sábado, 27 de junho de 2009

PE CORREIA DA CUNHA, O CONFERENCISTA

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‘’PORQUE GOSTO DE LISBOA!’’




O melhor modo de fazer justiça à vida e obra do Padre Correia da Cunha é dar a conhecer o seu pensamento e a sua obra através dos textos que nos deixou.

Com o apoio do Grupo Amigos de Lisboa é nos hoje possível transcrever esta Conferência proferida em 1954, na sede deste grupo olisiponense, no dia de São Vicente, Padroeiro de Lisboa. Este texto reúne contributos notáveis para o conhecimento da vida e obra do Padre José Correia da Cunha, na sua relação com a sua a sua cidade de coração e dos elevados conhecimentos no domínio da liturgia santoral.

Padre Correia da Cunha foi um dos mais atractivos mestres do pensamento, que até hoje tive a honra de ter podido dialogar e conviver. Será muito difícil no panorama português encontrar muitas pessoas que revelem um contributo intelectual e uma acção pedagógica que lhes permitam perpetuar a sua memória. Pe Correia da Cunha, pela sua subtileza, objectividade e frontalidade de linguagem, ficou indelével na memória de todos os que tiveram o privilégio de o conhecer e partilhar os seus profundos conhecimentos nas muitas artes que dominava profundamente.

Espero com a transcrição desta sua conferência, após cinquenta cinco anos da sua realização, seja uma homenagem adequada e avive no espírito daqueles que conviveram com Padre Correia da Cunha e que dele receberam formação, orientação, conselho e sobretudo testemunho de vida, o reconhecimento sincero do brilhante homem de pensamento e reflexão que não poderá ser esquecido.

COMEMORAÇÃO VICENTINA DOS ’AMIGOS DE LISBOA’’

Conferência, na sede, pelo PADRE CORREIA DA CUNHA, no dia do Padroeiro da Cidade em 1954

I PARTE

Não sei porquê; confesso que não atino bem com as razões que levaram a ilustre Junta Directiva desta Casa a incumbir-me de falar a VV. Exªs do glorioso Padroeiro de Lisboa.

Ao certo, ao certo, não sei. Mas quer-me cá parecer que, se aqui estou na berlinda, é apenas por estes três motivos: por ser alfacinha de gema, por morar no Mosteiro de S. Vicente de Fora, e por ser Padre Capelão da Marinha; que outra razões mais não enxergo…
Pelo contrário, reconheço, sem falsa modéstia, que me falta o saber e me não sobeja nica de tempo para estudar com profundeza o tema, aliás tão interessante, que nos reuniu aqui. Outro qualquer faria melhor.

No entanto, os motivos apontados são de si suficientes para me imporem o dever de aceitar tão honroso encargo. Ou não será dever de todo o alfacinha que se preza, como verdadeiro amigo de Lisboa, conhecer um pouco, ao menos da bela história e das lindas tradições lisboetas? E não cumpre ao hóspede da Claustra Vicentina venerar com público e devoto reconhecimento o Santo seu Anfitrião e Orago?

E que dizer do Padre que não tivesse a mais pequena notícia de uma das maiores figuras Martirológio, para mais Capelão da Marinha que já sulcou as águas do Mar Oceano no mesmo sentido e rumo que seguiu a Nave do invicto Mártir S. Vicente?

E eis porque aqui estou, pondo á prova a paciência de VV.Exªs,!

Prometo, porém, desde já, fazer todo o possível por que tal provação lhes mereça a palma do Martírio nem as honras dos Altares.
E daí…nada se sabe! Verdade seja que a minha fala não pretende ser conferência (ao contrário do que foi anunciado), mas simplesmente palestra, conversa fiada, que eu desejaria fosse cavaqueira amena. Porém, ao fim e ao cabo, VV. Exªas é que dirão de sua justiça!








PORQUE GOSTO DE LISBOA






Nado, baptizado e criado nesta urbe feiticeira, sou Amigo de Lisboa desde que me conheço.
Cedo, bem cedo, me deixei enfeitiçar pelo sortilégio desta cidade.



E, desde então, sempre me habituei a vê-la no mistério da sua dupla personalidade: senhoril no porte, coroada de uma auréola de luz e cor verdadeiramente únicas no mundo, e, ao mesmo tempo, simples e modesta, atavios ou enfeites pretensiosos, nimbada apenas da beleza natural que Deus lhe deu. Dir-se-ia uma Rainha de Sonho que por entre as outras passa, esbelta e cheia de encanto, com a graça de uma varina.

