- Por um milagre sem par,
Deus na Terra vai nascer!

(Todos): GLORIA… etc.

(Dueto): Oh! Quão grande é o SENHOR!
Quão grande o poder divino!
Pois num milagre d’amor
Deus irá nascer Menino!

(Todos): GLORIA… etc.

(Dueto): E na pobre humanidade,
Surgirá divina esp’rança,
Quando (oh! Santa caridade!)
O próprio Deus for criança!

(Todos): GLORIA… etc.

(Repete-se o último coro, diminuindo até desaparecer. Entretanto, outros Anjos recitam:)

1º Anjo:

Corramos, Anjinhos!
Depressa, Amiguinhos!
Vamos todos ver
A grande alegria
Que em festa este dia
A Terra vai ter!

2º Anjo:

Deus Homem vai ser…
E que vão fazer
Na Terra os Mortais?...
Para o BOM JESUS~
Palácios de luz,
Arcos triunfais!

NARRADOR (Dialogando com o 2º Anjo):

Deus Homem vai ser.
E que vão fazer
Na Terra os Mortais?...
Ao SENHOR DA VIDA
Vão dar-lhes a guarida
Que é dos animais!...

2º Anjo (mesma cena):

Eles vão com certeza
Encher de beleza
Todos os caminhos!...
Irão’spalhar rosas
E flor’s mimosas
Para os seus pezinhos!...

NARRADOR (mesma cena):

El’s vão com certeza
Encher de tristeza
Todos os caminhos…
E em vez de mimosas
Pétalas de rosas,
Irão dar-Lhe espinhos!...


2º Anjo (mesma cena):

Que vão lá fazer
Assim que nascer
O VERBO DIVINO?...
- Vão dar-Lhe um tesouro
E um bercinho de ouro
Para o DEUS MENINO!...


NARRADOR (mesma cena):

Que vão lá fazer,
Assim que nascer
O VERBO DIVINO?...
Irão escorraça-lo,
Irão maltratá-lo
Desde pequenino!

2º Anjo:

O que vão fazer?
Pois agradecer,
Cantando de amor…
E assim nosso Deus
Verá que nos céus
Não se está melhor!

NARRADOR:

O que vão fazer,
Quando Deus nascer,
Será um horror!...
E assim o ETERNO
Terá um inferno
De amargura e dor!...

1º e 2º Anjos

JESUS vai nascer!
Vamos todos ver
O que lá se faz…
De certo na Terra
Acaba-se a guerra
E haverá só paz!

……
……

NARRADOR (Dirigindo-se à Assistência):

Enquanto lá no Céu reina a alegria,
Há festa e regozijo
Pelo mistério que se vai passar,
Haverá cá na Terra algum juízo
Capaz de despertar
Amor ou simpatia
Ou mera compaixão?...
Haverá neste mundo alguém que queira
Ofertar uma cama ou uma esteira
Ao CASAL PEREGRINO,
Para que o SENHOR DEUS,
Que os Anjos adoram lá nos Céus,
Possa entre nós nascer feito MENINO?...

Vamos a ver, Irmãos, vamos a ver
Se os homens sempre arranjam um cantinho,
Inda que muito humilde e pobrezinho,
Onde o SENHOR DOS CÉUS possa nascer!

(Dirigindo-se aos Feirantes:)

Eh! Lá! Vocês, que são negociantes,
Compradores e feirantes,
Instalem-se p´raí na vossa lida
E façam normalmente a vossa vida!

(Para a Assistência:)

Serão estes capazes de escutar
Os apelos de DEUS que vem rogar
Um cantinho qualquer onde nascer,
Feito mortal como qualquer de nós?
Serão eles capazes de dizer
Que sim à Sua voz?...

(Filosofando:)

Ah! O dinheiro tem um tal encanto,
Desperta tal cobiça,
Prende e fascina tanto,
De tal modo enfeitiça,
…Que os pobres homens a que el’ seduz
Não são capazes de escutar JESUS!

Ah! Os negócios fazem tais ruídos
E a ganância faz tanto escarcéu,
… Que eu não sei bem se eles terão ouvidos
Capazes de entender a voz do Céu!...

