terça-feira, 2 de outubro de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA – ACÇÃO CATÓLICA VI
















« A VIDA CRISTÃ NÃO SE DESCREVE, EXPERIMENTA-SE E VIVE-SE.»




A intenção do Padre Correia da Cunha com estas lições era ajudar os outros, fazendo uso da sua própria mestria, vivência e experiência. Os problemas abordados nestas lições continuam contemporâneos e relevantes para todos os que se interessam por temáticas da espiritualidade. A espiritualidade cristã tem algumas características essenciais, bem definidas pelo Padre Correia da Cunha neste belo texto. Era a verdadeira dimensão do mistério das verdades objectivas da doutrina traduzida para a vida quotidiana. 

Deus tem um plano especial para cada um de nós: que sejamos parecidos com Jesus e tenhamos um vida vitoriosa nele, para isso, precisamos de estar sempre muito atentos na nossa relação pessoal com Ele.

Todos somos chamados à Santidade, embora esta se exprima de vários modos e segundo o carisma de cada um; a espiritualidade não é um estado, mas uma forma de viver a fé cristã a partir dos impulsos da nossa vida sobrenatural para participarmos da vida divina.

Espiritualidade não é exclusão da materialidade, mas a relação ou união do homem todo-corpo e alma – com o Espírito com Deus.

Neste texto o Padre Correia da Cunha apresenta alguns conceitos divinos e mostra que, ao atendê-los, isso produz transformações em nós, em nossos familiares, amigos e na sociedade. Ouvir e aceitar os chamamentos de Deus é um projecto para toda a vida. Ouvi-lo significa vida, e vida em abundância e vitoriosa.

Se o Espírito de Deus é um, num primeiro momento podemos dizer que só há uma espiritualidade e todos os que fazemos parte da Igreja somos chamados à santidade, pois a verdadeira vida cristã não se descreve, experimenta-se e vive-se.

Para o Padre Correia da Cunha a tarefa de cada um de nós deve ser pois o de conhecer o evangelho e através dele transformar o mundo. Jesus Cristo é o nosso mestre e por Ele, e iluminados por Ele, a nossa vocação é render-nos à compaixão para com o nosso próximo.



Texto da autoria de Padre Correia da Cunha


Exigências da vida cristã. O que não é – o que é? 

Se a vida natural merece tão grandes cuidados quantos, não merecerá a vida sobrenatural num plano muito diferente.

A vida cristã aspira a penetrar todo o homem e a transforma-lo completamente; esta vida deve ser totalitária nem só por dentro nem só por fora, nem tampouco é para estar metida numa gaveta bem fechada donde se tira para usar dela apenas algumas vezes na semana. Não é uma receita, nem mesmo se pode comparar a uma companhia de seguros contra os riscos da salvação eterna, nem tampouco uma secção da nossa actividade, nem um pesado encargo suplementar da nossa dependência de Deus. A vida cristã não é nada disto: mas pelo contrário é uma transformação funda da natureza humana, elevada à participação da natureza divina. É total de todas as horas. 

Não é uma faculdade mas requer todas as potências do homem numa palavra; é toda a energia da vida inteira orientada para o fim sobrenatural.

Ambas as vidas: natural e cristã encontram-se no mesmo indivíduo. 

Há no homem duas fortes tendências que lhe fazem violência: uma natural de que faz parte, outra sobrenatural pela qual Deus o têm elevado à participação da sua própria natureza. A vida religiosa, é a resposta que se deve dar a Deus. Deus é o fim último, será a descoberta terrível que saberão os condenados pois não é pena de fogo que é a mais terrível mas sim a do dano. 

Esta dupla resistência traduz-se em lutas contínuas.

Não há duvida nenhuma: a voz da fé é energia mas o homem a pouco e pouco a pode apagar mas a voz da natureza nunca a pode apagar. 

A generosidade para com Deus nos levanta a coisas muito superiores, por isso facilmente podem vencer muitas dificuldades com relativa facilidade.


A Igreja Católica e o Mundo 

O gravíssimo problema que todo o indivíduo deve resolver é o que se levanta entre a religião e a vida, entre a Igreja e o mundo isto é: entre o cristianismo e o progresso.

A luta que existe entre a voz da natureza e a graça não é mais que um episódio. Os mesmos princípios que permitem resolver e superar o primeiro problema, da mesma forma nos dão a possibilidade e a chave para resolver os problemas tanto o individual como o geral.

A vitória sobre o mundo – primeiro aspecto. 

As duas atitudes que podem ter o cristão perante o mundo são: Servir a Deus no mundo. Servir o mundo por Deus.

Devemos considerar e olhar o mundo como uma coisa transitória e passageira, acrescentando-nos dificuldades para chegarmos a Deus. Não podemos prescindir dos meios e mais coisas para nos santificarmos na vida presente, assim como ao nosso próximo: Hoje existem coisas no mundo de que podemos usar para a nossa santificação, mas todas estas coisas devem ser limitativas; porque temos a considerar algumas nos são nocivas, outras inconvenientes, vigor e saúde na ordem natural é bem, mas passando à ordem sobrenatural é um grande bem: ter saúde para estudar no Seminário é óptimo mas para a estragar em lupanares é uma verdadeira catástrofe, e portanto mais-valia não a ter. 

Devemos, resumidamente, evitar todos os obstáculos que se apresentam à nossa santificação.



A vitória sobre o mundo – segundo aspecto. 