E esta imagem faz-me lembrar aquela velha lenda que, embora conhecida, não resisto á tentação de contar.

Era uma vez…

(E a lenda reporta-nos á velha Idade Média, quando os Senhores Cavaleiros se davam á folgança de torneios e justas em honor de suas Damas por quem suspiravam coitas de amor e a quem ofertavam gestas valorosas).

E foi o caso que, de certa feita, todos os Príncipes do Sacro Império se reuniram em grande e original torneio, não para se determinar qual o mais valente e destro, no manejo das armas, ou mais inspirado e hábil nas cantigas de amor, mas para se decidir qual de entre eles era o mais nobre.

E aconteceu que, num cortejo esplendoroso, montados em cavalos ricamente ajaezados, esses cavaleiros lá foram desfilando pelo vasto terreiro, seguidos do numeroso séquito de seus vassalos. Faziam alarde vaidoso de suas riquezas e troféus e ostentavam com orgulho os pergaminhos da sua linhagem. Até que chegou o momento de se apresentar um cavaleiro ainda novo, príncipe também de sangue e de alma, embora pobre, que não levava luxos nem grandezas, mas se fizera acompanhar por todos os seus leais súbditos. Chegado que foi ao centro do terreiro, acenou á multidão para que se calasse um pouco.
E mal se fez silêncio, disse:

- ‘’ Senhores! De todos é sabido que eu pouco tenho ou nada; mas considero-me o mais rico e nobre dos Príncipes da Cristandade, por ter um Paço em cada casa dos meus vassalos e em cada peito deles, um coração amigo! ‘‘

E reza a lenda que todos o aclamaram vencedor.

Pois quer-me parecer que a história, com pequenas alterações, se pode aplicar a um imaginário torneio entre as cidades do mundo. E estou certo de quem, depois de terem passado as grandes capitais vaidosas de suas grandezas, quando chegasse Lisboa, na sua Nau Catrineta, sorrindo como Ela sabe,



Toda a gente com certeza,
Desde os Chins as Esquimós,
Diria a uma só voz:
- Tu és do mundo a Princesa!


De resto, deixem dizer-lhes muito aqui á paridade (não venham acusar-me de plagiário…), esta ideia não é nova; já foi cantada em oitava rima pelo nosso Épico:


E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
Facilmente das outras és princesa,
Que edificada foste do facundo
Por cujo nome foi Dardânia, acesa,
Tu, a quem obedece o Mar profundo…


(C. III – E. 57)


Mas, se, nem no tempo de Camões, tal cortejo se realizou, bem será que se não faça nunca, para que apareça por aí, através da imprensa, da rádio ou da televisão, a infausta notícia de que a nossa Lisboa vai partir para Hollywood, contratada por algum magnate do cinema…

Pois (como ia dizendo), eu gosto de Lisboa; sou deveras seu Amigo.
Quantas vezes me não pondo a olhar para Ela e, absorto, a não contemplo, dali, do morro de Almada! Como se mostra bela e formosa, quando, pela tardinha, toda inundada d sol, se revê embevecida nas águas especulares do seu Tejo!

Que maravilha!

Quem ainda a não viu dali, defronte, não conhece bem a sua beleza, e não sabe o que perde…

O rio, antes de se fazer ao mar, por despedida, atira-lhe furtivos beijos (não vá o Sol ter ciúmes) e oferta-lhe, como presente para o enxoval, alvas rendas de bilros que as suas Tágides tecem ao som da melopeia murmura das ondas. E Ela, que lhe percebe o gesto, mostra-se ao Sol sorridente e mimalha (para que Ele não fique amuado), e desce á pressa dos seus paços do Castelo, embrenha-se no labirinto de Alfama, benze-se á porta da Sé, encomenda-se a Santo António e vai, num pulo, ao Terreiro do Paço estender-lhe os braços gentis. Depois, tiquetaque pela calçada, sobe a Santa Catarina para o ver mais a preceito e lhe dizer: ‘’ Aqui estou. Eu não te deixo! ‘‘

E com o Rio tem de andar, também Ela acompanha, sempre correndo ligeira, quanto as forças lho permitem, até quase sair da barra. E vendo que mais não pode, na Torre de S.Vicente, ali adiante a Belém, se fica triste e saudosa, de lenço branco na mão, acenando, acenando…até ao pôr-do-sol.

