sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

NATAL 2014















Adeste, fideles, laeti triumphantes;
Venite, venite in Bethlehem.
Natum videte Regem angelorum.



Publicamos hoje, este poema de Natal da autoria do Padre José Correia da Cunha. É um sublime tesouro que nos deixou. Não podemos ficar indiferentes!

 O Mundo não pode ficar igual. A incarnação do Verbo é o momento em que deixa de haver separação entre DEUS e o Homem, em que Deus, fazendo-se carne, assume a plenitude da criação. Pela incarnação, DEUS pode saber como é ser-se humano e a criação experimenta a presença à sua medida do próprio criador.

Esta oferta caritativa absoluta do Amor de Deus, é passível de ser aceite ou recusada. Como referia o Padre Correia da Cunha: " A Santa Liberdade dos filhos de Deus não nos obriga a aceitar a sermos amados por DEUS".

O que o Menino cuja incarnação se celebra no Natal, que só foi possível graças à liberdade de escolha de Maria, que decidiu dar o seu sim. Com esta sua decisão veio trazer ao Mundo a possibilidade da aproximação do Homem ao seu Criador.  Até à incarnação do VERBO, o ser Humano era de carne humana, mas após a incarnação do VERBO, o ser Humano passa a ser a carne de DEUS, pois DEUS acabou de assumir a carne humana, para passar a ser Divina. Algo que se esquece, mas que é fundamental. Desde que Jesus Cristo (Deus Connosco) é carne que a carne é Divina, participando nós, seres humanos da Divina carne.

Ao contemplarmos o Menino, absolutamente frágil, mas todo-poderoso como dom absoluto da caridade Divina, pensemos em como fazer da nossa carne a sua carne, em como transformar cada um dos nossos actos na carne do bem da caridade, sempre frágil, mas toda-poderosa de cada vez que coloca bem na continuidade da Criação. 

Lembremos que, sendo assim, não há como pecar. A caridade é a impossibilidade do pecado. Onde há caridade ai habita Deus e não poderá habitar o pecado. 
Como lembrava o Padre Correia da Cunha:

« NATAL É A CARIDADE E A CARIDADE É O NATAL, NÃO APENAS O NATAL DE JESUS, MAS O NOSSO NATAL...»


SANTO NATAL!







NATAL

Do varão nasceu a vara,
da vara nasceu a flor,
Da flor nasceu Maria,
De Maria o Redentor.

Foi nascer em uma gruta
O grande REI das nações,
Para render a frieza
Destes nossos corações.

Pastorinhos do deserto,
Correi todos a Belem
Adorar o Deus Menino
Nos braços da Virgem Mãe,

Pastorinhos do deserto,
Correi todos, ide ver
A pobreza da lapinha
Onde Cristo quis nascer.

Vinde, correi ó mortais,
Vinde os corações lhe dar;
Vinde, rendidos de amor,
Vinde a Jesus adorar

Ao Senhor hoje cantemos
Glória no Alto do Céu!
Com os anjos e pastores
Louvemos Deus que nasceu!

Meia-noite já é dada,
Prazer santo respiremos!
Em honra ao Filho da Virgem
Alegres hinos cantemos!

A noite é escura, cerrada,
Centelham astros no céu.
Vinde adorar, ó pastores,
O bom Jesus que nasceu!

Ó meu querido Menino,
Ó meu lindo amor-perfeito
Se tendes frio, oh! Vinde
Chorar aqui no meu peito.

Colhei florinhas no campo
Trazei-lhe prendas de amor.
Cantai em coro exaltado
«Bem-vindos» ao Redentor.

Oh! Meu Menino Jesus
Descalcinho pelo chão,
Metei os vossos pezinhos
Dentro do meu coração.

Só tenho para ofertar-vos
Uma alma que vos quer bem.
Prenda melhor não tenho,
Tomai-a, meu Doce Bem!

Um Deus de ti quer ser nascido,
Por Mãe te quer reconhecer.
O mal por Eva foi trazido,
O bem de Ti há-de nascer.

