quarta-feira, 20 de novembro de 2013

PE. CORREIA DA CUNHA E A OBRA DO PADRE ABEL











 

«MÃOS QUE GUIAM, ORIENTAM,
PARTILHAM, SERVEM, ACOLHEM,
ACARINHAM, CORRIGEM, TRABALHAM,
 BRINCAM, SUSTENTAM E APONTAM
… SÃO OS PILARES DESTA
COMUNIDADE»

 

 

A obra da Imaculada Conceição e Santo António nasceu em 1952, face à realidade de miséria e exclusão social que o país vivia. Foi na igreja de Santo António situada junto da Sé de Lisboa, por iniciativa de um franciscano despojado de tudo, salvo do incomensurável amor pelas crianças – Padre Abel Henriques Correia Pinto. Um homem com grande conhecimento da fé, da verdade e do amor, tinha o coração aberto ao Mundo e nada queria para si. Confiava à providência divina a educação das suas crianças no caminho do Amor, que é o caminho do futuro!

O magnânimo fundador franciscano, entendeu que não se tratava de construir uma obra, para miúdos órfãos, filhos de famílias desfavorecidas e abandonados, mas uma FAMILIA para crianças.

Timoneiro desta grande FAMILIA, o Padre Abel na sua casa acolhia rapazes e raparigas, com idades compreendidas entre os 6 e os 18 anos. Lembro-me, que ele referia que nunca recusava uma criança pois havia lugar sempre para mais uma.



 
 
Em 1976, por iniciativa do Padre Correia da Cunha houve música, poesia, teatro e muita alegria… foi, sem dúvida um dia memorável que tive a oportunidade de participar e comprovar a forte amizade e laços de solidariedade existentes entre as crianças da Paróquia de São Vicente de Fora e as da grande família do Padre Abel Correia Pinto.
O Padre Correia da Cunha tinha um imenso e gratuito amor por esta obra do Padre Abel.Tomava as mais diversas iniciativas para que a paróquia de São Vicente de Fora auxiliasse estas crianças a terem uma instrução e educação, reconhecendo que eram sempre insuficientes os meios para as necessidades, daquelas centenas de crianças, acolhidas naquela providencial obra.
Passo a transcrever da Folha Paroquial de São Vicente de Fora, de Fevereiro de 1976, o anúncio da morte do “santo” Abel Correia Pinto (Pe) redigido pelo punho de Padre Correia da Cunha:



 
 
«O Padre Abel, todos sabem, morreu. Morreu no passado dia 4 de Janeiro, precisamente na véspera da festa que nós queríamos aqui fazer para as suas crianças da obra da Imaculada Conceição e de Santo António. Foi uma hora de luto e tristeza para aquelas crianças, para quantos conheciam aquela obra de Amor e nomeadamente para nós, paroquianos de São Vicente de Fora, que por diversas vezes, fomos a Caneças levar o nosso abraço e a nossa ajuda aquela grande Família e que na altura em que o Padre Abel Correia Pinto morreu íamos trazer cá as suas crianças, ainda lhes demos muitas roupas e quase $10.000 (dez mil escudos) em dinheiro. Lembram-se?
Pois o Padre Abel morreu. Mas a sua obra, fruto da caridade de um Santo, continua. E precisa, continuar a necessitar que todos saibamos viver em autêntica caridade, partilhando com ela o pouco ou muito que temos.
Hoje está à frente dessa obra o Padre Faria, também franciscano como o Padre Abel e com a mesma alma de apóstolo da caridade.
No passado dia 18, na festa, realizada nas Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento, para todas as crianças da nossa Catequese (e que foi um êxito), os próprios intervenientes na festa lembraram-se de repetir ou fazer uma outra para as crianças do Padre Abel.
Em princípio, está combinado fazer-se no dia 22 de Fevereiro. Vamos pedir à Direcção das O.G.F.E. licença para fazer no seu salão de festas (como foi a nossa). Esperamos e contamos com a boa vontade da Direcção das Oficinas e da sua Casa de Pessoal. Pensamos, pois trazer cá a São Vicente de Fora nesse dia 22 as crianças de Caneças da Obra do Padre Abel, que puderem vir.
Mas não basta fazer uma festa para elas. Sabemos todos que aquela obra não pode viver de festinhas, por mais bonitas que sejam. Também precisam de comer e de vestir ou de dinheiro para ajudar a vida daquela casa…


 
 

Por isso, pedimos a todos os irmãos paroquianos que ajudem, levem as nossas crianças a ajudar as outras e toda a nossa comunidade paroquial se empenhe seriamente a dar às crianças do Padre Abel tudo o que puder em roupas, calçado (em bom estado é claro – os pobres não são o caixote do lixo dos ricos) e dinheiro, além da festa que se lhes irá proporcionar.
Comecemos desde já esta Maratona de Caridade!
No cartório paroquial ou ao Prior pode entregar-se tudo o que quiserem dar para esta Obra tão querida!»

