quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PE CORREIA DA CUNHA E AS TORRRES DA SUA IGREJA

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"AH! COMO É BOM NAS ALTURAS…"



O Padre Correia da Cunha gostava imenso de subir às torres da sua igreja. Ali refrescava as ideias e podia enxergar a sua amada cidade de Lisboa, com apurada visão que o caracterizava.



As ascensões às torres daquele grandioso monumento eram muito enriquecedoras para si, pois dali via os caminhantes, seus paroquianos no lufa-lufa da vida, aquecidos pelo culto da fé em seus corações.


São Vicente de Fora era uma paróquia de gente honesta e trabalhadora, que lutava pelo bem-estar e se sacrificava sobretudo pela grandeza dos seus filhos. A preguiça não encontrava lugar nestas generosas gentes, grande parte, oriundas da Beira-Serra, cujo desejo era vencerem pelo esforço de um trabalho digno.


Quando o Padre Correia da Cunha atingia o topo das escadarias, que davam acesso ao patim das torres, um pouco cansado e com a voz embargada, mencionava que estas suas experiências lá do cimo lhe permitiam ter a exacta noção dos sofrimentos, angústias e alegrias dos seres humanos no frenesi das suas vidas na luta pelo pão-nosso de cada dia.



O Padre Correia da Cunha, do alto das torres, aproveitava para olhar para dentro da sua vida e afirmava que as nossas vidas poderiam ser mais venturosas e mais calmas, se todos compreendessemos o grande designo da vida cristã: "viver mais solidários uns com os outros, não havendo tanto egoísmo nem tanta vaidade, porque veríamos nos outros irmãos a cópia fiel do próprio Cristo." Jesus Cristo morreu pregando a solidariedade humana, mas sempre o egoísmo, a presunção e os preconceitos inúteis é que deslumbraram a sociedade.





Das torres da majestosa igreja de São Vicente de Fora, a sua amada paróquia era pequenina, mas era um grande mundo de poesia. Cada paroquiano era um dente da engrenagem que movia e acalentava a vida humana e espiritual da paróquia. São Vicente de Fora era uma comunidade que se sentia feliz na simplicidade e modéstia das suas gentes honradas e laboriosas.



Eram notáveis e dignos de admiração os esforços, que o Padre Correia da Cunha realizava para manter bem viva a comunidade num sentimento de confraternização e de sólida amizade. Para ele, o mais importante era que cada um pudesse esquecer as posições hierárquicas, as categorias profissionais, pois o que contava era a união fraterna e a solidariedade íntima entre todos os paroquianos. Eram estes que contribuíam para solidificar e conservar o esplendor da vivencia cristã e o firme desejo de buscar no serviço aos irmãos o testemunho do Grande Mestre.



Nas torres da igreja as emoções do Padre Correia da Cunha eram diferentes, não sei se eram da aragem ou da poesia que ali invadia o seu coração.





Sempre que era visitado pelos inúmeros e bons amigos, que foi criando ao longo da vida, pelos locais onde passou, era inevitável o convite para essa experiência, que lhes proporcionava desfrutarem de um panorama inesquecível e uma sensação única, onde a contemplação, o relaxamento e o deslumbramento se misturavam, proporcionando um sentimento de conforto indescritível.



 A amálgama de ruas, travessas e becos de Alfama, de recorte medieval, compunham o cenário, com o rio Tejo a servir de pano de fundo, brindando-nos com uma agradável brisa.



Lá do alto as coisas eram pequeninas assim como as pessoas que flutuavam na vida desses bairros, que desde muito novo o Padre Correia da Cunha começou a conhecer e amar, pelas suas riquezas patrimoniais e pureza de sentimentos das suas gentes.


A Paróquia de São Vicente de Fora é hoje, um cemitério de ilusões e um sepulcro sem esperança. O cenário actual levou a que a Paróquia fosse assimilada pela Paróquia de Santo André e Santa Marinha (Graça).




