quinta-feira, 28 de maio de 2009

TESTEMUNHO I

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Foi no Palácio Teles de Melo, construído em 1701, que serviu de habitação à nobreza, à data Teles de Melo que era secretário da guerra dos reis D. João V e D. José I, que o Dr. Carlos Vieira lançaria uma obra ao serviço da PAZ e do AMOR.

JORGE CABANELAS , o teu testemunho sobre este ilustre benemérito merece honras de post, assim passo a publicar o texto que tiveste a amabilidade de enviar sobre um grande e dedicado amigo de Padre Correia da Cunha, que deve ser reverenciado por todos e, em particular, pela Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. A sua obra foi um modelo de amor e muito contribuiu para melhorar as condições de vida e educação de muitos jovens e adultos carentes, que merece ser conhecido.






UM HOMEM DE DEUS






Dizer algo sobre o Dr. Carlos Vieira torna-se deveras muito complicado, pois contemplar todas as suas características, qualidades e capacidades como homem, pai de família, amigo sincero e desinteressado, cristão assumido e empresário responsável, com toda a certeza que ficará muito por se dizer.



No entanto, não quero deixar escapar o desafio, lançado pelo meu querido amigo, catequista, companheiro e irmão em Cristo, João Paulo e atrevo-me, ainda que com todas as limitações, a dizer algo desse grande homem de Deus que para mim e para muitos outros, foi e continua a ser, um verdadeiro sinal de Deus no mundo: Carlos Alberto Vecino Vieira.



E para isso, escolhi escrever sobre a grandiosa, benéfica e importante obra que nasceu das mãos do Dr. Carlos Vieira.



Trata-se do Centro de Acolhimento e Orientação de S. Vicente de Fora (CAO). Obra nascida nas instalações da própria residência do Dr. Carlos Vieira, na Calçada do Cascão e que tinha como finalidade acolher e orientar aqueles que por ali buscavam um pouco de conforto, carinho, alegria, paz, companhia para a sua solidão e, se tal fosse possível, um emprego ou uma ocupação que lhes permitisse uma vida melhor.



O CAO recebia, diariamente, desempregados, toxicodependentes, marginalizados, pobres, idosos, pessoas sem ninguém, para aí encontrarem uma resposta – por mais pequena que fosse – para aliviar as suas dores e as suas tristezas.



Formada por uma pequena equipa de três elementos (o Sr. Adelino, o Sr. José e a Paula Sofia), contava também com a colaboração da D.ª Agostinha que se ocupava das limpezas e da presença sempre amiga, atenta e protectora do Serrinha ( um Serra da Estrela, de enorme estatura mas com a docilidade e fidelidade de uma criança). A coordenação pertencia ao Dr. Carlos Vieira que, sempre com a sua simpatia, amabilidade, generosidade e sempre de coração aberto ao bem, a todos transmitia (aos seus colaboradores e a todos aqueles que ao CAO se deslocavam) a presença viva de Jesus Cristo no meio dos homens.



“Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” – diz-nos Jesus.
No caso do Dr. Carlos Vieira, atrevo-me a dizer “Bem aventurado o puro de coração, porque dará a conhecer a face de Deus”.



Com grande esforço e espírito de sacrifício, até por vezes pessoal e económico, o Dr. Carlos Vieira, sempre de sorriso nos lábios e com as “altas” gargalhadas que eram uma das suas características muito particulares, conseguia manter esta “obra de caridade”, para que os mais pobres e necessitados gozassem de um espaço de partilha, confraternização e até mesmo de verdadeiras amizades.



Perdoe-me, Dr. Carlos Vieira por este modesto testemunho acerca da sua pessoa. Sei que pouco disse e que muito mais haveria para dizer.



Só me resta a certeza de poder afirmar, com toda a convicção do coração, que o Dr. Carlos Vieira é um Homem de Deus, vive para Deus e para os irmãos e dá a conhecer este Deus que é Amor, Misericórdia e Felicidade a todos aqueles que o rodeiam.
Que Deus o abençoe para sempre Dr. Carlos Vieira.





( do seu sempre amigo Diácono Jorge Cabanelas )
27 de Maio de 2009




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segunda-feira, 25 de maio de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O ECONOMISTA

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‘’Para ele só as pessoas contavam…’’





Na Paróquia de São Vicente de Fora, nos dias da semana, eram celebradas por Padre Correia da Cunha duas missas diárias: uma pelas 9,30 horas e outra pelas 18,30 horas. Estas celebrações eucarísticas tinham normalmente a duração de 30 minutos.





Naquele final de tarde do principio dos anos setenta, cinzento de Outono, a celebração eucarística teve a duração de uma hora e dez minutos. Padre Correia da Cunha estava a viver um difícil problema. Tinha assumido solenemente, com o Vigário Geral do Patriarcado de Lisboa, a liquidação de todos os emolumentos em atraso pertencentes à Paróquia desde 1960 – ano da sua chegada à Paróquia. Para acatar essa exigência era colocada por Pe. Correia da Cunha a hipótese de se desprender do seu património de arte sacra. Não dispunha de dinheiro para o efeito, dada a pobreza da Paróquia.



Padre Correia da Cunha entendia que a Graça de Deus não podia ser paga por nenhum dinheiro deste mundo, tinha que estar disponível graciosamente para todos como o Coração de Deus está disponível para todos que o ambicionem. Assim não cobrava qualquer tipo de emolumento pelos serviços sacramentais prestados. Os donativos dos fiéis cobriam mal as despesas correntes (água, electricidade, limpeza …) e pouco mais. Não tinha abraçado a vocação sacerdotal para ser contabilista ou gestor de uma fábrica… Era estruturalmente um desordenado no tocante aos aspectos financeiros e burocráticos da sua paróquia. As dificuldades financeiras eram diárias, que com ajuda da providência Divina lá as ia ultrapassando. Para ele só as pessoas contavam.