II - ACTO


A FEIRA
Um Feirante:

Eh! Freguesia! Eh Freguesia! Aqui!
Aqui é tudo muito mais baroto!
Há fatos de Kaki
Dos grandes e pedquenos;
E todos custam menos
Do que em qualquer lugar da nossa praça!


Eh! Lá! Freguês! Você não quer um fato?
Aproveite, Freguês, isto é de graça!
Ora, venha cá ver como isto é bom!
É chic! È de bom tom!
De corte americano!
E é do melhor pano!...

Também tenho de alpaca e de fazenda,
De tirilene e de óptimo algodão!...

Outro Feirante:

Olá, Menina, quer lençóis de renda?
Não perca a ocasião,
Não perca esta pechincha!...


Um garoto (Pedindo):

Minha Senhora, dá-me um tostãozinho?

Um feirante:

- Vai-te embora, rapaz, deixa a pedincha!

Outro Feirante:

Pst! Pst! Menina, venha cá!
Repare nesta saia
E veja esta blusa!
Belo conjunto para campo ou praia!
É o que agora se usa!...

Outro Feirante:

Quem quer comprar agulhas e dedais,
Pentes e alfinetes e outras coisas mais?
Agulhas de crochet,
Agulhas de tricot,
Filtros para café!...


Garoto (cantarolando)

Ai ló! Ai ló!
Ai ló! Ai ló! Ai ló!
Mamã compra um balão
Para a marcha à flambó!

Outro Feirante:

Eh! Meus Senhores! Venham cá ver isto!
Material assim nunca foi visto!
São brincos de senhora,
Que toda a moça adora!
Alfinetes, anéis e arrecadas,
E lindos pedantifs e correntes,
Berliques e berloques!


Um garoto (tenta mexer).

O Feirante:

- Ó mariola, vê, mas não lhe toques!

Outro feirante:

Abanicos pintados! Lindos leques!


(Pai e filha passam. Ela cobiça com o olhar. Ele diz:)

- Ó Filha, são todos pechisbeques!

Vendedor ambulante:

Escovas prós dentes!

Outro Vendedor:

Pós p’ra limpar metais!

Outro Vendedor:

Três pentes dez tostões! Freguês, 3 pentes!

Outro Vendedor:

Esticadores pró colarinho!

Outro Vendedor:

Panelas, tachos, vidros e cristais!

Charlatão:

Senhoras e Senhores!
Não venho aqui para enganar ninguém,
Nem sequer p’ra vender mercadoria…
Venho p´ra vos livrar das vossas dores
E dar-vos alegria!
Venho trazer-vos um imenso bem!
Eis, Senhores, a maravilha ideal,
A descoberta mais sensacional,
Eis a piramidal,
Eis a fenomenal,
A grande panaceia,

Usada já no mundo inteiro e agora
Também em Portugal, em boa hora!
Boa p’ra tudo, até p’ra diarreia…

Na Rússia e na França,
Na Austrália e na Argentina
Na Pérsia, Alcabideche e até na China,
Em toda a parte onde o progresso avança
Veio revolucionar toda a ciência!
E agora é a grande esp’rança
Do povo português!
Ó Freguês! Ó Freguês!
Vossa Excelência,
Tome estes poses se quer ter saúde!
São bons, fenomenais e bem baratos
E cheios de virtude

Prós calos e prós ratos!
São infalíveis estes poses finos
Para as dores de barriga e de intestinos!


Quase nem se acredita…
E o preço? O preço? Oh! Em qualquer botica
Custava um dinheirão!
E aqui?... Custa cem escudos? – Não !
Cincoenta? … - Não! Quarenta? – Também não!
Vejam, Senhores, apenas dez mil réis!

Outro Feirante:

Tintas, vernizes, brochas e pincéis!
Aguarelas e quadros bons a óleo!


Outro Vendedor:

Três pentes dez tostões!

Outro Vendedor:

Amendoins, tremoços e pinhões!

Todos os Feirantes:

A VIDA É SOL DE POUCA DURAÇÃO!
HAJA DINHEIRO PRÁ REINAÇÃO!

Um Feirante:

Amigos, dinheirinho já cá canta:
Notas, cheques e letras!

Todos:

O dinheirinho é que nos encanta
E tudo o mais… são tretas!

