domingo, 16 de fevereiro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E A MUSICA MODERNA















«A LITURGIA É EXPRESSÃO DE UMA VIDA… VIDA QUE NÃO EVOLUI, NÃO É VIDA»




No dia 17 de Agosto do ano de 1967, o jornal católico «Novidades» publicava um artigo com o título:  RELIGIÃO E LITURGIA «À VIOLA »?.


O articulista referia-se a uma Celebração da Palavra, acompanhada de música moderna, promovida pelo Padre Correia da Cunha na Igreja Paroquial de São Vicente de Fora.


Para o Padre Correia da Cunha, as “boas vontades” dos moralistas não podiam ficar sem resposta, quando havia a intenção de lançarem sobre si má-fé… Se esses falsos moralizadores querem fazer crer que estas para-liturgias são inaceitáveis e detestáveis pelo mal que podem fazer às comunidades cristãs, não podem ficar sem resposta.

Só ele mesmo podia defender, pelas palavras, a beleza e elegância destas acções litúrgicas efectuadas dentro das condições canónicas e do maior recolhimento e devoção.


Como sacerdote, mas sobretudo como filho de Deus, era livre e soberano para recusar ou aceitar. A sua vincada personalidade não o deixava levar para caminhos que não queria percorrer. Não era fácil pelas suas fortes qualidades de inteligência, morais e pelo seu forte carácter, vergá-lo…


O Padre Correia da Cunha considerou esse artiguelho carregado de maledicência e falsa moral. Indignado, de imediato escreveu para a redacção do jornal «Novidades» um texto que hoje trago à “luz do dia”, cheio de múltiplos registos dos seus saberes interdisciplinares.


É esse texto revelador da sua grandeza, coragem e ousadia, assim como da competência da sua observação crítica e rigoroso conhecimento da historiografia da música na Liturgia, que honrosamente publico.  





ARTIGO DO NOVIDADES



«RELIGIÃO E LITURGIA «À VIOLA»?




No sábado, 8, o nosso prezado colega «O Século» ilustrou uma sugestiva gravura com esta legenda:

“Um padre do seu tempo – o Rev. Lawrence Gron, prior da igreja católica do Sagrado Coração, de Rochester, nos Estados Unidos, é um homem moderno, que sabe como atrair e cativar os fiéis. Ei-lo, após a cerimónia de casamento do cançonetista Raymond  Defendorf, acompanhando à viola um animado terceto de que ele próprio é um elemento. A igreja acompanha o tempo até nestes pequenos pormenores».

No domingo, o «Diário de Noticias» ilustrava três eloquentes gravuras com estes dizeres:

«Liturgia para jovens em São Vicente de Fora – Música moderna numa cerimónia religiosa – A igreja estava repleta. Gente de todas as condições. Mas quem verdadeiramente reinava ali era a juventude. A força, a alegria e a seriedade da juventude eram quem enchia a igreja.

Através dos cânticos em que o Senhor foi louvado com emoção elevaram-se as almas juvenis de quantos assistiam. As palavras disseram de uma crença forte e a música liberou a alegria contida nos corações que a fé torna confiantes. Realizou-se ontem, na bela igreja de São Vicente de Fora, às 21,30, uma celebração «Liturgia para Jovens». O acompanhamento esteve a cargo do Conjunto Moderno da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro.

 O rosto dos assistentes transfigurou-se, ganhou novas expressões animou-se e nem um só momento se deixou de exaltar o Senhor. Experiencia feliz. É uma inovação, mas donde nem um só momento se excluiu um profundo respeito religioso, um verdadeiro sentido do divino. Uma cerimónia religiosa acompanhada por música moderna executada por um conjunto moderno. Cada época tem a sua face. A Igreja tem feito o esforço louvável de congraçar os seus altos ideais com o nosso tempo. E a juventude é o futuro. Se ela ama a sua música, aquela que ela faz, porque há-de essa música, porque há-de essa manifestação do espirito – porque o é, seja qual for a forma de se exprimir – enfim, porque há-de a música moderna ser expulsa do templo? Cada época tem a sua fisionomia, as suas características e a sua sensibilidade. Em São Vicente de Fora a igreja acolheu ontem um conjunto moderno que tocou música moderna».