 
Foram muitos os anos em que o Padre Correia da Cunha ajudava com a colaboração da sua Comunidade Paroquial, as crianças da Obra do Padre Abel. Sentia uma imensa felicidade pelo brilho nos olhos daqueles miúdos.
Lanço um desafio a todos, que neste próximo Natal, juntem roupas dos vossos filhos e brinquedos que se encontrem em bom estado e experimentem a sensação de felicidade infinita destas crianças.






Descobri no Padre Correia da Cunha que aquela obra do Padre Abel o fazia sofrer imenso, pois não pode haver dor maior que crianças privadas de um ambiente familiar normal e sobretudo da falta de uma figura notável de carinho, bondade e generosidade incomensuráveis que só uma mãe verdadeiramente pode doar.

Há no amor da mãe portuguesa, o símbolo da abnegação, do carinho e do sacrifício. Em muitos momentos o ouvia trauteando letras de fados cujos acordes sentimentais o entristeciam e o sensibilizavam no íntimo da sua alma. O Padre Correia da Cunha bem traduzia essa alegoria nesses poemas de um fado que espalhava pelos claustros do Mosteiro na sua voz de fadista:
Eu vi minha mãe rezando
aos pés da virgem Maria,
era uma santa escutando
o que outra santa dizia.


Eu vi minha mãe rezando
numa prece doce e pura;
por todos estava orando,
com grande amor e ternura!

A minha mãe, ajoelhada,
aos pés da virgem Maria,
parecia a madrugada
ao romper de um novo dia!



Como um sol que vem raiando
vislumbrei com emoção:
era uma santa escutando
da outra santa, a oração!

Unidas, no mesmo amor,
a mãe de Jesus, ouvia,
com carinho e com fervor
o que outra santa dizia.


Embalando os sonhos meus
Nos braços de quando em quando
Seus olhos fitando
O infinito dos céus

A pedir por mim a Deus
Eu vi minha mãe rezando
O seu peito era um sacrário
Onde o amor refulgia

Presa a atroz agonia
Vendo o meu triste fadário
De lágrimas fez um rosário
Aos pés da Virgem Maria


E quando um dia, porém
Aos seus pés ajoelhando
Ele contava chorando
O travo que a vida tem 
Eu julguei que a minha mãe
Era uma santa escutando

O sonho e o desejo de um “Santo” Franciscano, continuam a sua missão de acolher crianças e jovens em situação de risco e a proporcionar a satisfação das necessidades básicas para o desenvolvimento integral dos membros da família do Padre Abel.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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terça-feira, 12 de novembro de 2013

PE. CORREIA DA CUNHA E O CASAL DE “BURLÕES”













PE. CORREIA DA CUNHA





QUALQUER PESSOA PODE SER

LUDIBRIADA EM SUA BOA-FÉ, NINGUEM

ESTÁ IMUNE.