Um outro (cantarolando)

Haja dinheiro!
Olé! Olé!
Esse matreiro
É a nossa Fé!

Outro:

Haja dinheiro
Com abastança
Esse matreiro
É a nossa Esperança!

Outro:

Haja dinheiro,
El dá valor!
Esse matreiro
É o nosso Amor!


Outro:

El’ nos dá tudo,
Amigos meus!
O bom do escudo
É o nosso Deus!

Outro:

Honra, Virtude
Que significa?
… Tudo se ilude
Se a gente é rica!...

Todos:

AVIDA É SOL DE POUCA DURAÇÃO!
HAJA DINHEIRO PRÁ REINAÇÃO!

Voz de S. José:

Oh! Gente boa! Eh! Lá! Gente de bem!...
Não arranjais aí algum lugar,
Onde minha mulher possa ficar?...
Está prestes a ser Mãe!...

Todos:

A VIDA É SOL DE POUCA DURAÇÃO!
HAJA DINHEIRO PRÁ REINAÇÃO!

Voz de S. José:

Há tanto vento e frio aqui na estrada…
…Mas com franqueza, não se arranja nada?...
Nem sequer um cantinho para acolher?

O DEUS MENINO QUE NOS VAI NASCER?

? Não há lugar para o Salvador do Mundo?...

Um feirante:

Quem chora aí lamúrias e tristezas?

Outro:

Quem é? O que é que ele diz?

Outro ( que fora espreitar):

Sei lá!... É um infeliz!
Um maltês vagabundo!...
Anda pedindo esmola, com certeza!


Voz de S. José:

Oh! Boa gente amiga!...

Um feirante:

Muda lá de cantiga!...

Voz de S. José:

OH! Boa gente!...

Outro:

Diz que tem frio e fome!

Outro:

Que temos nós com isso!?
Mas que é que nos importa?
Diz-lhe que vá bater a outra porta!

Outro:

Ou então que aguente;
Que aguente, que é serviço!
Daqui não levam nada,
Maltrapilhos da estrada!...
O quê!? Irmos gastar
Dinheiro que estivemos a ganhar
Com gente dessa? – Não!

Voz de Maria:

Oh! Gente boa! Tenham compaixão!...
Vai nascer o MENINO…
Deixem-me aí ficar, por caridade…

Um feirante:

Rua! Gente sem tino,
Que isto aqui não é Maternidade!...

(Todos riem da piada blasfema. Gargalhadas. Vão saindo de cena. O órgão
Entretanto começa a introduzir o Coro dos Homens, fazendo variações sobre o tema Rorate).

Coro dos Homens:

Refrão:

ABRAM-SE OS CÉUS! CHOVA A SALVAÇÃO!
EM GRAÇA, PAZ, LUZ E PERDÃO!

1ª Quadra:

Perdida está a humanidade,
Tal qual o náufrago no mar.
Senhor, lançai-nos, por bondade,
A vossa Mão p’ra nos salvar!

Refrão:

ABRAM-SE OS CÉUS! CHOVA A SALVAÇÃO!
EM GRAÇA, PAZ, LUZ E PERDÃO!

2ª Quadra:

O mundo vive em treva espessa,
Sem uma réstia de luz.
Cumpri, Senhor, vossa promessa:
Vinde até nós: - dai-nos JESUS!

Refrão:

ABRAM-SE OS CÉUS! CHOVA A SALVAÇÃO!
EM GRAÇA, PAZ, LUZ E PERDÃO!

3ª Quadra:

Na Terra, só miséria habita;
Bem triste é nossa condição.
Ouvi, Senhor, a nossa alma aflita,
Dai-nos a Paz, a Salvação!


Refrão:

ABRAM-SE OS CÉUS! CHOVA A SALVAÇÃO!
EM GRAÇA, PAZ, LUZ E PERDÃO!

(Enquanto o Coro se vai extinguindo ao longe, arma-se o ARRAIAL: mesa de jogo, mesa de vinho e bailarico com a respectiva música.)

III - ACTO


ARRAIAL
Um Jogador:

Eh! Lá! O trunfo é espadas!

Outro:

Eu corto com a manilha!

Outro:

Cartas mal baralhadas,
Olhem lá que favor, que maravilha!...

