quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E O DIÁCONO MÁRTIR













“ SÃO VICENTE EM TUDO VENCEU. 

VENCEU NAS 

PALAVRAS, VENCEU NAS PENAS. 

VENCEU NA 

CONFISSÃO DA FÉ, VENCEU NA 

TRIBULAÇÃO, VENCEU 


NO FOGO, VENCEU NO MAR, 

FINALMENTE VENCEU 

ATORMENTADO, VENCEU MORTO.”


Santo Agostinho




O Padre Correia da Cunha era um lisboeta de gema, gostava de estudar e aprofundar todas as matérias sobre o padroeiro espiritual da sua ínclita cidade de Lisboa e da paróquia do seu coração…

Nascido em Huesca, bafejado pelo ar límpido dos Pirenéus, São Vicente não era um ser lendário, mas antes um jovem dinâmico que viveu a poucos séculos da morte de Jesus Cristo, ainda na dominação romana, na Península Ibérica. Uma realidade concreta!...


Mal sabia a província de Aragão que este Vicente iria honrar para sempre a nossa encantadora cidade de Lisboa assim como a paróquia de São Vicente, uma das primeiras desta mui nobre cidade.

O Santo Mártir, na busca da felicidade de vida, seguia com entusiasmo as lições de piedade, religião e letras humanas que o santo Bispo Valério lhe proporcionava e, de tal maneira progrediu, que muito cedo foi investido na Sagrada Ordem de Diácono, para pregação do Evangelho uma vez que o seu bispo não tinha facilidade em falar.

Naqueles tempos, quem envergasse as vestes diaconais não podia ser cobarde, tinha que estar preparado para o martírio. Tantas vezes ouvi ao Padre Correia da Cunha: “ o nosso padroeiro não fugia com o rabo à seringa”.

O imperador Diocleciano movia uma guerra de morte ao cristianismo. Daciano, governador das províncias de Saragoça e Valência, era de facto o homem indicado para a missão sanguinária, na Península. Era obcecado pelas grandezas que aspirava no Império Romano. Uma das suas missões era perseguir os cristãos, de acordo com os desejos de Roma.

Consta que Daciano, com boas palavras, persuadira o diácono Vicente a renegar a fé cristã e a prestar culto aos deuses do Império.


O Vicente, com aquele ânimo forte que sempre o dominava e com toda a convicção, afirmava:



“É crime renegar o culto ao único Deus Verdadeiro. Todos os teus esforços serão em vão, pois confessamos a nossa Fé no único Deus de que somos filhos e servidores. Em seu nome depresso as tuas ameaças e todos os mártires que sofrem por Ele até à morte, pois pela morte chegamos à vida imortal! ”


Foi no ano de 304 que o Diácono Vicente foi receber de Deus o prémio da sua coragem, depois de haver recebido na terra a extraordinária consolação de morrer com toda a honra e glória.




Recordo um testemunho que ainda hoje, não se perdeu da memória de muitos, sobre um acontecimento ocorrido no longínquo dia 22 de Janeiro de 1918, em que a Igreja de São Vicente de Fora se reabriu ao culto, no tempo do Presidente Sidónio Pais.

Nesse dia, Monsenhor Francisco Esteves de Jesus, prior que suportou durante alguns anos o peso da prisão e da demagogia estulta e insidiosa, alegrou-se e com ele, muitos católicos da paróquia. Feliz e radiante distribuía pequenas folhas com as estrofes do lindo 5º Hino do Peristephanon que canta São Vicente, que o exalta e até lhe pede numa prece ardente, com toda a sua alma, para que o mártir interceda junto do trono do Pai e de Jesus Cristo.

Prudêncio, seu autor, era um dos melhores poetas do Séc. IV – um poeta de sangue e com imaginação viva que só o seu espírito era capaz de dedilhar na sua lira poética:



Vincenti, adesto et  percipe
Voces precantum supplices,
Nostri reatus efficax
Orator ad thronum Patris.

Per te, per illum carcerem,
Honores augmentum tui,
Per vincla, flamas ungulas
Per carceralem stipitem:

Per fragmen illud testeum,
Quo parta crevit gloria,
Per quem treanentes posteri
Exosculantur lectulum

Miserere nostrarum precum,
Placatus ut Christus suis
Inclinet aurem prosperam
Noxas nec omnes imputet.