Naquela tarde, aproveitou a celebração da eucaristia para lançar um repto aos presentes sobre a gravidade da situação. Aproveitando a inspiração das leituras do dia, em forma de um improviso que lhe era habitual, Pe. Correia da Cunha fez uma empolgante e frontal homília, com toda a energia que o seu coração permitia:



- Meus queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, como cristãos e paroquianos desta paróquia, temos o dever de contribuir e participar activamente na sua vida. Necessitamos de catequistas, necessitamos de visitadores dos doentes, necessitamos de Vicentinos, necessitamos de pessoas que animem o canto nas celebrações, necessitamos de alguém que saiba de contabilidade que ajude a colocar em ordem as contas da igreja...

Meus queridos Irmãos, temos de colaborar na vida da nossa família paroquial ou então andamos todos aqui a enganar-nos uns aos outros… Ser cristão é muito mais do que vir à Igreja ‘’papar hóstias’’, é assumir o compromisso de servir a comunidade e os irmãos que de nós precisam… Cristianismo sem caridade vivencial é uma ilusão… Meus Queridos amigos, ou nos empenhamos na vida da comunidade paroquial ou o melhor é colocar um cartaz na porta da igreja com a seguinte inscrição: Trespassa-se para mudança de ramo. Lembro que os cristãos não podem fugir nunca com o rabo à seringa…


 
Depois desta surpreendente reprimenda todos lá se dirigiram para as suas vidas, Pe Correia da Cunha para a Sacristia e depois para o Cartório Paroquial.


Cerca das 20,30 horas, quando descia as escadarias da sua igreja para ir jantar, saiu ao seu encontro um jovem de trinta e poucos anos muito bem apresentado e vestido impecavelmente, que o interrogou:

- Desculpe! O Sr. é que é o Padre que celebrou a missa de fim da tarde?

- Sim, sou eu mesmo.

- Estive ali no meu automóvel a pensar nas palavras da sua prática. Sou Licenciado em Ciências Económicas e Financeiras, paroquiano da Freguesia de São João de Deus. Creio que podia ajudar o Reverendo na contabilidade. Não conheço o plano contabilístico da igreja mas certamente com a sua ajuda… Queria era desde já disponibilizar-me para essa tarefa, caso o Sr. Padre naturalmente o aceite.

- O Sr. Dr. vai-me desculpar, mas o que faz aqui por estas bandas? Nesta Paróquia de pelintras?

- A minha noiva vive aqui nesta paróquia.

- Muito bem. O Sr. Dr. poderá por favor passar amanhã por cá para abordarmos com todo o detalhe as nossas necessidades e mostrar-lhe os livros da fabriqueira.
O seu preenchimento penso que não seja difícil mas amanhã aportaríamos todas essas questões. Resta-me desde já agradecer do fundo do coração toda a sua imensa generosidade. Deus Nosso Senhor o abençoe.


Nessa mesma noite, na reunião do Conselho Paroquial, Pe Correia da Cunha descrevia aos seus membros este sui generis episódio ocorrido nesse final de dia assim como as aparentes dúvidas sobre tão inesperada disponibilidade e magnificência de um jovem empresário, que manifestara tanta boa vontade para colaborar com uma paróquia pobretona como a sua.

No dia seguinte lá estava o Sr. Dr. para dar início à sua nova nobre missão… por muitos e longos anos. A partir dessa altura todos os meses eram afixados na entrada da igreja os balancetes sobre a débil situação financeira da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.

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HOMENAGEM AO DR. CARLOS VECINO VIEIRA



Hoje, quero em nome de todos os amigos de Padre Correia da Cunha, prestar uma sincera e merecida homenagem ao Dr. Carlos Alberto Vecino Vieira, que durante muitos anos contribuiu com total dedicação e generosidade na organização das contas da Igreja Paroquial de São Vicente de Fora. Carlos Vieira veio a tornar-se num dedicado e fiel amigo de Padre Correia da Cunha.


Deus concedeu a Carlos Vieira um coração de um excelente esposo, pai, empresário e paroquiano, (chegou a viver na Paróquia de São Vicente de Fora) repleto de grande humanidade. A chama da sua grande crença em Jesus Cristo arde em seu peito e irradia-se através de todo o seu ser. A fé habita o seu rosto e exprime-se numa enorme e genuína bondade.


Para Carlos Vieira os pobres são realmente seus irmãos. É um grande homem. Para ele o mais importante é viver o Evangelho e vivê-lo na ajuda permanente dos seus irmãos mais carenciados. Dou muitas graças a Deus, por me ter dado a oportunidade de conviver de perto tantos anos com este grande Cristão de uma elevada riqueza espiritual, que coloca todas as suas forças no Amor a Deus e ao seu próximo sem pretender nenhuma glória humana.


Este cristão exemplar muito contribuiu para ajudar todos os jovens e homens de boa vontade da Paróquia de São Vicente de Fora na busca de um projecto de vida, assegurando-lhes o acesso ao trabalho. Muitos continuam a seguir o seu bom exemplo: sendo fiéis aos ensinamentos de Jesus Cristo e empenhados no respeito à dignidade da pessoa humana.


Estou certo que continua a ser um grande fã e admirador da memória de Pe. José Correia da Cunha. Cheguei a ouvir dizer-lhe: ‘’ que era difícil encontrar pessoa de mais iniciativa e mais expedito do que este benemérito pároco de São Vicente de Fora’’.

 

Dr. Carlos Vieira conto consigo para ajudar a manter viva a memória deste grande e saudoso amigo que continua a iluminar o caminho de quantos o conheceram, conviveram e muito apreenderam com a sua brilhante e apurada inteligência.


