sexta-feira, 9 de novembro de 2012

ALA DOS AMIGOS DE PE. CORREIA DA CUNHA







Os amigos que partiram…
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IN MEMORIAM


PADRE JOÃO JOSÉ SARAIVA DIOGO

1920-1974


PADRE JOÃO JOSÉ SARAIVA DIOGO  nasceu na freguesia de São Vicente da Beira (Guarda), no dia 14 de Abril do ano de 1920, tendo recebido a ordem presbiteral no dia 29 de Junho de 1943, na Sé Patriarcal de Lisboa, ministrada pelo Revdmº Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel II Gonçalves Cerejeira.

Recordo que foi nos anos cinquenta, que o Rev. Mons. Amílcar Amaral (1919-1990), após nomeação do Episcopado Português (1952), instala na ala sul do Mosteiro de São Vicente de Fora, o recém-criado Secretariado Nacional da Catequese (29 Março 1949). Os Catecismos Nacionais em 4 volumes, que visavam a preparação para os sacramentos de iniciação cristã foram editados pelo Secretariado Nacional saídos da pena de Mons. Amílcar Amaral   e com ilustrações de Laura Costa. Hoje, este clérigo é reconhecido, como todo o mérito, a grande figura da Catequese em Portugal do século XX. 

Mons. Amílcar Amaral teve uma vida totalmente dedicada à obra da Catequese e foi, sem margem para dúvidas, com o seu dinamismo, o grande impulsionador e renovador da Catequese a nível nacional em meados do século passado. Vejo-o entregue a tempo inteiro, sem poupar esforços, sem reservar um minuto para si próprio.

O Padre João José Saraiva Diogo exerceu as funções de Director do Secretariado Diocesano da Catequese de Castelo Branco e Portalegre (1958) e foi professor de Pedagogia Catequética no Seminário Maior. Nos meados dos anos sessenta, conclui na Universidade Pontifícia de Salamanca o Curso de Catequética, após o qual é nomeado Director-Adjunto do Secretariado Nacional da Catequese, para colaborar com Monsenhor Amílcar Amaral, com direito a sucessão (o que vira acontecer em Setembro de 1970).

A chegada do Padre João Diogo à Paroquia de São Vicente de Fora - Lisboa, na qualidade de paroquiano , não podia ter melhor acolhimento. Rapidamente se integrou no ambiente juvenil ali existente e foi-se revelando como um enorme e verdadeiro amigo. Não podemos esquecer o carinho que nos dedicava. As suas lições de profundo e simples humanismo marcaram muito a mocidade de São Vicente de Fora. Eu que tive a felicidade de com ele privar mais de perto, não posso deixar de testemunhar sinais de um Homem e Sacerdote com invulgar estatura.

Em 1967, cria-se o ensino preparatório e mais tarde inicia-se uma profunda reforma do sistema educativo no país em que a disciplina de Educação Moral e Religiosa é a nova designação para a Religião Moral. Foram anos de árduo trabalho e muita dedicação do Padre João Diogo na elaboração dos novos programas a integrar no esquema curricular do ciclo preparatório do ensino secundário.

Quero aqui recordar um ofício (1972) assinado pelo então Ministro da Educação Nacional, Prof. Veiga Simão (1929-2014), dando conta da aprovação por seu despacho desse imenso e excelente  trabalho; agradecendo o elevado espírito de colaboração do Secretariado Nacional da Catequese.

O Padre João Diogo era recebido pelo Director Geral do Ensino Secundário - Dr. Rogério Fernandes com toda a delicadeza, pois era tido como um ímpar diplomata e com uma clareza e elegância nas suas exposições sobre a temática do ensino religioso nas escolas que marcaram para sempre, a memória de muitos dos altos funcionários dessa Direcção Geral.




Após o Concílio Vaticano II, pelos anos de 1968/1969, ocorreram profundas mudanças na maneira de compreender a catequese. O Padre João Diogo teve um grande empenhamento na constituição de equipas habilitadas no domínio da catequética, para a elaboração de novos catecismos que correspondessem aos desafios para a educação cristã e ao crescimento da fé das crianças e adolescentes.

