sábado, 21 de janeiro de 2012

PE. CORREIA DA CUNHA E A BRETANHA

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“DEPOIS DA TEMPESTADE...A ILHA DOS

AMORES.”



Em 1958, a cidade de Brest apresentava-se com o aspecto de uma adolescente. Era demasiado pequena para as aspirações românticas de uma tripulação de jovens marinheiros. Estando-se numa das regiões mais belas de França, carregada de simbolismos ligados ao mar e de lendas, havia que descobrir a Bretanha e contactar com as moças mais belas com cabelos a exalarem perfume, com mãos suaves e bonitos olhos…


As almas puras destes marinheiros preparavam-se para mergulhar em terra na busca de novos mundos fantásticos, quentes, exóticos e ricos em volúpias da carne.


Não compreenderemos que os corações destes heróicos marinheiros são de uma grande solidão, onde ninguém penetra? As paixões que neles crescem durante as longas, violentas e melancólicas viagens pelo infinito mar são sufocadas pelo murmúrio das violentas ondas.

As chegadas a terra firme são como um Novo Mundo de luzes, cheiros, odores e ruídos triunfais.

Jovens mulheres eram para estes honrosos marinheiros, algo de fatal, quando lhes fitavam os olhos, atordoados pelo prazer que os elevariam a uma harmonia suprema.

Esses mistérios das mulheres tentavam alguns marujos com o demónio da carne que vivia em todos os músculos dos seus corpos e no próprio sangue. É o duplo fascínio do amor e prazer.

Segundo a opinião de muitos oficiais da marinha, com mais experiência, as paixões crescidas e alimentadas nos portos eram sempre as mais belas e brilhantes, pois dissipavam-se também como a fumaça.

Na viagem de regresso sempre haviam marujos que acreditavam terem-se apaixonado, pois a dor que sentiam era bem reveladora que ali tinham encontrado a mulher mais bela do mundo e das suas vidas, dizendo de coração aberto: “Esta é que eu amo”.

De regresso à embarcação era missão do Capelão fazer acordar estes “papalvos” grumetes para a verdadeira realidade através de bons conselhos de humanidade. Por vezes, era necessário recorrer à terapêutica medicamentosa, cuja incumbência era do médico da guarnição.

Voltemos ao Capelão Correia da Cunha. Embora alguns oficiais e membros da tripulação fossem agnósticos, todos tinham imenso respeito e consideração pelo Padre Correia da Cunha, pelos valores éticos que defendia e com quem era fácil estabelecer uma cordial e sincera amizade. Humilde, compassivo e dedicado aos seus marujos, sacrificava todo o seu tempo na busca de contribuir para a sólida formação humana destes seus discípulos, visando torná-los obreiros de um mundo, onde a amizade e a fraternidade fossem perfeitos protótipos de um humanismo; pois para ele ser cristão, não era mais do que viver o evangelho, no serviço e dedicação aos irmãos.



Navio Escola SAGRES

Recordo que nesta viagem do Navio Escola Sagres, o Padre Correia da Cunha encontrou-se com o seu admirável amigo Capelão João Perestrello de Vasconcelos, que fazia parte da guarnição da fragata Nuno Tristão, na altura sobre o comando do Capitão-de-fragata Diogo de Melo e Alvim.




Capelão João Perestello de Vasconcelos e Correia da Cunha em Brest



Após os cumprimentos protocolares com o Presidente do Município de Brest, os dois amigos partiram à busca da Bretanha. O passeio serviria para robustecer e retemperar as energias perdidas durante a dura viagem, na qual tiveram de enfrentar a violenta tempestade no Golfo da Biscaia. Peregrinaram pela profunda Bretanha, que o Padre Correia da Cunha comparava a um rincão do Paraíso Celestial. E porque não vivê-lo quando o temos à mão?