4º Jogador

Vamos a ver quem ganhou!

1º Jogador

Ou quem perdeu!

2º Jogador (cantando):

Sete e três, dez mais vinte fazem trinta!...

3º Jogador

Eu logo disse: Cá co Xico ninguém brinca!

1º Jogador:

Quem não perdeu fui eu!
Isto foi um fartote!
Vocês os dois levaram um capote
De alto lá com charuto!

2º Jogador

Que lhe sirva ganhar à tripa forra!

1º Jogador

Guarde o dinheiro, homem, não seja bruto!

4º Jogador

Você daqui não sai. Quero a desforra!

(Entretanto, começa a tocar-se e a bailar-se.)

Animador:

Amigos, é gozar, que a vida é bela!
Não demos cabo dela!
Toca! Toca a brincar, rir e folgar!
Não percam tempo, não! Toca a bailar!

(Há bailarico. Anima-se a dança, durante algum tempo. Um dos assistentes ao baile, pessoa pacata, dá umas voltas. Depois diz:)

Zé Pacato:

Ih! Como o vento guincha!
E chove a potes, e faz muito frio! Puxa!
Nada!...Que eu só espreitei por aquela frincha,
Mas aquilo é de estucha!...

Animador:

Qu’importa a tempestade;
Que importa a ventania,
Se aqui a mocidade
Está quente de alegria?!...

È bailar e dançar, rapaziada,
E não pensemos no que vai lá fora!
Folgai! Bailai! Gozai a toda a hora,
…Que tudo o mais… é nada!


(Continua um pouco mais a animação do bailarico. Depois, pouco a pouco, vai-se ouvindo o órgão com o mesmo tema Rorate. Novamente o Coro dos Homens canta uma das estrofes e uma vez o Refrão.)

Um do Arraial:

Que raio de canto é este tão tristonho?

Outro:

E mesmo melancólico, enfadonho…

Animador:

Eh! Pá! Não faças caso. Orelhas moucas
É o que merecem tais palavras loucas!

Outro:

…Abram-se os Céus e chova!... Chova o quê?!...
- Vinho, gozo e prazer, pais já se vê!

Animador:

Folgar, bailar, gozar, rapaziada!
E não pensemos no que vai lá fora.
Gozar, gozar, gozar, a toda a hora,
Que tudo o mais…é nada!

Zé Pacato:

Eh! Camaradas, parem lá com isso!

Animador:

Então que há?

Animador:

Então que há?

Zé Pacato:

Não sei. Mas há enguiço! Sinto gente lá fora. Quem será?

Animador:

Não faças caso, Pá!

Voz de S. José:

Ó gente boa! Dêem, por favor…

Animador:

Olha! Vêm pedir! – Ponham-se a andar!
Fora daqui! Não venham perturbar
Este arraial em festa de alegria!

Voz de S. José:

Amigos meus, reparem que Maria,
A minha Santa Esposa…

Todos:

Rua! Andor!

Voz de MARIA:

Ó almas boas, tenham dó, piedade
De uma mulher que em breve vai ser Mãe!
E eis quase chegada a sua hora!

Todos:

Embora! Embora! Embora!

Voz de MARIA:

Cá fora sopra rija tempestade!
É grande o vendaval e o frio também…

Animador:

Olhem que fita!... Diz que espera um filho…
Não querem ver? E esta?...
Era um grande sarilho:
Lá ía por água abaixo a nossa festa!

Outro:

Ponham-se a andar! Daqui não levam nada!

Animador:

Vamos nós a bailar, rapaziada!
P’ra frente é que é Lisboa!

Voz de S. José:

Ó gente boa!...

Animador:

Lamúrias… Gente boa…

(Dançam um pouco mais, mas sem animação. Desaparecem discretamente da cena.)

Narrador:

Danças, jogos, canções… ah! na disto
Os deixa ouvir a voz dos altos Céus…
Assim negam asilo a JESUS CRISTO;
Assim negam pousada ao próprio DEUS!