Depois volta, ao lusco –fusco,
ainda mais bela e formosa, porque a luz do seu olhar tem um véu feito de pranto; e fica por momentos a rezar á Senhora de Belém pelo seu noivo marinheiro – o Tejo.


Padre José Correia da Cunha

Continua
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sexta-feira, 19 de junho de 2009

PADRE CORREIA DA CUNHA - TESTEMUNHO II

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‘’Obrigado Senhor, por através de Padre Cunha me teres ensinado a seguir o seu exemplo…’’



Desde menino, quando apenas conhecia os anjos, já escutava, na telefonia, a bela voz da Amália. A minha mãe lavava a roupa no tanque, num saguão de uma casa na freguesia de São Vicente de Fora, e cantava desconhecidas cantigas da Beira Serra.

Fui crescendo e um dia, no início dos anos 60 do século passado, descobri por acaso os caminhos que me conduziram, durante muitos anos, à Igreja de São Vicente de Fora.

Tinha então onze anos! Meus pais, com raízes Cristãs, não frequentavam a igreja nem obrigavam os filhos a irem à missa.

A luta pela vida era tremenda! Levantavam-se pelas 4 horas da manhã, apanhavam o eléctrico que os levava à Praça da Ribeira onde se abasteciam de legumes com que governavam a vida no mercado de Santa Clara. Era um tempo em que aqueles mercados pululavam de gente; em que os espaços reservados aos pequenos comerciantes (lugares e pedras) eram disputados e bem pagos nos leilões do Município de Lisboa.

- Antes carregar duas sacas de batatas cruzadas à cabeça que andar com um molho de mato e a passar fome! – Dizia minha mãe.

Recordo que trabalhavam duramente toda a semana e o único dia que lhes restava para descansarem era o Domingo. Talvez aqui esteja a explicação para não ser assíduos frequentadores da igreja.


- Rogério! Estamos os dois para aqui fechados em casa!

Dizia o meu pai, ainda na semana passada, e continuava:

- Se não fosse o Santana Lopes a fechar o mercado de Santa Clara a tua mãe e eu, mesmo com os meus 86 anos, ainda estaríamos vendendo frutas e hortaliças, convivendo e vivendo, no Mercado de Santa Clara.
Têm razão os meus pais. Os mais velhos só servem para votar e aí sim – até os vão buscar aos lares ou ás suas casas!


Quando ao mercado de Santa Clara era, e foi, parte integrante das suas vidas. Fecharam o mercado! Está às moscas! É um espaço morto.

Volto aos meus onze anos.

Frequentava, então, o Liceu Nacional de Gil Vicente quando pela primeira vez entrei nos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora.







Nesse tempo as portas estavam abertas e tirando o Panteão da Dinastia de Bragança que tinha segurança, tudo aparentava um completo abandono e desleixo.

Foi assim que conheci o Mosteiro de S. Vicente de Fora.
Comecei a caminhar para lá – até que um dia, quando frequentava a Escola Comercial, Deus colocou no meu caminho o caminho para a Igreja Católica. Por coincidência, ou não, era o dia em que o Padre Correia da Cunha tomava posse como Pároco de São Vicente de Fora (1).

A história conta-se assim:

Andava eu pelos claustros do Mosteiro quando, em cima da hora das cerimónias de posse do novo pároco, faltou à chamada um menino do coro! Mas… o Padre Cunha fazia questão em ter doze rapazes! Doze eram os Apóstolos e ele só tinha 11.

Tudo tinha sido verdadeiramente programado, ensaiado ao mais pequeno detalhe: os mais pequenos à frente! Tudo em carreirinha, em duas filas! Túnicas novas, feitas por medida!


Sobrava uma! Era grande – como ela tivesse sido feita de propósito para mim!

Já não recordo o nome do meu antigo Professor de Religião e Moral (2) do Liceu que ia concelebrar na missa, porém, foi ele que aconselhou o Padre Cunha: O Rogério, seu antigo aluno, podia substituir o 12 menino do coro.

Pois bem! Não é que fui pescado quando por ali andava perdido…
Vestiram-me uma túnica branca.
Cingiram-me com um cordão vermelho.