MESMO QUEM DESEMPANHA FUNÇÕES BENÉFICAS AO SEU IRMÃO…

Havia quem gostasse de ficar só em casa, mas o Padre Correia da Cunha não era dessa opinião. Todas as noites eram agradáveis para sair para as fadistagens ou para jantares com os amigos, quando não havia compromissos com as actividades paroquiais.
Naquela noite, descíamos ambos a escadaria do Mosteiro de São Vicente de Fora, para irmos jantar num dos seus preferidos restaurantes da baixa pombalina. Esse espaço de influência beirã caracterizava-se pela qualidade e frescura dos produtos. Era um hino á arte da boa comida e bebida, confidenciava-me o Padre Correia da Cunha.
Eis quando fomos subitamente abordados por uma senhora, trajando roupas muitos simples e carregando ao colo uma criança de tenra idade num xaile, que a protegia do imenso frio, e outra que se lhe agarrava à sua saia. Disse numa voz singularmente educada:
- É o Senhor Prior?
O Padre Correia da Cunha olhou o relógio que marcava 20,30 horas. Porém, nunca deixava de atender os paroquianos que procurassem os seus cuidados. Era padre para estar ao serviço da comunidade e receber com disponibilidade total os seus paroquianos, num relacionamento de fraternidade humana. Não poderia de deixar de responder:
- Sou eu mesmo. Que deseja a estas horas com este imenso frio, esta minha santa senhora?
Em resposta ela apontou para o fundo do Largo de São Vicente, dizendo:
- Vem além, em passo de corrida, o meu marido e pretendemos falar com o Senhor Padre para marcarmos o Baptizado para este nosso menino.
- Ouve lá! Achas que são horas para vires pedir esse serviço? - Referiu o Padre Correia da Cunha com toda a paz de espírito baseado na humildade e na paciência cristã.
Fazia um frio de rachar e a ideia de estarmos ali parados não agradava nada ao Padre Correia da Cunha, para além de haver ali duas pobres criancinhas naquela gélida aragem.
Regressámos de novo ao Cartório Paroquial para que ali fosse prestada toda a atenção aquele modesto casal.
Segundo a descrição da senhora, o seu marido havia feito um imenso esforço, porque não dizer sacrifício, para poder estar ali aquela tardia hora. Trabalhava na Cruz Quebrada e só lhe foi possível largar o emprego pelas 19 horas.
Depois de todos estarmos sentados confortavelmente ao redor da imensa secretária do cartório, e do Padre Correia da Cunha já se ter munido de toda a documentação para o efeito, perguntou aos pais:
- Como se chama o menino? Agora, o nome do pai da mãe e morada.
A mãe respondeu de imediato a todas as questões e foi indicada a Rua da Voz do Operário, 21 – 2º Esq.


RUA VOZ DO OPERÁRIO - LISBOA


- Mas como diabo é possível morarem aqui tão próximo e eu não vos conhecer - referiu o Prior.
Volveu a mulher a esclarecer o reverendo:
- Vivemos aqui há pouco tempo.
- Está bem!
 Dirigindo-se ao homem perguntou-lhe:
- Qual a profissão do meu caro amigo?
- Sou radiotécnico.
- Que raio de profissão é essa? – Interrogou perplexo o Padre Correia da Cunha.
- Executo reparações em rádios e televisões.
Foi muito amável ter vindo aqui ao encontro do seu pároco - disse o Padre Correia da Cunha com uma voz de satisfação. Tenho aí um amplificador que faz parte da minha aparelhagem que deixou de funcionar. Será o meu amigo capaz de proceder à sua reparação?
Sem hesitação e de imediato proferiu:
- Com certeza! Essa é a minha principal profissão!




Fiquei na companhia do casal e das crianças no Cartório Paroquial, enquanto o Padre Correia da Cunha se dirigiu aos seus aposentos para ir buscar o amplificador da sua magnífica aparelhagem estereofónica de marca QUAD, que lhe havia sido oferecida por um amigo de grande estimação.

Não tardou cinco minutos a regressar.

- Cá está ele!

O radiotécnico observou atentamente o equipamento, referindo que aquele amplificador era de excepcional qualidade e que deveriam existir muito poucos no nosso país. Reconheceria ser no seu entender uma válvula queimada.

- O meu amigo radiotécnico é capaz de concertar esta preciosidade?

- Sem dúvida alguma, Sr. Prior!

Perante esta resposta, o Padre Correia da Cunha meteu a mão ao bolso do casaco. Para antecipar os custos do arranjo e para fazer face aos custos dos materiais necessários à reparação. Fazia questão de entregar em notas 30.000 escudos.

O homem disse que não era preciso pagar nada e devolveu-lhe o dinheiro. Mas o Padre Correia da Cunha num gesto de não concordância insistia em antecipar parte (?) do pagamento. A pessoa em questão parecia-lhe séria e merecedora da sua total confiança.

Tornou a insistir, rogando-lhe que aceitasse aquele dinheiro. O radiotécnico sentiu a necessidade de tranquiliza-lo a esse respeito dizendo:

- Quando lhe devolver o amplificador devidamente reparado, pagará na totalidade, pois como compreenderá não estou em condições de orçamentar os dispêndios dessa operação.






Finalmente o Padre Correia da Cunha fez sinal afirmativo com a cabeça e logo seguiram para o assunto que os levaria aquele Cartório Paroquial: o baptismo daquele menino.

