segunda-feira, 22 de maio de 2017

PE. CORREIA DA CUNHA – PREPARAÇÃO PARA O CASAMENTO - II














«… UM DO OUTRO E OS DOIS DE DEUS.»



O texto que hoje publico, extraído do Curso de Preparação para o Matrimónio, da autoria do Padre Correia da Cunha, foca determinados aspectos para ajudarem a construir um ‘santuário’ seguro onde reine a graça de Deus e a felicidade.

O casamento deve assentar em alicerces sólidos, pois essa união torna os noivos em uma nova família, geradora de vida e construtora de um lar de irradiante Amor.







Não basta confiar num coração (?) como refere a canção «Amar pelos dois» interpretada pelo Salvador Sobral com música de sua irmã Luísa Sobral. Canção que enche de orgulho os corações dos portugueses e que obteve uma excelente vitória no Festival da Canção da Eurovisão de 2017: «Eu sei que não se pode amar sozinho» e tão pouco «o meu coração pode amar pelos dois». 







Quero também aqui deixar sublinhadas as palavras simples e acessíveis a todos, que nos transmitiu o Papa Francisco, na sua mensagem de esperança e amor na recente peregrinação que efectuou ao Santuário de Fátima: «A vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida…Pois Ele criou-nos com uma esperança para os outros, uma esperança realizável segundo o estado de vida de cada um».
Se nos mantivermos agarrados à âncora que recebemos através do sacramento do matrimónio, conseguiremos ultrapassar todas as contrariedades e sofrimentos que possamos vir a enfrentar durante essa nova caminhada a três.

Como diz o Papa Francisco: Temos a convicção que Deus caminha connosco, caminha ao nosso lado e segura a nossa mão.





Continuação

DOUTRINA CATÓLICA DO MATRIMÓNIO


Vimos que sob o ponto de vista meramente natural o casamento ou matrimónio é já de uma grandeza e dignidade superiores aos interesses mesquinhos dos indivíduos, isto é, o casamento instituição base da família e da sociedade, vale mais do que qualquer homem ou mulher, pois estes têm de se submeter às suas leis para poderem realizar a sua missão de continuadores da espécie e de mantenedores da sociedade.
Mesmo sem falar da doutrina de Cristo, o casamento tem de ser sempre de um homem com uma mulher uma união legal de carácter permanente e religioso. Tem, portanto, uma alta dignidade.

Mas o que pensa a Religião Católica a tal respeito?


- Para os católicos o matrimónio é um sacramento, um sinal eficaz da graça de Deus, que se pode definir nos seguintes termos: - Matrimónio é o sacramento que foi instituído por Cristo e que confere aos cônjuges a graça especial para que eles realizem santamente os seus fins. 





Analisemos esta definição, explicando-a um pouco.

Os sacramentos são sinais eficazes da graça, isto é, mostram e dão de um modo visível a graça de Deus aos homens que os recebem.
Exemplo: o Baptismo, lavando simbolicamente a cabeça, mostra que é lavada a alma e dá, na verdade, a graça de uma limpeza espiritual, de modo que o neófito fica, de facto, livre da mancha do pecado original e de qualquer outro pecado se o tiver.

No matrimónio o contacto inicial em que publicamente e perante o ministro de Deus os noivos concordam em ser um do outro e os dois de Deus, é também um sinal de união, mas um sinal em que Deus omnipotente se mete por uma graça especial a mais aqueles dois seres para toda a vida, de tal modo que já não serão dois mas uma só carne, segundo a expressão realista da Escritura, isto é: não são duas pessoas com interesses individuais, mas uma só pessoa moral com interesses comuns tanto na ordem material como na ordem espiritual. Isto significa que os dois se unem e completam pelo sacramento do matrimónio de tal maneira que para corresponderem à santidade da graça que lhes é dada, têm de viver de olhos postos nos mesmos fins, corações unidos no mesmo amor, almas abraçadas na mesma vida espiritual tanto no que diz respeito a esta vida espiritual tanto no que diz respeito a esta vida (criação e educação dos filhos, trabalhos, penas e alegrias) como no que interessa a salvação eterna (vida de piedade com todas as manifestações do culto e vida espiritual com todas as exigências de formação cristã e santificação mútua). O Homem, por outras palavras, não pode desinteressar-se da vida espiritual e da salvação da sua mulher, e vice-versa.






-Pode dizer-se que no sacramento do matrimónio entram três entidades: O homem, a mulher e Deus. Deus é o traço de união dos dois. Onde não está Deus a mais, a união não pode ser eficaz nem profunda nem eterna como é exigido pelo amor verdadeiro. Mas além desta graça de santificação pelo amor, graças de união total que Deus dá para que os dois sejam em tudo um só, há no sacramento do matrimónio outras graças especiais dadas por Deus, para que os dois realizem todos os fins do matrimónio: Fortaleza para enfrentarem as dificuldades da vida, para criarem os filhos, para se auxiliarem, compreenderem, amarem e viverem na união santa do casamento; Iluminação com dons especiais para guiarem e formarem os filhos e se entenderem santamente; Piedade para viverem a vida de família num ambiente espiritual de santidade etc. etc.

Como vemos só por esta simples amostra, o casamento cristão faz passar uma instituição meramente natural para um plano sobrenatural e divino. Pelo sacramento do matrimónio, a simples união de um homem e de uma mulher passa a ser união de um homem e de uma mulher, sim, mas feita pelo próprio Deus.

