domingo, 16 de fevereiro de 2014

PE. CORREIA DA CUNHA E A MUSICA MODERNA















«A LITURGIA É EXPRESSÃO DE UMA VIDA… VIDA QUE NÃO EVOLUI, NÃO É VIDA»




No dia 17 de Agosto do ano de 1967, o jornal católico «Novidades» publicava um artigo com o título:  RELIGIÃO E LITURGIA «À VIOLA »?.


O articulista referia-se a uma Celebração da Palavra, acompanhada de música moderna, promovida pelo Padre Correia da Cunha na Igreja Paroquial de São Vicente de Fora.


Para o Padre Correia da Cunha, as “boas vontades” dos moralistas não podiam ficar sem resposta, quando havia a intenção de lançarem sobre si má-fé… Se esses falsos moralizadores querem fazer crer que estas para-liturgias são inaceitáveis e detestáveis pelo mal que podem fazer às comunidades cristãs, não podem ficar sem resposta.

Só ele mesmo podia defender, pelas palavras, a beleza e elegância destas acções litúrgicas efectuadas dentro das condições canónicas e do maior recolhimento e devoção.


Como sacerdote, mas sobretudo como filho de Deus, era livre e soberano para recusar ou aceitar. A sua vincada personalidade não o deixava levar para caminhos que não queria percorrer. Não era fácil pelas suas fortes qualidades de inteligência, morais e pelo seu forte carácter, vergá-lo…


O Padre Correia da Cunha considerou esse artiguelho carregado de maledicência e falsa moral. Indignado, de imediato escreveu para a redacção do jornal «Novidades» um texto que hoje trago à “luz do dia”, cheio de múltiplos registos dos seus saberes interdisciplinares.


É esse texto revelador da sua grandeza, coragem e ousadia, assim como da competência da sua observação crítica e rigoroso conhecimento da historiografia da música na Liturgia, que honrosamente publico.  





ARTIGO DO NOVIDADES



«RELIGIÃO E LITURGIA «À VIOLA»?




No sábado, 8, o nosso prezado colega «O Século» ilustrou uma sugestiva gravura com esta legenda:

“Um padre do seu tempo – o Rev. Lawrence Gron, prior da igreja católica do Sagrado Coração, de Rochester, nos Estados Unidos, é um homem moderno, que sabe como atrair e cativar os fiéis. Ei-lo, após a cerimónia de casamento do cançonetista Raymond  Defendorf, acompanhando à viola um animado terceto de que ele próprio é um elemento. A igreja acompanha o tempo até nestes pequenos pormenores».

No domingo, o «Diário de Noticias» ilustrava três eloquentes gravuras com estes dizeres:

«Liturgia para jovens em São Vicente de Fora – Música moderna numa cerimónia religiosa – A igreja estava repleta. Gente de todas as condições. Mas quem verdadeiramente reinava ali era a juventude. A força, a alegria e a seriedade da juventude eram quem enchia a igreja.

Através dos cânticos em que o Senhor foi louvado com emoção elevaram-se as almas juvenis de quantos assistiam. As palavras disseram de uma crença forte e a música liberou a alegria contida nos corações que a fé torna confiantes. Realizou-se ontem, na bela igreja de São Vicente de Fora, às 21,30, uma celebração «Liturgia para Jovens». O acompanhamento esteve a cargo do Conjunto Moderno da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro.

 O rosto dos assistentes transfigurou-se, ganhou novas expressões animou-se e nem um só momento se deixou de exaltar o Senhor. Experiencia feliz. É uma inovação, mas donde nem um só momento se excluiu um profundo respeito religioso, um verdadeiro sentido do divino. Uma cerimónia religiosa acompanhada por música moderna executada por um conjunto moderno. Cada época tem a sua face. A Igreja tem feito o esforço louvável de congraçar os seus altos ideais com o nosso tempo. E a juventude é o futuro. Se ela ama a sua música, aquela que ela faz, porque há-de essa música, porque há-de essa manifestação do espirito – porque o é, seja qual for a forma de se exprimir – enfim, porque há-de a música moderna ser expulsa do templo? Cada época tem a sua fisionomia, as suas características e a sua sensibilidade. Em São Vicente de Fora a igreja acolheu ontem um conjunto moderno que tocou música moderna».