Ó Pobrezinhos, colhei silvas, cardos…
Sofrei frios e fomes… amarguras!
Mas nunca perturbeis os felizardos
Que apenas buscam gozos e venturas…

(Dirigindo-se para o local de onde vêm as vozes de JOSÈ e de MARIA; local que foi sempre marcado por um foco de luz:)


Amigo S. José, bom carpinteiro,
E Vós, Senhora Virginal, Sagrada,
Bem sei que trazeis nenhum dinheiro,

Mas ide além. Ali há uma pousada…
Talvez aí se arranje, algum cantinho…
Ainda não está cheia, inda há lugar…


Pois ide lá com Deus; ide tentar…
É aí na curva do caminho,
Bem perto. É a dois passos de Belém;
Aí na estrada de Jerusalém.

É que, por causa de recenseamento,
Muita gente procura alojamento.
E os judeus trataram de arranjar
Hotéis, Pensões… tudo para ganhar
Dinheiro (é evidente…)
Mas essa gente aí não é má gente.
De certo que vos hão-de receber…
Pois é gente de bem.
Ide até lá! Ide com DEUS, bater
À porta da POUSADA DE BELÉM!

IV - ACTO


A POUSADA

(No lado sul do patamar superior. Mesa e duas cadeiras.)

Dono (Consultando o relógio):

É meia-noite, e não posso ir à deita…

A mulher:

Mas está o sono à espreita!
…………………………
As portas estão trancadas?

Dono:

Tão!

A mulher:

E as janelas também estão fechadas?

Dono:

Tão! E já dorme tudo a bom dormir…

A mulher:

Então, marido, temos também de ir…

Dono:

Não! Não! Quero contar ainda o meu dinheiro!

(Põe-se a contar, feliz…)

A mulher (de repente e assustada):

Ó querido, não estás a ouvir passos?

Dono (indiferente):

Não!

A mulher:

Mas eu ouço, eu ouço!...

Dono:

Ó filha, assim não posso
Fazer as minhas contas!...
Não me venhas causar mais embaraços!
Ai as mulheres são cabecinhas tontas!
…………………………………………
…………………………………………
Mas escuta… Vai ver!
Vai aí ao postigo ver quem é.

A mulher:

Ainda mal se enxerga; mal se vê.
Mas quer-me a mim par’cer
Que é gentinha pelintra. Espera!
‘Stão a modos cansados da viagem…
Abrigaram-se além, no muro da Hera…

Dono:

Se para cá vierem, na Estalagem
Não há lugar! Se forem maltrapilhos.
Não estamos p’ra sarilhos!
Vão p’ros acampamentos dos ciganos!
… Mas não virão! Senão, deixa-os comigo!...
………………………………………………

Ouve agora, Mulher, ouve o que digo:
- Eu trago cá uns planos…
Fizemos desta vez um dinheirão.
Já estive a ver. Ganhámos muito bem…
E assim p’ró ano, isto será Pensão
Ou mesmo Hotel… Hein! Tas a ver, Mulher?!
GRANDE HOTEL DE BELÉM!...
E eu grande senhor… Tas bem a ver?!
…Um PALACE HOTEL!...
Até o nosso Primo Samuel
Se morderá de inveja, quando vir…

A mulher:

E a Prima Sara?!...Muito me hei-de eu rir!...

Dono:

Amanhã, irei até à cidade
Comprar uma mobília nova e rica:
Mesas, cadeiras, camas… Tudo em tola
E os tampos de fórmica!

A mulher:

E para mim? Ah! Compra-me uma ‘stola
De peles argentês!

Dono:

Se não for muito caro… Sim talvez.
…………………………………….
E também quero louça de pirex
P’ra mesa e p’ra cozinha…

A mulher:

Mas não esqueças a tua mulherzinha!...
Vai-me trazer, de certo, um bom colar
E um fato de lastex,
P’ra quando eu for à praia passear…
E uns brincos de brilhantes
E uns broches elegantes,
Meias de nylon e chapéu à moda
(Ai que a Sarinha vai morder-se toda!...)
Ah! Não te esqueças de um perfume raro,
Da marca Helena Rubistai
Ou da Marcela Rocha… Não é caro…

Dono:

Pois não, não é! Ai! Ai!...
Nessa não cai o filho do meu pai!
Tu julgarás que eu vou daí abaixo?
Qu’eu ‘stou maluco ou que ando já borracho?
……………………………………………….
Não temos de poupar…
……………………………………………….
… Trago-te um avental e a prestações…
Ou tu não vês que temos de pensar
Nas tais instalações?...
… Pois mesmo todo aquele material

(Mesas, cadeiras, etccetra e tal…)
É porque tem de ser, p’ra chamariz
De mais clientela e freguesia…
…Gastar dinheiro assim, dessa maneira?...
Não!... Não! Fica sabendo: eu antes queria
Ver a arrancada a dentadura inteira!