Tristes mortais de Adão nascidos,
D’arvore má ramo infeliz:
Eis quantos bens são prometidos
Por  Deus que nunca se desdiz.

Rejubilai com a certeza
De ver a Deus jugos quebrar
Em que vos traz a ruim fereza
Do monstro que Ele vem domar.


Pe Jose Correia da Cunha






















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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E O ADVENTO













«ANCORADOS NA ESPERANÇA!»



Advento: espera, expectativa são palavras que voltam, no início de cada ano litúrgico. O tempo corre velozmente e Dezembro está quase a chegar. O Advento na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora era um período privilegiado. Era uma caminhada sempre antiga e sempre nova, que nos levava ao encontro com o Príncipe da PAZ. Era um tempo de muita esperança. Como seria a vida, o mundo, a humanidade se não existisse a esperança? A esperança faz parte da vida do Homem. Viver é esperar. E esperar é viver. 

Para o Padre Correia da Cunha a esperança tinha que estar em todos os caminhos da vida. Só assim era possível lutar para se construir um mundo mais fraterno e humano. A palavra Advento lembrava a Padre Correia da Cunha que Alguém estava para chegar. Hoje publico um lindo poema de Padre Correia da Cunha intitulado de: 


       



          QUANDO  VIRÁ


Quando virá, Senhor, o dia

Em que apareça o Senhor;
E sôe o brado d’ alegria:
Nasceu do mundo o Redentor!

Aquele dia prometido
Á antiga fé de nossos pais;
Que desterrar deve o gemido
Trocar em vivas nossos ais!

Quando felizes veremos
Por sobre nós a luz raiar!...
O seu clarão admirará
Da noite a sombra a dissipar.

Ei-lo! Lá vem! Chegou a hora,
De Deus os prantos enxugar.
Salve! Brilhante e doce aurora
   Que vens o Sol anunciar!

             Filha de reis, ó Virgem pura,
             Mostra-te, sai da escuridão.
             Em Ti, com seres criaturas,
             Um Deus quer ter sua mansão.


José Correia da Cunha

















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domingo, 9 de novembro de 2014

«O OBJECTIVO» CRÓNICA DE CARLOS PEREIRA














«... OS JOVENS, O FUTURO! »


Quando iniciei a escrever neste blogue sobre o grupo de jovens, «O OBJECTIVO» de São Vicente de Fora, manifestei desde logo um forte desejo de que um dos líderes partilhasse um testemunho da experiência nesse grupo.

No livro biográfico «CARLOS PEREIRA – VISTO POR TODOS OS LADOS» da sua autoria e de Ana Rita Madruga, lançado recentemente, não falta uma crónica que nos oferece uma imagem correcta e desapaixonada, sem deixar, todavia, de valorizar a figura e obra de Padre José Correia da Cunha.

Casal Pereira - afilhada - Pe. Correia da Cunha


Recordo que Carlos Gonçalves Pereira (Eng.º) era filho de Maria Adelina e Carlos Diamantino Pereira, um casal profundamente católico, educado na prática de uma tradição arreigadamente conservadora, defensor de rígidos princípios da moral cristã. Contudo, eu, João Paulo conservo a imagem de Carlos Diamantino como um homem extrovertido e um grande bairrista que o Padre Correia da Cunha gostava de ter sempre a seu lado. Praticava o catolicismo com grande empenhamento nos movimentos paroquiais a que esteve ligado com um espírito claro, grande ponderação e abnegação. 


Carlos Diamantino não se poupava a sacrifícios para que as tarefas de que se encarregava saíssem perfeitas. Atento observador das necessidades da sua paróquia, estava sempre disponível às solicitudes e ao amor fraterno, que eram notas dominantes deste exemplar cristão. O Padre Correia da Cunha sentia-se bem a ouvir os seus sábios conselhos, ganhando por isso o estatuto de homem da sua total confiança.

Para o ilustre Carlos Pereira o preito da minha gratidão pelo seu testemunho sobre o «O OBJECTIVO» que com a devida vénia transcrevo:


O GRUPO «O OBJECTIVO»




“O Padre José Correia da Cunha era visita de casa dos Pereira. Todas as sextas-feiras ia jantar lá a casa. Antigo capelão da Marinha e crítico do sistema vigente estava mais do lado dos pobres do que dos ricos e era apontado por muitos como sendo proto comunista, mas ninguém se atrevia a enfrentá-lo.