Esta intervenção divina coloca logo o casamento num plano não humano mas divino. O homem e a mulher ligados pelo sacramento formam um santuário onde Deus do Amor; não são só duas pessoas que se abraçam hoje e que, amanhã podem deixar de se abraçar. São duas pessoas que Deus une, liga e funde: - união que faz dos dois um; liga que os funde um no outro; fusão que os fecunda sobrenaturalmente.

















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quarta-feira, 3 de maio de 2017

PE. CORREIA DA CUNHA – PREPARAÇÃO PARA O CASAMENTO













«ERA UMA VEZ UM BARQUINHO PEQUENINO...»



O Padre Correia da Cunha afirmava que a moralidade de uma comunidade se definia a partir de uma sólida formação dirigida especialmente aos adolescentes e jovens.

Mas esse critério era também por ele aplicado na formação dos jovens cônjuges que buscavam a constituição de uma nova família. 

Os corações apaixonados são como barquinhos soltos e perdidos na imensidade do mar. Como experiente capelão da Marinha inspirava-se na escuridão do mar e nas estrelas do céu na busca dos caminhos certos, que em segurança, levassem esses barquinhos a portos seguros. Eram também os «amores» que deixava nos cais de partida que o estimulavam a escrever sobre a temática do MATRIMÓNIO.

Os noivos do presente seriam as futuras famílias da paróquia. Nos textos do Curso de Preparação para o Matrimónio, da autoria do Padre Correia da Cunha, que hoje inicio aqui a sua publicação, atestam bem a imensa preocupação que ele tinha, em contribuir na sólida preparação dos jovens noivos que queriam abraçar essa mais nobre e bela vocação. 

A vida matrimonial é muito exigente e enfrentam-se duras batalhas. 

Era sua convicção que um namoro sério não poderia ser curto como o Carnaval, mas também não poderia eternizar-se por falta de coragem em assumir compromissos e responsabilidades mútuas. Não se entrega um coração em vão! Um verdadeiro amor tão delicado merece ser amado. Pobres dos corações que só enxergam fantasias, sonhos, beijos, prazeres, felicidade…onde a razão é só boa-fé: - Meu coração perde perdão por só estares a semeando ventos e na linguagem do poeta, irá colher tempestades…

Sinceramente, ainda hoje eu acredito, que havia uma outra razão, para além da formação dos noivos na preparação para o Sacramento do Matrimónio. Vou confidenciá-la: era conhecer e apoiar as novas famílias saídas destas sagradas uniões. Sentindo estas almas ardentemente apaixonadas na crença do verdadeiro amor, eram perfeitos alvos de renovação da grande família paroquial.

Era ao Padre Correia da Cunha que cabia a árdua tarefa de dar à Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora uma permanente feição de renovação e ele possuía a firme convicção que nestes cursos de preparação para o matrimónio, seriam os locais certos e decisivos para incorporar jovens famílias nos vários serviços pastorais da paróquia, que estavam a envelhecer.

Irei ilustrar estes longos textos com centenas de fotos de casamentos abençoados pelo Padre Correia da Cunha.












CURSO DE PREPARAÇÃO PARA O MATRIMÓNIO – AUTOR PADRE CORREIA DA CUNHA




Era uma vez um barquinho pequenino.


Era uma vez um barquinho pequenino,

Que andava, que andava a navegar…

Conhecem a canção popular, não conhecem?


Pois bem! Tal como o barquito da canção popular, também, um dia, se fará ao mar largo da vida um outro barco;

Também este terá de enfrentar as ondas e os ventos, que, nem sempre são de feição.

É preciso, pois conhecer a arte de bem navegar para que o vosso barquito possa chegar ao porto da salvação.

É preciso conhecer o céu, os ventos, as marés, as ondas …

É preciso uma cuidada preparação para que a viagem a fazer não seja um fracasso, mas um triunfo.

Por isso mesmo vamos iniciar este curso elementar de navegação ou seja o curso de preparação para o casamento.

Queira Deus que estas folhas sirvam para que no vosso barquito, no vosso lar esteja implantado o mastro grande da Cruz, de onde partiram ligadas pelas amarras do verdadeiro amor, as velas enfumadas pelo sopro do Espírito Divino…

É que só assim toda a tripulação – comandante, imediato e todos (Pai, Mãe e filhos….) poderão navegar em paz e alcançar o desejado porto.






INTRODUÇÃO





A decisão tomada de seguir as nossas lições mostra que estais convencidos da necessidade de estudar os assuntos respeitantes ao casamento e preparar a sério a vossa futura vida de Família.

Estais realmente decididos a conhecer o melhor que vos for possível o estado que ides abraçar e que é em grande parte para vós um ponto de interrogação com o seu quê de misterioso.

Tendes camadas de razão de facto, neste campo, mais do que em qualquer outro, nada se pode deixar à improvisação, ao seja o que for, ao deixa andar. 

É necessário uma séria preparação.

Neste curso nada mais pretendemos do que mostrar a necessidade de se estudar conscienciosamente a doutrina cristã a respeito do casamento, e também preparar-vos para receberdes em toda a plenitude, a graça desse grande sacramento.

Com estes objectivos iremos ver juntos quais são as ideias actuais sobre o casamento. Examiná-las-emos depois com todo o cuidado à luz dos princípios cristãos para sabermos se as devemos aceitar ou rejeitar.

Por fim, havemos de procurar qual é a melhor preparação para o casamento.