Tomei conhecimento recentemente da publicação de uma obra sua com o título: Sentir Ser Português. “Nesse livro o Dr. Carlos Vieira pretende apresentar uma reflexão sobre as causas que poderão estar na origem do actual mal-estar e desalento sentido pelos portugueses.
Estas razões de que a Economia, apesar de importante, não é mais do que um efeito, deveremos procurá-las numa desconcertante ruptura com o passado recente e distante.


Os elementos essenciais da nossa integridade como Nação: Independência Nacional, Pátria, Manifestação Pública da Fé, Serviço Público, Criação de Riqueza Familiar, Paz e Tolerância Social, um rumo, por muitos esquecidos ou maltratados, constituirão motivo suficiente para se detectarem sérios riscos de desagregação que urge corrigir.
Pretende-se deste modo contribuir para uma recuperação desejada e aguardada, mas de momento adiada”.


Recomendo a todos os homens de boa vontade a sua leitura.



Nota: Pagela de Jesus Cristo – Tenho um amigo que me AMA, que me foi oferecida pelo Dr. Carlos Vieira, nos anos 70.


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sábado, 23 de maio de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E OS DOENTES

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‘’Sou chamado a anunciar a esperança e o amor do Pai’’




Pe. Correia da Cunha, quando jovem, como sabem, foi capelão do Hospital da Marinha em Lisboa.
A sua dedicação ao serviço dos doentes e dos mais necessitados sempre foram prioridades da sua vocação sacerdotal.



Um seu paroquiano, oficial superior do exército, foi internado por motivos de saúde no Hospital Militar Principal na Estrela. Pe Correia da Cunha, ao tomar conhecimento dessa situação, sentiu de imediato a necessidade de ali o ir visitar e levar-lhe a sagrada comunhão.



Um belo dia, muito feliz, vestiu a sua batina e lá se deslocou ao Hospital Militar para visitar esse seu querido amigo paroquiano.

Ao entrar na enfermaria, onde se encontrava seu amigo na companhia de mais dois companheiros de armas, depois de os saudar e desejar-lhes a PAZ, Pe Correia da Cunha, dirigiu-se ao seu paroquiano nestes modos:


- Aqui vem este burrinho carregado com Nosso Senhor, cansado não com o peso Dele mas do peso dos meus pecados.

 

Houve um silêncio absoluto no local. Depois de se inteirar do estado de saúde do seu amigo e dos restantes parceiros de quarto, Pe. Correia da Cunha improvisou sobre uma mesa-de-cabeceira um lindo altar, onde expôs o Santíssimo e deu início a uma harmoniosa liturgia de adoração e a um brilhante cerimonial próprio da ocasião. Não faltaram os cânticos, os salmos e as leituras, assim como a distribuição da Comunhão no final. Obviamente, que Pe. Correia da Correia não podia esquecer a homilía, própria para a circunstância. Um cerimonial sem esta prática não era cerimonial para Pe Correia da Cunha.
 
 
A pouco e pouco a enfermaria foi-se enchendo de pessoas havendo a necessidade de abrir as portas para as muitas pessoas que já enchiam o longo corredor.

Durante o cerimonial os rostos dos doentes, como dos participantes, irradiavam uma imensa alegria de satisfação interior.
No final, todos se interrogavam sobre: - quem era aquele Sr. Padre e exclamavam que bela cerimónia tinham presenciado e participado.

O Sr. Oficial, muito vaidoso, orgulhoso e muito contente lá ia informando:

- É o Sr. Padre Correia da Cunha, o meu prior de São Vicente de Fora.
 
 
 

Passados uns dias a família deste oficial estava no Cartório Paroquial a agradecer a amabilidade do Pe. Correia da Cunha. Entretanto a mesma aproveitava para reclamar que o Sr. Prior se deveria deslocar de novo ao Hospital pois tanto médicos, enfermeiros e doentes o gostariam de rever … todos dias nos perguntavam quando o Sr. Prior lá iria de novo.

Enquanto esse seu paroquiano esteve hospitalizado naquele Hospital, Pe. Correia da Cunha deslocou-se ali várias vezes.




Pe. Correia da Cunha referia que ficava sempre muito feliz quando verificava que um doente que parecia perdido se recuperava. A amizade nascida nestas circunstâncias era verdadeira e mantida para sempre.



Pe. Correia da Cunha era muito procurado pelos doentes para falarem, chorarem e partilharem o seu sofrimento, sobretudo nos momentos em que se sentiam mais débeis e com muita solidão. Um sorriso, uma palavra de esperança, uma companhia, uma oração ou um simples olhar representavam muito para quem estivesse numa hora de sofrimento.

Pe. Correia da Cunha identificava-se muito com a missão do seu serviço aos irmãos doentes. Perante essa realidade, não tinha dúvidas que do encontro com estes seus irmãos em sofrimento, a esperança passava pelo anúncio da Palavra de Deus, pois Deus é Pai e tem um amor muito particular pelos que sofrem.

Quando acompanhava Pe. Correia da Cunha, nas visitas aos doentes da Paróquia, lembro-me de ele dizer logo à entrada com uma voz vinda do fundo do coração: ‘’ PAZ A ESTA CASA ‘’. Fazia a aspersão com a água benta e acrescentava:

-Senhor Jesus Cristo! Com o vosso humilde e pecador sacerdote, entre também nesta casa a felicidade duradoura, a prosperidade em Deus, a alegria serena, a caridade benfazeja e a saúde inalterável.


Nas suas visitas aos doentes Pe Correia da Cunha levava o conforto da oração da Igreja e a entrega da sagrada comunhão. Estas suas visitas recordavam-me o amor misericordioso do Senhor: ‘’ Deus visitou o seu povo’’. Também procurava sempre dar uma palavra de conforto e solidariedade à família. Sempre vi Pe Correia da Cunha interessado e empenhado nesta sua nobre missão em prol dos seus irmãos doentes.