Era o único dia da semana em que era possível falar-se de política lá em casa. Os pais de Carlos, defensores de Salazar e do seu regime, não eram dados a grandes aberturas, a ideias diferentes que pusessem em causa as verdades tradicionais e absolutas em que acreditavam. O filho nunca pode expressar abertamente as suas convicções políticas, mas o Padre Correia da Cunha, sendo um homem do Clero, gozava de outro estatuto, principalmente junto de Maria Adelina, católica praticante, presença assídua na igreja de São Vicente de Fora.

O sacerdote lá ia dando a entender que as opiniões do filho, estavam mais perto da verdade do que as convicções dos pais Maria Adelina e Carlos Diamantino ficavam cada vez mais intrigados com aquelas conversas alimentadas a pão caseiro com queijo da serra e regadas com bom vinho, à hora do jantar. “Eu só podia discutir política no Instituto Superior Tecnico, com os meus colegas. Em casa, com os meus pais, era impossível. Só passei a fazê-lo na presença do Padre Correia da Cunha.»
O Padre era um homem de coragem o seu entusiasmo pelas causas sociais ainda hoje são recordadas. No bairro de São Vicente de Fora toda a gente se lembra dele. Frontal e generoso era também respeitado pelo empenho, valentia e dávida pessoal que colocava nos projectos humanitários e de solidariedade social que levava a cabo.

E foi num desses jantares que o Padre Correia da Cunha – preocupado com a inexistência de um projecto paroquial que apoiasse os jovens em termos sociais após a celebração da comunhão solene até à idade de se casarem – se lembrou de criar um movimento que protegesse de alguns perigos que a sociedade já apresentava. Foi nesta altura que começaram a surgir as primeiras situações relacionadas com álcool e drogas na juventude.


O Grupo «O OBJECTIVO» constituiu-se assim em 31 de Outubro de 1971. Foi lá que Carlos conheceu Rui Aço, artista plástico, e a  que viria mais tarde a tornar-se  mulher deste, Zélia, dois amigos que haviam de ficar para o resto da vida. Rui Aço era, na altura, desenhador das Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento (OGFE), em Santa Clara e Zélia, educadora de infância e catequista. Os três lideravam o «O OBJECTIVO» e tinham a difícil tarefa de desviar os jovens de caminhos perigosos. «Nós eramos conhecidos pelo tripé, a nossa função o de dar testemunho da nossas vidas», conta Rui Aço o mais velho do grupo, que via em Carlos «um grande companheiro de percurso e no «O OBJECTIVO» um espaço fundamental para trazer de volta muitos jovens que estavam dispersos e perdidos.


Sob o olhar atento, mas por vezes distanciado do Padre Correia da Cunha, dadas as múltiplas tarefas paroquiais a que tinha de dar resposta, outro sacerdote – O Padre Ismael Sanchez foi por isso incumbido de acompanhar o Grupo mais de perto.
O Grupo reunia-se numa sala da Paróquia em São Vicente de Fora. Com uma energia contagiante de quem acreditava que poderia mudar o mundo. Carlos, Rui e Zélia dinamizaram um grupo de cerca de 30 jovens, organizaram actividades de estudo, criaram um jornal de parede, promoveram cursos de alfabetização e festas de solidariedade para os mais carenciados.


Rodeados de alguns cuidados, os três líderes discutiam, em colectivo com os outros jovens, questões sobre as quais se entendia serem necessários alguns esclarecimentos nomeadamente de ordem politica, tal como recorda Carlos: « O OBJECTIVO é muito marcado por isto. Havia um conjunto de informações que passava de forma não oficial a que tínhamos acesso e que utilizávamos para formar os jovens. No fundo, mostrávamos um ponto de vista político distinto do que eles absorviam em casa. E, aos poucos, o grupo ia contribuindo para o alargamento da consciência cívica e politica daqueles jovens.
O Concilio Vaticano II, que decorreu entre Outubro de 1962 e 1965, reconheceu aos leigos da Igreja Católica novas responsabilidades no que diz respeito à vida da Igreja pela Paz. Este tema tornou-se um aspecto central nas actividades de católicos progressistas.