Na segunda-feira as «Novidades» comentavam assim um artigo do Bispo de Verdun sobre a peregrinação do Papa a FÁTIMA:


«Também entre nós não falta, quem olhe com impertinentes reservas, as peregrinações, sem exceptuar as de Fátima. É uma tendência para o angelismo que nos parece arriscada. E não será de estranhar que os mesmos que se opõem a certas expressões de devoção popular sejam os que apoiam com entusiasmo (e apenas imitando experiencias estrangeiras, muitas delas rotundamente malogradas), o teatralismo exótico da música YÉ-YÉ executadas dentro dos templos católicos e oferecida especialmente a uma juventude que aceita por igual o mau gosto das cabeleiras hirsutas e o desplante das mini-saias? O povo das aldeias não conhece, certamente, as últimas teorias dos teólogos e a todas as aventuras, por mais pitorescas que sejam, ainda prefere o canto popular religioso que a Constituição sobre a Sagrada Liturgia diz se promova entre os fiéis. Mas, nas peregrinações religiosas, sabe rezar, cantar e fazer penitência como ninguém.


Para tanto, não precisa de ensaiar outros ritmos que não sejam os da sua terra, e que serão sempre os que melhor exprimem a sua fé, as suas angústias e as suas alegrias.


Prosseguindo: «Ontem, recebeu o Santo Padre 6 mil pequenos cantores de 30 países, que em Roma, participaram no IX Congresso da sua Federação Internacional. Na alocução que lhes dirigiu em italiano, francês, inglês, espanhol e alemão, declarou Paulo VI na Basílica de São Pedro: “ O Canto é a nossa oferenda a DEUS. Deveis esforçar-vos por conseguir que esse dom seja tão belo e tão atraente quanto possível. É a vós, grupos corais que está confiada a bela missão de conservar entre o povo cristão o uso do canto gregoriano, a que se juntou agora – sem substituir inteiramente – o canto na língua materna». A concluir: «Porque se tratava de grupos corais bem conhecidos pela sua disciplina e pela harmonia das suas vozes, não precisou o Papa de os acautelar contra o uso de certos instrumentos que só podem utilizar-se no culto divino, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente».






CARTA DIRIGIDA AO JORNAL «NOVIDADES»



Meus Caros Senhores

Por via de regra, leio os jornais em diagonal, pois falece o tempo para mais. (Há tarefas mais importantes e urgentes a realizar). Apesar isso, calhou ler ontem mesmo o artiguelho no «NOVIDADES», que assino na ilusória esperança de o ver um dia verdadeiro jornal católico, pagando honradamente cada semestre.


Pois logo que li o tal artiguelho, me deu vontade de escrever à redacção do jornal e pôr os pontos nos “ís”.


Reconsiderando, porém, reconheci não valer a pena. Como já disse, o tempo não me chega para coisas mais urgentes e importantes. Por outro lado, sinto-me, de facto, velho, cansado e doente. Uma colite assanhada não me deixa as tripas sossegadas; o reumatismo enferruja-me as dobradiças das articulações, e a tensão arterial anda por alturas perigosas.


Acontece ainda que continua a ser verdade que a caravana passa…

Realmente não valia a pena.

Mas perante a vossa solicitude amiga e porque uma carta tem sempre resposta deixem-me desabafar comigo, resumindo-vos o que, na altura, me ocorreu escrever para o «Novidades».


Até nesta atitude, se podem ver sintomas de caturrice de velho…Mas falo a amigos que decerto, me compreenderão… desculpem.

Aí vai.


1.     A propósito de «teatralismo exótico» da música “YÉ-YÉ” executada dentro dos templos católicos… muito haveria a dizer. Mas limitemo-nos.

Não somos dos tempos famigerados em que se usavam, como litúrgicos, livros intitulados “Teatro Eclesiástico” e todos sabemos como o Teatro profano tem fundas raízes no Teatro Religioso e até Litúrgico da velha Idade Média.

Ainda hoje e sempre assim será, graças a Deus, qualquer função litúrgica tem o seu quê de teatral, na mise-en-scène, nas atitudes, nos gestos, no vestuário etc.

Estamos pois, habituados ao teatralismo mais ou menos exótico dentro dos nossos templos, graças a Deus repito.

Mas, decerto, o articulista referia-se ao teatralismo da música, não ao teatralismo da acção a desempenhar na igreja. Pois também estamos habituados a um teatralismo e não me consta que daí venha mal ao mundo.