Creio que eram nestes locais que ambos os capelães compreendiam com maior intensidade toda a felicidade da Criação, que Deus de uma forma generosa e gratuita colocava para todos a podermos usufruir, em perfeita consonância no nosso coração em desejo desenfreado.

A beleza da natureza é de uma harmonia perfeita que geralmente só os homens de coração genuíno conseguem captar e saborear na pureza dos longos horizontes que esta nos oferece: as rochas escarpadas, o céu com o seu domínio celeste, o sol que se eleva nos seus raios…

Em tudo viam a beleza que Deus colocou na Terra. Quando à noite apoiavam as suas mãos para rezarem imaginavam ouvir doces cânticos vindos do Céu e a presença da Virgem Mãe, tendo nos seus braços o doce Menino Jesus que aparecia a estes marinheiros na saliência das ondas, que continuavam a invadir as suas mentes.

Mas não esqueçamos que também aproveitavam estes dias de liberdade para tomarem uns refrescantes banhos nas praias da costa, saborearem os suculentos e apetitosos pratos da cozinha francesa, marcarem presença nos típicos bares bretões e até darem um pé de dança nos célebres casinos, onde tocavam as mais afamadas orquestras da moda.

Eram também nestas viagens que se cimentavam grandes amizades de profundas afeições, nas horas de labuta sobre as enxárcias, nas horas de ócio e lazer e nas horas solidárias com perfeita sinceridade. Pelos testemunhos que assisti, nas visitas que Padre Correia da Cunha recebia na sua Paróquia de São Vicente de Fora, por parte de oficiais e marujos, as relações de verdadeira amizade entre gente do mar mantêm-se para toda a vida, imperando a esperança de se manterem as velhas convivências bem ancoradas nos oceanos das suas vidas.

Contínua…










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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

PE. CORREIA DA CUNHA E A REGATA VITORIOSA

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‘’ OS VERDADEIROS HOMENS DO MAR, SÓ SE FAZEM EM CIMA DAS ENXÁRCIAS.”


 
Há certas experiências que, embora amarrotadas nas memórias pelos muitos anos que passaram, ficaram indeléveis nos sentimentos de quem as viveu e que sempre ajudavam para afogar uma saudade qualquer.


As várias viagens do Padre Correia da Cunha no Navio-Escola SAGRES eram por ele recordadas como se dele fizessem parte e não as pudesse apagar da sua vida marinheira.

Foi no dia 7 de Julho de 1958, que embarcou no velho Navio-Escola SAGRES e participou na regata oceânica Brest -  Las Palmas,  onde a epopeia gloriosa e triunfal foi festejada com imensa alegria  pela classificação obtida (1º lugar da SAGRES), graças à dedicação, ousadia, abnegação e sacrifício dos valentes tripulantes. A bordo imperou a verdadeira camaradagem como bálsamo para elevar o ego dos marinheiros assim como o respeito e orgulho pela nobre pátria. Estes bravos homens do mar encaravam estas viagens com espírito de missão e não esqueciam nunca a épica legenda do navio: ‘’ A Pátria honrai que a Pátria vos contempla’’.

O ilustre capelão da Marinha guardava imensas saudades da sua Sagres, considerada por ele como uma verdadeira embaixada do seu querido e amado Portugal.

A velha Sagres foi construída na Alemanha, no ano de 1846, e após uma conturbada história viria a ser entregue à Marinha Portuguesa, em Maio do ano de 1924, para servir de Navio-Escola. Nesse mesmo ano, terá sido rebaptizada com o nome de SAGRES e requalificada com excepcionais beneficiações, que passaram pela instalação de dois novos motores diesel de 350 cavalos-vapor e a mais moderna aparelhagem de navegação: radar, girobússola, sonda ultra sonora, hodómetro eléctrico e anemómetro. Alojava 350 efectivos.