As estruturas e movimentos de oposição ao Estado Novo acolhiam cada vez mais estes católicos que punham em causa a actuação hierárquica episcopal e a sua relação intimista com o regime. A par das juventudes católicas – operária, universitária e estudantil (JOC, JUC e JEC), surgiram outros movimentos menores, todos contra a ideologia do regime. Muitos destes chegaram a denunciar os crimes do regime salazarista, organizaram acções de protesto, através de encontros e publicações clandestinas, assim como cartas abertas e abaixo-assinados públicos. Mais uma vez, a questão colonial estava no centro de todas as tensões. Apesar de ser a conta gotas por causa do crivo da censura, os ecos das tomadas de posição de alguns bispos e missionários do Ultramar que se revoltavam contra aquela guerra, chegavam a Portugal e clarificavam ainda mais o espírito dos católicos progressistas.


A Igreja estava desarticulada da sociedade civil, limitando-se a ser um espaço de práticas litúrgicas e respeito pela ordem estabelecida. A reflexão sobre fé, politica ou cidadania era inexistente. O debate teológico era um vazio, não havia lugar para a participação individual e consciente e o pluralismo partidário estava proibido.

O «O OBJECTIVO» teve uma importância tal a nível nacional que na comemoração do primeiro aniversário os jovens receberam a visita do Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro. A existência do grupo permitia uma aprendizagem a todos os níveis, fora das instituições de ensino religioso, tal como recorda Carlos: «Uma das razões que eu acho que contribuiu para o afastamento das pessoas da Igreja é a incapacidade que esta tem de dar resposta social às necessidades das pessoas, limitando-se muitas vezes à banalização de rituais de significado reduzido para a vida comum. O OBJECTIVO tentava dar essa componente de resposta social que as pessoas procuravam».


A crueldade da polícia politica que chegava a exercer domínio sobre as direcções de todo o tipo de grupos de caracter associativo e a censura totalitária que abrangia todo o tipo de publicações e acções culturais exigiam cuidados redobrados. Por isso o Carlos empenhava-se na transformação das palavras nos textos que escrevia para que a mensagem não fosse interpretada e considerada subversiva por agentes informadores da PIDE. É disso exemplo, o texto que escreveu sobre Palma Inácio, utilizando o anagrama “Uma Palma para Ocinai”. Revelando uma personalidade de grande maturidade, os seus escritos desta altura são mordazes, irónicos e lúcidos, com uma componente politica muito vincada. O jovem universitário observava e registava com clareza de espirito o isolamento de Portugal e a opressão a que os portugueses estavam sujeitos, como descreve em « A Porta Vigiada».


O ambiente que se vivia em Portugal era fértil e serviu também para dar vida aos filmes de animação produzidos e realizados pelo Grupo Objectivo. A Banda animado com botões pintados com cores da bandeira de Portugal, retractava uma banda filarmónica que ordeiramente desfilava e tocava até chegar a um coreto, onde eram cercados por outros botões, os espectadores. No fundo, o filme de animação pretendia caricaturar a derrota do regime perante a população.



A acção dos católicos na luta contra a ditadura ia-se alastrando, construindo pontes com muitos outros sectores da sociedade portuguesa – trabalhadores, intelectuais, estudantes – independentemente das suas crenças religiosas. O impacto foi muito maior do que os números de pessoas directamente envolvidas. As actividades culturais e formativas do «O OBJECTIVO» perduram até 1975, ano em que o grupo se desfez.”




Foto: Alfama – Artur Pastor


Foi criada uma página no Face Book deste Grupo de Jovens.

https://www.facebook.com/pages/Grupo-De-Jovens-O-Objectivo/728099790612692

Um lugar em que todos aqueles que fizeram parte do «O OBJECTIVO», bem como os que se interessam em reviver e recordar aqueles tempos da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora.



















