sábado, 21 de janeiro de 2012

PE. CORREIA DA CUNHA E A BRETANHA

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“DEPOIS DA TEMPESTADE...A ILHA DOS

AMORES.”



Em 1958, a cidade de Brest apresentava-se com o aspecto de uma adolescente. Era demasiado pequena para as aspirações românticas de uma tripulação de jovens marinheiros. Estando-se numa das regiões mais belas de França, carregada de simbolismos ligados ao mar e de lendas, havia que descobrir a Bretanha e contactar com as moças mais belas com cabelos a exalarem perfume, com mãos suaves e bonitos olhos…


As almas puras destes marinheiros preparavam-se para mergulhar em terra na busca de novos mundos fantásticos, quentes, exóticos e ricos em volúpias da carne.


Não compreenderemos que os corações destes heróicos marinheiros são de uma grande solidão, onde ninguém penetra? As paixões que neles crescem durante as longas, violentas e melancólicas viagens pelo infinito mar são sufocadas pelo murmúrio das violentas ondas.

As chegadas a terra firme são como um Novo Mundo de luzes, cheiros, odores e ruídos triunfais.

Jovens mulheres eram para estes honrosos marinheiros, algo de fatal, quando lhes fitavam os olhos, atordoados pelo prazer que os elevariam a uma harmonia suprema.

Esses mistérios das mulheres tentavam alguns marujos com o demónio da carne que vivia em todos os músculos dos seus corpos e no próprio sangue. É o duplo fascínio do amor e prazer.

Segundo a opinião de muitos oficiais da marinha, com mais experiência, as paixões crescidas e alimentadas nos portos eram sempre as mais belas e brilhantes, pois dissipavam-se também como a fumaça.

Na viagem de regresso sempre haviam marujos que acreditavam terem-se apaixonado, pois a dor que sentiam era bem reveladora que ali tinham encontrado a mulher mais bela do mundo e das suas vidas, dizendo de coração aberto: “Esta é que eu amo”.

De regresso à embarcação era missão do Capelão fazer acordar estes “papalvos” grumetes para a verdadeira realidade através de bons conselhos de humanidade. Por vezes, era necessário recorrer à terapêutica medicamentosa, cuja incumbência era do médico da guarnição.

Voltemos ao Capelão Correia da Cunha. Embora alguns oficiais e membros da tripulação fossem agnósticos, todos tinham imenso respeito e consideração pelo Padre Correia da Cunha, pelos valores éticos que defendia e com quem era fácil estabelecer uma cordial e sincera amizade. Humilde, compassivo e dedicado aos seus marujos, sacrificava todo o seu tempo na busca de contribuir para a sólida formação humana destes seus discípulos, visando torná-los obreiros de um mundo, onde a amizade e a fraternidade fossem perfeitos protótipos de um humanismo; pois para ele ser cristão, não era mais do que viver o evangelho, no serviço e dedicação aos irmãos.



Navio Escola SAGRES

Recordo que nesta viagem do Navio Escola Sagres, o Padre Correia da Cunha encontrou-se com o seu admirável amigo Capelão João Perestrello de Vasconcelos, que fazia parte da guarnição da fragata Nuno Tristão, na altura sobre o comando do Capitão-de-fragata Diogo de Melo e Alvim.




Capelão João Perestello de Vasconcelos e Correia da Cunha em Brest



Após os cumprimentos protocolares com o Presidente do Município de Brest, os dois amigos partiram à busca da Bretanha. O passeio serviria para robustecer e retemperar as energias perdidas durante a dura viagem, na qual tiveram de enfrentar a violenta tempestade no Golfo da Biscaia. Peregrinaram pela profunda Bretanha, que o Padre Correia da Cunha comparava a um rincão do Paraíso Celestial. E porque não vivê-lo quando o temos à mão?

Creio que eram nestes locais que ambos os capelães compreendiam com maior intensidade toda a felicidade da Criação, que Deus de uma forma generosa e gratuita colocava para todos a podermos usufruir, em perfeita consonância no nosso coração em desejo desenfreado.

A beleza da natureza é de uma harmonia perfeita que geralmente só os homens de coração genuíno conseguem captar e saborear na pureza dos longos horizontes que esta nos oferece: as rochas escarpadas, o céu com o seu domínio celeste, o sol que se eleva nos seus raios…

Em tudo viam a beleza que Deus colocou na Terra. Quando à noite apoiavam as suas mãos para rezarem imaginavam ouvir doces cânticos vindos do Céu e a presença da Virgem Mãe, tendo nos seus braços o doce Menino Jesus que aparecia a estes marinheiros na saliência das ondas, que continuavam a invadir as suas mentes.

Mas não esqueçamos que também aproveitavam estes dias de liberdade para tomarem uns refrescantes banhos nas praias da costa, saborearem os suculentos e apetitosos pratos da cozinha francesa, marcarem presença nos típicos bares bretões e até darem um pé de dança nos célebres casinos, onde tocavam as mais afamadas orquestras da moda.