Em poucos minutos ali estava eu, menino do coro repescado, a caminho do Altar, lado a lado com o meu bom e saudoso António Melo e Faro(3), ocupando um lugar na última de duas filas.

- Faz o que eu faço. Dizia o Melo e Faro. E fiz!
Foi assim que Deus chamou por mim! Foi a minha primeira ida voluntária à missa. Fui o único menino do coro a não comungar nesse dia…

Bem! A história já vai longa e a procissão vai no adro…

Vou terminar por hoje.

A partir desse dia tornei-me um efectivo membro daquela Comunidade!

A partir desse dia comecei a frequentar a catequese. Foi bem cedo Catequista e até dirigente Diocesano da JOC.

A partir desse dia passei a apreciar ainda mais a bela voz da Amália no gravador de fita do bom Padre Cunha!

A partir desse dia comecei a escutar e a gostar de música de órgão tocada no grande e extraordinário órgão de S. Vicente de Fora!

A partir daí, e nos tempos livres, passei a ser cicerone e tomei o gosto pela história, nomeadamente, pela vida e obra dos Monarcas que ali repousam.

A partir desse dia comecei a aperfeiçoar a minha formação moral e tudo graças a um Homem extraordinário – polémico certamente para muitos – OBRIGADO: PADRE JOSE CORREIA DA CUNHA




Texto de : Rogério Martins Simões


1) - 1960 - Tomada de posse da Paróquia de S. Vicente de Fora na festa de Todos os Santos (1 de Novembro) ‘’ Fazei Senhor, que o nosso pároco saiba dar-nos sempre, o PÃO da Palavra e o PÃO da Vida! ‘’Pe. J.Correia da Cunha

2) Padre José Feliciano Rocha Alcobia - Pároco na Vigararia XI do Patriarcado de Lisboa.



3) António Maria Nunes Melo e Faro (1949-2004) homenagem em memoriam em 9 de Junho, neste blogue.




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domingo, 14 de junho de 2009

SANTO ANTÓNIO EM SÃO VICENTE DE FORA

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‘’O Santo do Mundo inteiro… iniciou-se em S. Vicente de Fora. ‘’



D. Afonso Henriques, como já referido no texto de Padre Correia da Cunha “O primeiro voto do primeiro Rei de Portugal”, mandou construir dois templos após a conquista de Lisboa aos Mouros.

A igreja de Santa Maria dos Mártires, onde Padre Correia da Cunha foi pároco nos anos quarenta, e local onde foram sepultados os cruzados ingleses e normandos. A igreja de São Vicente de Fora, onde Padre Correia da Cunha foi pároco de 1960 até 1977, no local que servira de sepultamento aos cruzados germânicos e flamengos.
Os sacerdotes que tinham vindo com os cruzados ficaram na cidade conquistada, exercendo posteriormente o seu ministério pastoral nestas igrejas.

D. Afonso Henriques, dado reconhecer a enorme importância que os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho tinham na renovação da igreja ocidental à época, intercedeu junto de D. Teotónio, prior de Santa Cruz de Coimbra para que este enviasse cónegos crúzios para S. Vicente de Fora, confiando-lhes este mosteiro.

Na verdade, os cónegos, que estavam desde o séc. VIII, comandados por normas próprias, sofrem uma profunda renovação nos finais do séc. XI, derivada da Reforma Gregoriana. O papa Gregório VII, ao contrário do que era o desejo dos monges, aponta-lhes não a retirada do mundo mas sim a sua conquista, procurando com isto incentivar todos aqueles que uma espiritualidade muito mais intensa e participativa contribuiriam para a renovação da Igreja, como aliás se viria a concretizar no Concílio Ecuménico de Latrão realizado entre 1123 e 1130.

Os cónegos regrantes de Santo Agostinho seguiam a regra escrita de Santo Agostinho, que os orientava de forma a viverem a vida espiritual num activo relacionamento com o mundo político, económico e cultural: uma nova aptidão de interferência de comunicação e até de assimilação. Iniciaram a sua presença em Coimbra, em comunhão estreita com o nosso primeiro Rei, operando logo no plano económico, agrícola e comercial. Coimbra tinha uma presença moçárabe e, por outro lado, ficava na rota dos fluxos de conquista e de migração que, deslocavam mouros e cristãos a necessitar de ajuda, onde era sentida a presença efectiva dos cónegos.