Si ritem solemnem diem
Veneramur ore, et pectore
Si sub tuarum gaudio
Vestigiorum sternunur;

Paulisper huc tu illabere
Christi favorem deferens,
Sensus gravati ut sentiant
Levamen indulgientir.

De facto, mais uma vez São Vicente triunfara naquela paróquia. Nos inícios dos anos sessenta, o Padre Correia da Cunha verteu em versos as primeiras estrofes do mesmo Quinto Hino, numa excelente tradução que passo a transcrever:




Vicente, Mártir Santo
Este dia é radioso.
Pois nele ganhaste a palma
De um martírio glorioso

Porque em tal dia venceste
O carrasco e o tirano,
Cristo te leva aos Céus,
Vitorioso e ufano

Hoje ao lado dos anjos
Tua veste resplandece,
Foi lavada no teu sangue,
Por isso bela aparece.

Levita da tribo sacra.
Ministro do Santo Altar.
És coluna da Igreja
Que ajudaste a triunfar.

Em vida triunfador,
Na morte vitorioso,
Não te deixaste dobrar
Pelo tirano orgulhoso

Ó Mártir, por tuas dores,
Escuta os devotos teus:
- Sê para nós pecadores
Advogado junto de Deus




Depois desta amostra de um tão lindo poema, recordo que o Padre Correia da Cunha, desde sempre, na majestosa igreja de São Vicente de Fora, consagrava uma profunda devoção a este diácono mártir. Festejava com um grande cerimonial litúrgico a São Vicente Mártir, dia 22 de Janeiro, que contava com uma enorme participação de paroquianos.


Nesse dia utilizava ricos paramentos vermelhos com 
bordados a prata e ouro. O altar-mor e o transepto enchiam-se sempre de ornamentos com ricos arbustos e verduras.


IMAGEM S.VICENTE - ALTAR MOR


A imagem do Santo, situada no baldaquino, do lado da epístola era ostentosamente embelezada com enormes ramos de cravos vermelhos muito vivos, que por certo o perfume das flores e a espiritualidade da celebração eram acolhidos no céu pelo Santo, como uma grande afirmação de Fé do Padre Correia da Cunha e da sua pobre comunidade.

Seja-me lícito recordar, em breves linhas, que quando era menino e caminhava pelos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora, lembro-me perfeitamente que o Padre Correia da Cunha possuía dois lindos corvos, baptizados com o nome de Vicente e Valério. Estes dois corvos andavam soltos e à vontade naqueles grandiosos espaços e eram sustentados e admirados pelo pobre prior.


Eram símbolos da memória da tradição. Conta-se que dois 

corvos acompanharam as relíquias do Santo, um à popa e

 outro à proa do navio que transportava as santas relíquias 

do Cabo de São Vicente no Algarve até Lisboa; relíquias, 

essas que ainda hoje continuam a ser veneradas pelo povo

 na Catedral de Lisboa.
























.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E OS SEUS CORVOS MENSAGEIROS














CORVO VICENTE

“TINHA UM VERDADEIRO CULTO AOS CORVOS DA CIDADE…”




O pobre prior de São Vicente de Fora tomava a liberdade e o atrevimento de enviar aos jornais da época, uns textos da sua autoria, sobre o velho casarão que servia de sede à sua paróquia. Fazia-o por carolice e dever de ofício. 

Doía-lhe o coração ao ver o estado de abandono e desprezo a que estava votado todo aquele património, (igreja e mosteiro de São Vicente de Fora).

Nada melhor do que colocar os seus amigos corvos no desespero de terem de abandonar aqueles espaços em eminencia de ruína e voltarem a bater-se não já pelo corpo do Santo mas pelo seu desdito mosteiro.

O Padre Correia da Cunha acreditava que através dos bicos enérgicos dos corvos, poderia passar a sua mensagem, aos que se encontravam no poleiro do poder, com responsabilidades sobre tão degradante situação.

Toda a ajuda era Benvinda. Passo a transcrever um desses artigos que saiu da sua pena. Confiante o Padre Correia da Cunha que as negras asas dos corvos os poderiam levar aos destinatários certos. 


BAIRRO DE SÃO VICENTE DE FORA 

Não há quadra popular, cantiga bairrista, letra de fado alfacinha; não há poeta de maior ou menor vulto, que não fale de Lisboa como de uma rapariga caprichosa e ladina, meio mulher meio garota, apesar da sua provecta idade.