Nesta viagem, o comando esteve a cargo do Capitão Tenente António Tengarrinha Pires, tendo como imediato o 1º Tenente Henrique Afonso da Silva Horta. Eram oficiais da guarnição da Sagres, o 2º Tenente Guilherme Conceição Silva, chefe do serviço de embarcações, o 2º Tenente João Carlos Alvarenga, chefe do serviço de electrónica, o 2º Tenente José Miguel Ceregeiro, chefe do serviço de comunicações, o 2º Tenente Sérgio Augusto Zilhão, chefe do serviço de artilharia, o 2º Tenente José Manuel Pires de Matos, chefe do serviço de navegação, o 2º Tenente Médico Joaquim dos Santos Félix António, o 2º Tenente Maq. Armindo Alves Rodrigues…e obviamente que não se pode esquecer o Capelão 1º Tenente José Correia da Cunha, cuja Missão era contribuir para uma maior humanização e fraterna solidariedade na arte de boa marinharia.






Recordava o Padre José Correia da Cunha que foi numa tarde radiosa de segunda-feira, dia 7 de Agosto, que largaram amarras desta cidade de Lisboa. Com todas a velas içadas, onde as belas Cruzes de Cristo se mostravam tão solitárias nas beatíficas quietudes da sua eternidade, que os 13 oficiais, 22 sargentos e 254 praças, protegidos pelo Divino Chefe, largaram para Brest, o seu porto de destino.

Mas é em pleno oceano que se tomava maior consciência da imensidade do mar e do desconhecido. Após cinco dias, já em pleno Golfo da Biscaia, onde o mar é exuberante em histórias de grandes agitações, e que dessa vez não quis fugir à regra, que o navio foi obrigado a ferrar as velas, navegando em árvore seca, pois registavam-se ventos acima de 60 nós.




As lutas brutais que viveram durante esses dias foram de um enorme terror, pois ainda se recordava a imensa tragédia ocorrida no ano anterior com um navio da Marinha Alemã, apanhado por um violento temporal no oceano atlântico, que arrastou para a morte com o seu afundamento, 79 dos 85 membros da tripulação.

Durante alguns dias, encontrando-se o mar nessas condições era totalmente impossível tomarem qualquer tipo de refeição pois os balanços era de tal forma que a proa desaparecia no meio das águas. Era uma luta insana dos tripulantes para segurarem os pratos para além de terem de amarrar as cadeiras às mesas.



As cerimónias religiosas foram canceladas, pelo Capelão Correia da Cunha devido à violência do mar. Mas Nossa Senhora mantinha-se como farol de acolhimento no porto de chegada onde já se encontravam as fragatas da Marinha Portuguesa Nuno Tristão e Diogo Gomes com os instruendos do Curso D. Duarte de Almeida. Deve confessar-se que a mais nobre e excelente tarefa da navegação é atracar com tranquilidade o navio depois das impetuosidades do mar que o Padre Correia da Cunha descrevia como se de um filme de ficção se tratasse.





“Até à partida para a regata marcada para sábado 2 de Agosto, mediariam cerca de três semanas de estadia em Brest, tempo que acabaria por ser preenchido das mais variadas formas, naturalmente com particular relevo ao aspecto lúdico, o que era perfeitamente compreensível, dado tratar-se de uma guarnição maioritariamente jovem e não comprometida. E até o Capelão Correia da Cunha, a quem, bem entendido, estavam interditas certas brincadeiras, tinha arcaboiço psíquico quantum satis para aguentar e desculpar alguns excessos e irreverências de camaradas churrés mais atrevidos como daquela vez em que invadiram o seu camarote e fizeram desaparecer, transitoriamente, é claro, os santos óleos, as hóstias e o vinho da eucaristia”



Contínua…


NOTA: Lembro que só foi possível recordar esta vitória da SAGRES na regata Brest-Las Palmas, graças ao preciosismo contributo da comunicação do Exmº Sr. Contra-Almirante Médico Joaquim dos Santos Félix António, realizada na Academia de Marinha. Cumpre-nos agradecer com muita gratidão ter evocado a figura do Capelão José Correia da Cunha. 