O objectivo dos Cónegos Regrantes era assegurar o bem comum, que como se depreenderá na Idade Média, se centrava no bom ordenamento das coisas espirituais. O serviço divino e a oração litúrgica eram considerados fundamentais à Comunidade. Em face disto havia necessidade de ser feita a aprendizagem e o ensino da Sagrada Escritura, tendo-se criado várias escolas canonicais, onde era ministrada a leitura e a escrita da Bíblia e dos ensinamentos da Igreja. Muitos cónegos iam frequentar outros mosteiros no país e até no estrangeiro, onde melhoravam a sua formação.

Hoje, através dos arquivos herdados das Ordens Religiosas, sabemos muito sobre o que se estudava nos mosteiros dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, nomeadamente em São Vicente de Fora e Santa Cruz de Coimbra. Ainda hoje se conservam obras da cultura monástica de São Gregório Magno, Santo Isidoro de Sevilha, Hugo de S. Vítor…

Quero hoje aqui referir a riqueza cultural auferida por Santo António nesta escola, que frequentou no Mosteiro de São Vicente de Fora no séc. XIII. Ali recebeu uma sólida cultura eclesiástica e humanística, que fica bem expressa nos seus Sermões Dominicais e Festivos. Lembro como em Santo António há um fenómeno curioso. Não é frade austero, não é teólogo assombroso: é um Santo alegre, folgazão e até brejeiro, daí certamente o grande afecto que o povo amorosamente lhe dedica.



No séc. XX, em São Vicente de Fora, um homem com uma fascinante inteligência e invulgar cultura foi um excepcional mestre que marcou a vida de milhares de jovens, ao longo de dezassete anos passados como prior da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. O mestre Padre Correia da Cunha, cuja competência, sentido humanista e espírito aberto atraiu o interesse a admiração de todos os jovens da Paróquia. Ainda hoje temos a grata recordação desse património, pela qualidade dos ensinamentos e do seu singelo estilo brejeiro de o transmitir. À semelhança de Santo António também tivemos o privilégio de ali recebermos uma sólida formação.
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sexta-feira, 12 de junho de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E OS SANTOS POPULARES

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´´ERA A UNIÃO PERFEITA DO SAGRADO E DO PROFANO´´




O mês de Junho era repleto de festas populares pelos típicos bairros de Alfama, Graça, Castelo e São Vicente de Fora…

Para Padre Correia da Cunha estas festas de Lisboa enchiam-lhe o coração de uma imensa alegria e satisfação. Para muitos alfacinhas, o Santo Padroeiro era Santo António. Padre Correia da Cunha aproveitava estas iniciativas para desfazer esse equívoco histórico, religioso e popular. O verdadeiro padroeiro da sua querida e amada cidade de LISBOA era São Vicente. Reconhecia a grande devoção popular a Santo António que nasceu nos alvores da nacionalidade portuguesa, numa casa diante da porta da Sé e entrou no Mosteiro de São Vicente de Fora (foto acima: imagem de Santo António com hábito de cónego regrante de Santo Agostinho pertença da Paróquia de São Vicente de Fora) para responder à sua vocação para cónego regrante de Santo Agostinho.

Todos em São Vicente de Fora tínhamos um longo convívio e uma profunda devoção a Santo António.
‘’ E se António era luz do Mundo, como não haveria de sair da Pátria? Saiu como luz do Mundo e saiu como Português. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, Portugal; para morrer, o Mundo. ‘’.
Lembro que é na Igreja de São Vicente de Fora que se encontram os restos mortais de sua mãe Teresa Taveira.







Padre Correia da Cunha gostava do seu povo, por isso fazia questão de congregar todos os seus paroquianos para estas tradicionais festas de cor, alegria e folia onde se sentia radiosamente confortável e feliz no seu meio.

Os arraiais dos Santos Populares, organizados por Padre Correia da Cunha, na Cerca do Mosteiro de São Vicente de Fora, eram de um enorme sucesso, chegaram a ser transmitidos em directo pela RTP, pelos encantos de decoração em honra de Santo António colocado pelo amor popular no seu grandioso trono e São Vicente sob a guarda dos corvos na sua grandiosa barca.
Estes festins possuíam barracas de diversões, jogos tradicionais, quermesses…. e um magnífico local para se saborear as belas e tradicionais sardinhas assadas, as saborosas febras assadas, o caldo verde… claro que estavam sempre por perto umas boas saladas mistas com pimentos e o bom pão. Para acompanhar as rainhas da festa Pe. Correia da Cunha providenciava sempre um magnífico vinho de categoria.