Eram também nestas viagens que se cimentavam grandes amizades de profundas afeições, nas horas de labuta sobre as enxárcias, nas horas de ócio e lazer e nas horas solidárias com perfeita sinceridade. Pelos testemunhos que assisti, nas visitas que Padre Correia da Cunha recebia na sua Paróquia de São Vicente de Fora, por parte de oficiais e marujos, as relações de verdadeira amizade entre gente do mar mantêm-se para toda a vida, imperando a esperança de se manterem as velhas convivências bem ancoradas nos oceanos das suas vidas.

Contínua…










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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

PE. CORREIA DA CUNHA E A REGATA VITORIOSA

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‘’ OS VERDADEIROS HOMENS DO MAR, SÓ SE FAZEM EM CIMA DAS ENXÁRCIAS.”


 
Há certas experiências que, embora amarrotadas nas memórias pelos muitos anos que passaram, ficaram indeléveis nos sentimentos de quem as viveu e que sempre ajudavam para afogar uma saudade qualquer.


As várias viagens do Padre Correia da Cunha no Navio-Escola SAGRES eram por ele recordadas como se dele fizessem parte e não as pudesse apagar da sua vida marinheira.

Foi no dia 7 de Julho de 1958, que embarcou no velho Navio-Escola SAGRES e participou na regata oceânica Brest -  Las Palmas,  onde a epopeia gloriosa e triunfal foi festejada com imensa alegria  pela classificação obtida (1º lugar da SAGRES), graças à dedicação, ousadia, abnegação e sacrifício dos valentes tripulantes. A bordo imperou a verdadeira camaradagem como bálsamo para elevar o ego dos marinheiros assim como o respeito e orgulho pela nobre pátria. Estes bravos homens do mar encaravam estas viagens com espírito de missão e não esqueciam nunca a épica legenda do navio: ‘’ A Pátria honrai que a Pátria vos contempla’’.



O ilustre capelão da Marinha guardava imensas saudades da sua Sagres, considerada por ele como uma verdadeira embaixada do seu querido e amado Portugal.

A velha Sagres foi construída na Alemanha, no ano de 1846, e após uma conturbada história viria a ser entregue à Marinha Portuguesa, em Maio do ano de 1924, para servir de Navio-Escola. Nesse mesmo ano, terá sido rebaptizada com o nome de SAGRES e requalificada com excepcionais beneficiações, que passaram pela instalação de dois novos motores diesel de 350 cavalos-vapor e a mais moderna aparelhagem de navegação: radar, girobússola, sonda ultra sonora, hodómetro eléctrico e anemómetro. Alojava 350 efectivos.


Nesta viagem, o comando esteve a cargo do Capitão Tenente António Tengarrinha Pires, tendo como imediato o 1º Tenente Henrique Afonso da Silva Horta. Eram oficiais da guarnição da Sagres, o 2º Tenente Guilherme Conceição Silva, chefe do serviço de embarcações, o 2º Tenente João Carlos Alvarenga, chefe do serviço de electrónica, o 2º Tenente José Miguel Ceregeiro, chefe do serviço de comunicações, o 2º Tenente Sérgio Augusto Zilhão, chefe do serviço de artilharia, o 2º Tenente José Manuel Pires de Matos, chefe do serviço de navegação, o 2º Tenente Médico Joaquim dos Santos Félix António, o 2º Tenente Maq. Armindo Alves Rodrigues…e obviamente que não se pode esquecer o Capelão 1º Tenente José Correia da Cunha, cuja Missão era contribuir para uma maior humanização e fraterna solidariedade na arte de boa marinharia.






Recordava o Padre José Correia da Cunha que foi numa tarde radiosa de segunda-feira, dia 7 de Agosto, que largaram amarras desta cidade de Lisboa. Com todas a velas içadas, onde as belas Cruzes de Cristo se mostravam tão solitárias nas beatíficas quietudes da sua eternidade, que os 13 oficiais, 22 sargentos e 254 praças, protegidos pelo Divino Chefe, largaram para Brest, o seu porto de destino.



Mas é em pleno oceano que se tomava maior consciência da imensidade do mar e do desconhecido. Após cinco dias, já em pleno Golfo da Biscaia, onde o mar é exuberante em histórias de grandes agitações, e que dessa vez não quis fugir à regra, que o navio foi obrigado a ferrar as velas, navegando em árvore seca, pois registavam-se ventos acima de 60 nós.




As lutas brutais que viveram durante esses dias foram de um enorme terror, pois ainda se recordava a imensa tragédia ocorrida no ano anterior com um navio da Marinha Alemã, apanhado por um violento temporal no oceano atlântico, que arrastou para a morte com o seu afundamento, 79 dos 85 membros da tripulação.



