quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

PADRE CORREIA DA CUNHA E SEXUALIDADE

 


O sexo é um dom de Deus e por conseguinte um bem.

 

Nada pode ser mais querido ao ser pensante que a vida; apesar disso, a vida sexual para ser bem vivida na juventude deve ser educada sem grandes erros. Penso que o meu favorito Horácio se enganava quando dizia a Florus:’’ Não recearei o julgamento do meu herdeiro ao descobrir que lhe deixo pouco.’’. O homem mais feliz é aquele que sabe arranjar a maior quantidade de felicidade sem nunca faltar aos seus deveres de educador. O bom sacerdote também a peculiar missão de contribuir para o desenvolvimento espiritual e físico dos seu rebanho. O Padre Correia da Cunha tinha a perfeita consciência da necessidade de trabalhar com os jovens da Paróquia de São Vicente de Fora nestas áreas. Abraçou a imensa tarefa de adquirir imenso material didáctico (desde vídeos e diaporamas, livros…) para todos os sábados proceder a sessões educacionais sobre a sexualidade humana.

Para trabalhar com os jovens que são emocionalmente muito vivos e mentalmente ignorantes em matérias de sexualidade, era necessário educá-los e falar-lhes claramente. O saber nunca faz mal a ninguém, desde que seja administrado de maneira correcta e em tempo certo. A ignorância sobre a temática da sexualidade é muito perigosa. O Padre Correia da Cunha considerava imaginável que os adolescentes e jovens não fossem instruídos na área da sexualidade.

Há época, os pais da paróquia de São Vicente de Fora, na maioria, não tinham o mínimo de noções sobre este assunto. Os pontos de vista eram tão deformados nas questões da sexualidade que não era possível convencê-los dos erros em que estavam. Era importante que os filhos fossem ajudados de fora, pois também não encontravam encorajamento em casa. Os jovens eram ávidos de conhecimentos e prontos para aprenderem. O Padre Correia da Cunha nestas conferências sobre educação sexual nas instalações da sala do conselho, sita nos claustros da paróquia, sempre contava com grande frequência de adolescentes e jovens de ambos os sexos. Estes colóquios eram muito úteis pois que, a despeito da sua vivacidade, o clérigo possuía imensos conhecimentos para lidar com a mais variedade de perguntas que surgiam por parte dos participantes. Algumas bem 'picantes'!

A educação sexual estava inteiramente ausente nas famílias e nas escolas, por isso, o Padre Correia da Cunha considerava que seria obrigação da paróquia o local onde se deveria apresentar à juventude as concepções positivas do sexo, que pudessem servir para reconciliar uma visão mais construtiva da vida. O instinto sexual, se usado legitimamente, torna-se na base da forma mais elevada do amor. Se as relações sexuais advirem da harmonia, aperfeiçoamento, felicidade e paz de espírito, elas são boas. No caso de serem praticadas para mera satisfação física não serão aceitáveis. O sexo é um dom de Deus e por conseguinte um bem. Não existe no Cristianismo nenhum fundamento para considerar o sexo como motivo de vergonha. Era claro para o sacerdote que além de cuidar da vida espiritual dos seus paroquianos não poderia ignorar a vida física. Ninguém como ele conseguia lidar tão acertadamente com as questões sexuais, não só pela sua experiência, profundos conhecimentos, mas sobretudo pelo imenso respeito que estas questões lhe mereciam. Era indispensável uma perfeita união entre a ciência e a religião para poder-se assentar em alicerces sólidos na vida familiar e social.

Nunca esqueço estas suas palavras: «Jesus Cristo ensinava que Deus como Pai amoroso, somente deseja o bem para os seus filhos.». Nunca falava do sexo como uma coisa imunda, antes pelo contrário, pelo sexo a nossa personalidade se podia desenvolver em toda a plenitude da vida, tornando-a mais harmoniosa e repleta de felicidade.

O Padre Correia da Cunha era tão cheio de compreensão que, embora estes problemas do sexo não parecessem preocupá-lo, tudo fazia para ajudar os rapazes a não verem nas raparigas uns belos brinquedos ou objectos de mero prazer. A felicidade só pode ser gerada pelo autodomínio e no respeito mútuo, e não pelo egoísmo. O amor é muito mais do que o simples desejo sensual; é a completa identificação de dois seres. Se recolhermos a encontrar tal amor – uma tal compreensão – haveis de criar entre os dois um poder, uma força, que vos tornará capazes de fazer obra de Deus no Mundo.

O princípio básico da doutrina cristã é: «Amai-vos uns aos outros…» e a sua aplicação às nossas vidas afectivas resolverá muitas das nossas dificuldades, pelo que o Padre Correia da Cunha sempre concluía: que tudo o que era feito com amor não era pecado.