E por conseguinte, a Caridade não pode ser de mim para comigo.
A Caridade sendo Cristo, pode e deve viver em mim e eu viver por ela: In hoc appamit caritas Dei in nobis…et vivamus per uum. Veio a mim, mas não vai de mim, nem vai para mim, por quanto sendo Cristo só pode ir para o Pai sob acção do Espírito Santo (De spiritu XEUS in Patre) – Caritas Dei difusa est in nobis per Spiritum Sanctus qui datres est nobis.
Disse eu que a Caridade sendo Cristo, pode e deve viver em mim e eu por ela – Mas aí, não é forçada – é um dever moral que posso infelizmente deixar de cumprir. E aqui está a tragédia do Homem e do Cristão. – Deste porque pode usar mal da varinha mágica e deixar de possuir, daquela porque por igual processo a pode não aceitar.
No caso de ser cristão: que devo eu fazer para a viver? Corresponder como?
- Decidindo-me a lutar e a morrer a dar tudo, mais abertamente tudo e dar-me inteiramente, de sorte que não deixando de ser eu seja diferente de mim, viva em mim alguém que no dizer de Claudel, seja plus moi même que moi, numa feliz tradução das expressões de São Paulo: Vivo, iam non ego vivit vero in me Christus.
A Caridade é assim praticamente a realização do mistério de Deus em nós. É a santidade.
Se a Caridade é o Amor em Deus e de Deus de que resulta uma unidade na Trindade, se é aquele movimento de transcendência perfeita em que Deus se dá totalmente a Si mesmo na triplicidade de pessoas que formam um só Deus, se a Caridade é o movimento de Amor do Verbo, pelo qual ele assumiu a natureza humana e se deu ao Pai realizando a sua vida no Amor, se a Caridade é fundamentalmente esse dom divino que leva às pessoas divinas a darem-se para se encontrarem. Se é isto então comunicada aos Homens deve ser o dom do próprio Cristo que suscita nelas uma doação completa para se encontrarem transfiguradas, divinizadas, realizando assim o conformer filli imajini Filii Dei, consortes divinae natural, ontem recepermut e um dedix eis postatem Filii Dei fieis FiliiDei nominemus et sumus.
Assim como Deus na sua vida trinitária, se dá todo, infinitamente todo ao Filho para se encontrar no Espírito Santo, assim nós também vivendo na Caridade humanada na pessoa de Cristo temos de nos integrar nele e por ele e com ele darmos ao Pai sob a acção do ministro, para nos encontrarmos transfigurados em Deus.
As coisas divinas por mais que façamos nunca se definem, comparam-se quando muito. Por isso Cristo falou em parábolas e a liturgia também ensina tanto pelos gestos e atitudes como pela palavra: Aquela gota d’agua que lançamos no cálix da missa é a mais eloquente que toda a minha exposição. Não deixando de ser gota d’água mistura-se de tal maneira no vinho que não é fácil distingui-la. É consagrada também e sobe assim transfigurada ao seio do próprio Deus. A gota d’agua porque se deu inteiramente vai assim brilhar no diadema do próprio Deus.
Para vivermos a Caridade é preciso portanto corresponder ao dom total de Deus em nós, dando também num movimento tudo inclusive nós próprios. É o abneget semetipsum… é o qui vult perder animam suam para nos encontrarmos deiformizados – inveniet eam.
Em primeiro lugar darmos o que temos e depois darmo-nos a nós próprios, fazendo o vazio absoluto para nele caber o infinito da presença de Deus que é Caridade. Aqui está razão profunda porque o mistério da Caridade é um sacrifício místico. Privar-se de tudo que afinal é simples aparência, sombra – tanquam specula in enigmata - para se realizar plenamente no tudo realidade que é Deus e assim fecharmos o ciclo da plenitude.
Temos de nos privarmos das formas transitórias imperfeitas, inclusive da nossa – não há maior prova de amor que dar a vida – para a encontrarmos depois deificada. Por isso, neste mundo, a Caridade baseia-se na fé e resplandece na esperança – 3 irmãs gémeas que, à entrada na eternidade se fundem numa só luz: tune antem faci ad faciem in lumine tue viderimus lumen.