Servir o mundo por Deus, ou seja a recondução do mundo a Deus, tendo por cabeça: Jesus Cristo isto é o ideal que nos deve preocupar.

O mundo foi criado por um Deus infinitamente bom, unicamente para sua Glória extrínseca porque Deus não pode aumentar a sua Glória intrínseca.

O primeiro aspecto foca mais atenção sobre as desordens introduzidas pelo pecado e as graves consequências, segundo observa a ideia geral do plano divino na criação (i.é: a Glória de Deus). 

Tudo no mundo é para nós e nós somos para Cristo e Cristo é de Deus, dizia São Paulo.

A consequência é que não se trata de pontos de vista antagónicos mas complementares, na prática. A vida espiritual consiste em unir e conciliar os dois. Necessita-se de maior heroísmo para resistir do que atacar. Segundo nos ensina São Tomas. Nunca devemos ferir o amor-próprio de ninguém. 



















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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

PADRE CORREIA DA CUNHA – 101º ANIVERSÁRIO












«QUEM TEM AMIGOS É FELIZ!»


1917-2018


Quero hoje aqui recordar o dia 24 de Setembro de 2017, em que ocorreu a celebração do centenário do nascimento do Padre José Correia da Cunha (1917-1977). Nesse dia muitos amigos e admiradores se congregaram para lhe prestarem uma sentida homenagem à, para sempre, saudosa memória daquele que foi capelão da Armada (1943-1961), pároco de São Vicente de Fora e capelão das OGFE (1961-1977).






Passado um ano desta homenagem, estou certo que na sua sincera modéstia, o Padre Correia da Cunha diria, ser o único que poderia orgulhar-se pelos amigos que ali se reuniram, pois, para ele: «Quem tem amigos é feliz!». Eram estas as palavras que sempre lhe escutamos, palavras que na sua singeleza tão bem definem os limites da amizade.








O Padre Correia da Cunha pela sua grandeza moral, intelectual e espiritual não pode dispor de si em absoluto, pertence também aos amigos e admiradores que souberam por dever de gratidão e justiça perpetuar-lhe a memória com esta digna homenagem.



O modesto mas artístico monumento escultórico da autoria de José Carlos Coelho erguido nas traseiras do Mosteiro de São Vicente de Fora, fica ali bem, assim como a placa comemorativa da autoria da Arqtª. Ana Dias afixada no Campo de Santa Clara, pela Câmara Municipal de Lisboa, como gestos de gratidão a um dos pais «fundadores» da assistência religiosa à Marinha, ao pároco que deixou um rastro de luz na paróquia de São Vicente de Fora e ao filho de Lisboa que tanto amor dedicou à sua amada cidade.






O Patriarcado de Lisboa, a Marinha Portuguesa, a Câmara Municipal de Lisboa, familiares e amigos dignaram-se prestar o seu brilho àquelas cerimónias. É, pois, mais que justo que aqueles espaços, ainda hoje tão cheios da sua memória, se tenham dignificado com a inauguração daquelas simbologias em pedra e arte.


O Padre Correia da Cunha pelo seu carácter da mais fina têmpera deixou uma saudade em todos nós. Viverá sempre, mais do que em parte alguma, no coração de tantos amigos que o souberam compreender e amar e ainda hoje possuem uma inexcedível veneração à memoria deste Padre-Marinheiro-Poeta.







O  “RASTRO DE LUZ” DEIXADO PELO SACERDOTE QUE FOI CAPELÃO CHEFE DA  ARMADA E PÁROCO DE SÃO VICENTE DE FORA, EM LISBOA, FOI RECORDADO COM INAUGURAÇÃO  DE UMA ESTÁTUA.











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sexta-feira, 7 de setembro de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - ACÇÃO CATÓLICA V










O NOSSO DESTINO É ELEVAR-NOS À 

PLENITUDE…




A importância de resgatar estas lições do Padre Correia da Cunha, aos jovens da JEC da Acção Católica, reside no facto de estes textos dos anos quarenta do século passado, manterem ainda um valor histórico e uma tremenda actualidade.

A vida não é apenas respirar. A vida é tudo o que existe dentro do mundo em que Deus nos colocou. A vida é o desenvolvimento de ideias e atitudes geradoras de sentimentos cuja ribalta deve ser o próprio corpo místico a que pertencemos. Pela razão e liberdade, a vida é tudo o que somos diante de nós mesmos. Muitas vezes ouvi ao Padre Correia da Cunha que a sua missão era viver e deixar viver… não queria que fossemos anjinhos. Os fracassos e os desânimos fazem parte da vida e o mais importante era continuar a resistir. O Reino de Deus é para os resilientes. Foste posto de lado? Tropeçaste? Não vos preocupeis com o ridículo nem com a derrota. Erguei-vos! O mundo pertence aos enérgicos e aos ousados e advém da graça divina depositada nas nossas almas. 

Não sei porque, mas após a leitura desta lição do Padre Correia da Cunha, sinto-me com a alma escancarada. Às vezes a nossa imaginação irrita-se com as verdades realistas dos humanos, obstinadamente empurrando-nos para os dramas de cada dia ou a querermos inventar pensamentos que amenizem todas as tragédias que se debruçam sobre o mundo no quotidiano.