A mulher:

Meu Deus! Meu Deus! Como eu sou infeliz!...
Já não gostas de mim! Não há direito!...
Nem um broche sequer p’ra pôr ao peito…
P’ra ti… só como escrava de trabalho,
E nada mais!
Ai que vida tão triste!...

(chora)

Dono:

E pronto! São assim cabeças tontas
Estas mulheres não sabem fazer contas!
………………………………………….
…………………………………………..

A mulher:

Parece que bateram… Não ouviste?

Dono:

Querem ver que são eles?! – Não levam nada!
………………………………………………
- Que querem vossemecês?


Voz de S. José:

Ó meu Senhor, venho pedir pousada,
Ao menos para a minha mulherzinha,
Que está no nono mês…

Dono:

Olhem, não vá nascer a criancinha!...
Aqui não há lugar! Pois vão bater
Aí a outras portas…

Voz de S. José:

A estas horas mortas?...
Não é possível, não, ó meu Senhor!

Dono:

Isso não é comigo!...

Voz de S. José:

Por caridade, Amigo!...
Tenha dó por favor…

Dono:

Qual caridade, ou quê!... Qual carapuça!
Ponham-se a andar! Ao largo! Toca a andar!

(À mulher:)

Or’ouve lá! Trataste de fechar
Já o curral da mossa mula ruça?

A mulher (indiferente)

Sim fechei. Porquê?

Dono:

È que esta gente…Percebes?...Bem se vê…
Bem! Vamos nós à vida!
……………………………………………
E esta hein?! Esta agora! … Dar guarida
A gente maltrapilha!
Ora esta!... – Vamos, Filha!
………………………………………….
Olá!... Que cisma é essa?

A mulher:

Não tens nada com isso. É cá comigo!

Dono:

Mas, ó mulher!...

A mulher:

Não sei! Não sei! Não digo!

Dono:

Mas tu não ‘tarás boa da cabeça,
O quê? Cheira-me a esturro!...
Perdeste o piu, ó minha tagarela?

A mulher:

É que inda há pouco tu foste tão casmurro!
…………………………………………….

Voz de S. José:

Ó boa gente! … Tenham pena dela…
‘Stá prestes a ser Mãe…
Minha boa senhora, tenha dó de quem…

A mulher:

Oh! Homenzinho! Vá-se lá embora!
Aqui não há lugar!...

Dono:

Já disse. Toca a andar!
Ou é preciso ir chamar a guarda?

Voz de MARIA:

Bom Senhor… Tenha compaixão!...
Chegou a minha hora; Já não tarda…

Mulher (em aparte para o marido):

…Que voz tão doce!...
Parece que me corta o coração…

Dono:

Mulher, inda se fosse
Gentinha com dinheiro… Mas assim…

Voz de MARIA:

Boa Senhora, tenha dó de mim!
Cá fora sopra rija tempestade.
A noite é um horror!...
Por Deus lhe peço: Faça-me o favor!...

A mulher (em aparte para o marido):

Não sei que hei-de fazer…

Dono:
Já disse! Não abras!

A mulher:

Mas realmente… A noite, o frio, o vento…

Dono:

Que fiquem ao relento
Ou no curral das cabras!

A mulher:

Mas ouve, Filho: E se o Bebé nascer
Lá na rua…De certo, morreria
Com uma noite assim. Que horror!
Ora vê bem… Vê lá…Não é melhor
A gente receber…

Dono:

Não te deixes levar por pieguices!
Não lhe abras a porta. Já ‘tá dito!
E nada de tolices!...