Reparem, Nós (para falar só de factos do nosso tempo) ou
vimos e cantámos muitas vezes no nosso querido Seminário de Santarém música de ópera, de operetas e talvez de zarzuela naquela linda igreja. A letra é que pretendia ser poema em honra de Nossa Senhora e de São Luis de Gonzaga. Nas igrejas de Lisboa e até na Catedral em qualquer festividade se ouvia o consagrado Araújo - o mestre cantor – cantando árias magníficas em latim ou português, em vez de ser em italiano como se cantava em São Carlos.

Teatralismo exótico… mas era assim e toda a gente gostava e ía ouvir.

Depois, com a Escola do Seminário dos Olivais, dá-se uma revolução… francesa entre nós, mas como aconteceu à outra, à grande, também esta vem com 50 anos de atraso. E o Canto Gregoriano rejuvenesce e a polifonia clássica também.

É um encanto. Toda a gente segue a nova moda, vai ouvir, gosta e, com mais ou menos arte vai imitando vai repetindo.

Teatralismo exótico… Toda aquela música enforma letra latina. Poucos, muitos  poucos percebem. Mas era bonito, era de bom gosto, era moda. Simplesmente tão exótico que o Concilio Vaticano II, embora concorde com a beleza artística daquele teatralismo exótico, aconselha e insiste por que o Santo Povo de Deus participe na Liturgia activa e conscientemente preferido, portanto, o vernáculo.

Tanto assim que em toda a parte os Pastores Responsáveis criam Comissões de Liturgia e de Pastoral para levarem o Povo aquela participação viva, activa e consciente. E o resultado foi, para já, a introdução das línguas vivas na liturgia oficial da Igreja.

Tudo isto por causa do tal teatralismo exótico, ou melhor do exotismo teatral.

Ora acontece que, pelo menos que eu saiba, não estávamos preparados para esta abertura tão rápida. Passamos todo o tempo disponível a lançar o teatralismo exótico do Canto Gregoriano e a Polifonia Clássica e não pudemos dedicar-nos ao estudo sério e profundo das fontes da água viva da vida litúrgica.

Por isso fomos apanhados de surpresa. Actualmente não temos música à altura das funções litúrgicas. É um facto que ninguém contestará apesar da reconhecida boa vontade de alguns músicos compositores.

Nem isso é de estranhar. A coisa não nasce de um dia para o outro. Serão precisos muitos anos de tentativas e experiencias para se chegar um dia a ter uma música com caracter mais ou menos litúrgico. E pode muito bem acontecer que, quando se chegar a essa afirmação comece a esboçar-se moda diferente. E até no que diz respeito à letra ninguém está satisfeito com as versões oficiais e oficiosas.

De resto, tem de ser mesmo assim. Pois, se a liturgia é expressão de uma VIDA, vida parada, vida que não evolui, não é vida.Mas perdoem estas considerações à val d’oisear e sobre tema aparentemente diverso que tratamos. O que fica dito tem apenas a pretensão de mostrar que o teatralismo exótico ou não sempre existiu e há-de existir nos tempos. E é só exótico quando aparece dúvidas à nova forma de que se reveste.






Foto do Blogue MAR DA PALHA



12.  Passemos, pois à tal música “YE-YE” visto ser ela a pedra de escândalo do articulista.
Pessoalmente a tal música não me encanta, mas também não me repugna dentro dos templos, desde que executada com sincera devoção e enformando uma letra digna do SENHOR e dos mistérios que celebramos.

Não é verdade que ficámos maravilhados com o Mons. Sabino ao órgão e o Padre Joel a cantar a solo lindas árias em latim?

Já falei disso e do que se fazia por toda a Lisboa, incluindo a SÉ. Não era preciso repetir mas lembrei as valsas, como o cântico:

No céu a irei ver,
No céu, que feliz dia!
Sim, irei ver Maria,
Meu Bem e meu Prazer!

(Só de recordar, que horror! Como foi possível?! Mas foi. E ainda é infelizmente.)

As marchas, mais ou menos marciais como o “ Queremos Deus”, o “Salve, Nobre Padroeira”, o “ Coração Santo, aqui nos tens prostrados”

Os tangos como:
Ó Virgem Sacrossanta
Ó Virgem, bela e pura
Santos Anjos e Arcanjos

Isto só para amostra, porque tudo o mais… Santo Deus!...