Quanto mais pensamos que pensamos, menos pensamos, e mais distantes ficamos das ideias Divinas e da Graça que existe em cada um de nós baptizados. Destruímos ilusões, construímos sonhos falsos esquecendo-nos que o nosso destino é elevar-nos à plenitude. Deus na sua infinita sabedoria criou o universo com indiscutível perfeição e dá-nos a liberdade de o desorganizarmos através do pecado (Santa liberdade dos filhos de Deus). 

A vida à qual damos muito valor, nada vale dentro do tempo, pois ela finda-se e seremos miseras marionetas na vontade absoluta do destino de filhos de Deus, que é elevar-nos à plenitude.




Lição 5

Não se deve perder de vista que um cristão não é uma abstracção, como na prática, por vezes se julga. 

O cristão é antes de mais nada um ser de carne e osso como diz o Espírito Santo: «pueri communicaverunt carni, et sanguini, et ipse similiter participavit eisdem…»

O cristão é, pois, um ser de carne e osso resgatado pelo preço infinito do Sangue de Cristo: «imptoris pretio magno», que associado a uma vida e unido intimamente ao seu Corpo Místico é destinado a viver na terra como filho de Deus: «consors Divinae naturae». Numa palavra o cristão é um homem elevado ao estado sobrenatural, nem desencarnado, nem fora da terra. 

Desencarnado isto é: sem o seu corpo, sem a sua carne de pecado, sê-lo-á somente no dia em que o magno problema do seu eterno destino for para ele, definitivamente resolvido. Até lá porém, enquanto precisamente ele está na sua carne neste mundo, como pessoa ultra concreta, com a sua alma informando seu corpo e este por vezes pesando demasiado sobre a sua alma, deve o cristão assegurar esse destino de perspectivas infinitas… 

Um cristão não é um anjo, tampouco um santo embora seja este o tipo completo do cristão. 

Querer fazer de nossos dirigidos anjos seria um erro grosseiro e extremamente perigoso. O cristão não pode ignorar nem o sofrimento nem a tentação. Filho de Deus na carne, não somente como Deus «sinilitudinem carnis peccati», o cristão não pode viver fora do seu próprio corpo. Muito menos ainda fora deste mundo em que Deus o colocou. Enquanto, porém, estiver «in via» é um ser profundamente filho da terra a que está preso (quando mais atolado, por felicidade na sua lama). O mundo sensível que lhe opera sobre os sentidos, o mundo de que depende na sua actividade e no seu desenvolvimento, o mundo sociedade: a família, a profissão, a cidade ou povoação, exerce quer o cristão queira, quer não sobre ele um contacto imperioso e necessário quando não chega a ser uma influência real. Mas ainda que o mundo seja mau, lembremo-nos sempre da parábola do joio: «sinite atraque crescere usque ad messem» e das palavras de Nosso Senhor: «non rogo ut tollas eos de mundo sed ut serves eos ex malo…»


Resumindo: O cristão é o homem que em todas as suas circunstâncias de país, idade, temperamento e meio não desencarnado, nem longe do mundo, vive, como filho de Deus, a sua vida divina, procurando reproduzi-la em si e a seu modo o Cristo, Filho Unigénito de Deus, a cujo corpo Místico pertence. 

Viver não é ter simplesmente a existência, como uma pedra, ou qualquer ou qualquer outro ser inerte. A vida está em agir, a vida está no movimento «ob intrínseco» como dizem os filósofos. Todo o ser vivo tem em si o princípio da sua actividade. Vive porque e na medida em que utilizar a sua energia para crescer, desenvolver-se, adquirir novas perfeições e realizar possibilidades que em si se encontram. Com muito maior razão e em todo o vigor da expressão isto se pode dizer do homem, ser dotado de razão, consciente e capaz de se induzir. Dotado de liberdade se move como para onde e quando quer.

A vida da graça embora sobrenatural, deve, como vida que é, corresponder a esta definição. Se foi depositada na nossa alma, no Santo Sacramento do Baptismo, não foi para permanecer na inércia de uma real nulidade, mas, muito ao contrário para crescer e frutificar abundamente para Glória de Deus. Posta em nós sem a nossa cooperação (pelo menos quando se trata de pessoas baptizadas em criança) a vida divina não pode crescer, nem tampouco permanecer em nós, uma vez chegados ao uso da razão e por conseguinte capazes de regular a nossa actividade humana sobrenaturalizada, sem a nossa cooperação. Certos sempre do concurso indispensável de Deus e da sua graça, somos no entanto nós que agimos e nos determinamos livremente.




A nossa vida cristã supõe, portanto, da nossa parte uma actividade consciente e livre. Por isso mesmo que o nosso agir é consciente e livre somos muitas vezes, para não dizer continuamente obrigados a decidirmos-nos a escolha de dois bens o que julgamos mais nos convém. Na verdade o Divino Bem não nos apareceu ainda em toda a plenitude, e perante os bens parciais que nos solicitam pode a nossa vontade hesitar, perante bens contraditórios que se lhe apresentam pode ficar sem saber ao que deve atender, enfim perante tantos meios que se oferecem para realizar o fim que se propôs a nossa vontade pode escolher.

Se isto é já uma verdade quando se diz da actividade humana ainda não transformada pela graça, quanto mais o não é falando-se da opção que um cristão, como tal tem de fazer quando se encontra em presença de dois planos de actividade. Cada um destes planos tem seus fins próximos e remotos, têm seus meios peculiares, por vezes numerosos, mais ou menos eficazes e úteis. 