A festa só estava completa como muita boa música que o Padre Correia da Cunha seleccionava cuidadosamente para animar estes grandiosos festejos que nos envolviam numa mística de cheiros aos sons das belas marchas populares que conquistavam os corações de todos. Eram manifestações de muita alegria, no seu melhor e como era evidente tinham sempre um pé de dança à mistura.








 





















 

(baile na cerca do mosteiro de São Vicente de Fora )

Estas organizações permitiam angariar fundos para a Paróquia, pelo que isto congregava muitos dos seus amigos a colaborarem generosamente e activamente nestas suas iniciativas.

Os arraiais em honra de Santo António, S. João e São Pedro em São Vicente de Fora eram contributos essenciais para Pe. Correia da Cunha manter bem viva a confraternização da família paroquial e realçar o culto dos seus padroeiros e onde nunca esquecia de incluir sempre o jovem São Vicente.

Era principalmente no mês de Junho, ao longo do qual se celebravam os Santos Populares, que todos os elementos dos vários movimentos paroquiais entravam com grande empenhamento e labuta nestas animadas festas tão populares e assim contribuíam para a angariação de fundos para as actividades paroquiais.




Quem não se lembra destes arraiais de Padre Correia da Cunha? Se houver quem disponha de fotos ou imagens destes grandiosos eventos partilhe-os neste blogue.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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terça-feira, 9 de junho de 2009

ALA DOS AMIGOS DE PE. CORREIA DA CUNHA

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Os amigos que partiram…





IN MEMORIAM


ANTÓNIO MARIA NUNES MELO E FARO



1949-2004




António Maria Melo e Faro era natural de Lisboa, Freguesia do Socorro, nasceu no dia 9 de Junho do ano1949, foi um grande amigo de Pe. Correia da Cunha e merece ser recordado pelo seu empenhamento nas actividades que desenvolveu com total e generosa dedicação na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, como acólito, catequista e membro do Patronato de Nuno Álvares Pereira, onde era muito estimado e querido por todos os que tiveram o privilégio de o conhecer e de com ele conviver. Era um grande e leal amigo, muito alegre e genuinamente simpático para toda a gente.

António Melo e Faro era um jovem singular, de uma enorme nobreza e de uma total disponibilidade para ajudar todos seus amigos. Era muito apreciado pela sua inteligência apurada e rara, tendo-se revelado um excelente e brilhante aluno no seu percurso estudantil, com uma aptidão nata para as ciências, não esquecendo que com muita facilidade aprendia línguas, falando correctamente vários idiomas. Iniciou a sua instrução primária, na Escola do Patronato de Nuno Álvares Pereira, onde foi aluno da grande mestra Senhora D.Carlota.


É na Escola Naval que inicia a sua vocação pela técnica náutica, à qual dedicou parte da sua vida como distinto oficial. Creio que seja unanimemente reconhecido que o Capelão primeiro-tenente Correia da Cunha tenha sido modelo inspirador para este seu destino de dedicação à Marinha Portuguesa, com notabilíssimo desempenho e excelente competência de Oficial de Engenharia de Máquinas Navais, até o final da sua vida.

António Melo e Faro era um homem de espírito aberto e positivo, a sua morte não estava anunciada – ele não a aguardava, nem tão pouco os seus familiares e amigos. Chegou! Veio subitamente, sem avisar ninguém, silenciosa e traiçoeira, com tanta violência que seu ‘’grandioso coração’’ não lhe resistiu. São os insondáveis chamamentos do Senhor …

Foi companheiro de muitas horas de sã camaradagem e partilha de muita amizade que conservamos no silêncio dos nossos corações. É mais que justo prestar esta sentida homenagem ao Melo e Faro, em nome de todos os amigos de Pe. Correia da Cunha. Este sempre lhe manifestou muito apreço pelas suas qualidades intelectuais e de liderança, dedicando-lhe muita da sua sábia inteligência e perspicácia para o ajudar na sua previsível progressão de bom cidadão de sucesso e assim como de um cristão exemplar.

Foi no dia 21 de Fevereiro de 2004 que António Melo e Faro nos deixou. Fica-nos a sua memória, ele foi repousar na Glória de Deus. Hoje junto do Pai e de seu grande amigo Pe. Correia da Cunha, estão à nossa espera e entretanto continuarão a interceder por todos nós que não queremos nem podemos esquecer a sua lembrança.