SITUAÇÃO ACTUAL


Como é que por aí se fala, hoje em dia, a respeito do casamento, quer em família quer nos locais de trabalho, de divertimento ou de simples passatempo?

Dá-se alguém ao trabalho de estudar, ao menos um pouco as questões do casamento? Os seus problemas, a vida conjugal e familiar e todos os seus problemas?

O que a maior parte das vezes se faz é analisar um ou outro caso particular e daí tirar logo conclusões generalizadas quase sempre erradas.

I – Casamentos felizes ou infelizes

Mas haverá, à nossa volta, algum lar feliz?

Se olharmos com atenção descobriremos certamente muitos. Simplesmente esses lares felizes não dão nas vistas. Enquanto os lares infelizes, porque fazem muito barulho com as suas questiúnculas, ocasionam perturbações sociais e dão cuidados à sociedade. Por isso mesmo, esses lares infelizes impressionam-nos mais levando-nos até a crer que são mais numerosos que os lares felizes. 

Apesar disso, não se pode negar que existe um grande número de lares infelizes, e que, até entre os que julgamos felizes, o são apenas nas aparências.

Porque será então que o casamento, querido por Deus para fazer a felicidade terrestre e eterna do homem, o conduz tantas vezes à desgraça e à condenação? Não será porque aqueles que são chamados a constituir famílias se não preparam suficientemente, porque não conhecem as suas obrigações e porque até nem querem assumir as suas responsabilidades? Não será por terem aceitado certas ideias correntes, rotundamente falsas, a respeito do casamento, tomando-as até como normas orientadoras da sua vida conjugal?

Não será ainda porque não souberam dominar as suas paixões antes do casamento, e por consequência, não puderam dar ao seu cônjuge senão um corpo gasto, uma alma egoísta, e, aos filhos tristíssimos exemplos?




FALSOS PRECONCEITOS



Olhemos em volta e observemos a atitude daqueles que nos cercam. Pequeno nos preconceitos mais correntes para vermos até onde pode chegar a sua nefasta influência.

«Deixa viver a mocidade!» ou «É preciso deixar, passar a mocidade!» e com estas palavras tudo se permite.

São os adolescentes a namoriscar pelas esquinas. Evidentemente que não se trata de namoro. O namoro é coisa séria demais, e, de resto, há muito tempo de pensar nisso!...

Com esta mentalidade, logo a partir dos 15 anos se vêem garotos e garotas a namoriscar, a tentar as mais perigosas experiencias a expor-se ao perigo de perderem irremediavelmente a felicidade de um verdadeiro amor e até a felicidade eterna.

Segue-se apenas o instinto… Mas podemos nós censurar estes jovens?

Quem é que lhes disse que o amor é qualquer coisa de belo, de grande, de nobre?

Como é que eles podem ter a certeza de que o casamento não é um jogo, uma espécie de rifa, mas sim um compromisso de toda a vida e uma preparação de eternidade?

Que exemplos lhes foram dados? Pais, parentes e amigos, mais velhos, que foram o que fizeram?

Que admira, pois, se eles deviam fazer como toda a gente… à sua volta?! É de resto o que eles dizem: Fazemos o que toda a gente faz!

Quando se escolhe, qual é o critério mais geral? Escolhe-se alguém que pareça bem, que se vista bem, que tenha maiores vantagens exteriores e materiais. Senão, oiçamos o que se diz a propósito das qualidades dos namorados ou namoradas: «Eu gostava de ter um rapaz mais alto do que eu, espadaúdo, loiro ou moreno, com lindos olhos azuis e belos dentes... Eu gostava de ter uma rapariga de linha escultural, belos cabelos, bem trajante e arranjada…

É claro que se não pode nem deve condenar este desejo de que é belo. Pelo contrário: Trata-se de um sentimento natural, de um meio de entusiasmar ao respeito pelo corpo de cada um e de desenvolver o bom gosto.

Mas em quantos casos este desejo de agradar não degenera em coqueteria culpável, em vaidade pecaminosa, e esta procura exclusiva de beleza não tem, por seu turno, levado a abusos condenáveis e a despesas exageradas e loucas?

Para quem só conta o que é exterior, é claro que não interessam as qualidades morais e aptidões práticas: que uma rapariga saiba coser ou tratar da lida de casa, isso é assunto que não merece atenção…

E quando se repara nestas falhas está-se pronto a desculpar dizendo que depois de casada tem tempo de se ocupar dessas ninharias…

Resultado?

























O FLIRT (O namorico Passa-Tempo)

Como não se namora a sério, para quê o esforço de se conhecerem mutuamente? Aquilo não é para casar…não é mais que um simples passatempo.

E então, toca de ir para o cinema, para a boite, para os bailaricos, para as passeatas. Dão-se e recebem-se presentes, às vezes dispendiosos. O dinheiro não serve senão para nos dar prazer… E é tão agradável dizer às amigas: 

«o meu Quiqui é um amor, não sabe o que há-de fazer, só para me agradar!...»

E assim o amor vai sendo avaliado pelo preço dos presentes ou do dinheiro gasto com a amiga!»

Ainda se fosse só o dinheiro que se esbanjasse…mas não, é também o coração que se vai desbaratando. Finge-seque se ama, brinca-se com o amor, e, quando surge o verdadeiro amor, não sabe recebê-lo por se não estar habituado a ser generosa, a dar sem medida.

Chega-se até ao ponto de se arriscar a perder a alma. Em vez de se namorar a sério procurando um e outro enriquecer-se mutuamente, dando-se um ao outro o exemplo de dedicação, generosidade e pureza, em vez disso, aviltam-se e desonram-se.