E é assim que o homem, com tem a sua vida sobrenatural poe essa mesma lei da vida, tende para a expansão de todas as suas capacidades físicas, morais e afectivas – no que contribui para as da Glória de Deus. Mas, esta tendência de extensão harmoniosa de todas as suas faculdades, que em si é boa, nem é abstracção, deve ser guiada, não pelo instinto animal mas pela razão e fé.

Não espera uma vida mutilada ou insignificante, nem uma vida corporal desportista, nem uma vida de ansiedade ou perturbação perante dificuldades que é preciso vencer, nem uma vida intelectualista ou estóica que despreza as realidades da vida e se refugia na sua cobarde torre de marfim. O cristão trabalha por conseguir e espera o desenvolvimento harmonioso de todas as capacidades pessoais, sem esquecer que a desordem trazida pelo pecado original requer a prudência no uso das criaturas sobretudo do corpo que sendo nobilíssimo instrumento da alma deve ser orientado para a vida sobrenatural.

















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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - ACÇÃO CATÓLICA IV















UMA VIDA A ANUNCIAR O EVANGELHO

 DA ALEGRIA.




As pregações do Padre Correia da Cunha aplicavam os princípios da oratória, da eloquência e da retórica, dando-lhe uma clareza de ideias. Para ele a liturgia do culto tinha que ser muito simples afim de não perder a direcção do Espírito Santo. Preferia a informalidade, quase didáctica e familiar, mas bem expositiva pois todos nos sentíamos atraídos em escutá-las naquele ambiente descontraído e sociável.

Havia sempre uma magna pergunta: Que sentido Cristo faz nas nossas vidas?

Lembrava, o cristão é aquele que em primeiro lugar, tem um contacto íntimo com os Evangelhos, procurando viver os princípios transmitidos por Cristo, adaptando-os para os dias actuais, implicando-os na transformação do mundo.

Para o Padre Correia da Cunha a Igreja não deveria estar preocupada consigo, consolando-se, mas inquieta com todos os Homens. No texto que hoje publico, verifica-se um homem que luta pela boa formação dos Jocistas que os ajudará na transformação do ambiente laboral onde estavam inseridos. 

Sempre lhe conheci um sonho: o de transformar a sociedade com a ajuda da graça do Espírito Santo. Não concebia o divórcio entre o culto e a vida quotidiana.

Defendia e praticava um permanente diálogo com as famílias da comunidade, com os jovens jocistas, com os marujos e políticos e a base dessa caminhada era sempre a do Evangelho como fonte transformadora da sociedade pela paz com justiça, dando voz aos que não têm voz. Não era só o culto, por muito espectacular que fosse, e as rezas que ajudavam a Construir o Reino de Deus mas o diálogo inclusivo com todos. 

Que bom seria haver uma pleiâde de padres Correia da Cunha. Uma vida inteira a anunciar o Evangelho da alegria.




Texto autoria do Padre Correia da Cunha


O que implica a plenitude da Vida Cristã?

A posição, o enunciado do problema é muito simples, mas encerra enormes exigências para quem o quiser viver ou fazê-lo viver profundamente como o deve querer o assistente jocista; e simplesmente isto: formar cristãos, formar jovens cristãos e formar jovens operários cristãos.

Formar cristãos e todo o fim principal do nosso labor de assistentes: formar gente que saiba ser cristão no verdadeiro sentido da palavra. Sabemos que a palavra: cristão se começou a usar aí pelo ano 43 em Antioquia com os discípulos ou santos como até então eram chamados os que seguiam a Cristo. Pois que este nome de cristãos seja bem compreendido pelos jovens operários com todos os seus direitos e com todas as suas exigências: que eles saibam aliar na sua vida quotidiana as aspirações de uma fé com os apelos da sua natureza que saibam resolver criteriosamente os árduos problemas da religião e da vida.

Formar jovens cristãos: Já é tempo de fazer desaparecer essa piedade piegas e mulheril da juventude. Ser cristão não equivale a andar de cabeça de lado e mãos no peito a toda a hora, mas ser cristão é ter a plenitude da vida, ter orgulho de o ser, cabeça bem levantada em todo o ardor da juventude. O jovem cristão não está proibido de jogar (os jogos lícitos bem entendido) de desenvolver o seu vigor físico, antes pelo contrário: anima sana corpore sano.

Formar jovens operários cristãos que vivam a sua vida cristã plena em qualquer estado que a Divina Providência os tenha colocado por menos viável que seja social ou moralmente - Trata-se pois de ajudar os jocistas a realizarem totalmente a sua vocação jocista.

É só isto, mas é tudo isto!

O nome jocista veio-nos da Bélgica. É tirado das iniciais de uma das especialidades da Acção Católica. 




Quer dizer: Jovens Operários Cristãos. Como jovens cristãos. Como jovens cristãos devem levar uma vida integralmente cristã, embora hoje em dia, infelizmente tenham de empregar esforços heróicos porque o seu meio está, em geral, muito corrompido. Como, porém diz o Cónego Cardyn é necessário transformar o meio operário porque os homens não podem na sua maioria despender esforços heróicos.

É o de cristão. Um jocista é antes de mais nada um cristão convicto, que não se envergonha de o ser e de o parecer. Deve portanto na sua vida privada e social corresponder a tão sublime vocação. O jocista devido à sua fé deve ser apóstolo conquistador de modo a levar para Cristo os seus irmãos apostados da Igreja pela nefasta influencia do liberalismo do passado século.