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quarta-feira, 20 de maio de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E A FEIRA DA LADRA

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‘’Mais do que a história, a Feira da Ladra exalta a tradição. ‘’






A Feira da Ladra teve início no Chão da Feira, junto ao Castelo de São Jorge, no séc. XIII, tendo mais tarde passado para o Rossio. Depois do Terramoto de 1755, instalou-se na Cotovia de Baixo (actual Praça da Alegria), estendendo-se mesmo pela Rua Ocidental do Passeio Público. Em 1823 foi transferida para o Campo de Santana, onde esteve apenas cinco meses, voltando para a Praça da Alegria. Em 1835, voltou ao Campo de Santana, onde se conservou até 1882. Fixou-se na Paróquia de São Vicente de Fora em 1903, no Campo de Santa Clara, onde permanece até aos dias de hoje. Ocorre semanalmente às terças-feiras e sábados.



A Feira da Ladra é uma das feiras mais antigas de Lisboa. Ali se comercializam todo o comércio de antiguidades, velharias e objectos de segunda mão lado a lado com artigos novos







Pe Correia da Cunha era um assíduo frequentador desta popular e secular feira. Ao romper da manhã lá se dirigia, para com os olhos bem abertos, observar todo o tipo de tralhas velhas, antiguidades e objectos raros. Para Pe. Correia da Cunha estas suas visitas eram eventos muito populares e apresentavam sempre novas revelações. Eram uma fonte inesgotável de objectos impensáveis. Um labirinto de coisas mas também de pessoas que muito considerava e com quem mantinha excelentes relações de amizade e carinho. Não havia um só vendedor da Feira da Ladra que o não conhecesse e não alimentasse por ele consideração e estima.



Pe. Correia da Cunha não era um coleccionador amador ou um curioso de arte, começou muito jovem como oficial da Marinha a coleccionar peças de arte sacra, adquiridas nos melhores antiquários de Lisboa com pagamentos a prestações, e desde então não parou mais. Tinha grandes amigos com essa ocupação que o visitavam frequentemente para ouvirem a sua opinião sobre determinadas peças de arte.





Pe. Correia da Cunha, possuía uma impressionante colecção de arte Sacra e não só: desde pratas lavradas do séc. XVI até séc. XVIII, a quadros originais do séc. XVI ao séc. XX, pinturas e esculturas contemporâneas, assim como excelentes peças de mobiliário original do séc. XVII …
Todas as suas peças de arte tinham uma história, uma vivência. Tinha quadros a óleo do séc. XVII e XVIII e móveis comprados na Feira da Ladra por preços insignificantes, pois para muitos os seus destinos seriam o lixo.



A sabedoria estava na escolha das peças que depois de devidamente restauradas, nas oficinas de seus amigos peritos no restauro, e repostas na sua originalidade (que por vezes as próprias peças a possuíam devido a má conservação e restauro) ficavam irreconhecíveis, ganhando valor extremamente elevado.



Pe. Correia da Cunha defendia que as antiguidades são magnificas peças desde que bem conservadas e repostas na sua primitiva originalidade.










Pelo chão do vasto Campo de Santa Clara, à sombra da sua igreja e mosteiro, Pe. Correia da Cunha quase sempre encontrava antiguidades, peças de cerâmica, livros antigos e tudo o mais que possamos imaginar. Os feirantes que o conheciam muito bem e nutriam por ele muito afecto e apreço e sabiam bem das suas preferências, reservavam-lhe por vezes peças até só com o intuito de ouvirem a sua opinião de grande especialista na matéria. Estas suas consultas eram pagas nos descontos efectuados na aquisição de peças.



Embora a Feira da Ladra possa estar associada à pobreza, lembro que nos anos cinquenta e sessenta esta dispunha de extraordinária riqueza em peças de arte e mobiliário, que hoje só se encontram disponíveis em famosos antiquários. O espelho que hoje apresenta a Feira da Ladra não reflecte a extraordinária riqueza das relações humanas e da procura que tinha por parte dos lisboetas e turistas nos meados do século passado. Como diria o poeta: ‘’ mudam-se os tempos mudam-se as vontades…’’


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domingo, 17 de maio de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E CRISTO REI

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‘’Venha a nós, o Vosso Reino…’’





Hoje, dia 17 de Maio, o Santuário de Cristo Rei celebra cinquenta anos de existência.

A primeira ideia de se construir um monumento a Cristo Rei surge do Eminentíssimo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel II Gonçalves Cerejeira, no ano de 1934, aos pés da magnífica escultura do Cristo do Corcovado, quando nesse ano visitou a cidade Rio de Janeiro no Brasil. Tendo esta imponente obra brasileira sido inaugurada, dois anos antes, no ano de 1932. Sentiu-se atraído para fazer uma imagem semelhante na capital portuguesa. Mas só em 1946 numa nota pastoral se anunciou a sua construção. Erguido num morro de Almada, a 215 metros do nível do mar oferecendo uma panorâmica de 360º sobre as duas margens do Rio Tejo, este é um ponto de visita obrigatória para se observar a nossa muito amada e querida cidade de Lisboa.

Em 1954, Pe. Correia da Cunha escrevia sobre esse local, onde se situa o actual Santuário de Cristo Rei, o seguinte:

‘’ Eu gosto imenso de Lisboa; sou deveras seu Amigo.
Quantas vezes me não pondo a olhar para Ela e, absorto, a não contemplo, dali, do morro de Almada! Como se mostra bela e formosa, quando, pela tardinha, toda inundada de sol, se revê embevecida nas águas especulares do seu Tejo!

Que maravilha!

Quem ainda a não viu dali, defronte, não conhece bem a sua beleza, e não sabe o que perde… ‘’


Pe Correia da Cunha muitas vezes visitou esse Santuário e onde aproveitava sempre para contemplar apaixonadamente a sua cidade de eleição. Lisboa que ele tanto amava!