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domingo, 1 de janeiro de 2012

PE. CORREIA DA CUNHA E O EMERGIR DO ANO NOVO

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“Aquecer os corações frios de angústia e tristeza...”


 





Mais um ano surge, renovando novas esperanças e apontando novos desejos, que vão sobrando de ano para ano.

Era uma tradição do Padre Correia da Cunha reunir, na bela igreja de São Vicente de Fora, a comunidade para celebrar com toda a solenidade este acontecimento da passagem de ano.

Os cristãos da Comunidade Paroquial eram convidados a fazer um balanço do ano que findava e a implorarem novas ilusões, na miragem da felicidade plena para o novo ano que emergia. Jesus Cristo deveria ocupar o primeiro lugar das nossas vidas na busca dessas venturas.






Para esta celebração, o Padre Correia da Cunha elaborava um guião que era uma magnífica obra de riqueza literária. Seria de uma importância capital, resgatar estes escritos do Padre Correia da Cunha. A sua leitura contribuiria para uma maior compreensão das suas preocupações com a verdade e objectividade daqueles tempos. O Padre Correia da Cunha ajudava a libertar-nos para a tomada de consciência crítica da nossa própria existência.




Estes encontros era verdadeiras experiências de fé em louvor ao Pai Comum e a cada ano que passava sentíamos crescer a fé e o amor entre irmãos.




Como pároco, o Padre Correia da Cunha tinha consciência e noção do sofrimento e angústias de muitos dos paroquianos votados nestas tradicionais festas de passagem de ano à solidão e ao abandono, o que o levava a empenhar-se na realização destas festivas celebrações litúrgicas de final de ano.



No final, todos os presentes poderiam usufruir de uma grandiosa festa de convívio e partilha, nas salas dos claustros do Mosteiro, tornando assim as vidas destas pessoas mais venturosas, solidárias e cheias de alegria fraterna. Para o Padre Correia da Cunha não havia coisa mais bela e nobre que poder consagrar deliberadamente a sua vida, desejando aos outros o que desejava para si. Estes encontros fraternos organizados pelo Padre Correia da Cunha visavam aquecer os corações de cada um com a certeza que estavam nas suas próprias casas.



A fraternidade e a solidariedade eram virtudes que lhe davam estímulo para servir com dignidade a causa e ideais do seu sacerdócio.



O Padre Correia da Cunha era um filósofo e nesta sua qualidade dizia que o tempo não existia: - “O tempo é apenas uma ideia de limitação que os homens inventaram para satisfazerem as sensações e poderem contar as etapas das suas vidas...”



Sem essa limitação todos dias eram novas oportunidades para se festejar e confraternizar. Os abraços poderiam assim multiplicar-se diariamente no desejo ardente e permanente de Felicidade, Paz e Amor entre todos os homens.



A vida levada com espírito filosófico pode ter mais encanto para perfumar os dias com maior suavidade e ajudar-nos a vencer o tempo difícil que emerge…



BOM E SANTO ANO NOVO!

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E QUADRA DE NATAL

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‘’ ACHAREIS O MENINO ENVOLTO EM PANOS E DEITADO NUMA MANJEDOURA’’.






O Natal de Jesus simboliza a esplendorosa luz redentora representada pela imagem de um recém-nascido, num humilde e tosco curral sobre uma manjedoura.

Na visão do Padre Correia da Cunha estava sempre presente aquele singelo estábulo onde nasceu Jesus. ‘’Deus nasceu menino unido-se assim a Divindade com a Humanidade’’ PCC.

No Natal as chamas dos círios parecem brilhar com mais intensidade, iluminando com maior esplendor as nossas almas obscurecidas pelas fúrias diárias da hipocrisia e do egoísmo…









Era uma tradição da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora construir todos os anos, nesta quadra, enormes presépios no amplo vestíbulo da entrada principal da igreja.