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domingo, 14 de setembro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E ORGÃO DE SÃO VICENTE DE FORA













Iniciou-se ontem, dia 13 de Setembro, o segundo ciclo de concertos de órgão na igreja de São Vicente de Fora (2014), com um programa composto por obras de Antonio de Cabezon (1510-1566), Girolamo Frescobsldi(1583-1643) e Louis Nicolas Cléramballi (1676-1749) e improvisação de homenagem a Frescobaldi, executado pela eximia organista Martina kurschner.

Estes concertos, conforme referiu o organista titular - João Vaz, confirmam a devoção de um público fiel e amante da boa música organística. 

Os mesmos, pela excelente divulgação efectuada pela Althum.com, estão a popularizar-se inteligentemente.

Quanta felicidade não irradiaria do coração do Padre Correia da Cunha se pudesse contemplar esta agradável realidade. Como sabemos levou uma vida de luta para colocar este magnifico órgão ao serviço do público amante de música sacra da sua cidade de Lisboa. A estrela destes recitais é sem dúvida o instrumento que celebra, no próximo ano, 250 anos da sua construção (1765-2015) e que se encontra, após o último restauro, na sua grandeza original.

Sinto-me pois na obrigação de escrever um pequeno artigo  sobre este instrumento que tantas paixões despertou ao longo da sua existência Podemos assim render preito de Homenagem ao organeiro João Fontanes de Maqueira,  aos sacerdotes que ao longo do tempo o preservaram e todos os que hoje nos permitem este deleite auditivo e espiritual, todos os segundos sábados de cada mês.   



O ÓRGÃO
DE
SÃO VICENTE DE FORA

O órgão ibérico da Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora é considerado um dos mais significativos e valiosos instrumentos históricos existentes na Europa.

Situa-se no topo da nave da capela-mor deste imponente templo. O altar-mor está coberto por um elegante baldaquino em madeira, executado, após o terramoto de 1755. O projecto deste baldaquino é da autoria do castelhano Francisco Venegas e executado sob a direcção de Joaquim Machado de Castro, estando adornado com belas estátuas da autoria dos seus discípulos Manuel Vieira, Alexandre Gomes e António Santos. Por detrás deste enorme baldaquino, situa-se o coro dos cónegos, com cadeiral de três faces em duas ordens, com sessenta e seis assentos em pau-santo lavrado, com relevos nos espaldares. Em face deste arranjo não parece que tivesse, alguma vez, sido encarada a hipótese de utilizar orquestra no acompanhamento dos coros fradescos.

 O acompanhamento dos coros neste mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho era efectuado por este nobre instrumento que abrilhantava as grandes cerimónias litúrgicas.





Ao contemplarmos esta bela peça de arquitectura, pelo seu estilo de decoração, sugere-nos imediatamente a segunda metade do século XVIII. No entanto, ao contrário da maioria deste tipo de instrumentos, não se sabia até há pouco tempo (1993) o nome do seu construtor nem a data da sua construção.

Como sabemos grande parte dos arquivos do Mosteiro de São Vicente de Fora foram perdidos durante as convulsões politicas que o País sofreu após a expulsão das ordens religiosas no ano de 1834 e também durante o período das guerras napoleónicas.

Nos meados do século XX, levantaram-se imensas e variadas hipóteses quanto à época da sua construção e o hipotético construtor.


A primeira hipótese, defendida por muitos peritos e especialistas nestas matérias, era que o seu autor teria sido o grande organeiro António Xavier Machado e Cerveira, uma vez que tenha sido Machado de Castro o grande executante das reparações da igreja após os danos sofridos pelo grande terramoto de 1755 e encarregado da construção do baldaquino do altar-mor.


Era pois, natural que escolhesse o seu irmão para construtor do órgão, quer fosse para substituir outro instrumento destruído pelo terramoto, quer por nunca ter existido neste templo, outro órgão anteriormente.