O cristão é o homem de Cristo porque acredita n’Ele vive N’ele, por Ele e com Ele para a glória ao Pai na Unidade do Espírito Santo.

A fé em Cristo é toda a Boa Nova. Viver em Cristo conhecendo-se seu membro no Corpo Místico, amá-lo vivendo a própria vida cristã pela graça.

Fazer como Cristo fazia: isto vos fará sentir sempre em tudo esta influência vital de Cristo é ser cristão no pleno sentido da palavra Vita functus est Cristimus.

De todas exigências da plena vida cristã a mais importante é viver com Cristo, proceder como cristão porque se o fizer possuirá a vida de cristão e verá forçosamente ela desenvolver-se em si assim como a fé: É este um duplo ponto ontológico e psicológico que encerra toda a vida cristã; o segundo aspecto leva-nos mais directamente à direcção das almas, mas só em vista do primeiro. Se, se considerar o jocista, operário, como filho de Deus ou membro de Cristo, deve antes de tudo mostrar-se à altura de tal nome.

Tudo isto nos leva, afinal ao grande problema: a religião e a vida. Em que relação estão a natureza e a supranatural, a vida e a religião. São realidades que se repilam, compenetram ou se ignoram? São coisas homogéneas, heterogéneas ou idênticas?

Pusemo-nos já algumas vezes em face de tais problemas? A teologia ensina-nos que basta ir ao sentido da graça ou da elevação ou as do pecado para termos a resposta técnica. Mas na sua transposição prática, concreta a sua projecção na vida é mais difícil mas iremos trata-la e aborda-la.

E todavia é este problema que se apresenta mais vivo e flagrante na vida cristã: Quais são as relações do homem com o cristão? E da vida com a religião? Se os fiéis e a juventude sobretudo não sabem dar-lhes resposta adequada sabê-lo-emos nós que temos a obrigação?




















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segunda-feira, 2 de julho de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - ACÇÃO CATÓLICA III









«A MELHOR ORAÇÃO É A CARIDADE!»



Guardarei sempre com muita gratidão a lembrança da máxima do Padre Correia da Cunha: «A melhor oração é a Caridade». Foi esse o caminho que sempre procurei trilhar ao longo da vida.

O Padre Correia da Cunha abominava as orações discursivas, orar para ele era um acto de afectividade e agradecimento. No profundo silêncio, escutar na intimidade a forma de cultivar o Amor a Deus e aplicá-lo à realidade na qual vivia. Nas celebrações litúrgicas os leccionários e ordinários serviam apenas como tópicos, as orações, súplicas e salmos brotavam do fundo do seu coração, adaptadas ao momento presente e eram sempre fruto da sua imensa inspiração poética.

O que considerava essencial era que cada um de nós, a começar por ele, se tornasse mais humano à semelhança de Jesus. Mas lembrava que este processo não era resultado só do esforço humano, por muito que o desejássemos, mas antes pelo contrário, era consequência da Graça Divina. ‘’O espírito sopra onde quer, e ouve a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. (Jo.3.8)’’.

O Padre Correia da Cunha deixou-nos também uma definição lapidar do cristianismo: «É uma vida que se vive e não um compêndio de ideologia que se aprende».
A espiritualidade é portanto um estilo de vida, um modo de sentir, pensar e agir segundo o sopro Divino que é amor, alegria, paz, bondade, fidelidade…

Ninguém melhor que o Padre Correia da Cunha compreendia o amor entre um rapaz e uma rapariga. Tinha uma longa experiência no trabalho com os jovens, ancorado na sabedoria da Palavra de Deus e dos ensinamentos da Igreja; apresentando de maneira clara, directa e objectiva tudo aquilo que os namorados precisavam de saber e viver para cumprirem a bela missão que Deus ambicionava para esse amor, que germinava no coração de cada um dos enamorados.

Era verdadeiramente um grande orientador espiritual para os jovens que iniciavam os seus galanteios pelos claustros do mosteiro de São Vicente de Fora. Ainda hoje recordo essa sua grande missão e preocupação em cuidar com sabedoria e espiritualidade os aspirantes a formarem uma família cristã.


 Oiço ainda hoje muitos testemunhos de gratidão pela imensa obra que tantas famílias da Armada e da Paróquia de São Vicente beneficiaram com essa sua acção pastoral.






TEXTO AUTORIA DE PADRE CORREIA DA CUNHA


O fim é sempre idêntico, os caminhos diferentes.
Aplicação concreta.
Outros pontos importantes: vida de oração e vida afectiva.
Frente ás dificuldades.
Como resolver?

A grande lei da Caridade Cristã: Diligere Deum super omnia, et proximum sicut se ipsum molaribus instat; é o grande princípio idêntico e único para todas as pessoas, mas as aplicações são, sem dúvida, diferentes.

Assim os jocistas podem glorificar a Deus e amá-lo segundo o seu estado o permita. Não é só poder é também dever. A doutrina que os jocistas percebem melhor, nunca nos esqueça, é a do Corpo Místico.