Esta doutrina da Caridade é a que foi pregada por Cristo e pelos apóstolos e pelos santos – quer pela palavra, quer pelo exemplo.
Se abrirmos os Evangelhos, encontraremos frases como estas que talvez não soem muito bem aos juridicistas da moral:
- Eu não vim trazer a paz, mas a espada.
Se alguém quer vir após mim, renuncie-se a si mesmo.
Quem não deixar seu pai e sua mãe e irmão e tudo por amor de mim, não é digno de mim.
Se o teu olho te escandaliza
Se o teu pé te escandaliza
Para quê multiplicar as citações? Todo aquele divino sermão da montanha que é senão o mote de ordem cujo cumprimento é indispensável para que se possa viver pela Caridade que veio a nós no Baptismo.
Afinal toda a doutrina do Evangelho outra coisa não é mais que a promulgação deste preceito – esto perfecti sicut Pater vester – e a perfeição do Pai está a dar-se ao Filho e a ambos em viverem no Espirito Santo dando-se totalmente. A Caridade em nós é portanto no que de nós depende uma doação na esperança que é a certeza de nos encontrarmos realizados em Deus.
A doutrina dos apóstolos é idêntica - Basta citar aquela palavra de São Paulo aos Efésios: Imitators Dei esto sicut carisssimi, et ambulate in dilectione sicut et Xeus dilecit nos et tradidit semetipsum pro nobis oblationem et hostiam Deo im odorem suavitates – E aquele sublime poema da outra sua epistola aos Coríntios: Si linguis hominum loquar, et angelorum, caritatem autem non habeam, factus sum velut æs sonans, aut cymbalum tinniens.
Et si habuero prophetiam, et noverim mysteria omnia, et omnem scientiam: et si habuero omnem fidem ita ut montes transferam, caritatem autem non habuero, nihil sum. Porque a Caridade praticamente é dar-se em paciência, benignidade, humildade… e por isso não pode ser ambiciosa nem avara nem egoísta – parece quase que São Paulo diz: não pode ser cada um para consigo…
Em São João já a vimos tão belamente expressa.
E de São Pedro não se pode entender de outro modo estas palavras da sua 1ª Epistola Cap. II - deponentes igitur omnem malitiam, omnem dolum, simulationes, inuidias omnes detractiones; sicut modo geniti infantes, rationabile sine dolo ac concupiscite, ut eo crescatis in salutem, si tamen gustates guoniam dulcis est Dominus - e mais adiante: vers. 21 – in hoc enim vocati estes suria et xeus passus est suo nobis vobis aelingenes exemlum, ut seguamini vestigia ejus.
A doutrina dos Santos baseada na de Cristo e dos Apóstolos como poderia ser diferente. Basta ler Santo Agostinho, São Tomas e sobretudo São João da Cruz, que tão bem fala da maneira de subir o Monte de Carmelo – especialmente naquele capítulo VII do livro segundo em que comenta as palavras de frases: et multi sunt qui intrant per eam augusta porta et arcata via quae ducit ad vitam, et pauci sunt qui inveniunt eam. No ergo est paeordinatus a Deo numerus salvandorum. et multi sunt qui intrant per eam augusta porta et arcata via quae ducit ad vitam, et pauci sunt qui inveniunt eam. No ergo est paeordinatus a Deo numerus salvandorum. et multi sunt qui intrant per eam augusta porta et arcata via quae ducit ad vitam, et pauci sunt qui inveniunt eam.
Basta ler e entender a História de uma alma para se ver que por muito diferente que seja o ponto de partida – toda a santidade se encontra neste ponto: viver pela Caridade infundida em nós pelo Espirito Santo que nos foi dado de sorte que se realize em nós plenamente Cristo. Mas para isso é preciso darmo-nos, corresponder com a doação completa do nosso eu.
Se contemplarmos agora a vida da Caridade Humanada do Verbo quer misticamente nos Santos chegaremos a igual conclusão: Que foi a vida de Cristo e a dos Santos senão um esinamivit para se transuma num exaltavit illum.