A ser verdade esta hipótese, poderíamos afirmar categoricamente que este órgão foi executado após 1755, de preferência nas últimas décadas do século XVIII.
No entanto, muitas vozes se levantaram contra estes pressupostos com apresentação de teses e argumentos considerados verdadeiramente muito válidos, vejamos:



  • ·     Não consta em nenhuma documentação escrita até hoje conhecida que o órgão tenha sido danificado pelo terramoto. Há alusões em muitos escritos à queda da grandiosa cúpula, capela de invocação a Santo Agostinho que se situava no lateral direito do cruzeiro, danos de algum vulto na fachada do edifício e na sacristia do mosteiro, sendo de concluir que a parte da capela do altar-mor tenha sido poupada.

  • ·    O órgão apresenta alguns registos que não eram normalmente usados por Machado e Cerveira, tais como os jogos de palhetas sacabuchas e boe.

  • ·     Muito importante ainda é o facto de este órgão possuir em ambos os teclados a chamada oitava curta, prática esta anterior a Machado Cerveira e que este organeiro nunca usou em órgãos da sua autoria, pelo menos que haja conhecimento.

  • ·    Se nos debruçarmos só à parte construtiva da caixa e aos factos já mencionados, não nos repugna defender a tese de que este órgão é de época anterior a Machado e Cerveira. Este facto explicaria a grandiosidade do instrumento que se coaduna com a ostentação de riqueza, peculiar do nosso Magnânimo Rei D. João V e logo se apontaria para o segundo quartel do século XVIII.

  • ·    Durante os trabalhos de restauro, executados entre 1957 e 1958, verificou-se que todas as indicações de montagem que se encontravam no interior do órgão estavam escritas em português, o que consubstanciava que o organeiro construtor desta extraordinária peça organística seria de nacionalidade portuguesa.

Houve uma incessante investigação para se saber o nome desse genial organeiro que nos deixou um instrumento de grande valor artístico e de competência organística.

Em 1957, quando se deu início aos trabalhos de restauro sob a responsabilidade do Eng.º Ramos Sampaio, verificou-se que a mecânica deste instrumento se encontrava relativamente em bom estado, assim como as condutas do ar. Somente os foles estavam completamente inutilizados pela acção do tempo e pelo estado de degradação do edifício que permitia a entrada de água pelo tecto da sala dos foles. Lembro que nos dias de hoje, esta zona ainda padece de grandes humidades e de pouco arejamento.

Assim, houve necessidade de se construírem novos foles para os quais se adoptou o modelo paralelo, com três bombas e manivelas para enchimento manual. No entanto, a alimentação do depósito é feita normalmente por ventilador eléctrico, com motor de ¾ Hp.


Os dois foles primitivos eram do modelo de cunha. A partir do fole, o ar é conduzido por uma conduta de madeira que se situa sob o pavimento da galeria, não sendo portanto visível senão junto à escada de acesso à casa do fole onde se encontra um pequeno fole regulador de pressão.


No ano de 1958, quando se deu por concluído o grande restauro deste admirável instrumento, os mais notáveis organistas de todo o Mundo vinham descobrir neste órgão ibérico a notável sonoridade e beleza de timbres que este instrumento possuía e que foram aperfeiçoados com o excelente trabalho de restauro.


Este órgão nos anos sessenta teve momentos que ficaram gravados a ouro. Houve uma plêiade de organistas internacionais e nacionais que deram variados concertos dos quais, destaco:Tagliavini, Gerad Johns, Francis Chapelet, Michel Chapuis, Pierre Cochereau, Michael Kearms, Gertrud Mersiovsky, António Duarte Silva, Antoine Sibertin-Blanc, Gerhard Doderer…


Outra grande surpresa constatada neste restauro deste órgão foi que se encontrava extremamente bem conservado. Faltavam meia dúzia de tubos dos mais pequenos e os registos de palhetas estavam desafinados. No entanto, a principal avaria e quase total ruína estava nos foles que tiveram de ser integralmente substituídos.




