quarta-feira, 26 de março de 2025

PE. CORREIA DA CUNHA - CRONISTA FERNANDO BASTOS SILVA






CRONICA DE FERNANDO BASTOS SILVA - Com o seu olhar de lince o cronista escreve sobre a sua fantasmagoria em relação a um grupo de jovens da comunidade paroquial de São vicente de Fora, dos inícios dos anos setenta do passado século. Este grupo de Jovens foi fundado pelo Padre Correia da Cunha. Era um pároco que pelo seu exemplo animava, pela sua energia de palavra dava coragem. Ainda hoje os jovens deste grupo de jovens reconhecem o muito que o Padre Correia da Cunha fez em prol da Juventude. Como é sabido o Padre Correia da Cunha para além de zeloso prior – acolhia e dispensava um especial afecto ao fluxo de milhares de mulheres e homens que se deslocavam da Beira Serra para a cidade- capital. Particular atenção lhe merecia a formação dos filhos dessa gente. São este adolescentes e jovens que constituíam o Grupo de Jovens OBJECTIVO e ainda hoje continuam a honrar a memória deste grande Mestre de Vida : CORREIA DA CUNHA.  Estas crónicas são um poderoso instrumento para despertar acerca da  existência do OBJECTIVO. Assim, publico  a crónica sobre o ultimo jantar natalício do GRUPO DE JOVENS OBJECTIVO, ocorrido a 14 de Dezembro passado, no Restaurante Corsega  de Benfica. Momentos que não são cercados pela nostalgia mas um acontecimento que aspira em procurar-se activamente a sobrevivência de um Grupo que considero possuir alguma mistificação. 


 ESTA É A CRÓNICA QUE FAÇO DO ENCONTRO DO           

                   INCOMPARÁVEL GRUPO DE JOVENS «OBJECTIVO»

        

O sentimento de complexidade reclama, naturalmente, vários pressupostos de natureza causal, sem deixara de levar em conta a perspectiva finalística.  Não nos move a conceptualização inerente às celebradas Cinco Vias de  S. Tomás de Aquino, nem vamos inserir a situação ou  as situações num quadro mental de teorização da Evolução Quântica que nos iria permitir especular sobre a razão de andarmos a divagar meio perdidos por este nosso Mundo. Todavia, grato será refletir sobre os dois movimentos inerentes à nossa realidade que nos determinou a congregarmo-nos no local que o nome tem, de Restaurante Córcega, em Lisboa, lá para as bandas de Benfica, paredes meias com a densa mata do mesmo nome. I$E  E isto

Estamos, pois, perante o acontecimento ocorrido na memorável data de 14 de Dezembro de 2024.

-E não havemos nós de recriar os passos previamente dados para a sua concretização?...

Não nos custa muito imaginar:-Vamos então supor que inspirados ou “instados” pela afabilidade do querido Amigo Ismael, terão alguns ouvido a sua Mensagem:-”Marchai, caminhai por Lisboa, pelas suas sinuosas vias, até encontrardes um  Cenáculo  adequado”. E direis ao estalajadeiro que o Grupo dos Jovens, dos anos sessenta do século passado, ou seja aqueles que tomaram o “elixir da eterna Juventude”, querem, no 14 de Dezembro vir aqui celebrar a sua “Ceia”, a “Ceia”  que sela o indestrutível laço de Amizade que os enleia. Tal Grupo é composto por vários “Discípulos” que se compreendem nos originais e nos outros e outras que, entretanto, foram sendo acolhidos.

E tivemos a Notícia difundida Urbi et Orbi  que  nos deu conta da referida data e do elenco da vitualhas…De tudo se encarregaram, com subido esmero e competência  os “jovens “ Isidro e João Paulo.  esmero e

E lembramos o que está escrito e que sublima a refeição: Cantados os hinos, o Mestre cingiu os rins, fez as  rituais abluções e proclamou a sublimidade do Amor Fraterno.

Ora, naquela tarde, “juntos nos partimos” da nossa casa que no Altos dos Moinhos está assentada...”

Lembramos o Glorioso Poema que de Lusíadas tem o título  que nos situa no Espaço Europeu,  descrito o canto III. Ali se diz que “Entre a zona que o Cancro senhoreia/…..Jaz soberba a Europa,a quem rodeia,/...Pela Austral, o Mar Mediterrâneo.…

E continua:

Eis aqui, quase cume da cabeça/De Europa toda, o Reino Lusitano/onde a Terra se acaba e o mar começa ...esta a ditosa pátria minha amada….”

Tínhamos deambulado entretanto, num quadro de reconstituição, à “posteriori”  por uma certa Lisboa, na na sua configuração medieval e vale a pena citar o sábio que diz: we have stone age emotions, medieval institutions…

-Vá lá ver, diz-me a “alma minha gentil”...não te ponhas para aí com erudições que ainda acabas por ficar cá na Terra descontente….