Na segunda-feira as «Novidades» comentavam assim um artigo do Bispo de Verdun sobre a peregrinação do Papa a FÁTIMA:


«Também entre nós não falta, quem olhe com impertinentes reservas, as peregrinações, sem exceptuar as de Fátima. É uma tendência para o angelismo que nos parece arriscada. E não será de estranhar que os mesmos que se opõem a certas expressões de devoção popular sejam os que apoiam com entusiasmo (e apenas imitando experiencias estrangeiras, muitas delas rotundamente malogradas), o teatralismo exótico da música YÉ-YÉ executadas dentro dos templos católicos e oferecida especialmente a uma juventude que aceita por igual o mau gosto das cabeleiras hirsutas e o desplante das mini-saias? O povo das aldeias não conhece, certamente, as últimas teorias dos teólogos e a todas as aventuras, por mais pitorescas que sejam, ainda prefere o canto popular religioso que a Constituição sobre a Sagrada Liturgia diz se promova entre os fiéis. Mas, nas peregrinações religiosas, sabe rezar, cantar e fazer penitência como ninguém.


Para tanto, não precisa de ensaiar outros ritmos que não sejam os da sua terra, e que serão sempre os que melhor exprimem a sua fé, as suas angústias e as suas alegrias.


Prosseguindo: «Ontem, recebeu o Santo Padre 6 mil pequenos cantores de 30 países, que em Roma, participaram no IX Congresso da sua Federação Internacional. Na alocução que lhes dirigiu em italiano, francês, inglês, espanhol e alemão, declarou Paulo VI na Basílica de São Pedro: “ O Canto é a nossa oferenda a DEUS. Deveis esforçar-vos por conseguir que esse dom seja tão belo e tão atraente quanto possível. É a vós, grupos corais que está confiada a bela missão de conservar entre o povo cristão o uso do canto gregoriano, a que se juntou agora – sem substituir inteiramente – o canto na língua materna». A concluir: «Porque se tratava de grupos corais bem conhecidos pela sua disciplina e pela harmonia das suas vozes, não precisou o Papa de os acautelar contra o uso de certos instrumentos que só podem utilizar-se no culto divino, segundo o parecer e com o consentimento da autoridade territorial competente».






CARTA DIRIGIDA AO JORNAL «NOVIDADES»



Meus Caros Senhores

Por via de regra, leio os jornais em diagonal, pois falece o tempo para mais. (Há tarefas mais importantes e urgentes a realizar). Apesar isso, calhou ler ontem mesmo o artiguelho no «NOVIDADES», que assino na ilusória esperança de o ver um dia verdadeiro jornal católico, pagando honradamente cada semestre.


Pois logo que li o tal artiguelho, me deu vontade de escrever à redacção do jornal e pôr os pontos nos “ís”.


Reconsiderando, porém, reconheci não valer a pena. Como já disse, o tempo não me chega para coisas mais urgentes e importantes. Por outro lado, sinto-me, de facto, velho, cansado e doente. Uma colite assanhada não me deixa as tripas sossegadas; o reumatismo enferruja-me as dobradiças das articulações, e a tensão arterial anda por alturas perigosas.


Acontece ainda que continua a ser verdade que a caravana passa…

Realmente não valia a pena.

Mas perante a vossa solicitude amiga e porque uma carta tem sempre resposta deixem-me desabafar comigo, resumindo-vos o que, na altura, me ocorreu escrever para o «Novidades».


Até nesta atitude, se podem ver sintomas de caturrice de velho…Mas falo a amigos que decerto, me compreenderão… desculpem.

Aí vai.


1.     A propósito de «teatralismo exótico» da música “YÉ-YÉ” executada dentro dos templos católicos… muito haveria a dizer. Mas limitemo-nos.

Não somos dos tempos famigerados em que se usavam, como litúrgicos, livros intitulados “Teatro Eclesiástico” e todos sabemos como o Teatro profano tem fundas raízes no Teatro Religioso e até Litúrgico da velha Idade Média.