Na realidade, se hoje o Padre Correia da Cunha subisse às torres da sua amada igreja, já não veria a sua comunidade paroquial nem a sede da mesma. Extinguiu-se a chama sagrada após um prolongado período de total e deliberado abandono pastoral, permitindo que hoje já não sejam visíveis sinais de reacção ou um sopro de queixa. Aquele espaço em termos de vivência e prática cristã comunitária é um completo vazio de ilusões.


Está oficialmente consumada a decisão de tornar a Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora numa reitoria do Patriarcado de Lisboa.


Obviamente continua a ser verdade que a História é apenas uma interpretação dos factos,e que existe sempre também uma História na qual esses mesmos factos têm um rosto diferente.

De uma coisa estou certo: o Padre Correia da Cunha lá do alto continua a interceder pelos homens e mulheres de São Vicente de Fora, que algum dia tiveram um olhar apurado e um gesto de serviço nessa comunidade cristã. As  homenagens e o reconhecimento pelas heranças deixadas chegarão um dia…

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3 comentários:

  1. Anónimo14.12.11

    A Igreja do Mosteiro de S. Vicente de Fora, sede da Paróquia de São Vicente de Fora, criada após a conquista de Lisboa, em 1147, à qual se juntaram, em 1959 as Paróquias de São Tomé e Salvador, esteve encerrada, por motivos de segurança e depois de restauro, durante cerca de três anos. Nesse período, a vida paroquial desenrolou-se na Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça, Paroquial de Santo André e Santa Marinha, com vantagem para ambas as paróquias. Reaberta ao culto em 22 de Janeiro de 2011, continuaram os serviços de cartório na referida Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça, Paroquial de Santo André e Santa Marinha onde é possível garantir um acolhimento mais adequado e permanente.


    Além disso, o envelhecimento e diminuição da população da Paróquia de São Vicente de Fora, São Tomé e Salvador (4 267 habitantes em 2001) têm dificultado o normal funcionamento da vida paroquial.


    Assim, ouvido o Pároco, HAVEMOS POR BEM determinar que a partir da presente data:

    A sede da Paróquia de S. Vicente de Fora, São Tomé e Salvador passe a ser a Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça, Paroquial de Santo André e Santa Marinha e que a Igreja do Mosteiro de S. Vicente de Fora, deixando de ser paroquial, passe a ter à sua frente um Reitor. Os livros de registo da Paróquia de São Vicente de Fora, São Tomé e Salvador sejam guardados no cartório da Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça, Paroquial de Santo André e Santa Marinha e agora sede também da Paróquia de São Vicente de Fora, São Tomé e Salvador.


    O Centro Social Paroquial de São Vicente de Fora seja sedeado na mesma Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça.


    Lisboa, 6 de Julho de 2011

    † JOSÉ, Cardeal-Patriarca

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  2. Anónimo17.9.13

    Majestosa como sempre...é com muita mágoa ver uma igreja assim, casa de Nosso Senhor Jesus Cristo ter deixado de ser paróquia, de ter ficado vazia de crianças e juventude, sem a comunidade que a adorava. Tenho muitas saudades do que lá vivi, aprendi e que felizmente também ensinei. Agora em vez de uma casa cheia de gente, onde todos podíamos viver o mistério mais maravilhoso que é Cristo, restam as paredes históricas cheias de arte para acolherem concertos de órgão e outros espetáculos. É bonito de ver esta foto pois faz recordar as grandes festas eucarísticas que lá se viviam, mas os filhos de Deus que todos nós somos, não vão lá para serem acolhidos por Ele, apenas vão pelo espetáculo. Muitos criticam neste momento a reforma de freguesias, mas a Igreja já há muito as fez nas paróquias. Sou muito novo para ter conhecido o Padre Correia da Cunha, mas pelas pessoas que falo e o conheceram, mais do que os concertos de órgão era um homem da e para a comunidade, certamente ficou extasiado por ter tido esta homenagem, mas triste pela forma como a igreja "não paroquial" de São Vicente de Fora é neste momento. João Adrião

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  3. Anónimo19.9.13

    Há bem pouco tempo desloquei-me à igreja da graça pois para ser padrinho tive que comprovar o meu crisma, acontece que lá encontrei a minha certidão cristã, pois responderam-me que os arquivos de São Vicente de Fora se perderam na mudança...enfim...

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