-Mas diz-me lá: que não gostarias de integrar uma procissão desde S. Domingos até à Sé e sentir a limpeza que se opera na alma, na Abertura da Porta Santa, no Ano Jubilar?

E la fomos.

Ora a verdade é que a Sé abarrotava e a multidão que se apinhava à porta principal era grande…

E descortinando ao “redol”, vimos o exterior da Sé com  a sua estrutura de sólidas paredes, fendidas com estreitas ”seteiras” que, em caso de assalto por parte dos infiéis, os “increos”, deixavam passar uma furiosa chuva de envenenadas flechas com que estes eram trespassados, o “que haveria de ser boa cousa de veer

Mas não só isso, porque alí próximo, inscrito em negra ardósia” pregada na esquina de grosso muro “medievalesco” se identificava  o “Beco do Quebra Costas”. Ora tal Beco desenvolvia-se em escadaria de pedras, de vivas frestas...E assim, uma vez filado, o increo/malfeitor e inimigo de Cristo, atado de pés e mãos era arrastado escada abaixo e além dos osso esmigalhados e dos “focinhos lavados em sangue”, dali era retirado, esperando, na  fermentação de negro entulho, o  estridente soar da Trombeta a anunciar a ressurreição dos mortos.

- Ó mulher da minha alma olha...vê...lê o que naquela placa de pedra circundada de marmóreos e rosados floreados se inscreve: O SS PIO VI A INSTANCIA DA RAINHA D. MARIA I N. S. CONCEDEO INDULGENCIA PLENARIA TODA A PESSOA QVE CONFESSADA E COMVNGADA VIZITAR ESTA REAL CAZA E IGREJA DO GLORIOSO S. ANTONIO EM QVALQVER DIA DO ANNO….

E vemos ainda o que está escrito em incrustações de rija e matizada pedra onde se lê que o mui alto e poderozo Rey D João II deste nome mandou em seu testam…to  passar esta capela para santo António…..dando cvmprimento ao desígnio do poderoso Rey D. Manuel 1º deste nome;elle mandou fazer… etc.

-O senhora minha, dona do meu afecto, olha e medita na génese desta igreja de Santo António, onde o Papa se ajoelhou...

 


E continuando o nosso percurso fomos vendo umas fracções da grossa da muralha Fernandina (El rey D. Fernando deste nome a mandou fazer…)

E ainda espreitamos, de relance, as ruínas do Teatro Romano, sobranceiro ao  Castelo.

Deste Castelo, por onde deambulou o grande Damião de Góis, “escorrem “ umas vielas e outras estruturas de “segurança” que  o autor de  A History of Water de seu nome Edward Wilson-Lee relata com grande vivacidade referindo-se à agitada vida de Camões e que recorda o célebre episódio do dia da festa do Corpo de Deus a 16 de Junho de 1522 que propiciou ao  nosso Épico um encontro pouco amistoso com o cortesão de nome Borges, o que lhe valeu o cárcere num local onde a Saudade imperava, pois que “erros meus, má fortuna amor ardente/ em minha perdição se conjuraram…”

Uma colina a Nascente...uma colina a Poente e eis que se nos esboça a delimitação do Pátio do Tronco que ainda hoje arrepia visitar...E Camões sonhava, aconchegado na Eneida que trazia no coração...pois sabia-a toda de cor...ação.

E foi-lhe propiciada clemência, mas na condição de partir… de embarcar. E assim aconteceu e pode percorrer, navegando, aqueles mundos cujo caminho se abre logo no canto Primeiro onde se diz “já no largo Oceano navegavam/As inquietas ondas apartando para no Canto VII proclamar: E, se mais mundos houvera lá chegara”.

Pode ainda, roto e faminto, mas sobraçando o manuscrito do seu (nosso, depois) Poema, apanhar boleia a partir de Moçambique regressar Pátria. E é bom recordar a desgraça consequente aos descobrimentos, superiormente configurada em jeito de Profecia postecipada do Velho  do Restelo…Ó glória de mandar, ó vã cobiça/desta vaidade a quem chamamos Fama... (IV 95)

Veio depois o Templo dos Jerónimos e mai-lo CCB que testemunham  o grande ou talvez os “grandes “ (a títulos diversos) de Portugal…

 


Enfim, vale a pena lembrar este Pátrio Torrão onde, naqueles tempos do sec. XVI, cousas raras se iam passando...nomeadamente o desembarque e invasão de nativos/cativos. Estes exibiam a tez queimada...e isto graças ao erro da rota Rota do carro dc Faetonte.

E estas almas tantas preocupações de segurança causavam a ponte de serem encostados à parede, sentindo a aguda lança dos soldados a arranhar-lhes as costas-Vide Zurara e Diogo de Couto.

 E por falar em questões de segurança e sua ancestral herança, ainda hoje é visível o confinamento das claques de futebol que, “encarceradas em gaiolas”   lhes é permitida, debaixo de vigilância, toda a espécie de urros.

 

Enfim, coisas de Lisboa medieval onde os acontecimentos que traduziam acirrada luta pelo poder por parte do Imperadores, reis, duques, condes, biscondes, papas, bispos e  cónegos.                