E a verdade é que, por mais fecunda que seja a inspiração não há volta a dar-lhe…

Quem quer que a conheça um pouco não a vê de outra maneira, nem arranja outra imagem, mesmo quando a trata por princesa, como o nosso épico. Ora a vê namoradeira, das suas sete colinas debruçada sobre o Tejo e fazendo-lhe negaças, ora a contempla toda vaidosa, revendo-se nos seus vestidos de Sol e de Luar; ora a observa trabalhadeira e airosa a saltitar de contente nas suas tamanquinhas de varina ou a caminhar graciosa nos seus vestidos de chita; ora lhe escuta a calhandrice nos velhos becos de Alfama; ora pasma embevecido, quando a vê, Chiado abaixo, com ares de Senhora Dona; ora deixa escapar uma lágrima, quando ela, cantando o fado, lhe confia os seus amores e queixumes…

Seria um nunca acabar se eu me fosse pôr agora a tecer variações à guitarra sobre este mágico tema:
- Lisboa Menina e moça…
Mas não é esse o fio destas mal regradas linhas.
Se falei desta Lisboa, Flor d’Altura, figurinha gentil e graciosa, por toda a gente cantada, foi para me sentir mais à vontade em apontar-lhe um defeito (que os tem, valha a verdade, pois não há bela sem senão).

Isto não quer dizer que não seja seu amigo. Mesmo que não fosse sócio do Grupo (e já o sou há uns bons vinte anos) não lhe teria menos amizade. Nado, baptizado e criado nesta nobre feiticeira sou seu amigo desde que me conheço e a conheço a ela.
E é por essa razão que me custa muito vê-la com um dos maiores defeitos que alguém pode ter: - a ingratidão.

E, quando esse pecado toca as raias do esquecimento e do desprezo, então é de fazer chorar as pedras da calçada e é tanto maior o desgosto quanto mais funda e sincera é a amizade que se tem a uma menina tão cantada.

Realmente faz pena, muita pena que esta menina e moça, tão bem prendada aliás, cometa tão grande maldade.

É o caso… 

Mas comecemos pelo princípio. Como toda a gente que se preza, a nossa cidade tem padrinhos, pois quem os não tem morre noivo, e Lisboa foi baptizada na Sé (como cantou o saudoso Norberto de Araújo) há oitocentos anos bem puxados. Levou-a à pia D. Afonso Henriques e foram seus padrinhos a Virgem Senhora Nossa, Rainha dos Mártires, cujo altar se levantou ali, na colina do Chiado, onde tinham seus arraiais os Cruzados anglo-saxões, e o Senhor São Vicente, diácono e mártir, santo muito da devoção do Rei Conquistador, que logo lhe pediu especial protecção para a menina dos seus olhos.


IGREJA SÃO VICENTE DE FORA - LISBOA 

Em honra deste Santo Padrinho, mandou D. Afonso Henriques levantar um grandioso templo, além, fora dos muros da cidade, precisamente no local onde seus bravos companheiros de armas tinham estado acampados e onde se armara a sua enfermaria, sob a invocação da Senhora da Conceição (outro nome da madrinha de certo, para que visse bem que os padrinhos da cidade são amigos inseparáveis).

Durante séculos, a menina e moça ia visitar assiduamente o Padrinho, falava-lhe com todo o respeito e devoção, escutava-lhe os evangélicos conselhos e procurava seguir-lhe os santos exemplos.

Aliás, foi ele quem lhe deu brasão de fidalga, ofertando-lhe as suas próprias armas; foi ele quem lhe ensinou as primeiras letras e as primeiras orações; foi ele quem sempre a protegeu, abençoou e por ela intercedeu.

Os Senhores Reis, durante muitos anos, se mostraram compadres amigos e devotos do Senhor São Vicente. Um deles, D. Manuel I, até mandou erguer em honra do Santo Diácono, uma linda torre lá para os lados de Belém, sítio de onde partiram os marinheiros da velha Alfama, nados e criados à sombra do mosteiro de São Vicente de Fora, partiram a descobrir mundos e a baptizar os gentios de todas as raças e cores, fazendo-os assim seus irmãos em Cristo (que é muito mais que irmãos de sangue…).

Assim o Senhor São Vicente, padrinho da capital, abraçava (e ainda hoje abraça apesar de tudo) a cidade de lés a lés e lançava a sua bênção a todo o Portugal d’aquém e d’além mar.