Estes presépios eram pequenos mundos, onde as coisas sublimadas de suaves lirismos adquiriam expressões de ingénua fantasia. No topo o anjo segurava nos dedos a legenda: Glória in Excelsis Deo.



Em lugar bem visível figurava o estábulo e, na manjedoura, deitado sobre pobres palhas o Menino Jesus que sorria num raio de luz na claridade irreal, que era filtrada pelas verduras bravias enroscadas nas grandes colunas do pórtico.



A Virgem Maria e São José aureolados pela mesma luz que enchia por completo aquele imenso átrio da majestosa igreja.


Os pastores com oferendas glorificando e louvado a DEUS-MENINO por tudo o que tinham ouvido e visto. Naqueles presépios havia uma natureza de musgos verdes em contraste com o azul celeste da moldura de fundo.


Eram assim os presépios construídos sobre as ordens do Padre Correia da Cunha que geravam doces ilusões nas almas simples, sonhos de um Mundo de ingénuas e luminosas fantasias.



A propósito desta quadra e dos inesquecíveis presépios, vamos hoje aqui recordar um curioso facto, que o Padre Correia da Cunha, muito gostava de invocar sobre essa imensa construção que mobilizava todas as forças vivas da comunidade paroquial.



Contava ele: - ‘’Foi São Francisco de Assis o primeiro que teve a poética ideia de simbolizar assim, o nascimento de Jesus. Tinha acabado de regressar da Palestina, onde visitara a cidade de Belém e ansioso por espalhar entre os homens o culto de JESUS-MENINO, resolveu evocar através de imagens vivas o seu maravilhoso nascimento.



Com a ajuda do seu fiel amigo Frei Giovanni Vellita preparou a gruta de Greccio. No chão de palha, armaram a manjedoura, arranjaram um boi e um burro, criando assim o mesmo ambiente em que segundo o Evangelho, nascera o Salvador.




Com figurantes humanos deram vida e movimento ao quadro. E todos quantos visitaram esse presépio quedaram-se enternecidos com a singela ideia.’’ Era também desejo do Padre Correia da Cunha que na sua paróquia continuasse bem viva e a flutuar no espírito de cada um de nós esta poética ideia de São Francisco de Assis.






Quem não se lembra das exposições e concursos de presépios, pelos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora, feitos de diferentes materiais, promovidos e organizados pelo Padre Correia da Cunha.




Eram convidadas todas as crianças e catequistas a apresentarem nestes concursos de presépios feitos dos mais diversos materiais, nomeadamente, madeiras, cerâmicas, papeis, cortiças…uns mais ricos, outros mais modestos, todos porém se revestiam de igual significado: Amor a Deus que veio à Terra tornando-se menino para unir na mesma fé os homens de Boa Vontade.




O Padre Correia da Cunha ensinava-nos a debruçar sobre a imagem do Menino Jesus, numa genuflexão de perfumada fé e a implorarmos para todos os homens sentimentos de humanidade e fraternidade pois era esse o grande e sublime ensinamento que Jesus-Menino sonhava para os homens, mas abominavelmente esquecida por todos nós inclusive pelo pobre padre pecador que assim se confessava publicamente.



Votos de um Santo Natal!

















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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E O INVERNO

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‘’O inverno é a pedra de toque dos corações com sentimentos.’’


As manhãs gélidas de inverno rigoroso chegavam à Paroquia de São Vicente de Fora, frias como as atitudes e corações de certos homens, assim o referia Padre Correia da Cunha.



Já não se ouviam os cânticos melodiosos dos pássaros, nem se sentia o perfume das flores dos belos jardins da paróquia. Naqueles tempos de dificuldades e inquietações, o conforto dos lares não era comparável ao existente nos dias actuais. A vida era totalmente diferente.




Uma vez o Padre Correia da Cunha foi convidado para jantar em casa de uma ilustre família da comunidade. Estes convites eram efectuados quotidianamente, pois todos gostavam de saborear o convívio com a adorável presença deste bondoso e desprendido sacerdote de elevada e insuperável cultura.