E os namoros duram geralmente tempo demasiado. Parece que se pretende adiar o casamento o mais possível, algumas vezes por egoísmo e outras, por medo do futuro e até por prazer…

Estes diversos estados de alma são filhos de uma falsa educação. A ideia do casamento traz consigo inevitavelmente a dos filhos que, uma maior parte dos casos, se apresenta como um dever de que se desejaria estar isento.







O MEDO DOS FILHOS  


Ninguém ignora a campanha verdadeiramente diabólica que hoje em dia se organizou contra os filhos seja em que classe for.

Junto da mulher que está para ser mãe, fala-se do fantasma da maternidade dolorosa e, às vezes mortal. (É pena que este temor não seja para as raparigas o principio da sabedoria: decerto teriam mais cuidado com a sua saúde e evitariam todos os excessos).

Também a vaidade atira para a frente com o respeito humano. A gravidez é ridícula.

Não há por aí casais que diante dos seus amigos se sentem envergonhados por cumprirem o seu dever? Para muitos não é estar à la page evitarem os filhos? Sentem eles escrúpulos ou remorsos do que fazem?

Por sua vez, os homens são enganados pelo egoísmo: - Há sempre pretextos para impedir o crescimento da família: - os filhos são um grande incómodo; a educação é caríssima; é impossível proporcionar-lhes a educação conveniente…

E assim, se não se chega ao ponto de evitar todos os filhos, servem-se destes ditos comuns para lhes limitar o número. Não se chega até a dizer que as famílias numerosas são uma causa de degenerescência física e mental?

A obrigação social de participar aos amigos o casamento, coloca muitas vezes os noivos em situação embaraçosa. Alguns parentes e amigos os felicitam, e são sinceros. Mas a maior parte dos conhecidos e amigos são dos que lhes dizem: «Que palermice enforcar-te tão novo! Que palermice enforcar-te tão novo!»; Mas não me digas que estás disposto a ir para a forca! Etc. E até aparecem umas tias solteironas a dizer: Que pena; são ainda uns meninos tão encantadores!...»

E seria um nunca acabar se quiséssemos enumerar aqui todos os disparates que se dizem aos namorados quando anunciam o seu casamento! Basta porém, escutar o que para aí se diz e reflectir um pouco!



A INFIDELIDADE


A este respeito há por aí as mais erradas opiniões. Chega-se a supor que a fidelidade conjugal é impossível.

Em certos meios nega-se redondamente a possibilidade de um casal se amar verdadeiramente e exclusivamente durante toda a vida.

Tal princípio, uma vez admitido, abre as portas a todas as liberdades. Marido e mulher, considerando-se independentes, procuram continuar a sua vida de solteiros: A mulher, para não ficar a dever nada ao marido continua a trabalhar. Arranjam até grupos de amigos diferentes com quem frequentam clubes e círculos. O lar é abandonado com os pretextos mais fúteis, e nem marido nem mulher tem o direito de se lastimar do caso. Assim, se abre, pouco a pouco, uma brecha que, gradualmente, vai aumentando, e por onde se escoam o amor e a virtude.

E coisa triste, muito triste, é o facto de haver muita rapariga a pensar que, se vier a casar com um tipo já batido e vivido, fica livre do mal acima apontado.

Chegam a dizer que tais rapazes hão-de ser, depois de casados, maridos exemplares, castos, fieis, que sabem fazer feliz a sua esposa!

Mas como e onde é que eles se habilitam a cultivar tais virtudes? As virtudes não caiem do céu aos trambolhões!

Em muitos casamentos nem sequer se admite à moral católica o direito de intervenção: - É uma invencionice dos padres que nada conhecem destas questões, pois não são casados!...»

Mas será necessário que o médico tenha todas as doenças para poder trata-las? Ou que um advogado seja um criminoso para compreender e defender um réu?

Diz-se também: A moral católica é exigente de mais; é impossível observá-la!», quando, de facto, não é mais do que o caminho que Deus traçou para a verdadeira felicidade.

Evidentemente que cada qual procura com estes e raciocínios convencer-se que, no matrimónio, tudo é permitido e que nada se deve opor à força dos instintos.

Não vemos, neste brevíssimo resumo da situação actual, a triste mentalidade da sociedade que nos rodeia, mesmo dos que se dizem cristãos e católicos?

Com tais princípios, com tal moral e com tais costumes, será de estranhar que o matrimónio não seja encarado com optimismo e que dê, muitas vezes, como resultado a infelicidade e o desgosto?







O IDEAL CRISTÃO DO MATRIMÓNIO
JULGAR


O espectáculo que nos oferece muitos matrimónios à nossa volta, nem sempre é edificante. E a razão é simples: - afastamento das leis cristãs.

Quis-se viver à rédea solta, cada qual segundo as suas inclinações, conforme o seu egoísmo; não se quis aceitar a lei do Evangelho e da Igreja. Preferiam-se as ideias modernas do mundo. Resultado: É se profundamente infeliz neste mundo e caminha-se para se continuar infeliz por toda a eternidade.

Por outro lado, vejamos à nossa volta os lares constituídos com séria preparação e onde se vive a doutrina cristã. Ainda são numerosos, embora tendam a diminuir sob a influência das ideias pagãs e materialistas do mundo moderno.