Quando foi do domínio de Castela, Lisboa não deixou abandonado o velho solar do seu padrinho. Pelo contrário, confiando no seu valimento e protecção, exigiu que o rei usurpador lhe edificasse outro templo, no estilo novo da época, pois o antigo, de velho estava em ruinas. E Filipe II de Espanha não teve outro remédio senão procurar agradar à cidade…
Depois da Restauração, em agradecimento ao padrinho da capital, D. João IV, continuou a obra encetada pelo rei estrangeiro; D. Luísa de Gusmão oferece para o novo solar do padroeiro ricos mármores de Vila Viçosa, alguns até com as suas armas; D. João V manda construir a sua preciosa e bela sacristia… Eu sei lá…

De um modo geral, todos os reis mostraram o seu reconhecimento e devoção ao Senhor São Vicente.

Não foi, pois, sem razão que se escolheu para Panteão da última Dinastia (que das outras não havia possibilidade de o fazer) o velho solar do padrinho da cidade.

Pois assim foi durante muito tempo, Mas infelizmente, para grande vergonha nossa, de há uns tempos a esta parte, desde mil oitocentos e tal para cá, esta Lisboa travessa e aperaltada voltou costas ao seu padrinho e ao velho mosteiro.


ALTAR MOR - S. VICENTE DE FORA 

Primeiro fez-se emproada Senhora Dona Libertina, de seguida enfiou o barrete frígio e desatou a fazer asneiras e a tratar mal a família do seu Santo Padrinho, como se tal barrete a obrigasse a ser malcriada e ingrata…Não descansou enquanto não deu ordem de despejo e pôs os tarecos na rua ao Padrinho e a toda a família.

Uma tristeza!...

O velho mosteiro, tão rico de tradição e história, esse majestoso templo de estilo neoclássico, sóbrio nas suas linhas, grandioso na sua traça arquitectónica, equilibrado nas suas proporções – esse belo solar do Senhor São Vicente foi tudo.

Foi caserna, foi Liceu, foi escola técnica, serviu de repartições públicas, para recreio de garotos, para espelunca de maltrapilhas, para esconderijo de ratoneiros… Foi vazadouro de lixos, de entulhos e até de detritos de toda a espécie…

E, é claro, em todas estas situações sofreu vexames, estragos e maus tratos que o deixaram em ruínas, mas em ruínas vergonhosas… Como se não bastassem os estragos feitos pelo terramoto de 1755 que lhe deitou abaixo a elegantíssima cúpula, substituída então provisoriamente (é claro) por uma outra de madeira que está a ameaçar ruir por meter água por todos os bordos…

Viram-se vasos sagrados, imagens, boas telas e belas peças de talha vendidas ao desbarato em hasta pública, quando não desviadas a ocultas…

Viram-se ricos paramentos e alfaias bordados a oiro e a prata arrastados pela lama; velhos pergaminhos preciosos vendidos a real o quilo ao ferro velho da esquina; viram-se estudantes (talvez com vocação para a cirurgia oftalmológica) a vazar os olhos das figuras dos azulejos setecentistas e outros a fazer pontaria aos vidros dos claustros, servindo-se das telhas da bela sacristia, o que deu como resultado a perda da belíssima tela que lhe serve de tecto.

Viu-se a incúria, o desmazelo, o esquecimento, o desprezo da cidade pelo solar do seu Santo Padrinho.




PE. CORREIA DA CUNHA 


Viu-se e infelizmente ainda se vê, apesar da boa vontade e canseiras do pobre prior, muitas coisa triste e feia…

E tudo isto faz pena, muita pena.

É certo que há uns vinte anos, o Solar do Senhor São Vicente foi entregue a quem de direito para nele se restaurar a devoção ao Santo Padroeiro.

Mas o que é certo é que a menina afilhada ainda se não compenetrou do dever de arrepiar caminho indo pedir perdão ao Padrinho e recomeçando uma amizade a que o Santo Diácono nunca faltou.

Talvez que a próxima terça-feira, dia 22 de Janeiro, fosse a ocasião mais adequada para a sempre menina e moça dar o primeiro passo no sentido da reconciliação.

É o dia consagrado ao Santo e ele sempre foi bom; sempre rezou por aqueles que o maltrataram, conforme ordena o preceito evangélico. Decerto está pronto a perdoar.