E o que é certo é que cantávamos ( e cantamos ainda tudo isso com devoção esquecendo até a letra piegas, desenxabida e todas essas cantigas ao Divino (como diria Monsenhor Pereira dos Reis) .

No fundo, é tudo questão de moda. Ora desde que a moda não seja intrinsecamente má, porque não a pôr ao Serviço de Deus?

É claro que também não gosto das “cabeleiras hirsutas” nem do desplante das “mini-saias”. Mas épocas têm havido e virá haver, de cabelos compridos mais ou menos hirsutos e … porcos, e também tem havido, há, e virá a haver tangas em certos lugares. Pois, precisamente por isso as tais cabeleiras e mini-saias são uma moda, infeliz é certo, mas moda que, Graças a Deus, não tem pegado entre nós. É certo que há por aí um ou outro rapazola mais ou menos guedelhudo e uma ou outra saia mais ou menos mini mas a moda não pega, estou certo. Senão é ver como, mesmo nesta cidade de muitas e desvairadas gentes, são olhados e apupados os estrangeiros que se apresentam nessas tristes figuras.




Este porém é outro assunto. E não se deve misturar nem confundir. Como na velha Escolástica é preciso saber distinguir. Não é legítimo identificar essa gente com um ritmo mais ou menos trepidante nascido de uma forma religiosa – o espiritual negro – é praticado às vezes e também por gente de cabeleira hirsuta e de mini-saia, pois a verdade é que toda a gente nova de hoje canta o tal “YE-YE”.


Este facto, porém deve-se talvez (é estudo a fazer, mais do que às cabeleiras ou mini-saias), à vida febril, agitada, trepidamente, de velocidade supersónica, sem tempo para a deliciosa sesta dos nossos avós, da nossa época em que todos, sem excepção, gostávamos de experimentar vivencialmente as facilidades inventadas por uma técnica prodigiosa.

Talvez a coisa (ou a crise, como quiser) seja mais séria e profunda do que parece ou é capaz de entender o articulista do nosso jornal católico.

O que a ele e a todos (me parece/será de meditar é a seguinte questão):

- Devemos ou não aproveitar o gosto da época (em si mesmo nem bom nem mau – antes pelo contrário) e encaminhá-lo para Deus, tal como se deve aproveitar a impossibilidade, o desejo de autenticidade, a insatisfação e a generosidade da juventude para a levar às montanhas da Santidade?

O necessário, parece-me, é saber aproveitar a moda transitória para levar as almas aquém e aquilo que permanecem para Sempre.

Ou será preciso lembrar-lhe como se enchia a igreja do Seminário de Santarém da estudantada do Liceu quando se cantava aquelas operetas?

Pois se hoje se gosta de música diferente, porque não dar-lhe com um sentido mais alto enformada por uma letra cristã e fazendo- a integrar nas Celebrações que desejamos mais participativas, vivas, activas e conscientes.


Padre José Correia da Cunha




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Era um adolescente, mas ainda hoje me lembro daquela noite de 9 de Julho de 1967, na igreja de São Vicente de Fora.


O Padre Correia da Cunha era para mim um grande ídolo. Ele era um obstinado pela música e arte de boa qualidade.


Aquela noite foi para mim um fraterno convívio. A família paroquial reuniu-se à volta de um singelo altar, para em espírito de alegria, louvar o Senhor, cantando ao som de música moderna.


Já aqui recordei aquela noite em que todos os participantes cantavam num ambiente de júbilo. Texto que intitulei: O PADRE CORREIA DA CUNHA E O YÉ YÉ.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E A MISSA NA MESSE













MESSE OFICIAIS - CAMPO SANTA CLARA


"A EUCARISTIA É ESSENCIALMENTE UM

 ACTO COMUNITÁRIO, CELEBRADA EM

 ESPÍRITO DE FRATERNIDADE E DE 

PARTILHA."







«Esta Igreja com a qual devemos “sentir” é a casa de todos, não uma pequena capelinha de pessoas seleccionadas…».


É com as palavras do Papa Francisco que dou início a este breve texto sobre um preciosíssimo documento redigido pelo Padre Correia da Cunha e que hoje trago a público.



O perfil intelectual do Capelão Civil do Exército, Correia da Cunha, demarcava-se da maioria dos clérigos da sua época. Pode-se dizer que o Padre Correia da Cunha recolhia em si as qualidades características de uma figura de grande envergadura moral e cultural. Ele próprio se reconhecia como um elemento estranho no “ninho” da capelania castrense.