A relativa boa conservação, deste magnifico órgão barroco ibérico deve-se especialmente a dois homens: Monsenhor Francisco Esteves (Pároco de São Vicente de Fora desde 1900 a 1959) e Padre Correia da Cunha (residente no Mosteiro de São Vicente de Fora desde 1943 a 1977) e que tendo conhecimento do grande valor deste instrumento sempre lutaram para o colocar ao serviço da boa música organistica, interditando o acesso aquela galeria como forma de proteger esta peça. Foi após muita insistência deles que a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais mandou proceder ao primeiro grande restauro deste magnificente órgão barroco. O trabalho de restauro foi confiado ao Engº. Ramos Sampaio e seu irmão, únicos técnicos da especialidade em Portugal e foi considerado digno do maior reconhecimento por grandes especialistas da organistica, pois a construção primitiva foi integralmente mantida e escrupulosamente respeitada.


Graças a este organeiro e a estes dois clérigos, podemos hoje apreciar e deleitar-nos com os sons deste instrumento que se encontra praticamente no seu estado original, num dos mais majestosos monumentos desta linda cidade de Lisboa.


Conforme já referi, o órgão está instalado numa galeria que ocupa o topo do templo, por detrás do altar-mor. Esta galeria assenta sobre três robustas peanhas, duas laterais, mais pequenas, e uma central, maior e suportada por três figuras femininas.


O órgão da igreja de São Vicente de Fora resplandece com a sua talha dourada, com as superfícies das várias almofadas pintadas de verde com filetes dourados, ao gosto da época.
É uma bela jóia que quando devidamente iluminado é realmente grandioso. No cimo da fachada três belas figuras de mulheres servem de remate a esta peça de talha dourada.


Por ocasião de Lisboa capital Europeia da Cultura, este instrumento foi totalmente restaurado pelos peritos suíços Claudio e  Cristine Rainolter, nas sua oficina situada em Trazona, província de Saragoça, os quais foram auxiliados por Nicholas Michael Watson e assessorados pelo organista Prof. Joaquim Simões da Hora.


Neste último restauro, efectuado entre Novembro de 1993 e Outubro de 1994, em que se procedeu à completa desmontagem do órgão, houve a preocupação de solucionar problemas da alimentação do ar devido à distancia da casa dos foles aos someiros (cerca de 25 metros). Em boa hora se adoptou a solução de montar dois foles depósito dentro da caixa, sobre o órgão principal, por detrás dos cónegos da fachada, garantindo-se assim que a pressão do ar seja uniforme em todas as partes do instrumento.


No ano de 1993 houve uma grande revelação que este instrumento guardou durante séculos. No secreto do órgão de eco encontrava-se inscrito: «HÁ FEITO DE NOVO EM O ANO DE 1765 JOÃO FONTANES MAQUEIRA»


Assim ficaram desfeitas todas as hipóteses, que durante anos apaixonou peritos desta área sobre a data de construção e do seu hipotético construtor que afinal era espanhol e que já havia produzido obra em Portugal.


Construiu em 1763 o órgão da capela do seminário maior de Coimbra que partilha com o de São Vicente de Fora características arquitectónicas, mecânicas e tonais. João Fontanes Maqueira veria a falecer na vila de Mafra no ano de 1770.
























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sábado, 16 de agosto de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E O BAPTISMO











“É SEMPRE O ESPÍRITO DE CRISTO QUE 

RENOVA E RESSUSCITA…”




“Pelo matrimónio cristão que celebrastes aqui nesta Igreja Paroquial de São Vicente de Fora, na minha presença, fostes consagrados para serdes colaboradores de Deus, nesta terra, na grandiosa obra da criação.

Agora vedes que a expressão de um acto de amor foi enriquecida por um filho, que encherá de inefável alegria o vosso abençoado lar.”

Era com este preliminar discurso que o Padre Correia da Cunha se dirigia aos jovens casais que apresentavam os seus rebentos quando pretendiam que estes recebessem o sacramento do baptismo.

“Estais lembrados do que prometestes quando vos transmiti nesse dia? Os pais são os primeiros e insubstituíveis educadores da fé cristã…

O vosso primeiro cuidado será, portanto, educar o vosso filho como baptizado, isto é, como um bom cristão.