Durante alguns dias, encontrando-se o mar nessas condições era totalmente impossível tomarem qualquer tipo de refeição pois os balanços era de tal forma que a proa desaparecia no meio das águas. Era uma luta insana dos tripulantes para segurarem os pratos para além de terem de amarrar as cadeiras às mesas.



As cerimónias religiosas foram canceladas, pelo Capelão Correia da Cunha devido à violência do mar. Mas Nossa Senhora mantinha-se como farol de acolhimento no porto de chegada onde já se encontravam as fragatas da Marinha Portuguesa Nuno Tristão e Diogo Gomes com os instruendos do Curso D. Duarte de Almeida. Deve confessar-se que a mais nobre e excelente tarefa da navegação é atracar com tranquilidade o navio depois das impetuosidades do mar que o Padre Correia da Cunha descrevia como se de um filme de ficção se tratasse.





“Até à partida para a regata marcada para sábado 2 de Agosto, mediariam cerca de três semanas de estadia em Brest, tempo que acabaria por ser preenchido das mais variadas formas, naturalmente com particular relevo ao aspecto lúdico, o que era perfeitamente compreensível, dado tratar-se de uma guarnição maioritariamente jovem e não comprometida. E até o Capelão Correia da Cunha, a quem, bem entendido, estavam interditas certas brincadeiras, tinha arcaboiço psíquico quantum satis para aguentar e desculpar alguns excessos e irreverências de camaradas churrés mais atrevidos como daquela vez em que invadiram o seu camarote e fizeram desaparecer, transitoriamente, é claro, os santos óleos, as hóstias e o vinho da eucaristia”



Contínua…


NOTA: Lembro que só foi possível recordar esta vitória da SAGRES na regata Brest-Las Palmas, graças ao preciosismo contributo da comunicação do Exmº Sr. Contra-Almirante Médico Joaquim dos Santos Félix António, realizada na Academia de Marinha. Cumpre-nos agradecer com muita gratidão ter evocado a figura do Capelão José Correia da Cunha. 


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domingo, 1 de janeiro de 2012

PE. CORREIA DA CUNHA E O EMERGIR DO ANO NOVO

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“Aquecer os corações frios de angústia e tristeza...


 





Mais um ano surge, renovando novas esperanças e apontando novos desejos, que vão sobrando de ano para ano.

Era uma tradição do Padre Correia da Cunha reunir, na bela igreja de São Vicente de Fora, a comunidade para celebrar com toda a solenidade este acontecimento da passagem de ano.

Os cristãos da Comunidade Paroquial eram convidados a fazer um balanço do ano que findava e a implorarem novas ilusões, na miragem da felicidade plena para o novo ano que emergia. Jesus Cristo deveria ocupar o primeiro lugar das nossas vidas na busca dessas venturas.






Para esta celebração, o Padre Correia da Cunha elaborava um guião que era uma magnífica obra de riqueza literária. Seria de uma importância capital, resgatar estes escritos do Padre Correia da Cunha. A sua leitura contribuiria para uma maior compreensão das suas preocupações com a verdade e objectividade daqueles tempos. O Padre Correia da Cunha ajudava a libertar-nos para a tomada de consciência crítica da nossa própria existência.




Estes encontros era verdadeiras experiências de fé em louvor ao Pai Comum e a cada ano que passava sentíamos crescer a fé e o amor entre irmãos.




Como pároco, o Padre Correia da Cunha tinha consciência e noção do sofrimento e angústias de muitos dos paroquianos votados nestas tradicionais festas de passagem de ano à solidão e ao abandono, o que o levava a empenhar-se na realização destas festivas celebrações litúrgicas de final de ano.



No final, todos os presentes poderiam usufruir de uma grandiosa festa de convívio e partilha, nas salas dos claustros do Mosteiro, tornando assim as vidas destas pessoas mais venturosas, solidárias e cheias de alegria fraterna. Para o Padre Correia da Cunha não havia coisa mais bela e nobre que poder consagrar deliberadamente a sua vida, desejando aos outros o que desejava para si. Estes encontros fraternos organizados pelo Padre Correia da Cunha visavam aquecer os corações de cada um com a certeza que estavam nas suas próprias casas.



A fraternidade e a solidariedade eram virtudes que lhe davam estímulo para servir com dignidade a causa e ideais do seu sacerdócio.



O Padre Correia da Cunha era um filósofo e nesta sua qualidade dizia que o tempo não existia: - “O tempo é apenas uma ideia de limitação que os homens inventaram para satisfazerem as sensações e poderem contar as etapas das suas vidas...”



Sem essa limitação todos dias eram novas oportunidades para se festejar e confraternizar. Os abraços poderiam assim multiplicar-se diariamente no desejo ardente e permanente de Felicidade, Paz e Amor entre todos os homens.



A vida levada com espírito filosófico pode ter mais encanto para perfumar os dias com maior suavidade e ajudar-nos a vencer o tempo difícil que emerge…



BOM E SANTO ANO NOVO!

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