A sua nomeação, por portaria ministerial, nunca foi bem acolhida, tendo mesmo originado alguma inveja, o seu talento de líder. Nunca frequentou os cortejos dos bajuladores pelo que era “perseguido” por alguns insignificantes rivais.


Os seus intuitos no exercício da vida sacerdotal eram norteados pelos mais nobres valores: Servir a Comunidade, atendendo às necessidades dos homens seus irmãos e realizar com a maior dignidade os actos litúrgicos.







É óbvio que não podia aceder a uma petição que o desonrava e o levava a cair no ridículo… É explícito na exposição abaixo transcrita a sua rigidez de princípios assim como a clareza e justeza do seu pensamento.


Revela-se também um homem amargurado e cansado pelo sofrimento. É da sua amada paróquia que pretende partir para prestar contas ao Senhor.



Reconhecia-se um grande pecador mas preparava-se para obter a paz na vida eterna. Mas era nato nele, a luta para contrariar os poderosos interesses e paixões de alguns que por falta de dons e virtudes o queriam lançar na humilhação.
Adoração só perante o Senhor de Misericórdia que o inspirava a viver de coração aberto no serviço aos irmãos.


Este documento que hoje publico apresenta o Padre Correia da Cunha como um acérrimo defensor da sua Comunidade Paroquial, que lealmente serviu. É esse seu amor, e as suas muitas marcas, que queremos manter indeléveis para a posteridade.





E X P O S I Ç Ã O



Pelas 11 horas de hoje, dia 17 de Janeiro de 196_, fui procurado pelo Chefe do Serviço de Assistência Religiosa do Quartel General de Lisboa (CSAR  do Q.G), um Senhor  Major ,  que, por incumbência do Chefe do Serviço de Assistência Religiosa, um Senhor Tenente Coronel, me vinha dar conhecimento de uma determinação em que eu seria envolvido.



Invocando a sua dupla qualidade de CSAR do Q.G. (e, portanto, com obrigações e poderes de vigário forâneo, a que estou subordinado e de bom, sincero e leal amigo (com que muito me honra), veio comunicar-me verbalmente o que, em resumo e por alíneas, passo de seguida a escrito:



1º - Que Sua Exa. o General, cujo nome indicou, mas agora me não ocorre, desejava que, na Capela da Messe dos Oficiais de Santa Clara, se celebrasse habitualmente Missa aos Domingos e dias santos de guarda;



2º- Que Sua Exa. se tem mostrado de uma extrema correcção e da mais solícita compreensão e boa vontade na solução de casos e situações melindrosos na vida e na acção de alguns Padres-Capelães do Exército, pelo que se lhe estão devendo preciosos favores a eclesiásticos e, por consequência, seria de boa política satisfazer-lhe este seu tão piedoso desejo;



3º - Que eu, como padre contratado para capelão do pessoal de três estabelecimentos militares da área de que sou pároco (entre eles a referida Messe), devia encarregar-me dessa celebração pessoalmente ou incumbindo dela outro sacerdote;


4º- Que a referida celebração seria de grande proveito espiritual sobretudo para os empregados da Messe cujos horários de trabalho são muito absorventes;


5º - Que a hora mais conveniente para o serviço da casa seria dez da manhã ou seis da tarde;



6º - Que ele próprio, CSAR do Q.G. já por lá passara para se inteirar do que fosse necessário (paramentos, alfaias etc.) para se começar, dentro em breve, a dita celebração, dando claramente a entender que aquele piedoso desejo de S. Exª. o General deveria ser tido como um ordem vinda  até mim pelas vias canónicas da orgânica castrense;



7º - Que, embora ele próprio (CSAR do Q.G) não simpatizasse com a ideia de tal celebração, não sentiria grande relutância em convidar um sacerdote (e pagar-lhe) para o substituir, se fosse ele o implicado no caso, dando como razão (que aliás, lhe fora apontada por canonista seu amigo) o facto de, mesmo depois do Concilio Vaticano II, haver missas em capelas, mais ou menos privadas, de freiras que, naturalmente, deveriam ser os elementos mais conscientes e activos das comunidades paroquiais;


8º - Finalmente, que a minha acção pastoral junto do pessoal dos estabelecimentos militares a meu cargo tem sido praticamente nula. Note-se que, neste ponto o Senhor Major se mostrou amigo discreto, delicado e caritativo, tocando apenas ao de leve este assunto, de sua natureza um pouco melindroso, e assegurando-me a sua generosa e frequente intervenção em meu favor e defesa.