No final da refeição, quando se preparava para regressar à residência paroquial, sem um agasalho que fizesse frente ao cortante frio que se fazia sentir pelas ruas desertas e melancólicas da paróquia, onde a aragem fria chicoteava os solitários caminhantes.




Prontificou-se o dono da casa a oferecer ao Padre Correia da Cunha um quente sobretudo, de excelente qualidade, para o poupar a tão dura provação na marcha até casa.


Esta oferta generosa e de elevados sentimentos do seu bom amigo visava proporcionar ao Padre Correia da Cunha um inverno mais suave ao tormento do arrojado frio que se fazia sentir naquele rigoroso inverno em Lisboa.




Semanas depois, num dia de imenso frio e de um vento encrespado de arrepios e com forte cheiro a inverno, o Padre Correia da Cunha é avistado pelo seu generoso amigo sem qualquer espécie de agasalho, que o levou a interpelá-lo:



- Padre Correia da Cunha o que é feito do sobretudo que lhe ofereci?



- Sabe, apareceu um que precisava mais do que eu…



Perante esta pronta resposta não houve mais comentários.

Às vezes há instantes que não têm preço. A solidariedade humana é um gesto de bem que se estabelece entre os que sentem de perto o sofrimento do seu irmão.



O Padre Correia da Cunha era assim, propenso à solidariedade humana, compreendendo muito bem as realidades humanas quotidianas, pois andava a pé ao longo das ruas e ruelas da paróquia. Na sua simplicidade de criatura comum, possuía um ideal de humanidade solidária. Só assim era feliz, pois procurava ser coerente com os princípios que pregava do púlpito da sua igreja. Detestava os privilégios e distinções.



O Padre Correia da Cunha era um idealista, sonhador, gostava de olhar a vida pelas frestas da simplicidade e humildade. Era um simplório cheio de ilusões que por vezes nem ilusões eram.



As palavras de Cristo referia Padre Correia da Cunha foram e continuarão a ser aproveitadas por muitos para assegurarem e assumirem a superioridade sobre os outros seus irmãos. Nada de mais aberrante, uns impostores…




Jesus Cristo sempre pregou a humanidade, a solidariedade e morreu esticado numa cruz convicto Ele que os homens o seguiriam.

Mas diante desta frieza humana resta aos irmãos mais carenciados que alguém lhes ofereça um capote de esperança para que nos dias mais frios da vida possam ter um derradeiro agasalho.



 Nos tempos difíceis que vivemos saibamos contribuir para a construção de uma comunidade mais justa e fraterna em que os sem abrigo, chicoteados pelo frio cortante do inverno, possam contar e confiar em homens determinados e abnegados em abraçar a causa do serviço a favor da sociedade.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E O FADO PATRIMÓNIO

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“NA BOCA DE UM MARINHEIRO... QUE, ESTANDO TRISTE CANTAVA...’





Parecia impossível, mas era verdade. O Padre Correia da Cunha andava ensonado todas as manhãs, porque se perdia pela atmosfera nocturna dos becos e vielas de Alfama, onde se deixava aportar numa qualquer casa típica de fados.


O Padre Correia da Cunha entregava-se incondicionalmente a estes sonhos agradáveis, pois tinha uma alma de artista e gostava de ouvir e cantar o fado castiço, tão português.

Da sua paróquia de São Vicente de Fora, a qualquer recanto de Alfama era a distância de um tiro, descendo a encosta, em cascata de casario, por entre becos e ruelas mal iluminadas. Não faltava a passagem pela igreja do seu santo protector, nas lides do fado: Santo Estêvão.




Era nesses ambientes quase irreais, na companhia dos amigos de farras, que o fado tanto lhe falava aos seus profundos sentimentos. Ali saboreava os excelentes petiscos regados com uma boa pinga e escutava excepcionais elencos de fadistas com reportórios vernáculos, que lhe enchiam o coração de grande beleza e emoções. Para ele era importantíssimo que as vozes fossem acompanhadas por exímios artistas da guitarra e da viola.