O espectáculo desses lares é dos mais interessantes. É certo que têm dificuldades (quem as não tem?), mas respira-se neles uma atmosfera de felicidade, da felicidade que não se pode encontrar senão no dever cumprido generosamente. É esse quadro o que queremos esboçar diante de vós, empregando as cores verdadeiras dos ensinamentos de Cristo e da Igreja as únicas que dão as tonalidades autênticas da felicidade conjugal e familiar.


O AMOR



A atracção, sentida por dois seres de sexo diferente, que os une intimamente um ao outro e os leva a darem-se um ao outro inteiramente e para sempre no casamento, é um dom do Céu.

É Deus que é amor quem cria esse amor conjugal, segundo o modelo do seu amor, para através dos tempos transmitir a vida natural. Uma vez que somos, simultaneamente corpo e alma, e, além disso, elevados pela graça santificante a uma vida superior, que é a participação na vida do mesmo Deus, o amor conjugal deverá também ser constituído por esses três elementos: o amor físico, a amizade e amor sobrenatural. O elemento físico é necessário ao amor conjugal e permite as relações sexuais fonte da vida natural. A amizade une os caracteres e funde, numa só, duas almas: é o garante da solidez da união conjugal. A caridade ou o amor sobrenatural, unindo duas almas que vivem em graça, não só torna sobrenatural a nobreza do amor humano e tudo quanto ele tem de sensível (o amor físico) e de espiritual (na amizade), dando-lhe um valor meritório e santificante, mas também estabelece a união dos esposos em bases mais inquebrantáveis. Neste mundo, a união conjugal é coisas única que não se pode comparar a qualquer outra união natural.

Quem é que não vê a beleza, a grandeza a nobreza de um tal amor? Funde duas almas e dois corpos num só. Não é um amor egoísta em que cada qual pensa primeiro em si e só depois no outro e ainda desde que isso lhe não traga incómodos ou sacrifícios. Só um amor pronto a dar-se inteiramente e que não vive só para si, está apto a fazer todos os sacrifícios pela pessoa amada. Este amor irradia alegria e felicidade. E multiplicador de vida, enquanto o amor egoísta mata. O amor verdadeiro é feito de respeito e admiração, e eleva dois seres para bem alto, para uma vida plena, radiosa.

                                                O NAMORO



Inspirado por um amor desta natureza, o namoro toma um aspecto francamente cristão. Encontram-se os namorados de facto, não para gozo um do outro (o que é muitíssimo perigoso) mas para melhor se conhecerem e se prepararem para o casamento. Felizes os jovens que não tiveram tristes aventuras amorosas e que se casaram tendo sabido guardar toda a frescura das suas almas. Esses casamentos não poderam ser desgraçados por nada. Infelizes, porém, serão quase sempre aqueles e aquelas que desperdiçaram a sua mocidade no flirt e em amores falhos de sinceridade, vazios: ficam uns falhados, incapazes de amar de verdade. 


O namoro é para se conhecerem. Se a rapariga vê que o seu namorado não é capaz de vir a ser um bom marido, ou se um rapaz verificar que a sua namorada não dará uma boa esposa que um ou outra não serão capazes de vir a ser bom pai ou boa mãe, há a obrigação grave de acabar imediatamente com tal namoro, pois já não tem razão de existir. Mas se se encontrar a pessoa sonhada, então o namoro deve ser conduzido de modo a conhecerem-se melhor um ao outro e ajudarem-se a corrigir um ao outro os seus defeitos, para se poder tomar a decisão definitiva: o casamento. Assim não o namoro deve durar indefinidamente, mas preparar o noivado e o casamento.



O NOIVADO


O noivado é a séria promessa mútua do casamento próximo. Não é, por isso, recomendável um noivado longo: Torna-se facilmente ocasião de pecado.

Tal como o namoro é feito para se conhecerem, o noivado deve realizar uma maior união das almas que será rectificada para sempre pelo casamento. Devem então os noivos esforçar-se por alimentar o mesmo ideal cristão do casamento, por conjugar as suas ideias por tais, e sentimentos, a sua vida se de toda, de sorte que o casamento mais seja mais do que a consagração por um juramento solene dessa fusão d’almas.





O CASAMENTO



No dia do casamento, o próprio Deus virá sancionar essa união pelo Sacramento do Matrimónio, que é o sacramento que santifica a aliança legítima do homem cristão com a mulher cristã, dando-lhes a graça de viverem cristãmente a sua vida de família.

«Serão dois numa só carne» diz a leitura. Assim se constitui uma nova família diante de Deus. E assim como Cristo está unido à sua Igreja, assim o marido fica unido à sua esposa.

Ambos terão de ser reciprocamente fiéis e de mãos dadas, irão encetar, com a graça de Deus, e cheios de confiança, os caminhos da vida. Se Deus lhes der a graça de terem filhos, a vossa casa povoar-se-á de crianças que, sob a orientação dos pais, se hão-de tornar-se cidadãos e cristãos exemplares.


A GRAÇA SACRAMENTAL



Casamento bem preparado é casa muito feliz. Se sobrevêm dificuldades, tem a graça sacramental para ajudar a resolvê-los. O casamento não é apenas um sacramento de efeitos passageiros, é um estado de vida estabelecido por um sacramento cujos efeitos duram enquanto durar o casamento:-o chamado vínculo matrimonial. Por isso, num lar cristão deve apelar-se frequentemente para a chamada graças sacramental cuja fonte brotou no dia do casamento.