Lembremo-nos que os jocistas precisam de um grande ideal para o alimentar uma grande espiritualidade. Que comportará pois, a aplicação da doutrina evangélica nos nossos jocistas? Na prática traz muitas dificuldades.
Nós devemos deixar que se desenvolva nos jocistas o espírito de classe… Não é contrário ao preceito da caridade universal, antes pelo contrário, é conforme aos planos da Providência sobre eles e o papa quere a Acção Católica especializada: operários com operários, engenheiros com engenheiros, São Paulo faz-se judeu com os judeus, gentios com os gentios…

E ainda será o espírito nacionalista exagerado ou o universalista contrário à Doutrina Cristã? Se qualquer deles o for, será o assistente o trabalho, tarefa de o tirar e de não deixar que se intrometa. E a comunhão frequente que excelente meio de santificação pode prejudicar a vida corporal e social do jocista. Que devemos nós sacrificar a saúde e o dever de estado à alegria de receber todos os dias Nosso Senhor ou ao contrário?





A vida de oração e a vida afectiva são outros pontos da máxima importância. Qual será a vida de oração que o assistente deverá inculcar no espírito dos seus jocistas? Deve levá-los e orientá-los a uma vida de oração mais afectiva que discursiva? Ou conduzi-los pelos caminhos por que ele próprio passou? Até que ponto lhes pregará o desprendimento do coração a vigilância dos sentidos? Deve preservá-los de toda a afeição, falar-lhes do matrimónio como uma oração secundária? Ou fazê-los pensar nele e desejá-lo?

Perante tais dificuldades não basta ao assistente ser um santo sacerdote, consciencioso director de almas mas é lhe necessário também estudar o problema da direcção dos jocistas em particular. Os jocistas têm certas necessidades que outras classes sociais não terão. E são os jocistas que o assistente deve formar e conduzir na sua vocação jocista ao completo sentimento e vida divina. Deve pois o assistente estudar a situação os meios em que estão e procurar uma resolução conveniente na sua vida de cristãos de operários e de jovens sedentos de um grande ideal de futuro…

Como resolver tais dificuldades? Uma solução se propõe: o estudo serio universal e singular delas e a sua aplicação pratica, raciocinar sobrenaturalmente, sacerdotalmente a nossa acção confrontando-a com os princípios que a nossa teologia dogmática e pastoral escrituristica  que nos fornecida durante o tempo de seminário e que não deixaremos de ver de vez enquanto.

Devemos trabalhar para fazer ver aos jocistas a grande realidade da vida de Cristo do cristianismo nas suas almas e sobretudo faze-los viver…

Devemos pensar no grande problema da direcção espiritual destes jovens operários que serão os apóstolos junto de seus camaradas e as pedras fundamentais desta grande catedral que eles tanto desejam construir: a catedral de uma vida da melhor decência de amor e esperança. Uma vida sobrenatural de Cristo neles.

Mas antes de mais nada formar-nos-emos a nós mesmo formar em nós os assistentes jocistas com a vida de oração, de caridade, como a vida de Cristo sacerdote!





















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terça-feira, 5 de junho de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - ACÇÃO CATÓLICA II













O ASSISTENTE É HUMILDE INSTRUMENTO...



Ao terminar a leitura dos tópicos desta segunda lição aos jocistas pelo Padre Correia da Cunha, constato que ainda hoje há muito boa gente que vive num embaralhado de paixões vulgares e egoístas cujos únicos interesses são meramente o uso de títulos e a satisfação de vaidades pessoais. Já não se cultivam os sentimentos de que a missão de cada um de nós é servir o próximo no respeito da dignidade apregoada pela solidariedade humana.

Necessitamos de homens como o Padre Correia da Cunha que assumia com a sua rigorosa inteligência a responsabilidade de defender os interesses dos seus semelhantes, incentivando-os e apoiando-os no seu desenvolvimento humano e cristão. Não era sedento de posições na hierarquia, nem fazia dos outros trampolins para subir, ou se valia da sua imensa sabedoria para demostrar os seus complexos de superioridade. Não frequentava os salões da intriga e das vaidades, bastava-se com os seus marujos e paroquianos. Tinha amigos espalhados por todas as classes sociais, mas a simplicidade e humildade eram as suas divisas. 




Como era bom que à semelhança do saudoso sacerdote que todos nos colocássemos ao serviço dos nossos semelhantes, tendo como ideal o de contribuirmos para uma ampla e fraterna humanidade.

Indiscutivelmente, devemos como cristãos esforçar-nos por fazer respeitar os princípios do Evangelho; Jesus foi exemplo de humildade e de fraternidade. Apesar dessa tão sublime lição terá sido manchado e abandonado pelos Homens ao largo dos séculos.

Urge readquirir confiança tão abalada pelos muitos maus exemplos de líderes, pois é evidente o desânimo que geram, contribuindo para a morte lenta das nossas esperanças, não podemos confiar naqueles que só em si pensam e nas distinções sociais.

O nosso assistente jocista era o primeiro defensor dos jovens operários, e toda a sua vida era dedicada a ajudá-los e a encorajá-los através da suas catequeses que eram verdadeiros estímulos para lutarem com fé e esperança na construção de um mundo mais fraterno e a terem consciência que seriam afortunados cidadãos se respeitassem os seus deveres e direitos para com Deus e para com os semelhantes.






O QUE É UM DIRECTOR?


Na acção do sacerdote, do assistente com os jocistas talvez seja conveniente desapareça este nome director, pois parece que dá a ideia de superioridade de vigilante dos meninos das escolas e por isso mesmo improfícuo, senão contraproducente no movimento, na actividade espiritual profunda e convicta do jocismo. Muito embora, porém respeitemos a palavra, não devemos rejeitar a coisa, a ideia da acção espiritual do assistente junto dos jocistas e se me é permitido dar uma definição, usarei para isso as palavras do Santo Padre: “O director é um sacerdote que poe ao serviço das almas de seus jocistas, todas as fontes de riquezas espirituais da sua alma de sacerdote.” 