O Padre Correia da Cunha costumava afirmar que era esta Lisboa, sincera, pura, original, verdadeira, que não copiava o estrangeiro, pois não precisava; que lhe fazia entender o que era belo e sublime.




O Padre Correia da Cunha podia ter optado por uma paróquia da moderna e elegante Lisboa, das madames “blasées”, que chupavam nas palhinhas dos batidos, nas elegantes e snobes casas de chá. Por desejo próprio veio para a Feira da Ladra, bairro do povo simples, do trabalho rude, das fadigas, no atavismo das saudades e na realidade das árduas preocupações.




Com longa vida feita sobre as salsas ondas do mar, o fado tocava-o muito. O Padre Correia da Cunha confessava-se um profundo amante do bom fado. Neste humilde bairro, podia sonhar mais com o amor do que com o dinheiro, aqui sabia-se cantar o fado e ele não trocava o pátio pobre de lajedo primitivo escuro, medieval, pelos mais luxuosos tapetes das ricas residências da moderna Lisboa.





A sua alma de marinheiro poeta só se podia sentir bem no local donde partiram as caravelas para as conquistas do novo mundo. Alfama era a Lisboa das marinhagens, das varinas cheirando a sol e mar, das gaivotas sobrevoando o seu enamorado Tejo, dos becos e das ruelas, das quimeras de amor.

No coração do Padre Correia da Cunha havia uma Lisboa de ciúmes ferozes, de brigas que acabavam em beijos, do fado das lágrimas, dos risos, das raivas e dos perdões…

O Padre Correia da Cunha era um alfacinha de gema, saudosista, cioso dos encantos da sua eterna e amada cidade, que esquecia as mágoas e tinha a salutar filosofia do optimismo, uma alma aberta ao encanto da tradição, vivendo a sua canção que ele garantia que o snobismo ou a indiferença não conseguiriam nunca derrotar.


Jamais o Padre Correia da Cunha terá profetizado o que o futuro reservava para a sua canção nacional. Um novo mundo abre as portas para receber o fado, pela riqueza da sua história, cultura e tesouro esplendoroso da alma lusitana, no pedestal do Património da Humanidade.


Seria certamente um dia muito feliz para o Padre Correia da Cunha a proclamação do Fado a Património Mundial, pois seria entendido por si como o reconhecimento desta herança popular, imortalizada pelas celestiais vozes de muitas fadistas que deram a conhecer ao mundo o nome de Portugal.


O Padre Correia da Cunha era um homem de superior inteligência. Sempre o ouvi referir que o fado fazia parte da genuína cultura do povo português, exprimindo os sentimentos e manifestações, em que saudade, solidão, melancolia são palavras que ligavam na perfeição. Ele também foi um daqueles que o cantaram com imensa paixão pela madrugada fora, na companhia dos amigos, pelos escondidos recantos da sua querida Alfama.



Foi com o Padre Correia da Cunha, nas longas noitadas passadas na sua residência paroquial, que muitos jovens de São Vicente de Fora aprenderam a venerar e apreciar a grande e “divinal” Amália Rodrigues. Para o Padre Correia da Cunha a voz do fado, em Amália, era tão bela que lhe lembrava a harmonia dos anjos serenos e abençoados, ainda que tristes.


Ao erguermos as taças brindando ao reconhecimento internacional do FADO, sentimos que o Padre Correia da Cunha, onde quer que se encontre, estará também a festejar com um aberto e feliz sorriso!

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E O DOMINGO

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"Dies Dominica"





Para o Padre Correia da Cunha o Domingo era o grande dia do Senhor! Encontro de irmãos na grande e jubilosa festa da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, reunida à volta do seu dedicado guia espiritual.