A mulher:

Ó filho!...Mas a noite, a tempestade…
A chuva… a ventania…
Eu sinto o coração aflito…
E o frio?... Não seria
Muito melhor usar de caridade?
…E dar pousada aos pobres peregrinos,
Como a ‘Scritura reza

Em preceitos divinos?...
…Dar-lhes também do pão da nossa mesa…
…Dar-lhes um pouco de café quentinho…
E sentá-los ali, junto à lareira…
E dar-lhes, pelo menos, uma esteira,
Ali, naquele cantinho,
Onde a Senhora, em paz pudesse ter
O Menino que está para nascer?

(chorando)

Já que eu não quis ter nunca essa alegria,
Podia ser que este bebé, um dia
Fosse para nós um filho muito querido…
(chora)
…………………………………………….
…………………………………………….

Narrador:

… Lá fora, continua a tempestade…
… Onde é que eles andarão?...

A mulher (sai à procura dos peregrinos, chorando):

Meu pobre coração sem caridade,
Meu pobre coração,
Também tu estás perdido!...
………………………………………………….
………………………………………………….

Narrador:

Com a alma ardendo em fogo e os olhos rasos de água,
Levando no seu peito uma profunda mágoa,
Esta pobre mulher não se contém…
Corre os caminhos todos de Belém,
A procurar o coração perdido…
………………………………………………………
………………………………………………………

A mulher: (já no meio do patamar superior, chorando):

? Onde é que está aquela voz tão doce?...
? Onde a Senhora que ia dar à luz?...
? Onde meu coração estará escondido?...
…………………………………………………..
………………………………………………….

Narrador:

…E viu raiar no Céu a luz da Esperança!

A mulher:

… OH! Quem me dera que esta luz lá fosse!
………………………………………………

Narrador:

… E viu na manjedoura uma criança,
Olhar todo PERDÃO…. ERA JESUS!

(Entretanto, sinos e órgão começam, pianíssimo e depois num crescendo contínuo, variações sobre o tema do ADESTE FIDELES.)

Narrador:

E é sempre assim, IRMÃOS, assim, tal qual…
Que o Senhor tem na Terra o seu NATAL.

Não finda aqui mistério tão profundo,
Mas continua pela vida fora,
Até ao fim do mundo.


Busca Deus sempre uma alma onde nascer…
Mas quase toda a gente o manda embora,
E só poucos o querem receber…
……………………………………………..

Mas tu, IRMÃO, faz como a pecadora;
- Abre-te a DEUS que em ti quer vir morar
E dar-te a salvação…

Talvez que ELE bata à tua porta agora…

Transforma num presépio o coração!
Teu coração transforma num ALTAR!...

(Órgão, sinos e coros: ADESTE FIDELES.)





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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA – NATAL 2009

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Adeste, fideles, laeti triumphantes;
Venite, venite in Bethlehem.
Natum videte Regem angelorum.
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Publicado este Auto do Natal, sublime tesouro que nos deixou Padre Correia da Cunha, é tempo de deixar o Menino nascer nos nossos corações… Não podemos ficar indiferentes! O mundo não pode ficar igual. Temos de O levar aos sem POUSADA de rostos gretados pelo frio e pelo gélido vento e aos corações estarrecidos pelas noites de invernia. É necessário levá-lo aos centros da política e da finança onde a hipocrisia protocolar esquece os desprotegidos, os abandonados, os excluídos… filhos dilectos deste Deus Menino.



Como referia Padre Correia da Cunha, temos de encontrar o Menino na pureza do curral de Belém que só tem Amor e sorri implorando a paz, amizade, perdão e justiça. Temos de gritar a toda a gente que é possível os homens viverem estas esperanças.



Padre Correia da Cunha sempre acreditou nos homens, pois sabia que todos éramos amados por esse Menino, que Deus nos quis dar. Se O deixarmos realmente nascer no nosso coração ele estará connosco para o proclamarmos bem alto, nas FEIRAS, nos ARRAIAIS e POUSADAS das vielas da nossa paróquia, da nossa cidade e do nosso País.


Neste Natal é preciso descer as longas escadarias daquele presépio e levá-lo onde Ele deve estar: no coração de todos os homens!

Como diria Padre José Correia da Cunha soltai-vos das palavras sem sentido, dos votos fingidos e ide ao encontro do Menino que quer um cantinho no vosso coração. É tempo de esperança! É tempo de dar testemunho a todos…


Santo Natal.


















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