Riquezas espirituais que deve comunicar às almas. Ideal a que as deve encaminhar?

Não são necessariamente as riquezas sacramentais de que o sacerdócio católico é o depositário e o dispensador, mas que o director se limitaria a comunicar a distribuir a seus jocistas. É certo que deve orientar e encaminha-los ao confessionário e à Sagrada Comunhão, embora não seja ele mesmo o confessor ou quem lhes dará na Sagrada Eucaristia. Novas as riquezas de que quero falar e que o assistente deve dispor aos seus jocistas são todos os tesouros que ele anos acumulou: tesouros da inteligência, estudos, diagnósticos morais e pastorais assimilados pela meditação e vividos na prática; e tesouros do coração: a vida espiritual que se gera aumenta e vivifica nos pobres trabalhadores, o fogo do amor de Deus que o consome e em que deve incendiar os trabalhadores que descobrem o verdadeiro amor; a luz da fé com que os deve alumiar e a caridade que é solícita e benigna que ouve compassivamente os seus sofrimentos e dores.

Deve ser o seu único ideal ajudá-los a conhecer a sua dignidade sublime de filhos de Deus, a corresponder ao amor com que Deus comunicar torna-los cônscios das suas riquezas espirituais presentes e do seu divino destino.

A realização desse grande ideal. Para a plena realização do ideal atrás apontado é necessário da parte do assistente que os instrua aos pobres operários. Esta instrução deve ser convicta para convencer, amada para comunicar amor pois ninguém dá o que não tem e para que o operário consiga o ideal é preciso que dele esteja convencido que o ame que o deseje.

Uma vez que se lhe abriu o caminho do ideal é preciso guiá-lo, encorajá-lo, reconforta-lo ao caminho deste grande ideal e muito espinhoso só são espetados de rosas os castelos no ar. 

O assistente é humilde instrumento nas mãos do Espírito Santo na santificação das almas. Por mais que se tenha dito nunca é demais repetir esta grande verdade: o assistente não é o Espírito Santo, mas um humilde instrumento cujo papel se limita a aguardar, a saber qual a sua divina vontade e a interpreta-la se tanto for preciso mas só para a seguir, secundar em todos os casos e ajudar a alma a corresponder-lhe. O assistente deve ser o primeiro a submeter-se. Aquele que dá os impulsos e toma a iniciativa.

Nem tão pouco se deve considerar como dirigido ou substituto, nem o deve suprir. Deve tomá-lo tal qual é, a fim de o levar a Deus que assim como ele é o quer. Todo o seu papel está em: guiar e encorajar e ensinar o operário a seguir docemente e generosamente o seu Guia Divino. 

Das almas dos nossos especialmente dos operários. Este deve ser humilde instrumento, deve ser pelo assistente dirigido e aplicado especialmente aos seus jocistas. 




















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sexta-feira, 18 de maio de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA E O ALMIRANTE FÉLIX ANTÓNIO















«A POESIA SERÔDIA DUM VELHO 

MARINHEIRO.»




Na passada semana fiquei surpreendido com o convite do Excelentíssimo Senhor Almirante Joaquim dos Santos Félix António, manifestando o desejo de que eu estivesse presente na Academia de Marinha, no dia 15 de Maio, para escutar uma palestra proferida por este académico, intitulada: A POESIA SERÔDIA DUM VELHO MARINHEIRO.





Agradecendo tão delicada atenção não poderia deixar de comparecer, já que o Sr. Almirante foi amigo do Capelão Correia da Cunha, quando desempenhou as funções de director, do Hospital da Marinha, cargo que exerceu com superior competência. O Almirante Félix António marcara presença na Celebração do Centenário do Nascimento do Padre Correia da Cunha, ocorrida em Setembro no passado ano.

O auditório da Academia de Marinha reuniu no mesmo espírito altas personalidades de tão nobres qualidades ligadas à Armada e à Medicina.

Foi para mim um imenso prazer ouvir os poemas da autoria do Sr. Almirante Félix António. Mas todos ficamos sem saber, o que mais admirar, se os poemas e sonetos, se o talento, o saber, a fineza de espírito ou a delicadeza dos seus sentimentos e a inexcedível bondade do seu coração.


Não poderia eu prever aquele belo momento aquando da singela homenagem ao capelão-poeta Correia da Cunha. O Senhor Almirante não deixou de evocar o seu antigo capelão, certamente, por este lhe ter deixado pelo seu grande espírito, algo de herança para a sua alma de poeta.

Com saudade, muito carinho e amor lhe dedicou um belo poema, lembrando que no 40º aniversário da sua morte foi lançado um livro com o título CORREIA DA CUNHA – Mestre de Vida (padre-marinheiro -poeta) da autoria do seu paroquiano João Paulo Dias ali presente no auditório.







Os poemas deste «velho marinheiro» enlevam-nos e atraem-nos, porque tudo nos parece iluminado pelos reflexos da sua bondade, pela fé nos mais altos ideais bem como naquilo que há de mais elevado e nobre. Um guerreiro contra ao grosseiro materialismo em que tantos e tantos se afundam.