Esta a comunicação que me foi feita.


CAPELA - MESSE OFICIAIS ST. CLARA



II – ALGUMAS CONSIDERAÇÕES GERAIS MAIS OU MENOS A PROPÓSITO.


1ª Consideração:


Conheço há muitos anos a Capela da Messe dos Oficiais. Trata-se de uma pequeníssima sala, onde não cabe, de pé, uma dezena de pessoas; escondida humildemente (como é próprio de tudo o que é religioso) no recanto terminal do corredor que dá para o Bar da Messe, e, por sinal, bem perto dele (apenas a uns três metros do seu balcão).


Em caso de necessidade (e teria de ser sempre que houvesse missa), poderiam abrir-se as suas portas (que dão precisamente para o referido corredor), ganhando-se assim o espaço de mais uns quatro ou cinco metros quadrados.


Tem o altar encostado à parede e enquadrado numa espécie de retábulo de talha dourada, onde se vêem colocadas em pequenos nichos ou mísulas algumas imagens (talvez mais numerosas do que seria para desejar, e algumas delas a desdizer do conjunto).


Na realidade, a dita capela não passa de um oratório doméstico, familiar, muito ao gosto da época em que foi construído o palácio (Séc. XVIII) e muito tradicional nas casas nobres ou solarengas, como é o caso desta, que, se não foi residência do Cardeal Mendonça, pertenceu, pelo menos, à sua fidalga família cujo Brazão ainda ostenta na fachada principal.


2ª Consideração:


A igreja de São Vicente de Fora é sobejamente conhecida, e, por isso, dispensa qualquer descrição. Toda a gente sabe que é um dos templos mais grandiosos, espaçosos e amplos da Capital, e que dista da Messe dos Oficiais de Santa Clara, cerca de uma centena de metros.


3ª Consideração:


A Paróquia de São Vicente de Fora é constituída por uma população que não deve de ir além de umas dez mil almas. Na generalidade, gente pobre, de humilde condição, do ponto de vista social, e, do religioso, gente de um cristianismo caracterizada mente tradicionalista e individualista, que, na teoria e na prática, condiciona e subordina a sua vida religiosa aos interesses, conveniências e apetites da sua vida humana.



4ª Consideração:


A situação geográfica da Paróquia também merece uma palavra.


Está esta freguesia encravada numa faixa de terreno praticamente a meio da vertente de duas montanhas – Graça e Monte Pedral. É limitada, a norte, pelas paróquias da Graça e de Santa Engrácia; a nascente, pela de Santa Engrácia; a sul e poente, pelas de Santo Estevão, São Tiago e Graça.






A matriz de São Vicente de Fora está situada no extremo poente da área da freguesia, tendo, para trás (no sentido nascente) enormes espaços: - uns absolutamente livres (Mercado, Feira da Ladra e Jardins), outros ocupados por instituições diversas, todas mais ou menos desligadas da vida da Comunidade Paroquial, praticamente isentas. Estão neste caso:


- A Secção Feminina da Casa Pia, com Capelão privativo ( um padre Salesiano),
- As Escolas Primárias Oficiais e Particulares,
- A Messe dos Oficiais de Santa Clara, (a meu cuidado)
- As Oficinas Gerais de Fardamento ( a meu cuidado)
- A Fábrica de Santa Clara (a meu cuidado)
- A Direcção da Arma de Artilharia,
- A Direcção da Arma de Engenharia e os Tribunais Militares, no mesmo edifício,
- O Hospital da Marinha, com capelão privativo,
- O Liceu Nacional de Gil Vicente, com os seus professores de religião e moral,
- O Panteão Nacional.



(O Estado Maior do Exército e o Museu Militar já não pertencem à Paróquia)
Perto da Matriz de São Vicente de Fora e para o lado noroeste, temos:


- A Voz do Operário, instituição estatutariamente laica, a cujas Escolas Primárias a Paróquia oferece (e paga) uma Professora de Religião Moral para cerca de 500 crianças pertencentes, na sua grande maioria, a outras paróquias da cidade,


- A Cadeia das Mónicas, cuja capelania está a cargo dos Padres Beneditinos da Graça, decerto por se ter reconhecido a impossibilidade de uma assistência eficaz por parte do respectivo Pároco.