Esta graça sacramental é uma espécie de apólice de seguro sobrenatural que contém as cláusulas necessárias para fazer face às dificuldades da vida conjugal. É uma espécie de seguro contra doenças, contra a ilusão, contra a aventura…Felizes os que souberem tirar dela todo o proveito possível…


A FIDELIDADE


Aos pés do altar, juram os esposos fidelidade reciproca. Uma vez que se baseia em Deus, este juramento é inviolável e sagrado. A religião vivida pelos esposos dá-lhes uma segurança, para que, tanto quanto permita a fraqueza humana, esse juramento seja respeitado a vida inteira.

Se tiverem chegado ao casamento com um coração virgem e puro, essa fidelidade é fácil. Todo o passado é garantia do futuro.

Que profunda e verdadeira felicidade nos traz aos esposos esta confiança inviolável que tem um no outro: - Não duvidar nunca do cônjuge! Aí está nessa confiança a recompensa de um casamento preparado e vivido segundo os princípios cristãos.





COLABORADORES DE DEUS



Confiança mútua, para com Deus. Os esposos abraçaram o casamento com a virtude sincera de obedecer às leis do Senhor, garantia de verdadeira felicidade.

Essas leis, conhecem-nas eles bastante bem, até porque as estudaram e meditaram antes de se comprometerem na sua nova vocação. Estão resolvidos apesar de todas as tentações, a observá-las em todos os seus pormenores, pois nelas veem o caminho da felicidade: - Dever relativamente fácil com a graça de Deus.

Que consolação e que paz não sentem os que vivem assim na graça de Deus com uma consciência pura e generosa!

O casamento dá direito às relações sexuais. Os esposos cristãos compreendem a grandeza e nobreza desse acto. Realizado em estado de graça, por amor de Deus e do seu cônjuge, tal acto tem um caracter sobrenatural e, portanto, meritório. É um dom completo de si que só um grande amor explica.

É uma colaboração necessária à obra criadora de Deus que cria as almas quando os pais preparam os corpos.


Continua…















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segunda-feira, 10 de abril de 2017

PE. CORREIA DA CUNHA - DESPEDIDA DO REI D.PEDRO IV











Armão Militar frente da Igreja de São Vicente de Fora




Foi precisamente há 45 anos, no dia 10 de Abril de 1972, ano do sesquicentenário da Independência do Brasil, que os restos mortais do Rei D. Pedro IV foram transladados do Panteão da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, para serem sepultados na cripta do Monumento da Independência do Ipiranga, na cidade de São Paulo.



Urna com os restos mortais após exumação



Nesse dia 10  de Abril, a urna coberta de rico tecido de veludo roxo, com as armas reais portuguesa e brasileira, bordadas a ouro e com o monograma P (de Pedro)foi transportada por oito militares para o armão que se encontrava na frontaria da Igreja de São Vicente de Fora.





Embarque da Urna a Bordo do Paquete FUNCHAL(João Paulo Dias com a Cruz)



Durante o percurso da Igreja de São Vicente de Fora até ao Cais dos Soldados em Santa Apolónia observava-se um respeitoso silêncio das senhoras que acenavam lenços brancos e homens que se descobriam respeitosamente.



O armão militar estacionou ao início da rampa que dava acesso ao paquete Funchal. O transporte da urna para bordo foi efectuado por oito fuzileiros, das duas nacionalidades, tendo sido depositada no salão nobre em câmara ardente. Durante este curto trajecto foram ouvidas 21 salvas de tiros efectuadas pelas fragatas das respectivas armadas ali estacionadas.





Paquete Funchal no ano 1972


Só pelas 19 horas, o Paquete Funchal, com a comitiva presidencial a bordo, onde se incluía o Padre Correia da Cunha partiu do Cais de Alcântara com destino ao Rio de Janeiro. A viagem demoraria 12 dias. Chegou ao Rio de Janeiro no dia 22 de Abril, data simbólica da chegada de Pedro Alvares Cabral às Terras de Vera Cruz.

Durante a viagem a bordo do paquete Funchal foi publicado o jornal A ABITA. Excelente escolha do nome para um jornal de uma viagem marítima histórica. A abita é um gancho de ferro, maciço, que existe nas proas dos navios para amarração dos cabos. Era habitualmente o local onde o pessoal aproveitava para enviar mensagens e dar novidades ou formular críticas da vida a bordo.


O Padre Correia da Cunha foi convidado para colaborar jornalisticamente nesta publicação tão séria. Era o responsável pela coluna da poesia. Hoje publico dois poemas da sua autoria retirados do jornal A ABITA, jornal de maior tiragem e expansão a bordo do nosso transatlântico.



video

Chegada do Paquete Funchal ao Rio de Janeiro


ASSIM FOI…


Deus o quis! Deus o quis!
E as caravelas de Alvares Cabral
Vencendo os medos,
Do mar desventram míticos segredos
Fechados em portais de mil procelas.

Surge no Céu a Cruz feita de estrelas,
Em luz bordada por divinos dedos,
- Sinal de Bênção contra os maus enredos
Que lhe tecera o mar vendo-a nas velas.

E naquela manhã primaveril
- Manhã de criação! – nasce o Brasil
Um novo mundo surge em alvorada!
Sim! Deus o quis!... E em nossos corações
D’aquém e d’além mar reza Camões:
- Esta é a ditosa Pátria nossa Amada.


CINCO RIMAS EM CRUZEIRO


Com fio d’oiro em fundo azul
As nossas benditas quinas
Estão no Cruzeiro do Sul
Bordadas por mãos divinas.
Cinco estrelas em Cruzeiro,
Cinco chagas através:
…Meu Portugal brasileiro
É meu Brasil Português!...