Deixo para os comentários, de muitos seus amigos vivos, que deverão prestar a merecida homenagem à memória deste nosso saudoso e grande amigo de São Vicente de Fora e que teve um coração universal, do tamanho desse Mar sem fim, que tantas vezes cruzou.

São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixou em todos muitas saudades.


RECEBEI, SENHOR, NO REINO DOS JUSTOS O NOSSO IRMÃO.
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA O POETA

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Tu és no mundo o primeiro! Segue o teu rumo a cantar!




Padre Correia da Cunha tinha o amor da Pátria e o culto vivo pela memória de quantos a ergueram, engrandeceram ou mantiveram, em todos os campos, através dos tempos. Considerava que deveria ser fomentada esta cultura para servir de esteio seguro à continuidade do seu muito amado Portugal.

Escreveu este lindo poema para solenizar a memorável vida dos grandes marinheiros que ajudaram e contribuíram à elevação da dignidade desta sua ditosa amada e querida Pátria.

Padre Correia da Cunha foi um fascinado desde sempre pelo amor ao mar e à Marinha Portuguesa.
Aqui ficam porém, escritos estes versos da autoria do 1º Tenente Correia da Cunha, dedicados a todos os marinheiros que continuam a honrar os pergaminhos da Armada Portuguesa e permanecem exortando o amor ao nosso grande Portugal.


PORTUGAL MARINHEIRO

As ondas do mar infindo,
Andam todas a cantar.
Esse poema tão lindo,
Que Deus quis beijar o mar.

E o Mundo maravilhado
Por tal prova de grandeza
Ouve o mar enamorado
Cantando, como quem reza

Meu Portugal Marinheiro,
Noivo das ondas do mar,
Tu és no mundo o primeiro!
Segue o teu rumo a cantar!

Por sobre as ondas do mar,
Na formosa Nau da Glória,
Vai Portugal a traçar
Rumos novos à História!


Força os Portais dos Segredos
do Mar-Oceano fundo
E, vencendo antigos medos,
Dá novos mundos ao Mundo!


Na linda Nau Catrineta
Portugal se faz ao Mar,
Bom marinheiro e Poeta,
Deus o quer sempre a cantar.

O seu heróico passado
É bem digno de memória
E será por nós honrado
Com novos feitos de Glória!


Para o Capelão da Armada Correia da Cunha, a Marinha Portuguesa estava ligada intimamente aos grandes feitos da Pátria tendo escrito das mais belas e assinaladas páginas do historial lusíada.







Lembrava que a divisa da Marinha se encontrava inscrita sempre em local bem visível nos navios NRP que serviu: «HONRAI A PÁTRIA QUE A PÁTRIA VOS CONTEMPLA» e era assumida como uma vivência de toda a tripulação.









Há quem desconheça este seu dote artístico e apenas recorde o Pe. Correia da Cunha pelos palavrões que deixava escapar na sua linguagem de antigo e castiço marujo. Eram recursos extremamente válidos e criativos que dotavam o seu vocabulário de expressões que traduziam com maior fidelidade os seus mais fortes e genuínos sentimentos. Ele era do povo e tinha a linguagem deste, mesmo utilizando vulgarmente o latim. Muitas vezes dizia que estas expressões se manteriam um dia…porque a voz do povo é a voz de Deus.


Hoje quero comemorar com este lindíssimo poema e o seu poeta, homem de grande sensibilidade e refinada linguagem, cujo amor dos portugueses sempre enalteceu e se esforçou por manter e alargar aos jovens da Paróquia de São Vicente de Fora.

Honra e glória a Padre Correia da Cunha que foi exemplo de um grande marinheiro que se manterá vivo nos nossos corações. Pe Correia da Cunha soube utilizar como ninguém os recursos linguísticos apreendidos como marujo para nos ensinar, numa linguagem corriqueira, grandes valores de amor a Deus e ao nosso próximo e consequentemente à Comunidade Nacional.




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segunda-feira, 1 de junho de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA – OLHOS NOS OLHOS

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'Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se'.
(Gabriel García Marquez).





Velhos e bons tempos os das nossas infâncias e adolescências.