Não será de aproveitar a ocasião?

A Câmara Municipal, que tanto zelo tem mostrado pelo arranjo e aprumo da menina, cabe naturalmente o dever de chamar à ordem e de dar o exemplo da gratidão.

O solar do Padrinho da Cidade é hoje sede de uma freguesia pobríssima, sem vintém, nem sequer para as limpezas.

Não tem bancos, não tem luz, não tem uma instalação de som capaz de fazer ouvir a voz do pároco.
A cúpula (como ficou dito) está a meter água e a sacristia também. Os pináculos do templo presos com gatos de ferro, em vez de bronze, ameaçam escaqueirar a Feira da Ladra e Deus queira não matem ninguém, um dia. O mesmo acontece com os sinos de uma torre (porque a outra não nos tem). Poucas são as janelas que não sejam apenas buracos rectangulares… 

Bem sei que todas estas misérias estão a ser objecto de estudos por parte da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, que ainda o ano passado arranjou os telhados. Mas as reparações são de necessidade urgente, não só pelas desgraças que podem causar e pelas perdas irreparáveis, mas até para se acabar com a vergonha das vergonhas que é o triste espectáculo patente a todos especialmente aos turistas e às pessoas cultas que nos visitam.

Mas, ainda que aquela Direcção Geral consiga meter mãos à obra, e levá-la a bom termo, como todos esperamos, cabe, no entanto à Câmara, que usa no seu selo as armas do Santo Padrinho da Cidade, a honra de ajudar a manter acesa a lâmpada votiva em nome da menina afilhada que tão distintamente representa.

Não seria, pois, possível, Senhor General e Exmºs. Vereadores conceder uma verbazita anual para as lâmpadas do templo e dos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora, que não é apenas a igreja de uma pobríssima paróquia mas também o solar do Padrinho da Cidade e um dos seus maiores monumentos?

Oxalá que este grasnar dos corvos, porque sincero e sem malícia, comova o coração da menina Lisboa e das entidades que representam e nas suas responsabilidades.

E creiam, estimados leitores, que este nosso grasnar é tanto mais sincero quanto é certo que soa como um autêntico acto de contrição da nossa parte. 

É que até nós, sim, até nós, os corvos considerados como fidelíssimos companheiros e guardas de São Vicente, abandonamos envergonhados os seus claustros e viemos, comodistas, para o poleiro moderno, todo mármore, do Diário de Noticias… Sim, até nós… com vergonha das tristes figuras que tem feito a nossa querida menina, deixamos São Vicente, mas, na esperança de a chamarmos à razão, daqui lançamos este apelo.

E ou não é verdade que Lisboa também tem os seus defeitos?

Se numa Senhora se pudesse bater, dava vontade de lhe pregar um bom par de açoites…

Mas, como pode agora arrepiar caminho, não percamos a paciência, aguardemos. 


 
Padre José Correia da Cunha
.
























.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

PE. CORREIA DA CUNHA E CARTA ABERTA SOBRE O NATAL
















PRESÉPIO SÃO VICENTE DE FORA - 1964



“ GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS, E PAZ
 NA TERRA AOS HOMENS DE BOA
VONTADE.”




Envolvidos na devota fé cristã, com as nossas almas cheias de alegria e paz, preparamos-nos, uma vez mais, para celebrarmos as festividades do nascimento do Deus Menino.

Natal é festa de família! Lares em festa onde puros sentimentos de afectos familiares se espelham.

Mas nas encantadoras festas de Natal sempre se conservam lembranças e saudades do Natal vivido nas nossas infancias que, no meu caso, foram na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, junto do Padre Correia da Cunha.

Transcrevo hoje, uma carta aberta sobre o Natal, dirigida pelo Padre Correia da Cunha aos seus estimados e adorados paroquianos.

O Padre Correia da Cunha, o primeiro responsável daquela imensa família, que era a sua paróquia, tinha todos os anos o desejo ardente de afogar a solidão e a tristeza de muitos irmãos. A esses irmãos, tristes e sem nenhum carinho, apenas lhes restava esperar, sempre esperando…uma reconfortante esperança por melhores dias e que a mensagem, dada naquele humilde presépio de Belém, fosse acolhida pelos corações dos Homens.








Caríssimo e estimado Paroquiano

Estamos às portas do Natal, solenidade celebrada por todos, mesmo não cristãos, com o sentido, pelo menos de Paz e de Alegria.