Cinco chagas na bandeira
E cinco estrelas no céu
Definem na terra inteira
As Pátrias que Deus nos deu.

Deus o quis!... E foi por isto
- Por prémios de feitos mil
Que as cinco chagas de Cristo
Brilham nos Céus do Brasil.

Astros – Roteiro de Luz,
Quinas – de Bênção sinal
Para as Terras de Vera Cruz
Para as Terras de Portugal!

A bordo do paquete Funchal 18-19 Abril 1972





Havia também um espaço no jornal destinado a artigos das bisbilhotas da responsabilidade de Bera Lagunas.

O introito dessa secção iniciava-se assim: “Julgavam então que eu não vinha, a bordo? -Pois enganaram-se redondamente! Embarquei como passageira clandestina em Alcântara e viajo confortavelmente no porão da pompa, onde me chegam todas as novidades da primeira classe de luxo. Sim neste navio só há uma classe. O resto é mar.”


As notícias divulgadas nessa secção do jornal eram temperadas com algum molho humorístico. Transcrevo algumas notícias ali servidas sobre o Reverendo Padre Correia da Cunha.


“O Padre Correia da Cunha não quer aceitar o conselho de instalar «slott-machines» no Mosteiro de São Vicente de Fora, faz ferro… Ficamos sem saber como seria o « jack-pot».
Gostei de saber que o Padre Correia da Cunha baila bem o fandango e canta fado castiço, aprendido pelas vielas de Alfama.
Caso impar na história eclesiástica portuguesa: O Padre Correia da Cunha prior de São Vicente de Fora, prevendo há 20 anos que lhe iriam levar um paroquiano ilustre o Sr. D. Pedro (1º ou 4º conforme as latitudes) teve o cuidado de ir a Brest como Capelão da Marinha de Guerra, assegurar-se da entrada de outra paroquiana ilustre a Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança “.



Quero terminar este texto, não à semelhança do Jornal da ABITA, que se deixou de publicar completados os 24 dias da viagem presidencial a terras de Vera Cruz, para dar a conhecer uma vasta colectânea de versos da autoria do Padre Correia da Cunha escritos a bordo do paquete Funchal em pleno Oceano Atlântico.







Na rota de Cabral…
Lusíadas
Gago Coutinho
Mar e Céu

Na rota de Cabral sulcando os mares
Com Sacadura e Coutinho
Seguimos hoje
Pela estrada do mar
Pela estrada que as Naus de mil quinhentos abriram
Parti nas caravelas de Cabral
Nos reinos de Neptuno abrindo estradas
É sonho? É realidade: - É
O céu e o mar apenas são luares
Na rota de Cabral, sulquei os mares
Rasgando estradas
Que nome te hei de eu dar
Ó meu : Ó velho Portugal
Ó terras do Brasil – rebento novo
Ó céus e mares, dois braços unidos
Esta é ditosa Pátria minha amada!

Os «Lusíadas» livro de orações
O mar e o céu
Eu sonho-me embarcado em caravelas
Talhadas de azul de sonho e de aventura
Embarquei nas frágeis caravelas
Fiz das ondas do mar elos d’amor
Vi nas estrelas do céu nossos faróis
Vencendo antigos nossos medos
Eu embarquei em frágeis caravelas
Venci antigos honrosos medos
Plantei no santuário dos segredos
Que Adamastor guardava com procelas.
Deus o quis!

No principio criou Deus céus e terra
Assim reza a palavra de escritos.
Deus o quis! E Cabral se fez ao mar
Com seus homens em frágeis caravelas
Rasgando estradas novas de encantar
Na selva horrenda de ondas em procelas
Nos corações um sonho de encantar
A Cruz de Cristo
Deus o quis! Embarquei nas caravelas!
Do profícuo mar fez pia de água benta
Para baptizar
Desde que Cabral sulcou os mares

Deus o quis! Deus o quis!...
E as caravelas de Alvares Cabral rasgaram estradas

PORTUGAL

Brasil e Portugal dois nomes são
Árvore antiga com rebento novo
Ou mãos  unidas como em oração
Brasil e Portugal apenas são:
Os nomes de baptismo dum só povo.

Cabral em suas frágeis caravelas
Fez das ondas do mar elos de amarra
Quando Cabral em frágeis caravelas
Fez das ondas do mar elos de amarra
E marcos de caminho das estrelas
A grata via Láctea da Saudade.

Sim! Deus o quis!  E as frágeis caravelas
De Alvares Cabral vencendo os medos
Desvendavam os míticos segredos
Fechados em portais de mil procelas.
O homem sonha e vê novas estrelas
Novos faróis.

Deus o quis! Deus o quis! E as caravelas
De Alvares Cabral, vencendo os medos
Do mar desvendam míticos segredos
Fechados em portais de mil procelas!

Surge no céu a cruz feita de estrelas
Como bordada por divinos dedos
Que bênção do Senhor conta os enviados
O Céu copia a cruz das nossas velas
Fúria que a manchava em pano de velas.


Surgem no céu a cruz feita de estrelas.
Em luz bordada por divinos dedos.
Sinal de bênção contra os maus enredos
Que lhe tecer o mar vendo-a nas velas.