Terminada a tarefa do preenchimento de todos aqueles formulários, o Padre Correia da Cunha referiu que os pais e padrinhos teriam de frequentar uma pequena acção de formação para o Baptismo. A primeira sessão teria já lugar no seguinte sábado, pelas 16 horas, na Sala do Conselho.

Terminados todos os esclarecimentos, o Padre Correia da Cunha encerrou o Cartório Paroquial. Por último, despediu- se do casal e o homem lá foi, transportando o amplificador de marca QUAD para reparação.

Mergulhado no turbilhão das muitas tarefas diárias que realizava na Comunidade Paroquial, Padre Correia da Cunha abstraiu o pensamento sobre aquela noite em que tinha passado para os zelos de um desconhecido, o seu amplificador QUAD.

Passados uns meses, o Padre Correia da Cunha, cismado e perplexo com a total ausência do casal de paroquianos, e dado que a data prevista para a realização do festivo baptizado já se encontrava mais que ultrapassada, convidou-me para irmos visitar a despretensiosa família e tomarmos conhecimento do que se teria passado para não terem comparecido na paróquia. Ele sentia que alguma coisa estava errada com aquela família que os impediria de realizarem o baptizado do menino.

Na sua companhia lá fomos calmamente, calcorreando a Rua Voz do Operário, na busca do número 21. Para nosso espanto, este número de polícia não existia. O semblante do Padre Correia da Cunha deixava-me aturdido. Era evidente que tinham mentido sobre o seu endereço. Era necessário tentar encontrar alguma pista que o casal “ burlão” tivesse deixado naquela rua e que pudesse ser utilizada para os desmascarar.

O Padre Correia da Cunha interrogou muitos paroquianos sobre o misterioso casal.  Tivemos pouca sorte em encontrar alguém que os conhecesse.

Já no regresso à Igreja Paroquial, num dos últimos prédios da rua, uma rapariga que estava à porta acompanhada de uma mulher, que deveria ser a mãe, deram-nos as últimas informações. Recordavam aquele casal pelas indicações fornecidas pelo reverendo.

- Eles foram-se embora, Sr. Prior!

- Sabem para onde?

- Nem qual diabo! - Respondeu a mulher mais velha.

- Apareceu aqui uma furgoneta e sumiram-se, sem me pagarem, o aluguer do quarto.

Sempre que o Padre Correia da Cunha, nos seus aposentos, olhava para aquela estrutura de talha dourada de um velho órgão setecentista, onde se encontravam os restantes componentes da sua magnífica aparelhagem estereofónica de marca QUAD; ficava silencioso, impressionado pela sua doce resignação, pois havia poupado 30.000 escudos. Não gostava de tocar naquele assunto, pois era doloroso ter perdido algo que lhe havia sido dado com tanta afeição pelo seu amigo do coração Rui Valentim de Carvalho (1931-2013).




RUI VALENTIM DE CARVALHO
Este empresário editor faleceu esta segunda-feira, 11 de Novembro de 2013. O Padre Correia da Cunha teve a sorte de o ter tido como amigo. Referia o reverendo que era para ele uma honra e uma distinção de ter conhecido este grande Senhor de cultura, possuidor de um bom gosto e de uma enorme sensibilidade artística e humana. Um perfeccionista que privou com imensos artistas e intelectuais, que atraía pela sua dedicação e carinho.


- Mas como diabo! Veio à Paroquia de São Vicente de Fora falsificando uma hipotética morada da Paróquia da Graça.

O mais espantoso é que este modesto casal de “burlões” praticou esta proeza, pela confiança que o Padre Correia da Cunha dispensou, pois nem se serviu do seu poder de insinuação e não foi aquele Cartório Paroquial para cometer qualquer irregularidade salvo a falsificação de morada.

Lembro que o Padre Correia da Cunha desejou ardentemente que pelo menos aquela inocente criança tenha recebido o Sacramento do Baptismo.

Para quem conheceu o Padre Correia da Cunha como eu, sabia que rapidamente superava estes acontecimentos como contingências terrenas. A vida para si só valia quando a colocava ao serviço dos outros.

Podiam as coisas sair-lhe ao contrário do que idealizava. Já nada o surpreendia nem lhe retirava a sua profunda crença no Homem. Era a força exclusiva da sua inteligência e vontade que lhe abriam sempre novas perspectivas, as dificuldades e adversidades eram ultrapassadas sem lhe retirarem a esperança.




“não poupava energias e roubava muito do tempo que seria de
repouso, talvez demasiado, mas um bom padre a vida é para se dar aos outros....”,

















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