Não vamos tecer considerações a propósito dos muitos e variados aspectos dessa festa nem sequer de modo como é celebrada. Não é esta a forma mais adequada de o fazer. Mas pensamos que você, como paroquiano que é, tem o direito de saber o que a nossa comunidade paroquial, planeou fazer para celebrar o Natal e ainda o direito de colaborar connosco se assim o entender.

Para os cristãos, o Natal é acima de tudo uma lição e uma vivência de caridade, lição e vivência essas baseadas na atitude do próprio Deus que, unicamente por amor de nós, se fez Homem para viver connosco e partilhar connosco a sua própria Vida Divina, constituindo-nos seus irmãos e, portanto, herdeiros do seu Reino. Por isso mesmo, é que pensámos que a nossa paróquia deveria celebrar o Natal de uma maneira autêntica e viva, mostrando que estamos aprendendo a referida lição e que procuramos pô-la em prática.

Baseados, pois, nesta concepção do Natal e desejando respeitar os direitos que como paroquiano (direito de saber e de colaborar), passamos a expor-lhe os nossos planos.

É claro que celebraremos com toda a solenidade possível a Liturgia Eucarística própria dessa festividade. Temos a Missa do Galo e as Missas habituais do dia de Natal. Para estes actos do Culto Divino, como aliás para todas as funções religiosas da Paróquia, está sempre convidado: A Paróquia é a sua paróquia, sem a sua presença a paróquia não está completa.

Pensando que na nossa paróquia pode haver quem, na véspera do Natal, não tenha à sua volta o carinho nem o conforto de familiares ou amigos, e, portanto, se encontre sozinho numa ocasião de tanta alegria – queremos convidar essas pessoas para fazerem connosco aqui, nos claustros da nossa igreja, a sua festa da consoada que começará pelas 20 horas do dia 24 de Dezembro.

Não importa que sejam pobres, remediados ou mesmo abastados. Nem importa que sejam ou não cristãos. O que importa é que sejam pessoas da paróquia e estejam sós nesse dia, sem o calor de uma amizade.

Se souber de alguém nestas condições, pode desde já em nome da nossa Família Paroquial convidar essas pessoas para tomar parte da nossa consoada. E, se aceitarem o convite deve comunicar-nos o facto até ao próximo dia 19 de Dezembro, responsabilizando-se pela verdade da comunicação. Assim ficaremos com cinco dias para arranjar a mesa fraterna em condições de todos serem servidos capazmente, sem vergonhas para ninguém


GRUPO CATEQUISTAS S.VICENTE - 1966



Como uma paróquia deve ser uma comunidade ou família em ponto grande, pareceu-nos a nós que deveríamos também, ao menos na quadra do Natal, demostrar publicamente por meio de um acto concreto – que dela fosse visível sinal – a amizade fraterna que nos deve ligar a todos os paroquianos, mas absolutamente a todos. 

Para tanto, pensámos organizar um convívio, à escala paroquial, em que todas e cada uma das famílias da paróquia venham partilhar fraternalmente com os outros o pão da sua mesa, sem nenhuma acepção de pessoas nem de posições ou situações sejam elas quais forem.

Quem celebra o Natal, é porque, como irmão e em espírito de família, quer viver em paz, e amizade com os outros. Se assim é, disso temos de dar testemunho. Pois bem. Não será possível encontrarmo-nos todos (os que pudermos, é claro) à volta da mesma mesa numa demostração de fraternidade? Se cada família trouxer uma refeição volante (género pic-nic) em quantidade bastante para todos os seus membros, decerto chegará para todos os paroquianos comungarem à mesma mesa de uma fraternidade amizade.

No entanto para que este convívio decorre na melhor ordem e não redunde num fiasco, é necessário estabelecer um mínimo de organização. Por isso, se concordar com a ideia e quiser tomar parte no convívio, terá de se inscrever até ao dia do Natal para termos tempo de arranjar as coisas nas devidas condições para o dia 3 de Janeiro, data em que está previsto o Convívio Paroquial. Portanto, o convívio está aberto a todos os paroquianos sem distinção nas seguintes condições:

- Ser paroquiano; fazer a sua inscrição até ao dia de Natal deste ano; trazer os alimentos até às 17 horas do dia 3 de Janeiro dia convívio.