De toda esta descrição importa sobretudo registar:


- A grande extensão da Paróquia no sentido nascente-poente com enormes áreas livres ou instituições desligadas da Comunidade Paroquial,


- a sua situação numa vertente de acentuada inclinação no sentido norte-sul, com as mesmas zonas livres ou com as instituições no meio.


Pode dizer-se que esta Paróquia é constituída por um grande espaço livre rodeado de aglomerados populacionais, na sua periferia, com difícil acesso à sua igreja.


CAPELA STº ANTÓNIO - VALE SANTO ANTONIO


5ª Consideração:


A existência de capelas abertas ao culto público nesta zona afecta naturalmente a vida da Comunidade Paroquial.



É o caso da capela do Hospital da Marinha (dentro da Paróquia) e a do Vale de Santo António (fora dela), ambas de mais fácil acesso precisamente para os habitantes dos agregados mais populacionais. Assim: a primeira para os das Ruas do Paraíso, do Mirante, dos Caminhos-de-ferro, das Calçadas do Cardeal e do Forte; das Travessas entre a Rua do Paraíso e o Panteão Nacional, e ainda para os da parte sul do Campo de Santa Clara; - a segunda, para os habitantes da Rua Diogo Couto, Rua Leite de Vasconcelos, Quinta do Ferro, Travessas atrás dos Tribunais Militares, Rua Senhora da Glória e parte da Rua do Mirante não abrangida pela influência da Capela do Hospital da Marinha.


Acrescente-se a tudo isto a última divisão das paróquias da cidade que, não respeitou a técnica socio-religiosa nem as tendências naturais dos agregados populacionais, e, por consequência, não teve na devida consideração, além de outros factores, os velhos hábitos e as maiores facilidades de acesso, não favorecendo assim em nada a constituição e vida desta Comunidade Paroquial.


6ª Consideração:


Apesar do que fica exposto nas considerações anteriores, durante estes últimos anos procurou dar-se a toda a paróquia consciência séria da necessidade de se constituir em comunidade viva e das consequentes exigências de uma tal comunidade. E parece que alguma coisa se tem conseguido.
Com modéstia ou sem ela (Deus sabe), creio poder afirmar-se que só quem conheceu antes esta comunidade é que poderá avaliar dos trabalhos e canseiras exigidos para ser o que agora é, mesmo sem deixar de ter em conta tudo o que se deve ao movimento geral de renovação cristã da Diocese.




III – CONCLUSÃO E RAZÕES



Em vista de quanto fica dito e aplicando-o ao caso concreto que me foi presente pelo CSAR do Q.G. de Lisboa, parece-me (salvo melhor opinião) que não é de forma alguma conveniente dar-se despacho favorável ao piedoso desejo de Sua Exa. o General, pelas seguintes razões:



a)     – A exiguidade e pequenez do espaço utilizável para uma celebração viva e digna que permita um mínimo de participação a todos os que, trabalhando ou estando hospedados na Messe, desejassem participar na Missa.


b)     - A facilidade que todos os funcionários e hospedes da Messe têm de aproveitarem dos serviços da Matriz Paroquial: - A igreja está a dois passos; há quatro Missas aos domingos e dias santos (ás 8 horas, às 10 horas, às 12 horas e às 18,30 horas); os restantes serviços paroquiais funcionam diariamente às horas normais (e, às vezes, até anormais, como aconteceu com alguns funcionários da Messe que, para tratarem da documentação para o seu matrimónio, foram atendidos depois do jantar).

No entanto, para maiores facilidades quer do pessoal quer dos hóspedes, talvez fosse suficiente uma coordenação de horários, tendo na devida conta (evidentemente) os interesses gerais da Paróquia.

c)     – A conveniência (ou talvez mesmo necessidade) de congregar todos os Cristãos em comunidades maiores e, portanto, mais aptas a satisfazerem as exigências básicas da sua vida sócio religiosa, corrigindo assim eventuais excessos de tendência individualista que tendem a querer formar de pequeninos grupos comunidades autónomas.