Ainda hoje e sempre assim será, graças a Deus, qualquer função litúrgica tem o seu quê de teatral, na mise-en-scène, nas atitudes, nos gestos, no vestuário etc.

Estamos pois, habituados ao teatralismo mais ou menos exótico dentro dos nossos templos, graças a Deus repito.

Mas, decerto, o articulista referia-se ao teatralismo da música, não ao teatralismo da acção a desempenhar na igreja. Pois também estamos habituados a um teatralismo e não me consta que daí venha mal ao mundo.

Reparem, Nós (para falar só de factos do nosso tempo) ou
vimos e cantámos muitas vezes no nosso querido Seminário de Santarém música de ópera, de operetas e talvez de zarzuela naquela linda igreja. A letra é que pretendia ser poema em honra de Nossa Senhora e de São Luis de Gonzaga. Nas igrejas de Lisboa e até na Catedral em qualquer festividade se ouvia o consagrado Araújo - o mestre cantor – cantando árias magníficas em latim ou português, em vez de ser em italiano como se cantava em São Carlos.

Teatralismo exótico… mas era assim e toda a gente gostava e ía ouvir.

Depois, com a Escola do Seminário dos Olivais, dá-se uma revolução… francesa entre nós, mas como aconteceu à outra, à grande, também esta vem com 50 anos de atraso. E o Canto Gregoriano rejuvenesce e a polifonia clássica também.

É um encanto. Toda a gente segue a nova moda, vai ouvir, gosta e, com mais ou menos arte vai imitando vai repetindo.

Teatralismo exótico… Toda aquela música enforma letra latina. Poucos, muitos  poucos percebem. Mas era bonito, era de bom gosto, era moda. Simplesmente tão exótico que o Concilio Vaticano II, embora concorde com a beleza artística daquele teatralismo exótico, aconselha e insiste por que o Santo Povo de Deus participe na Liturgia activa e conscientemente preferido, portanto, o vernáculo.

Tanto assim que em toda a parte os Pastores Responsáveis criam Comissões de Liturgia e de Pastoral para levarem o Povo aquela participação viva, activa e consciente. E o resultado foi, para já, a introdução das línguas vivas na liturgia oficial da Igreja.

Tudo isto por causa do tal teatralismo exótico, ou melhor do exotismo teatral.

Ora acontece que, pelo menos que eu saiba, não estávamos preparados para esta abertura tão rápida. Passamos todo o tempo disponível a lançar o teatralismo exótico do Canto Gregoriano e a Polifonia Clássica e não pudemos dedicar-nos ao estudo sério e profundo das fontes da água viva da vida litúrgica.

Por isso fomos apanhados de surpresa. Actualmente não temos música à altura das funções litúrgicas. É um facto que ninguém contestará apesar da reconhecida boa vontade de alguns músicos compositores.

Nem isso é de estranhar. A coisa não nasce de um dia para o outro. Serão precisos muitos anos de tentativas e experiencias para se chegar um dia a ter uma música com caracter mais ou menos litúrgico. E pode muito bem acontecer que, quando se chegar a essa afirmação comece a esboçar-se moda diferente. E até no que diz respeito à letra ninguém está satisfeito com as versões oficiais e oficiosas.

De resto, tem de ser mesmo assim. Pois, se a liturgia é expressão de uma VIDA, vida parada, vida que não evolui, não é vida.Mas perdoem estas considerações à val d’oisear e sobre tema aparentemente diverso que tratamos. O que fica dito tem apenas a pretensão de mostrar que o teatralismo exótico ou não sempre existiu e há-de existir nos tempos. E é só exótico quando aparece dúvidas à nova forma de que se reveste.






Foto do Blogue MAR DA PALHA



12.  Passemos, pois à tal música “YE-YE” visto ser ela a pedra de escândalo do articulista.
Pessoalmente a tal música não me encanta, mas também não me repugna dentro dos templos, desde que executada com sincera devoção e enformando uma letra digna do SENHOR e dos mistérios que celebramos.

Não é verdade que ficámos maravilhados com o Mons. Sabino ao órgão e o Padre Joel a cantar a solo lindas árias em latim?