Desde há cinquenta anos que Cristo Rei lá está olhando o Tejo, os barcos… de braços abertos para abraçar e proteger este nobre povo lusitano, que tem Cristo como seu verdadeiro Rei. Cristo único redentor do Homem!

A primeira pedra foi colocada no ano de 1950, mas só em 1959 é que solenemente foi inaugurado, nesse local, o Santuário de Cristo Rei como agradecimento por Portugal não ter integrado a II Guerra Mundial, estando presentes na sua inauguração mais de 300 mil pessoas.








Nesse dia 17 de Março de 1959, o Cardeal Cerejeira com o calor do seu coração afirmava: ‘‘ Portugal está todo aqui aos pés de Cristo Rei…para se consagrar… Este é o monumento da gratidão! Portugal foi ouvido! O voto está cumprido! Cristo Vence, Cristo Reina, Cristo Impera. Naqueles que crêem Nele’’.


A obra é da autoria do Arquitecto António Lino e do Eng.º D. Francisco de Mello e Castro, que depois de construída, à mão num trabalho de minúcia do grande mestre escultor Francisco Franco foi esculpida no detalhe da imagem de Cristo Rei.


Na base do monumento está a capela de Nossa Senhora da Paz, onde se destaca a imagem de Nossa Senhora de Fátima, criada pelo famoso escultor Leopoldo de Almeida.

No programa, das comemorações do cinquentenário está prevista a repetição da viagem de Nossa Senhora de Fátima peregrina ao Santuário de Cristo Rei. A Marinha Portuguesa vai associar-se a este grandioso evento transportando a imagem que será um grande momento de peregrinação desta procissão marítima. Em 1959, Pe Correia da Cunha, esteve na qualidade de Capelão da Armada, dinamizando esse belíssimo cortejo marítimo.

Colocando Cristo Rei no alto do pedestal, Portugal cumpriu o pagamento da sua dívida. Junto das nuvens durante o dia e envolvido na escuridão da noite lá está Ele indicando o caminho da salvação. Estou certo que continuará por muitos mais dias, anos e séculos… para que os portugueses sintam que a imagem de Cristo Rei de braços erguidos nos lembra que Ele é e será o único redentor do mundo.



Cristo Reina.mp3 -

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E FÁTIMA

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‘’FOI FÁTIMA QUE SE IMPÔS À IGREJA… ‘’



Para o Pe. Correia da Cunha, Fátima não era um dogma de fé mas mantinha na sua alma cristã uma grande emoção e um especial carinho por este Santuário Mariano. Fátima era o altar do mundo, um recanto do Paraíso na terra; um lugar sagrado.

Foi lá que o Pe. Correia da Cunha celebrou as suas bodas sacerdotais, no dia 29 de Junho do ano de 1964, pedindo a protecção de sua mãe Maria Santíssima para o seu múnus sacerdotal.

O Padre Correia da Cunha referia que no Santuário de Fátima se respirava uma atmosfera sobrenatural, parecendo que se encurtava em muito, a distância que separa o Céu e a terra.

Naquele árido planalto, desceu um dia a Virgem Maria. Mãe de Jesus e nossa Mãe. Fazia-nos sentir orgulhosos de sermos Portugueses por termos sido presenteados com a visita, que fez Maria à nossa querida e amada terra, tão pequenina em extensão, mas certamente grandes países teriam uma santa inveja deste generoso gesto e favor da Mãe do Céu a Portugal.



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Hoje, dia 13 de Maio, é tempo de dirigir uma palavra a todos quantos impelidos por verdadeiro espírito de fé cristã e de devoção mariana se reúnem naquele santuário. Obrigado, por manterem bem viva a grande fé dos portugueses.
Passados noventa e dois anos penso serem sábias as palavras do Eminentíssimo Cardeal Patriarca, D. Manuel II Cerejeira, grande admirador de Pe. Correia da Cunha, quando afirmou: ‘’NÃO FOI A IGREJA QUE IMPÔS FÁTIMA; FOI FÁTIMA QUE SE IMPÔS À IGREJA. ‘’

Tudo, nessa história humano-divina, concorre para acreditarmos em algo da sua autenticidade.
Pense-se na ingenuidade cristalina e na inocência angélica das três crianças, Lúcia, Jacinta e Francisco a quem a Virgem Santíssima confiou os seus segredos.

Padre Correia da Cunha recordava que a Virgem Maria não tinha vindo dar altas lições de sabedoria humana, nem, muito menos, tratados ou dissertações filosóficas ou teológicas.

Mensagem muito simples e singela: que os homens vivam o amor e a simplicidade evangélica e não esqueçam a oração e a penitência.

Conceda-nos o Senhor ver realizados os pedidos de Nossa Senhora de Fátima.

Mãe clemente e piedosa faz que sobre este mundo actual que luta com grandes dificuldades contra a injustiça e a equidade, surja um Mundo Melhor, onde domine a verdade, a justiça, o amor e a paz.


O culto de Maria é decisivo na história dos portugueses. Fátima é o termómetro do fervor religioso e um sustentáculo da fé. Comove, atrai, motiva, entusiasma. O Pe. Correia da Cunha era muito confiante e muito gostava de proclamar comprometida mente este belíssimo Hino: 


 Enquanto houver Portugueses, tu serás o seu amor.


Salve, nobre Padroeira
Do Povo, teu protegido,
Entre todos escolhido,
Para povo do Senhor.

(Coro - intercalado)

Ó glória da nossa terra,
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver Portugueses,
Tu serás o seu amor.

Com tua graça e beleza
Um jardim não ornas só,
Linda flor de Jericó,
De Portugal és a Flor!