E naquela manhã primaveril
Manhã de criação: nasce o Brasil
Um mundo novo ou uma nova alvorada
E um novo mundo surge do nada

Sim Deus o quis! E em todos corações
D’aquem e além-mar reza Camões:
Esta é a ditosa Pátria nossa Amada !

Árvore antiga com rebento novo
Ou mãos unidas como em oração
Brasil e Portugal apenas são
Os nomes de Baptismo dum só povo.

Deus o quis! Deus o quis! E as caravelas
De Álvares Cabral vencendo os medos
Desvendaram os míticos segredos
Fechados com portais de mil procelas.


Deus o quis! Deus o quis! E pendões velas
De frágeis barcas – infantis brinquedos
Deus o quis! Deus o quis! E terras belas surgem
Sim Deus o quis! Mais que uma visão unida.
No céu e mar a Cruz de Cristo
Sim Deus o quis!... E em nossos corações
Rezam baixinho a voz do Camões
Esta é a nossa ditosa Pátria muito amada.

BRASIL E PORTUGAL

Antigo tronco de raiz latina
Florindo em terras virgem do Brasil
A árvore Portugal de encanto mil
Cabral sulcando as águas do oceano
Fez das ondas do mar elos d’amarra
E dois aviadores
Uma só alma
Cabral sulcando os mares

A via láctea
Cinco luzinhas no céu
Retratam no céu azul
As quinas de Portugal
Por milagre um céu de anil
Louvamos Deus
Ó meu cruzeiro do Sul
Com cinco estrelas
As tuas estrelas de luz
As nossas benditas quinas
Estão em oiro sobre azul
Bordadas por mãos divinas
Como cruzeiro do Sul
Bordadas por mãos divinas
Com luz de oiro sobre azul?
Com luz de oiro vem céu

Cinco estrelinhas em Cruz
Cinco chagas num escudo
São a bênção de Jesus
O Brasil e Portugal
Não passam
Apenas consistem nisto
Em cinco estrelas no céu
Em cinco chagas de Cristo
Cinco estrelas em Cruzeiro
Cinco chagas a triavés
Meu Portugal, brasileiro
E meu Brasil português.

Jogar as cinco pedrinhas
No firmamento d’anil
Brilham no céu do Brasil
As quinas de Portugal

Duas Pátrias Deus nos deu
Por milagre nunca visto
Com brasão em terra e céu:
As cinco chagas de Cristo.

Cinco estrelinhas no céu
Cinco chagas na bandeira
Afirmam na terra inteira
As pátrias que Deus nos deu.

Com fio d’oiro em fundo azul
As nossas benditas quinas
Estão no Cruzeiro do Sul
Bordadas por mãos divinas.

Cinco estrelas em cruzeiro
Cinco chagas através:
É Portugal Brasileiro,
Que fez Brasileiro português?


Cinco chagas na bandeira,
Cinco estrelas no céu,
Definem na terra inteira
As Pátrias que Deus nos deu.

Deus o quis! E foi por isto,
Por prémio de feitos mil
Que as cinco chagas de Cristo
Brilham nos céus do Brasil.

Por tão divino sinal
Que nos deu o bom Jesus
O Brasil e Portugal
Terão sempre a mesma Cruz

A tão divino sinal
Juremos fidelidade
O Brasil e Portugal
Vivam fraterna amizade

Duas linhas uma Cruz
Uma bênção afinal
A terra de Vera Cruz
As terras de Potugal.

Estrelas roteiro de luz
Quinas de bênção sinal
As terras de Vera Cruz
As terras de Portugal

Lusa Via Láctea da saudade
Portugal ainda menino
Jogou com Deus as pedrinhas
Nas praias à beira-mar

Frondoso tronco de raiz latina
Floriu um dia em terras virginais
E revestiu-se
Fez das ondas do mar elos de amarra
Que liga e ata e une fortemente amarra
Uma com outras, estas nações irmãs
Até as ondas do mar
São elos fortes de amarra
E as estrelas do Céu, nossos faróis.

Não é desunião a independência
Aportam-se a morada da mobília
Mas não se perdem os laços de família
Laços de sangue não se perdem nunca.

LETRA PARA UM FADO

É uma história bizarra
História triste a da Julinha
Se for cantada à guitarra
Faz chorar toda a gentinha.

Vivia para Sacavém
Aquela de quem vos falo
Com um sobrinho e irmão
Só vê-la era um regalo

Fazia lindas flores
De plástico garridas
Das mais variadas cores
Girassóis e margaridas

Rosas, cravos, malmequeres
Tudo fazia com jeito
E ela própria entre as mulheres
Era mesmo um amor-perfeito.

Namorava com paixão
Um rapaz extraordinário
Quisera lá um bom operário
O Chiquinho do balcão

Mas um dia a tentação
Lançou-lhe a maldita garra
E a sua vida desde então
É uma história bizarra

Disseram-lhe que o namorado
Andava pela noite fora
Na boa vida no mau fado
E a pobrezinha coitada

Olhos e peitos em brasa
Sai uma noite de casa
E vai em procura dele.

Corre as más sempre à toa
Desde Alfama à Mouraria
Bairro Alto e Madragoa
Até à Praça da Alegria.

Andava de lés a lés
Pomba sem fel e malícia
Mas dá nas vistas da policia
E é levada pró xadrez.

E na Praça da Alegria
Praça da tristeza agora
A rapariga foi presa
E de inocente até chora.

Bem segura mas chorosa
Vai pró Governo Civil
Para provar a pobrezinha
Tal história triste a da Julinha.


Padre José Correia da Cunha





















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