As ruas e ruelas animavam-se com os risos e cores dos fatos domingueiros das crianças. Raparigas e rapazes dirigiam-se para o templo, onde eram acolhidos, de braços abertos, pelo Padre Correia da Cunha que a seguir dava inicio à celebração da grande festa do Senhor – a Eucaristia Dominical.




A igreja estava lindamente decorada com arranjos florais. Todos os paroquianos gozavam nesse tempo de uma enorme simplicidade; as pessoas eram naturalmente alegres.

O coro constituído pelas mais belas vozes da paróquia era empenhado e muito exigente. Cantava com dedicação e carinho para animar com grande entusiasmo a magnifica celebração de fé e assim contribuir com a sua arte para a beleza do Reino de Deus.

O Padre Correia da Cunha após a liturgia da palavra dava  inicio à sua grande oratória, não hesitando chamar ‘’os bois pelos nomes’’; isto significava nomear cada coisa ou atitude pelo seu verdadeiro nome, fosse agradável ou não. Para ele quem dissesse que amava e adorava Deus com toda a reverência, sem amar o seu próximo com todo o respeito era um aldrabão. Como muitas vezes lhe ouvi: ‘’ Meus queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo. Não nos enganemos. Sem caridade os nossos ideais cristãos são uma mentira.’’  

O Padre Correia da Cunha usando das suas prerrogativas, dava-se ao luxo de esquecer o tempo e prolongar as suas intermináveis práticas. Sempre havia alguém na assembleia que se sentia com o direito de apontar o relógio como sinal de momento de paragem. O Padre Correia da Cunha não se conseguia redimir deste seu imenso ‘’defeito’’; só lhe restava sempre pedir mil desculpas…   

Seguia-se o Credo. Creio em Deus Pai….que o Padre Correia da Cunha pedia que fosse recitado com todo o entusiasmo e força vocal.


Ao concluir a liturgia eucarística, todos eram convidados para a Ceia do Senhor. Recordo que nessas missas dominicais eram intermináveis as filas para a comunhão.



Terminada a Celebração Eucarística no interior do templo, seguiam-se os afazeres da catequese que todos recebíamos com grande reverência e onde aprendíamos o necessário da doutrina católica para nos tornarmos em pequenos seguidores de Jesus Cristo. Esta actividade era coordenada entusiasticamente pela saudosa Senhora Dona Anita Themudo Barata e Senhor Carlos Barradas.

Após cerca de quarenta e cinco minutos o Padre Correia da Cunha percorria os claustros tocando o sino para que fossem concluídas as sessões de doutrina.

Catequistas e pais revelavam o seu entusiasmo e prazer em ver os discípulos e filhos a evoluírem brilhantemente. O Padre Correia da Cunha ambicionava que estes meninos e meninas crescessem com as riquezas das virtudes cristãs, pois só assim poderiam no seu futuro profissional serem respeitados e motivo de orgulho e honra por parte da comunidade, pois contavam com a Graça de Deus.



Na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora todos evoluíram, os jovens tinham a esperança de que a sua futura vida seria mais confortável do que a vida dos pais; porque sempre apreendiam mais e com esforço e a graça de Deus podiam alcançar patamares que muito honrariam os seus progenitores.


Os pais tinham esperança em seus filhos e viam-nos a crescer em virtudes e conhecimentos.



O povo de São Vicente de Fora tinha poucas riquezas materiais, mas considerava-se rico por ter este abnegado Pároco humanista que sabia dar valor à cultura com o pólo para o desenvolvimento humano e cristão.


O Padre Correia da Cunha era uma pessoa maravilhosa. Não culpava nem condenava ninguém tendo sempre uma palavra de orientação e conforto.


Esta Comunidade Paroquial produziu figuras de relevante valor que hoje desempenham actividades, em todas as áreas da sociedade e que são motivo de orgulho. Graças a Deus e ao grande mestre e sacerdote: Padre José Correia da Cunha.
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