Creio ser esta a doutrina e o espírito do Concílio Vaticano II e do próprio Direito Canónico (Cf. Lit. 24 e 42; Can. 216 § 1º e §3º).

d)    – Os males (ou, pelo menos, os inconvenientes) derivados do parcelamento ou divisão de uma comunidade já de si tão inclinada a uma prática religiosa individualista e desagregada (como ficou apontado nas considerações 3ª, 4ª e 5ª).

e)     – O respeito devido pelos direitos dos não católicos que, no caso de vir a celebrar-se Missa no local e nas condições apontadas, poderiam sentir-se privados do direito de irem ao Bar, quer por imposição superior (o que seria um mal), quer por exigência da boa educação que manda não perturbar quem esteja num acto religioso (o caso de quem estivesse no corredor assistindo à Missa).

Em qualquer das situações haveria a possibilidade de se incorrer no perigo de provocar atitudes menos reverentes, censuras e remoques da parte dos hóspedes não católicos.

Nem se diga que esta razão é improcedente, pois só quem não frequentou nunca uma Câmara de Oficiais é que não sabe como eles (mesmo católicos) são ciosos dos seus direitos e prerrogativas.

f)      – A exigência intrínseca da própria Celebração Eucarística – Mistério da Fé, por excelência – que para nós, Cristãos, continua sendo a reapresentação de um modo especial e único, da Obra da nossa Redenção e Sacramento – sinal eficaz – da dupla união dos Fiéis com Cristo e entre si. Numa Paróquia, portanto, parece que a Celebração Eucarística deverá ser o Sacramento – causa eficiente e sinal eficaz – da própria Comunidade Paroquial (Cf. Epis. 30, Lit. 47, Presb. 13 etc) e nunca ocasião de menos união.

g)     – A conveniência (ou mesmo necessidade), a meu ver muito actual e urgente, de os Cristãos mais favorecidos ou mais esclarecidos ou de melhor posição ou situação social darem testemunho vivo de interesse pessoal e activo por valores mais altos que os de uma piedade individual ou de um comodismo fácil, mesmo à custa de um ou outro sacrifício (como o de terem de sair de casa para participarem na Celebração Eucarística).

Estas as razões que me saltaram da pena quási espontaneamente e servem de fundamento à minha opinião pessoal sobre o assunto.


Com a devida vénia, permito-me sujeitá-las ao alto critério dos meus Superiores Hierárquicos.


Quanto à delicada, discreta e caritativa insinuação do Senhor Major, por mim claramente exposta na última alínea do resumo da sua comunicação, peço licença para a não abordar por agora. São 7,30 horas da manhã. A noite foi dura; e a certeza dos muitos trabalhos que me esperam ordinariamente e sobretudo nos fins-de-semana (a que julgo bem mais importantes que a minha reputação), levam-me a pedir dispensa de dar explicações dos possíveis motivos de tal insinuação, a não ser que me sejam superiormente exigidas, e, nesse caso, procurarei cumprir.



Ao terminar esta exposição, não quero deixar de pedir aos meus Superiores Hierárquicos o favor de pensarem em dispensar-me do meu cargo de funcionário público com diploma, para poder dedicar-me inteiramente ao serviço da Paróquia.


Sinto-me cansado, sem forças para aguentar o peso dos cinquenta e um anos já feitos; adoentado (com o reumático da tabela; uma colite infecciosa e uma apendicite crónica, diagnosticada há mais de três anos; dentes – os poucos que restam – estragados, - tudo isto sem os devidos tratamentos por falta de tempo e de condições de vida, e além de um coração demasiadamente grande desde nascença); um tanto ou quanto desiludido dos homens e das situações por eles criadas (coisas próprias de quem já entrou na curva descendente da existência, mas, nem por isso, menos amarga e dolorosa). Por outro lado – e graças a Deus! – Tenho ainda a sincera consciência de que nem sequer sei nem sou capaz de fazer tudo o que desejaria realizar como pároco.


Por tudo isto, sou levado a pedir se pense na minha substituição como funcionário público diplomado, apesar da Paróquia me não garantir a sustentação, pois tenho ainda (e de novo, graças a Deus!) a magnífica certeza de que ELE, o SENHOR, que veste os lírios do campo e sustenta os pardais do telhado, continuará a cuidar de mim com a Sua solicitude divinamente paternal.


Porque a falta de tempo me não permitiu fazer mais curta esta exposição, também eu, como o Padre António Vieira, me vejo obrigado a pedir desculpa de a ter alongado tanto.

Padre José Correia da Cunha


Igreja de São Vicente de Fora, 17/18 de Janeiro de 196_



















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