Já falei disso e do que se fazia por toda a Lisboa, incluindo a SÉ. Não era preciso repetir mas lembrei as valsas, como o cântico:

No céu a irei ver,
No céu, que feliz dia!
Sim, irei ver Maria,
Meu Bem e meu Prazer!

(Só de recordar, que horror! Como foi possível?! Mas foi. E ainda é infelizmente.)

As marchas, mais ou menos marciais como o “ Queremos Deus”, o “Salve, Nobre Padroeira”, o “ Coração Santo, aqui nos tens prostrados”

Os tangos como:
Ó Virgem Sacrossanta
Ó Virgem, bela e pura
Santos Anjos e Arcanjos

Isto só para amostra, porque tudo o mais… Santo Deus!...

E o que é certo é que cantávamos ( e cantamos ainda tudo isso com devoção esquecendo até a letra piegas, desenxabida e todas essas cantigas ao Divino (como diria Monsenhor Pereira dos Reis) .

No fundo, é tudo questão de moda. Ora desde que a moda não seja intrinsecamente má, porque não a pôr ao Serviço de Deus?

É claro que também não gosto das “cabeleiras hirsutas” nem do desplante das “mini-saias”. Mas épocas têm havido e virá haver, de cabelos compridos mais ou menos hirsutos e … porcos, e também tem havido, há, e virá a haver tangas em certos lugares. Pois, precisamente por isso as tais cabeleiras e mini-saias são uma moda, infeliz é certo, mas moda que, Graças a Deus, não tem pegado entre nós. É certo que há por aí um ou outro rapazola mais ou menos guedelhudo e uma ou outra saia mais ou menos mini mas a moda não pega, estou certo. Senão é ver como, mesmo nesta cidade de muitas e desvairadas gentes, são olhados e apupados os estrangeiros que se apresentam nessas tristes figuras.




Este porém é outro assunto. E não se deve misturar nem confundir. Como na velha Escolástica é preciso saber distinguir. Não é legítimo identificar essa gente com um ritmo mais ou menos trepidante nascido de uma forma religiosa – o espiritual negro – é praticado às vezes e também por gente de cabeleira hirsuta e de mini-saia, pois a verdade é que toda a gente nova de hoje canta o tal “YE-YE”.


Este facto, porém deve-se talvez (é estudo a fazer, mais do que às cabeleiras ou mini-saias), à vida febril, agitada, trepidamente, de velocidade supersónica, sem tempo para a deliciosa sesta dos nossos avós, da nossa época em que todos, sem excepção, gostávamos de experimentar vivencialmente as facilidades inventadas por uma técnica prodigiosa.

Talvez a coisa (ou a crise, como quiser) seja mais séria e profunda do que parece ou é capaz de entender o articulista do nosso jornal católico.

O que a ele e a todos (me parece/será de meditar é a seguinte questão):

- Devemos ou não aproveitar o gosto da época (em si mesmo nem bom nem mau – antes pelo contrário) e encaminhá-lo para Deus, tal como se deve aproveitar a impossibilidade, o desejo de autenticidade, a insatisfação e a generosidade da juventude para a levar às montanhas da Santidade?

O necessário, parece-me, é saber aproveitar a moda transitória para levar as almas aquém e aquilo que permanecem para Sempre.

Ou será preciso lembrar-lhe como se enchia a igreja do Seminário de Santarém da estudantada do Liceu quando se cantava aquelas operetas?

Pois se hoje se gosta de música diferente, porque não dar-lhe com um sentido mais alto enformada por uma letra cristã e fazendo- a integrar nas Celebrações que desejamos mais participativas, vivas, activas e conscientes.


Padre José Correia da Cunha




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Era um adolescente, mas ainda hoje me lembro daquela noite de 9 de Julho de 1967, na igreja de São Vicente de Fora.


O Padre Correia da Cunha era para mim um grande ídolo. Ele era um obstinado pela música e arte de boa qualidade.


Aquela noite foi para mim um fraterno convívio. A família paroquial reuniu-se à volta de um singelo altar, para em espírito de alegria, louvar o Senhor, cantando ao som de música moderna.


Já aqui recordei aquela noite em que todos os participantes cantavam num ambiente de júbilo. Texto que intitulei: O PADRE CORREIA DA CUNHA E O YÉ YÉ.



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