Flor de suave perfume,
Para toda a Lusa gente,
Entre nós, em cada crente
Tens esmerado cultor.

Acode-nos, Mãe piedosa,
Nestes dias desgraçados,
Em que vivemos lançados
No pranto, no dissabor.

Lobos famintos, raivosos
O teu rebanho atassalham,
As ovelhas se tresmalham,
Surdas à voz do pastor.

Da fé a lâmpada santa,
Que tão viva outrora ardia,
Se teu zelo a não vigia,
Perde o restante fulgor.


Ai! da Lusa sociedade,
Se o sol do mundo moral
Se apaga… Ó noite fatal!
Ó noite de negro horror!

És a nossa Padroeira,
Não largues o padroado
Do rebanho confiado
A teu poder protector.


Portugal, qual outra Fénix,
À vida torne outra vez.
Não se chame Português
Quem cristão de fé não for.

Pe. Padre Francisco Rafael da Silveira Malhão

O Pe. Correia da Cunha realizava todos os anos uma peregrinação com a sua Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora ao Santuário da Cova da Iria. Tinha elaborado, nos anos cinquenta, para a peregrinação dos marinheiros portugueses, quando era capelão da armada, um magnífico guião. Este opúsculo foi posteriormente reeditado para as várias Peregrinações da Paróquia de São Vicente de Fora.

Era um esplêndido documento do peregrino com rumo ao santuário de Nossa Senhora de Fátima.


Solicitava algum de vós, se ainda conservar este admirável livro da autoria de Pe. Correia da Cunha, que façam chegar-me uma cópia para o publicar neste blogue.



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sábado, 9 de maio de 2009

ALA DOS AMIGOS DE PE. CORREIA DA CUNHA

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Os amigos que partiram…




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IN MEMORIAM



CARLOS DOS ANJOS BARRADAS




1926-2008






Carlos dos Anjos Barradas (1926-2008), natural de Lisboa, freguesia de Santo Estêvão – Alfama, nasceu no dia 8 de Fevereiro de 1926.

Ao longo da sua caminhada, Deus proporcionou-lhe assistir e participar nos mais admiráveis acontecimentos da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, com o seu amigo próximo Padre Correia da Cunha.



Sempre procurou servir com a maior dedicação e lealdade a sua Comunidade Paroquial. Modesto, com uma clareza da Verdade no pensamento, impondo à sua acção o lema de conduta, terá sido um daqueles que possuía na alma o sentido da generosa e genuína voluntariedade.



Bastava-lhe como única riqueza: o consolo moral e espiritual da sua total entrega aquilo que mais amava – servir a sua comunidade paroquial e os muitos fraternos amigos que ali preservava.



A actividade de Carlos Barradas, na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, ajustou-se perfeitamente ao seu temperamento, integrava-se no seu ser e formava um homem completo e estruturalmente sólido de carácter e de uma bondade inexcedível. Com uma formação sólida de ex-seminarista, foi um grande educador da fé, como catequista e presidente da Catequese Paroquial nos anos sessenta e que retomaria após o falecimento da saudosa ANITA THEMUDO BARATA em 1982. A sua vocação inspiradora para servir os mais desprotegidos levou a que assumisse por longos anos a presidência da Conferência de São Vicente de Paulo da Paróquia de São Vicente de Fora. Como cristão empenhado, prestou relevantes serviços na preparação para o matrimónio (CPM) dos jovens noivos da sua comunidade…


A capacidade artística de Carlos Anjos Barradas levava a que Pe. Correia da Cunha não resistisse a pedir-lhe o arranjo dos placares e dos diplomas da Primeira Comunhão, Profissão de Fé e Crisma, com a sua letra tipo “gótica”, a que ninguém ficava indiferente dadas as frequentes exclamações de beleza rara.



Recordando Carlos Barradas, como membro do Conselho Paroquial na sua época, quero testemunhar a simpatia que granjeava a sua colaboração e o seu sentido de responsabilidade no Conselho Paroquial. O carinhoso interesse que manifestava nas suas argumentações eram reveladoras do empenhamento e atenção que lhe mereciam todas as actividades paroquiais. Carlos Barradas deu sempre a medida do seu grande valor, como cristão empenhado e actualizado, atento aos grandes problemas do seu tempo.




Pela sua constância e vontade de bem servir a Comunidade Paroquial de São Vicente, é justo prestar esta homenagem e exprimir em nome de todos os afectuosos amigos um agradecimento à dedicação de longos anos de trabalho de Carlos Barradas à sua paróquia.


Com diria Santo Agostinho: “ Aquele que tem a caridade no coração, tem sempre alguma coisa a dar.” É para mim um enorme prazer escrever estas simples palavras para falar de um homem de grande verticalidade e dignidade. Viveu fervorosamente com elevada paixão. O seu grande fascínio de servir a Deus e a Igreja, num espírito de grande afectividade e amizade com todos os membros de todos os movimentos da paróquia de São Vicente de Fora.



No dia 19 de Fevereiro de 2008, foi repousar na Glória de Deus. Hoje junto do PAI e de seu amigo e pastor Pe. Correia da Cunha, continua a interceder por todos nós que fomos seus amigos.


São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixou em todos muitas saudades.


RECEBEI, SENHOR, NA GLÓRIA DO VOSSO REINO O NOSSO IRMÃO.



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quinta-feira, 7 de maio de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA - FÁBULAS DE LA FONTAINE I








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‘’ A UNIÃO FAZ A FORÇA’’





As fábulas de La Fontaine, do escritor francês Jean de La Fontaine (1621-1695), lidas e admiradas universalmente sob o ponto de vista moral encerram lições bem mais intensas face ao problema da criação artística.