Por isso, para bem marcar a seriedade da vossa iniciativa de hoje, sois vós próprios que fareis livremente o pedido do baptismo para o vosso desejado e amado filho; e como consequência, comprometei-vos a educá-lo cristamente e enviá-lo à catequese, quando tenha idade.

Sob este aspecto referia o Padre Correia da Cunha que a Comunidade Paroquial, bem como os padrinhos, tinham importantes missões a desempenhar: cooperadores vossos que, ajudar-vos-ão com os seus conselhos, disponibilidade e exemplos a educarem o vosso filho.







Espero que haja da vossa parte uma cuidadosa atenção na escolha dos padrinhos. Não sejam convidados por terem muito dinheiro e poderem dar ricas prendas ao afilhado. Não é esse o espírito que a Igreja recomenda, mas sim os dos “pais” espirituais com a confiada missão, de durante toda a vida, cumprirem no que se comprometerem na cerimónia do baptismo: zelar pela vida cristã do afilhado.

Ninguém é obrigado a ser padrinho ou madrinha mas também nem todos podem ser admitidos a esta exigente missão cristã.”

O Padre Correia da Cunha aproveitava também a oportunidade para fazer uma pequena resenha histórica sobre este sacramento na Igreja.
Nos primórdios da Igreja, quando esta era ainda um pequeno rebanho, perdido no meio dos pagãos, eram sobretudo os adultos que pediam o baptismo pela Igreja. Não bastava aos adultos pedirem o baptismo para o receber. Estes eram obrigados a mudar profundamente as suas maneiras de vida e a darem início à aprendizagem da doutrina de Jesus. 

Começavam como «catecúmenos», o que quer dizer aqueles que ouvem a palavra de Jesus, aqueles que se instruem.


No início da Quaresma, depois de alguns anos, os «catecúmenos» eram acolhidos pela Comunidade. Ensinavam-lhes então os mistérios mais profundos. Na vigília pascal eram baptizados. Despojados das suas vestes eram emersos na água da piscina. Ao saírem deste banho vestiam umas túnicas brancas que envergavam nos dias seguintes como símbolo da inocência baptismal. Eram as túnicas do banquete celeste, o sinal da glória. 





Actualmente o «banho» reduz-se a umas gotas de água derramadas sobre a cabeça. Hoje os «catecúmenos» são na maior parte uns bebés. A Igreja terá abandonado tão belas coisas? Não! Continua haver uma preparação profunda e séria para os adultos que desejam receber este sacramento.


Referia o Padre Correia da Cunha que os exemplos têm mais-valia que as palavras: os pais cristãos, que já praticam em si mesmos as mudanças de vida que a Igreja exige como condição para o baptismo, transmitem aos seus filhos a vida cristã, como um valioso património. Mas recordo também que não fechava as portas às mães solteiras. Essas mulheres eram consideradas por ele como as verdadeiras heroínas, que tiveram a coragem de com alegria participarem tão intimamente do milagre da vida.


Quando a Igreja aceita baptizar uma criança faz um acto de confiança nos pais e padrinhos, com a convicção que a criança será posteriormente instruída na Fé que recebeu no baptismo.

De facto, mais tarde, quando crescer e a sua inteligência despertar, poderá aprender a viver a vida que os pais lhe transmitiram como um património familiar e tomar progressivamente consciência pessoal do amor que Deus derramou sobre ela no dia do seu baptismo. A graça do baptismo gratuitamente recebida é uma fonte de luz e força já actuante. 





O Padre Correia da Cunha baptizou muitas crianças, pois as famílias tinham imenso respeito por este sacerdote e sabiam que nunca negava esse serviço e tão pouco exigia qualquer renumeração. A Graça de Deus para ele não tinha preço…não havia dinheiro que a pudesse pagar.

Antes de terminar a celebração, colocava os novos cristãos sob a protecção especial de Nossa Senhora da Conceição e rezava-se uma Ave-maria por todas as mães solteiras, rogando que os filhos crescessem ao longo dos anos felizes e fossem alegria dos lares.

As fotografias que hoje publico irão comover o coração de alguns, que o Padre Correia da Cunha tornou Filhos de Deus e membros da Igreja de Jesus Cristo. 










































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