Prosseguimos o nosso caminho, pelas serpenteadas ruas de Benfica, à medida que Hermes (deus mensageiro) nos guiava. Abriu-se, pois,  sob os nossos olhos o local do desejado encontro. E foi um circunstante que nos indicou  a “estalagem”, ou seja , o referido “Córccga”  onde a mesa ornada com as deliciosas vitualhas se nos iria apresentar...Ia ser, quem sabe, como  na representação do  Auto da Alma de Gil Vicente.

Arrumada que foi a “Charrete” tivemos ocasião de sondar a atmosfera em homenagem ao sr. D. Miguel a lambuzar-se à ceia em molho  de escabeche, para esquecer ao agravos que contra ele a Pátria cometia.

Rezam as crónicas que enquanto da sua real barba hirsuta a gordura  escorria, mas não deixava de pôr o braço de fora da janela para se deliciar com a leve brisa que se fazia sentir- Vide A Brasileira de Prazins de Camilo Castelo Branco.

E assim foi...e a “Alma Minha Gentil” e eu ingressamos .

E ocorreu o que de algum modo adivinhávamos e, sobretudo, desejávamos: Um caloroso acolhimento!...E  surge o Jovem Ismael  com o seu rosto que se abre no sorriso jovial que o brilho do seu olhar transmite.

-Que bom querido amigo: você é um “monumento” à eterna juventude.

-Não digam isso, não falem assim, olhem que já cá pesam uma razoáveis décadas.

- Pois sim ….mas olhe que, no que me diz respeito, o  cavername das minhas costelas range por todos os lados e até faz lembrar uma nau na tempestade de Os Lusíadas .

 

Depois o Rui Aço de largo e acolhedor gesto e com o sorriso que nos  transporta à Gioconda, embora a gente aprecie nas suas obras uma certa relação com Chagal ou Klimt...ou, melhor dito, com ele próprio, nos seus conquistados traço e estilo.

Acolhedores foram o Carlos Pereira e a Maria cujo enlenvo de comunicação é por demais evidente e com quem se conta para  criteriosa selecção dos âmbares.

Quem pode deixar de referir, o  João Paulo e Isidro, os  homem dos contacto e do expediente e que acabam por ser o emissáriom a que atrás se faz referência e que se desdobram em contactos par que tudo isto seja possível.

Estávamos nós entregues a estes devaneios preliminares, enquanto o grupo se ia  compondo, eis que deu sinal o arquitriclínico anunciando que a ágape ia ter início.



 

 ….


E o convívio prossegue com visível vivacidade...E como são recordados os antigos  tempos, os  tempos em que “jovens” sonhavam e imprimiam à sua vivência  do Grupo, o quadro humano e ao  mesmo tempo estético que faz com que hoje  seja incontornável a sua congregação…Afinal a realização, por via do afeto, é sem dúvida a dimensão mais  fulgurante que nos faz olhar para o nossos filhos e netos e também para os amigos repetir com Stephen Hawking : We have  this one life to appreciate the grand design of the universe, an for that I am extremely grateful.

 

Já nos entregávamos a soboreara a nossa refeição quando o “meu anjo protetor” me disperta para a oportunidade de tomar os medicamentos da praxe ...mas sem esquecer a “água suficiente”...Mas...mas a água faltava...Porém, à minha frente sentava-se a jovem Maria de Jesus...Foi  providencial: eu pedi-lhe um pouco da sua água…água esta que ao interagir com os medicamentos a tomar, me iria fortalecer quase regenerar .

Ora, veio-me à mente, o que se passou junto ao poço de Jacob  e que resta escrito:  Jesus pediu à mulher de Samaria:  “Dá-me de beber”. Ora,  diz ela, “como é que tu sendo judeu me pede de beber a mim que sou  Samaritana?

Ou seja: como é que sendo eu um alienígena do “grupo de Jovens”  me atrevia a um gesto destes?  E foi cousa boa de ver!

E o convívio mantinha-se animado e a comunicação era densa e intensa, porque motivado por um acentuado e partilhado sentimento de amizade. E não deixamos de comentar a atualidade nacional e mundial, mesmo correndo o risco de contrairmos alguma entorse mental ao debruçarmo-nos sobre as coisa da política...A mundial e a outra.

Ora é verdade que dada a minha condição de alienígena do Grupo não tenho nos meus ADN gravados os nomes de todos os participantes. Mas o sentimento de bem-estar e acolhimentos eram totais e com que simpatia e contagiante afeto revivo este pequena comunidade de calorosa amizade de que acabo por fazer parte.

E nosso convívio atinge o seu termo  com as juras de que haveremos de voltar a encontra-nos.

Este o meu testemunho do acolhimento caloroso que no Grupo de Jovens tem a sua particular e apreciável expressão, sendo que é quase impossível não sair sem uma atitude de simpatia quase estética por parte destes Amigos. 

Fernando Bastos Silva