sábado, 8 de março de 2014

PE CORREIA DA CUNHA E O PERFIL DE SUA TI’AMÁLIA

















“QUANDO TE VI AMEI-TE JÁ MUITO 

ANTES…”



Em todas as épocas da história sempre existiram e ainda 

existem grandes mulheres.


E sempre o que se destacou nessas mulheres foi sem dúvida a sua grandeza moral.

Havia no coração do Padre Correia da Cunha, três mulheres que ele amava e o acompanharam ao longo de toda a sua vida. Hoje iremos falar de uma: A TI’AMÁLIA.

Ao ler o perfil que abaixo publico, redigido pelo Padre Correia da Cunha, sobre a sua querida TI’AMÁLIA, confesso que este mereceu realmente a minha simpatia, admiração e respeito pela sua memória.

Era uma verdadeira heroína que merece ser recordada pelo seu trabalho e sacrifícios, feitos em prol dos seus irmãos, filhos e marido…

Poucos sabem reconhecer a influência que as  mães tiveram nas nossas vidas e vitórias, sobretudo no que diz respeito aos valores morais. Devemos muito do que somos às nossas mães. Esta bela peça literária saída da pena do Padre Correia da Cunha constitui um acto de justiça e o reconhecimento da sua enorme dívida para com aquela santa mulher.

Dívida semelhante sempre manifestou ao longo da sua vida aquela que corajosamente ajudou na formação de alguém que lhe era querida e cujo seu amor expressava nas orações diárias, onde eram sempre incluídas.

A imagem da TI’AMÁLIA (das hortaliças), que é descrita neste sublime texto, é de uma mulher lutadora que tudo fazia para sarar as mazelas da sociedade, sabendo que permaneceria no anonimato… Queremos hoje, DIA DA MULHER recordar essa heroína como a sua história de vida. Como referia o Padre Correia da Cunha: “ Semeamos a discórdia e desejamos compreensão, agimos de forma estúpida e depois corremos a rezar para que tudo corra bem…”


Fixemos o nosso olhar nesta santa mulher. A Humanidade pode ser diferente!


 Eis então o texto redigido pelo Padre Correia da Cunha:



Maria Amália Mendes Correia da Cunha


A TIA AMÁLIA…De vocês todos (e vocês amigos são mais de 1500), estou certo, nenhum a conheceu, a não ser a Berta – a Berta, caixa das utilidades. Sim, só a Berta a conheceu. E talvez ainda se lembre dela.

Lembra-se com certeza. Pode-se lá esquecer aquela pobre figura de grande mulher, que foi mãe dos três irmãos, de sete filhos e do próprio marido!...

Pode-se lá esquecer aquele perfil beirão, de linhas romanas, boca fina, mais elegante, olhos em amêndoa vivos, penetrantes e inocentes, queixo voluntarioso e aquele ar inocente e puro, ia a dizer (e posso dizê-lo) virginal mesmo depois de ser mãe tantas vezes…


Ah! Não é possível esquecer, pois não Berta?


A Tia Amália que ficara órfã aos 12 anos, lá nos recôncavos da Serra da Estrela, ainda menina e moça, logo se viu mulher a cuidar dos irmãos, todos mais novos.

Os pais não lhe mandaram ensinar a ela nem aos irmãos o bê- à-bá das letras; mas ela não deixou de tratar que ao menos eles as aprendessem.

Marejando, trabalhando sempre aqui e acolá; conseguiu educar os três irmãos e fazer deles pessoas de bem. Tratou das viagens dos que foram tentar a sorte para as Américas onde viveram com abastança e deixaram raízes, casou a que aqui em Portugal ficou, casou-a bem, a ponto de viver melhor que a própria Tia Amália, que só pensava no bem dos outros, não no dela.

A sua missão era servir e só para a cumprir soube viver…


Sem saber ler nem escrever, a Tia Amália criou e educou sete filhos…

Nunca calçou meias de seda, nem foi a nenhum animatógrafo. Andou de automóvel só cinco ou seis vezes por absoluta necessidade e para bem dos outros. De uma vez (lembro-me perfeitamente) foi para levar uma vizinha doente ao hospital, de outra foi por causa de um filho que também precisou de serviços hospitalares, e as outras penso que foi para ir para a maternidade onde nasceram quatro dos filhos, porque os outros teve-os em casa.

Não sei se teve aquilo a que nós chamamos alegrias… Penso que não. A sua alegria, o seu prazer era fazer o bem, servir, ser útil aos seus e aos de fora.

Malfadado para os negócios em que se metia, o marido descambou em beber um pouco mais do que devia. E quando estava com a pinga, fazia-lhe a vida negra a ela, aos filhos e à própria vizinhança. Mas como ele era um homem sério e bom e sobretudo porque a Tia Amália era um exemplo de trabalho, de sacrifício e de caridade, toda a gente  perdoava ao pobre homem aquela sua fraqueza.


No entanto, a Tia Amália até por isso sofria. Muito sofreu ela. Pelo marido, e pelos filhos que, embora educaditos, eram traquinas, levados da breca, e até pelos vizinhos a quem, (apesar de ser mais pobres do que eles) nunca ficou a dever fosse o que fosse, antes favoreceu com a sua ajuda pessoal pois que não podia dar em dinheiro.


De certa feita (lembro-me como se fosse hoje e já lá vão 40 anos), a Senhora Emília, vizinha do rés-do-chão, estava doente e a Tia Amália, não tendo nada para lhe dar, deu-lhe o serviço de esfregar o chão e arrumar a casa.


De outra vez, a uma família tão pobre como a dela, mas que na altura estava em maior necessidade, soube-lhe levar o comer que arranjava para os filhos, ensinando-lhes assim, ao vivo, o que era a caridade.



José Cunha e Amália Cunha nos Inválidos do Comércio na sua velhice



A Tia Amália era pobre? Pode-se dizer que era pobre uma mulher assim tão rica de caridade?

Muito sofreu também a Tia Amália, ao ver morrer dois filhos, um com 6 anos e outro com 19. O primeiro morreu-lhe nos braços, nem se sabe de quê. Era uma criança tão perfeita, o Henrique… (O primeiro Henrique, que lhe deixou tanta saudade que logo pediu a Deus que lhe desse um segundo Henrique. E Deus ouviu-a.)


E muito sofreu ainda por sentir que morria antes do marido a quem queria acompanhar, defender e ajudar (devido ao tal fraquito dele) por ser o homem a quem dera todo o seu abençoado amor.


Toda a sua vida foi realmente de sofrimento, de calvário. Mas ela tinha esperança. Sabia que esta vida é apenas uma caminhada para a outra, e que só valia a pena se ao serviço do bem dos outros. No fundo foi uma mulher que muito sofreu, mas que foi feliz porque sabia que estava no bom caminho.

Por tudo isto, sempre Deus a abençoou.

Abençoou-a nos seus trabalhos e canseiras, nos seus irmãos, no seu marido que acabou regenerado, nos seus filhos, que todos os cinco vivos os vira arrumados na vida, na memória de todos os que a conheceram.

Não é verdade Berta?

Por tudo isto, Deus, que a acompanhou no seu calvário, a veio buscar num Domingo de Páscoa, precisamente no Domingo de Páscoa de 1959.


E digam lá que não foi realmente uma grande e exemplar mulher a Ti'Amália, a minha mãe?


Padre José Correia da Cunha




















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