Nos claustros inferiores do Mosteiro de São Vicente de Fora, encontrávamos trinta e oito painéis com a representação das fábulas de La Fontaine, onde através daquelas pinturas a azul e branco, podíamos encontrar o nosso próprio retrato…assim se referia Pe. Correia da Cunha àqueles belos e admiráveis painéis de azulejos do Séc. XVIII.




Pe Correia da Cunha gostava muito de narrar pequenas histórias, para explicar assuntos bem profundos… Muitas vezes apoiou-se nestas magníficas obras-primas da literatura para modificar e melhorar comportamentos sem recorrer a ‘‘moralismos’’ religiosos, que por vezes os jovens tinham dificuldade em compreender e interiorizar.




Os personagens destas histórias são na maioria animais que se comportam como seres humanos e representam bem os hábitos e os vícios de cada um de nós.

Eu e todos os jovens, que nos nossos tempos livres nos dedicávamos à função de cicerones do Mosteiro de São Vicente de Fora, por dever do ofício, éramos conhecedores de todas essas admiráveis fábulas, representadas nesses magníficos painéis de azulejos, de rara beleza, que revestiam as paredes dos claustros do secular mosteiro agostiniano.

Hoje iremos iniciar a apresentação das histórias dessas fábulas, que alimentaram a nossa sabedoria desde muito jovens e aguçaram o nosso sentido crítico da moral através das ilustrações excelentes destes painéis de azulejos do Séc. XVIII.


O VELHO E SEUS FILHOS

Um velho, às portas da morte,
Tomou um molho de varas,
E a seus filhos, jóias caras,
Falou-lhes por esta sorte:

‘’ Tendes forças a fartar;
E a todos quero influir
Para estas varas partir
Sem o molho desatar. ‘’

Cheio de resolução,
Tomou o molho o mais velho;
Vergou-o sobre o joelho,
Mas viu que lidava em vão.
O mais novo, pulso forte,
Entra na empresa, arrojado,
Sua por um bom bocado,
E o molho da mesma sorte!

Todos eles, um por um,
Fizeram gemer o solho;
Mas não foi partir o molho
Para as barbas de nenhum.

O velho, com placidez
Logo o molho desatando,
E as varas todas quebrando,
Cada um por sua vez,
O seu exemplo reforça
Com sentença de áureos brilhos:

‘’SEDE UNIDOS, CAROS FILHOS,
A UNIÃO FAZ A FORÇA. ‘’
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J.I. DE ARAUJO
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J
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

NUN’ÁLVARES: O CONDESTÁVEL DE PORTUGAL AGORA É SANTO

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“QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA!”.



Transcrever este texto da autoria do Dr. João Alves das Neves, com a sua devida e bondosa permissão, sobre São Nuno de Santa Maria, representa, para mim, uma dupla alegria. A Primeira é a desta distinta personalidade ser natural da Beira Serra, nasceu na aldeia de Pisão (Coja-Arganil), aldeia que conheço muito bem, e onde passei retemperadoras férias ao longo da adolescência. Depois, porque da Beira da Serra (como Pe. Correia da Cunha se referia à região) provinham muitos dos paroquianos de São Vicente de Fora, levando Pe. Correia da Cunha a comparar esta região com a sua própria paróquia, a qual designava carinhosamente por “Encosta da Serra”. Estes conterrâneos viviam muito a tradicional religião, tendo ao longo dos tempos criado um património professo do qual faz hoje parte o SANTO CONDESTÁVEL.




Este Santo sempre foi muito venerado, pelos imensos ex-alunos do Patronato de Nuno Álvares Pereira, na Igreja de São Vicente de Fora. Muitos são filhos do imenso ímpeto migratório dos anos 50 oriundo da Beira Serra. É em nome deste enorme número de devotos do Condestável, e grandes amigos do Pe. Correia da Cunha, que decidimos publicar este excelente e belo texto sobre o nosso tão querido Santo Português.



Sem a preciosa colaboração do Dr. João Alves das Neves isto não teria sido possível. É, portanto, para todos nós, uma enorme honra publicar o trabalho de tão prestigiada figura da nossa actualidade. Bem-vindo!










Há muitos anos que temos na mais alta consideração D. Nuno Álvares Pereira, que foi o principal consolidador da Independência de Portugal, com as vitórias sobre os castelhanos em Atoleiros (08-04-1384), Aljubarrota (14-08-1385) e Valverde (02-10-1385). O título de Beato, atribuído pelo Vaticano em 1919,prenunciava a sua santificação, oficializada – finalmente! - pelo Papa Bento XVI em 26 de Abril de 2009, depois de uma série de adiamentos que se explicam por certos distúrbios internacionais que a Igreja Católica não poderia ignorar.


Descendente de uma família aristocrata, D. Nuno Álvares Pereira era filho de D. Álvaro Álvares Pereira, que tinha o título honorífico de Prior da Ordem do Hospital, e de D. Iria Gonçalves do Carvalhal, que viveu na Corte, onde o jovem Nuno, nascido no castelo de Cernache do Bomjardim (ou em Flor da Rosa), ambicionava seguir os lendários Cavaleiros da Távola Redonda. Admirava as histórias de Cavalaria e dos Santos, pois era muito piedoso. E aos 13 anos foi armado Cavaleiro pela Rainha D. Leonor Teles, que casara com o Rei D. Fernando.


Não sabemos se os Correios acederam ao pedido de um grupo de portugueses que sugeriu a emissão de um selo que de Portugal levasse ao Mundo a imagem do novo Santo, mas não há dúvida de que a sua vida e obra foram sempre louvadas pelo Povo. E se o processo de canonização foi demorado devem ser recordadas agora algumas das figuras exponenciais da História de Portugal que ratificaram várias vezes o voto popular ao primeiro pedido de canonização foi certamente o do Rei D. Duarte, em 22-09-1437, conforme carta ao Abade João Gomes – “fazemo-vos saber que nós ainda não houvemos o desembargo que saiu do caninozamento do Santo Condestável, para que se tire a inquirição, que sobre isto se costuma fazer” (a carta está na Biblioteca Laurenziana de Florença).