A felicidade com que víamos as nossas vidas era muito importante, para os nossos futuros sonhos de homens maduros e responsáveis na construção de uma sociedade de valores humanos e cristãos.

Na Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora havia amizade e cumplicidade entre nós, amigos, nos bons e maus momentos.

Brincávamos uns com os outros como nunca, aproveitávamos todas as oportunidades para estarmos juntos e confesso que até fazíamos algumas travessuras, que eram alvo de fortes reprimendas de Pe. Correia da Cunha, mas no fim corria tudo bem. Fomos educados pelo Padre Correia da Cunha a nunca denunciar o infractor. O importante era corrigir os erros e não crucificar o seu autor.

Lembro-me das tardes soalheiras de verão, soprando uma pequena brisa quente no Largo de São Vicente. Lembro-me da saudosa Tia Alice sentada na sua mesa, vendendo os bilhetes que davam acesso à visita do Mosteiro de São Vicente de Fora, com muita vaidade e grande orgulho pelos seus pequenos que ela ali via crescerem e que brilhantemente exerciam as funções de cicerones aos vários turistas que ali se deslocavam para visitar o Panteão da Dinastia de Bragança…

Lembro-me que a Tia Alice tudo fazia para nos manter unidos e a União fazia a força, conforme nos mostrava aquele belo painel de azulejos das fábulas de La Fontaine, existente no extenso claustro do mosteiro.

Que saudades que tenho daqueles tempos! A aventura estava sempre presente! Arranjávamos mil e uma maneiras de nos divertirmos e sob conselho da Tia Alice devorávamos livros de literatura clássica, história, religião e como não podia deixar de ser, os tão em moda nos anos 50/60, livros aos quadradinhos de cowboys. Com a ternura que sentíamos uns pelos outros aprendíamos a ser confiantes, e hoje sentimos um grande amor uma grande segurança para seguirmos esta vida com esses testemunhos no dia-a-dia. Que belos tempos ali passámos…e com as gorjetas dos turistas éramos economicamente ‘’independentes’’.






A Tia Alice, nos seus setenta anos vividos e passados ali, tinha uma vida de alegrias proporcionada pelos prezados e admirados jovens que a rodeavam. Triste desde da morte rude e prematura do seu querido filho adoptivo, Hermani (NA), a Tia Alice ficou só, carregando consigo o enorme desgosto de uma morte inesperada que lhe tirara o chão debaixo dos pés e que a consumia constantemente.

Restava-lhe a companhia dos imensos e adoráveis jovens que a rodeavam e a quem Tia Alice continuava a transmitir os seus valores de amor a Deus e ao próximo.

À semelhança de Padre Correia da Cunha, Tia Alice dizia que todos precisávamos de uma abraço bem apertado, para nos sentirmos gente, seres humanos, que têm coração que pulsa, que bate. Todos precisamos de ter bons amigos para convivermos e crescermos de uma forma sã e integral.

Tia Alice a todos acarinhava e isso ajudava-nos a sentirmos empenhados como construtores da amizade e fraternidade. O resultado era espectacular: Tanta jubilosa harmonia! Tanta verdadeira Paz!













Pe Correia da Cunha e a Tia Alice deixaram em todos nós uma herança perene, que ainda hoje perdura nos nossos corações muito agradecidos. Esta educação de valores fez de nós cidadãos activos e edificadores de uma sociedade fraterna.






Não éramos ricos, éramos remediados mas tínhamos orgulho de ter como Mestres esta boa gente que nos comunicava as grandes virtudes e os princípios da solidariedade, olhos nos olhos, por isso acrescentaria esta expressão de Gabriel Garcia Marques: um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se'.

É minha intenção prestar uma homenagem in memoriam a Maria Alice Fonseca Roque Alves (Tia Alice), querendo perpetuar o cimento da monumental obra de gratidão de todos os jovens de São Vicente de Fora de meados do século passado. Ainda hoje recordamos os seus sábios ensinamentos.






Todos devemos respeito à memória desta saudosa e querida amiga, de muitas gerações, que tanto carinho e amizade nos dispensou. Necessitava de informação sobre os seus dados biográficos e uma foto. Creio que haja quem possa ajudar a concretizar este meu propósito. Fico aguardar.



Grandes amigos dos velhos tempos este video é para ser admirado pelos saudosistas.
É dedicado aos bons tempos de uma juventude que não acaba e que será eternamente lembrada, recordada e celebrada.

João Paulo Dias