Ouvi-o falar de um passado de recordações de factos e episódios de vida quer como médico «João Semana», quer como audaz marinheiro. Através dos seus versos recordava todos aqueles que lhe eram mais queridos. Falava com tanto entusiamo, tanto calor, tanta vida que parecia ver renascer o seu mais belo espírito, vigor e entusiasmo da sua mocidade.


Os poetas têm a imaginação voltada para a doçura das coisas terrenas, para o amor, para as visualidades exuberantes da natureza, para a graciosidade da mulher, para a embriaguez dos sentidos, para os deleites e desgostos da vida.

A Academia de Marinha transformou-se num santuário de poesia em que se respirou sabedoria e bom gosto, naquela atmosfera cheia de muitíssimos honrados médicos e de altas patentes da Armada, para escutarem o distinto Almirante revestido das maiores delicadezas sentimentais.

Finalizou a sessão com tal emoção e expressão que me é impossível descrever por palavras. Os olhos rasos de lágrimas quando leu um poema homenageando o seu querido filho recentemente falecido. Um poema de dor e de amor paternal.

Ao Senhor Almirante Joaquim Félix António a expressão dos meus sentimentos grato pelo honroso convite e pelo poema dedicado ao amigo PADRE CORREIA DA CUNHA.




















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terça-feira, 8 de maio de 2018

PE. CORREIA DA CUNHA - ACÇÃO CATÓLICA I












«É ESSENCIAL QUE OS JOVENS SEJAM FORMADOS NO AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO.»



Não me recordo do Padre Correia da Cunha me ter falado algum dia da sua ligação à Acção Católica Portuguesa e particularmente aos Jocistas. Certamente foi nos seus primeiros anos de sacerdócio.

Irei ao longo dos próximos meses, transcrever as muitas lições por si ministradas aos jovens trabalhadores cristãos, retiradas de um velho caderno amarelecido pelo tempo. Penso que estes escritos sejam dos anos 40 do passado século. Esta associação JOC tinha como missão a libertação dos jovens trabalhadores como verdadeiras testemunhas de Jesus Cristo e a viverem o Amor a Deus e à Igreja.

Neste primeiro texto e nas palavras do assistente eclesiástico: Os jocistas eram verdadeiros militantes moldados pelos ensinamentos da Igreja e pelos princípios da sua hierarquia.

Não se podia encarar de ânimo leve esta sua tarefa sacerdotal. Esta missão implicava uma completa interiorização e uma fervorosa vida espiritual. Tratando-se de uma população jovem, futuro da Igreja e continuidade da sua obra da Igreja. Através destes escritos fica bem claro que se propõe educar a juventude no Amor a Deus através de uma forte militância e vigilante valorização pessoal que permitisse mais tarde a estes cristãos cumprirem em plenitude as suas missões no seio da comunidade paroquial.





O assistente da Acção Católica, particularmente no movimento Jocista.

Primeira pergunta: Importância capital do papel do assistente nas obras da Acção Católica.
- A grande importância a vital importância do papel do assistente nas obras da Acção Católica, e não nos fora inoculada pela própria natureza e gravidade do assunto, ter-nos-ia sido suficientemente declarada pelas palavras que como lema duma revista: «Assistente Eclesiástico», o Santo Padre Pio XI pelo seu próprio punho escreveu: A Acção Católica é o que for cada um dos seus assistentes na parte que lhe seja confiada: In manibus tuis sortes  mea.

Assim é, o assistente leva em suas mãos a sorte presente e todo o futuro da Acção Católica. Não nos iludamos a este respeito. Se a Acção Católica se desenvolve e próspera, numa palavra se a Acção Católica vive é principalmente e quase unicamente devido ao assistente eclesiástico.



Na verdade, do assistente dependem os militantes que realizarão o apostolado laical que é uma tarefa, e por meio dos militantes depende ainda do assistente a eterna salvação daqueles que esperam no apostolado a actuação da acção dos militantes formados, guiados, e animados pelo assistente. Que grande responsabilidade não é a do assistente… In manibus…







Na Acção Católica o sacerdote não é senão o assistente. Não é presidente, nem tesoureiro, nem maquinista; é pura e simplesmente o assistente ou para empregar as palavras do Papa ao Episcopado colombiano: a alma das associações, fonte de energia, animador do apostolado: representante da autoridade. Deixando aos leigos a direcção e a responsabilidade das associações, deve porém garantir a fiel e constante aplicação dos princípios e directivas estabelecidas pela hierarquia da Igreja. O seu papel é portanto imponderável, insubstituível.

Pertence ao assistente eclesiástico procurar com recato escolher com prudência formar e instruir os apóstolos leigos do meio do trabalho. Por outro lado é grande dever dos prelados escolher esses educadores de todos o que hão-de colaborar com a hierarquia para esses sacerdotes formarem os futuros apóstolos de todas a classes sociais já que a Acção Católica deve ser especializada.


Por mais brilhantes que sejam as qualidades naturais de um sacerdote não bastam: É pois necessário sobrenaturalizá-las no amor do Coração de Jesus. A educação espiritual do Padre deve surgir as qualidades de instruir que lhe faltam, ou aperfeiçoar as que tem. Os encargos da formação dos militantes jovens urge o convencimento a propósito de tudo orai nas horas fixadas. Nas reuniões trata-se de desenvolver a vida sobrenatural de modo a conseguir que a acção cristã junto dos companheiros seja uma exigência da própria personalidade cimentando num contentamento mais perfeito de Deus pela fé e pela caridade.











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