Mais tarde, o Rei D. João IV propôs às Cortes de 1641 o envio de uma petição ao Papa Urbano VIII reiterando a canonização formal. E novas solicitações se fizeram em 1674 e 1894, mas somente em 15 de Janeiro de 1918 a Congregação dos Ritos aprovou a Festa de D. Nuno com a “Confirmação de Culto Antigo”. E em 14 de Novembro seguinte o Papa Bento XV considerou “Bem-Aventurado” ou “Beato” o Frade Carmelita português, que desde então pôde ser venerado nos altares católicos.


Em 1940, os Prelados de Portugal solicitaram ao Papa Pio XII a reabertura do processo de santificação de D. Nuno - e o pedido foi aceite no ano seguinte. Porém, só com o Santo Padre Bento XVI ocorreu a santificação, em Roma, aos 26 dias deste mês de Abril. Desde a morte de Frei Nuno de Santa Maria (no Convento do Carmo, em Lisboa, no dia 01-04-1431) decorreram 578 anos, mas – como diz o Povo, que é sábio – “quem espera sempre alcança!”.
Deverá recordar-se que não faltam milagres atribuídos ao Santo Condestável de Portugal, antes e depois da sua morte: em mensagem que nos enviou de Lisboa o escritor José Campos e Sousa observou-nos que nas Chronicas dos Carmelitas estão anotadas 24 curas de paralítico, alcançadas por intercessão de Frei D. Nuno, além de 21 curas de cegos e mais 21 de surdez, 18 moléstias internas e 6 aparições. E na Chronica do Condestável (publicada no reinado de D. Duarte) são-lhe atribuídos 221 milagres, mas o rol continuou a ser aumentado desde os tempos do Rei D. Afonso e nos seguintes.


Porquê mais de cinco séculos para que o Vaticano chegasse à Santificação? Os católicos admitem que este caminho é longo e cheio de obstáculos. Para eles, os milagres não se inventam – é imprescindível documentá-los. José Campos e Sousa esclarece que na longa peregrinação do processo foi preciso derrubar grandes obstáculos: “Poderosas pressões diplomáticas de certo país sempre se opuseram a este desejo dos portugueses”. É por demais evidente que o “certo país” foi o orgulhoso reino de Castela que até hoje não se conforma por ter sido derrotado três vezes seguidas pelo pequeno Portugal...


Bem explicou Luís de Camões:
"Dom Nuno Álvares digo: verdadeiro
Açoute de soberbos Castelhanos"
e no poema “Nun’Alvares Pereira” Fernando Pessoa acrescentou:
"Sperança consummada
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a entrada se ver!”

Texto de : João Alves das Neves



















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sexta-feira, 1 de maio de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E O 1º MAIO

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‘’O trabalho é um meio de nos associarmos à obra redentora de Cristo’’.

(Gaudium et Spes, 67).



Tem início hoje o mês de Maio. O primeiro de Maio é hoje vivido como uma grande festa do trabalho, um dia de reivindicações e luta pela promoção e valorização dos trabalhadores, que ultimamente tão injustamente têm sido tratados.


A memória litúrgica do 1º de Maio, na qual se celebra o dia de São José Operário, era muito querida para Padre Correia da Cunha e para todo o povo cristão da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.


Como sabemos o seu primeiro nome era José. São José Operário era seu protector. Aproveitava a ocasião para realçar a importância do trabalho. A presença dos cristãos, enquanto filhos de Deus, deveria dar testemunho da dignidade com que a pessoa humana deve ser tratada e respeitada no local de trabalho.


Pe Correia da Cunha via, assim, o trabalho como algo que dava dignidade ao Homem. Era a forma providenciada por Deus para o seu sustento. O trabalho fazia com que ninguém fosse peso para ninguém.

Num momento em que o Mundo do Trabalho vive sérias contrariedades, em particular para aqueles que perdem o emprego e não conseguem encontrar outro ou até o primeiro para os seus filhos, o espírito de apoio e de partilha deve ser presença e valor maior entre todos e mais especificamente com os mais lesados.


Esta situação seria totalmente nova para Pe. Correia da Cunha. O espírito de solidariedade e de partilha deveria ser uma das suas grandes preocupações para com todos estes novos pobres afectados pela a injustiça de alguns que esqueceram o fundamental: o ser humano e a sua dignidade.


Perdeu-se a noção da importância do homem, foi relegado para último plano. Não faltam as análises mas nunca mais começamos a ver a concretização da resolução dos problemas. Tem-se dado pouca atenção ao papel do trabalho no sublime projecto de cada pessoa.


A situação em que colocaram os trabalhadores não foi gerada pelos próprios. É urgente que haja determinação e empenhamento sério de todas as instituições para defenderem e tratarem os trabalhadores com o respeito e a dignidade que merecem.
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A dignidade de todos trabalhadores e a sua dedicação às empresas está a ser ferida. É preciso mobilizar os cristãos, para a defensa dos valores do evangelho. Hoje mais que nunca… Esta crise, como qualquer crise, é suportada sempre pelos trabalhadores. Os trabalhadores enfrentam o desemprego, os contratos de trabalho temporários, a perda de segurança e de direitos.



Hoje é difícil acreditar-se nos líderes. O desafio está colocado às organizações que garantem a reserva moral da sociedade e os valores de Jesus Cristo para levantarem a voz a favor de uma sociedade mais justa e fraterna. Creio que Pe. Correia da Cunha estaria na primeira linha na defesa de uma maior justiça social, sob a protecção de S. José Operário, na certeza de que ninguém melhor do que este trabalhador poderia ensinar aos outros a dignidade sublime do trabalho.