Dentro ainda da nossa concepção do Natal, pensamos também apelar para a generosidade de todos os paroquianos em favor dos irmãos mais necessitados.

Como sabe, há um organismo paroquial, chamada Conferência de S. Vicente de Paulo, cuja missão é fundamentalmente auxiliar os irmãos que vivem em circunstâncias mais difíceis. Esse organismo encarrega-se de, em nome de toda a paróquia, prestar a esses irmãos o auxílio possível, de realizar a partilha entre irmãos de sorte que se cumpra a Lei do Senhor: «DAR COM A MÃO DIREITA DE MODO QUE A ESQUERDA NÃO SAIBA.». Pois, a partir do próximo domingo, dia 30 de Novembro, todos podemos colaborar nas Campanhas da Generosidade Fraterna, dando anonimamente tudo o que pudermos para bem dos outros irmãos. Essas campanhas serão especificadas, semana a semana, até ao fim do ano. Assim teremos:

- A semana do arroz e do açúcar de 30 Novembro a 7 de Dezembro; a semana da massa, feijão e grão de 7 a 14 de Dezembro; a semana do azeite e do bacalhau de 14 a 21 de Dezembro; a semana do café, conservas e leite em pó de 21 a 28 de Dezembro.

À entrada da nossa igreja haverá recipientes para receber estas ofertas ou dinheiro. De tudo daremos contas na Folha Paroquial e num placard à porta da igreja. E tudo será distribuído pelas conferências de S. Vicente de Paulo oportunamente e consoante as necessidades dos nossos irmãos, dando-lhes também contas da distribuição feita, mas de forma a nunca ferir a modéstia de quem for beneficiado.

Para fecho destas celebrações natalícias, teremos uma representação de um Auto de Natal, no dia 4 de Janeiro, provavelmente no adro do Panteão de Santa Engrácia. Oportunamente confirmaremos o local e a hora.

Em vista do que fica dito, pedimos e agradecemos desde já uma resposta sua e comunicar-nos as suas impressões, ou sugestões ou qualquer outra forma de colaboração com que nos queira honrar.

Desculpe-nos o facto de lhe não termos enviado esta CARTA ABERTA pessoalmente e em carta fechada. Não temos infelizmente o ficheiro de toda a Paróquia. É trabalho que poderia agora começar-se com a sua ajuda… Por outro lado, também não somos ricos a não ser de coração. No resto, somos todos pobres e, por isso, não podemos gastar dinheiro em selos – temos de nos servir da generosidade de todos a começar pela das pessoas de boa vontade que com verdadeiro sentido de amizade fraterna fazem chegar este impresso às mãos de todos os paroquianos.

Para seu conhecimento, comunicamos que a comissão que planeou todo este programa é constituída pelo Prior e pelas Direcções da Catequese Paroquial, da Associação de Pais da nossa paróquia e das Conferências de S. Vicente de Paulo.

Agradecendo a atenção dispensada e o favor de uma resposta, fazemos sinceros votos por que o Deus Menino lhe traga a si a toda a sua família as melhores bênçãos e graças divinas.

Paróquia de São Vicente de Fora, 26 de Novembro de 1969



   O Vosso prior
   Pe. José Correia da Cunha







O Natal era a festa da família paroquial, em oferenda ao Deus Menino, numa vivência de fé e, no Natal de cada ano, o Padre Correia da Cunha sempre esperava milagres, que se concretizassem todos os ideais sonhados.
Com muita emoção, desejo a todos um Santo Natal!
AMÁLIA RODRIGUES - "Vi o Menino Jesus"




















.
.

domingo, 8 de dezembro de 2013

PE. CORREIA DA CUNHA E A IMACULADA CONCEIÇÃO















A VOSSA CONCEIÇÃO IMACULADA, OH
MARIA ENCHEU O MUNDO INTEIRO DE
ALEGRIA!


A solenidade em louvor da Imaculada Conceição de Maria, Padroeira de Portugal, alcançava um brilho invulgar na Paróquia de São Vicente de Fora e caracterizava-se por uma distinta  festividade. O Padre Correia da Cunha tornava estas celebrações de uma forma verdadeiramente deslumbrante e duma grandeza emocial sem par, quando punha aquele templo repleto de gente a cantar hossanas à exclesa Mãe de Deus e Rainha dos portugueses.