A Caridade é portanto entraparmo-nos cheios de fé com a esperança certa de nos transfiguramos. É morrer para ressuscitar; É a Pascoa no sentido de passagem libertadora à terra prometida deixando todos os Egiptos de escravidão.
À a morte de nós mesmos em nós para encontrarmos a vida de Deus. Nisi granum frumenti cadens in terram mortum fuerit, ipsum solum manet si autem mortuum fuerit, multum fructum affert . Esta palavra do pão de trigo traz-me à ideia a parábola do semeador, que saiu a semear… e uma parte da semente caiu em terra boa e enraizou-se e voltou e cresceu e deu flor e fruto – Mas não nos esqueçamos da explicação: sémen est Verbum Dei – O Verbo de Deus é Deus – et Deus erat Verbum – e Deus é Caridade.
Tal é o mais profundo sentido da parábola. Afinal a Caridade para nós é o Verbo de Deus lançado à terra no nosso coração – a fim de florir de nós para Deus e em Deus. Por consequência a Caridade não pode ser de cada um para consigo – mas de Deus e para Deus através de cada um que procura ser bom terreno. No entanto ninguém ama o terreno senão porque se pode e deve transfigurar na flor e nos frutos. Por isso o que é preciso é ser-se como diz o salmista: autêntico e bom esterco pela humildade para se poder ser assimilado pela semente, para se ser digno da união intima e vital à semente que nos veio do alto. Ou por outra comparação tão querida da liturgia inspirada no Evangelho: A vela acesa.
A vela acesa é o Círio Pascal-símbolo de Cristo. Esta vela acesa pelo Espirito de Deus – Fons vivres panis caritas é nos dada quando acabamos de entrar na verdadeira vida (na vida Trinitária da Caridade) da qual esta vida física temporal sobre a terra é simplesmente um símbolo – é a passagem para o outro lado da vida (como disse o Sr. Cónego Pontes) de novo a empunhamos – Que lindo e grandioso este simbolismo! A vela acesa é Cristo a arder em nós (Fac,ut ardeat cor meum in amando Christum Deum ut sibi complaceam) na abama da sua vida Trinitária – o que é necessário é sermos cera que se consome em Luz. Ah! L’important n’est pas de vive mais de mourir et d’etre consome – Claudel.
E ninguém ama a cera por ser cera mas porque é capaz de se transfigurar em luz diante do altar.
Ainda noutra parábola: O reino dos céus é semelhante à pérola preciosa – aquele que a encontra, vai, vende tudo, desfaz-se de tudo para a adquiria-la. Essa pérola só tem valor enquanto tem vida e oriente, e não por ser uma especial de calcária formada nas conchas do mar. Vida e oriente… Vida movimento intrínseco que nos foi dado – dom portanto que recebemos só alto por Cristo que é a Caridade e que se orienta para o alto pelo mesmo Cristo que nos absorve – que se impregna no pobre calcário e lhe dá essas cintilações divinas de uma claridade diáfana – Oriente – orientação – voltando para o PAI (tudo isto sempre sob o influxo do Espirito é claro).
Mas para realizar esta adaptação esta capacidade de correspondência - o preço é caro (vendet omnia) - deixar tudo, toda a pedraria falsa que é falsa. E tudo é falso porque tudo é só unicamente imagem, semelhança daquela jóia – até a pessoa humana, que foi criada à sua imagem e semelhança, também ela é falsa. Decerto que a verdadeira caridade não pode estar em nos amarmos a nós próprios mas a Deus em nós e fora de nós.
Resumindo esta parte das parábolas:
A Caridade de cada um para consigo, separado o verdadeiro conceito dos termos não pode existir mas se com isso queremos indicar a atitude de cada um para consigo, pode regulamentar-se assim:
Trabalhar por que o terreno esteja apto para se integrar na semente, com ela viver, crescer e desabrochar em flor e fruto – Mas para Santo urge arroteá-lo, lavrá-lo, mondá-lo e adubá-lo!
Trabalhar por que a cera seja boa, de fácil combustão, para poder consumir-se em luz.