PE. CORREIA DA CUNHA


A igreja de São Vicente de Fora apresentava sempre um elevado aglomerado de crentes. No  final do Evangelho, o Padre Correia da Cunha proferia eloquentes homilias que eram notáveis pelo pensamento e pela forma de relevo literário, mas de profundo sentido religioso. Para ele Maria! Senhora da Conceição significava a concepção da relação entre o Divino e o humano… Conceição era a sua verdadeira e eterna rainha.

ALTAR N. SRª  DA CONCEIÇÃO DA ENFERMARIA

 
No transepto do templo, o altar era decorado com as mais belas flores em toda a sua extensão para receber as manifestações de piedade e fervevoroso culto mariano. Era ali que se encontava a imagem de Nossa Senhora da Conceição da Enfermaria, evocada desde o primeiro Rei D. Afonso Henriques, e ao longo dos séculos pelos portugueses com comoventes e grandiosas celebrações.

O Padre Correia da Cunha via na figura materna de Maria, Mãe de Deus,  o modelo perfeito de mulher e de mãe, a cuja protecção tanto devia. Comovidamente, aludia : “ Que este júbilo de boa Mãe se nos pegue a todos nós; saibamos meditar e conservar estes ensinamentos no nosso coração!”.

A Imaculada Conceição é, segundo o dogma católico, a concepção da Virgem Maria sem mácula de pecado original.  A celebração de Nossa Senhora da Conceição, assinalada a 8 de Dezembro, foi definida como festa universal em 1476, pelo Papa Sisto IV.

Oito de Dezembro é uma data que, de Norte a Sul de Portugal, se celebra festivamente.








No dia 25 de Março de 1646, o Rei Português, fundador da Dinastia de Bragança, D. João IV promoveu uma cerimónia solene, em Vila Viçosa, para agradecer a Nossa Senhora a Restauração da Independência  de Portugal. Dirigiu-se à igreja de Nossa Senhora da Conceição que declarou Padroeira e Rainha de Portugal. A partir dessa data, mais nenhum Rei Português colocou a coroa na cabeça por se considerar que só a Virgem Nossa Senhora tinha esse direito. Nos quadros onde aparecem Reis ou Rainhas, a coroa está sempre colocada ao lado, sobre uma mesa, num tamborete ou almofada de cetim.

A importância de Nossa Senhora na vida dos portugueses está enraizada desde os primordios da nacionalidade. Maria é realmente a nossa mãe, porque Jesus a deu como mãe, não só aos que se encontravam junto da cruz do calvário, mas também a toda a humanidade, que a proclama Maria  bem-aventurada.

À semelhança do fazia o Padre Correia da Cunha no final destas celebrações marianas, hoje também somos convidados a aplaudir a nossa Mãe. Estas palmas são para ti, como sinal do nosso amor e do nosso carinho. E TODOS CANTEMOS:


Salve, nobre Padroeira
Do Povo, teu protegido,
Entre todos escolhido,
Para povo do Senhor.

Ó glória da nossa terra,
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver Portugueses,
Tu serás o seu amor.

Com tua graça e beleza
Um jardim não ornas só,
Linda flor de Jericó,
De Portugal és a Flor!

Flor de suave perfume,
Para toda a Lusa gente,
Entre nós, em cada crente
Tens esmerado cultor.

Acode-nos, Mãe piedosa,
Nestes dias desgraçados,
Em que vivemos lançados
No pranto, no dissabor.

Lobos famintos, raivosos
O teu rebanho atassalham,
As ovelhas se tresmalham,
Surdas à voz do pastor.

Da fé a lâmpada santa,
Que tão viva outrora ardia,
Se teu zelo a não vigia,
Perde o restante fulgor.

Ai! da Lusa sociedade,
Se o sol do mundo moral
Se apaga… Ó noite fatal!
Ó noite de negro horror!

És a nossa Padroeira,
Não largues o padroado
Do rebanho confiado
A teu poder protector.

Portugal, qual outra Fénix,
À vida torne outra vez.
Não se chame Português
Quem cristão de fé não for.


8 DE DEZEMBRO – DIA DA MÃE

Renovemos hoje a nossa homenagem sincera, de todos os anos, no Dia da Mãe, e neste dia especial redobramos o respeito e o carinho que lhe dedicamos todos dias em reconhecimento aos seus desvelos e ao seu amor.

Que Deus a Proteja ou lhe conceda a Paz eterna.

























.
,