O Padre João Diogo diariamente jantava no popular restaurante "Cambu" - sito no Largo da Graça, onde me juntei muitas vezes a ele, para conversarmos.

Fazia uma rigorosa leitura dos jornais vespertinos: Diário de Lisboa e República, ansiando que lhe trouxessem a notícia da queda do regime.

O seu coração teria irradiado de imensa alegria e felicidade se beneficiasse da contemplação e vivências da generosa Revolução dos Cravos (25 Abril 1974), ocorrida dois meses após o seu falecimento.

Muitas vezes me comentava que se podia ser liberal e católico sem contradição, nem confusão de ideias: "Deve ser liberal o que for sinceramente católico, porque os princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade não foi a escola revolucionária que os criou, mas o Cristianismo".

O Padre João Diogo, acompanhado sempre da sua máquina fotográfica, dava grandes passeios aos sábados e domingos pela cidade de Lisboa e arredores para visitar e conhecer o imenso património. Era um estudioso e profundo conhecedor da história os nossos valiosos templos e monumentos.

Adorava conversar sobre as suas memórias passadas na Cidade de Portalegre, onde fora professor na Escola Industrial e no Colégio Diocesano; e nos falava das tertúlias na companhia dos muitos amigos e do seu escritor preferido e amigo, José Régio, homem de cultura, altíssimo poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista, crítico, que realizou uma carreira notável de homem de letras da nossa Terra e no nosso tempo.
Foi pároco nas paróquias de Carreiras e Reguengos da Diocese de Portalegre e Castelo Branco.

O Padre Correia da Cunha jurisdicionava o bondoso Padre João Diogo para o substituir na Paróquia de São Vicente de Fora quando tinha que se ausentar por longos períodos de tempo, como sucedeu na viagem da entrega dos restos mortais de D. Pedro IV à Nação Brasileira em 1972. O lugar de prior ficava bem ocupado, pois sabíamos que o Padre João Diogo colaborava com a juventude "irreverente" nas suas actividades lúdicas. A vida deste adorável sacerdote era viver o amor na alegria e na bondade em pessoa.

O Padre Correia da Cunha bem sabia que este homem de grandes virtudes apostólicas e de uma forte sensibilidade humana era incapaz de não colaborar nas solicitações efectuadas em nome da sua paróquia. Cultivava por isso uma enorme simpatia e calor humano e rendia-lhe uma imensa simpatia, estima e respeito. Lembro que a sua prematura morte suscitou no Padre Correia da Cunha uma profunda dor e manifestação de apreço e muito respeito. Foi oferta do Padre Correia da Cunha a alva e o paramento de ricos dourados que envolveu o corpo do Padre João Diogo na sua mortalha e que ele reservava para a sua. Concedeu ao Padre João Saraiva Diogo honras de câmara ardente no transcepto do majestoso templo. Estas suas expressões reflectem bem a amizade que nutria por este santo homem.

Foi na manhã fria do dia 10 de Fevereiro do ano de 1974, que o seu corpo frio já sem vida, foi encontrado no chão do seu gabinete de trabalho, pela Senhora Dona Deolinda Lourenço, colaboradora desde os primórdios do Secretariado Nacional da Catequese no Paço de São Vicente de Fora. Aproveito para homenagear essa humaníssima figura memorável do SNC, pelo seu dinamismo e dedicação, que eu diria paixão. A sua missão era toda a gestão dos serviços administrativos daquela casa. Na minha memória ainda se liga uma amizade por essa devota Senhora que já partiu mas que dedicou uma vida inteira à causa da catequese.





A dor da notícia rapidamente se espalhou pelos vários Secretariados Diocesanos instalados na ala ocidental do Mosteiro. A mágoa era insuportável, apenas suscitava orações de encomendação pela sua alma e manifestações de muito apreço e afecto. Padre João Diogo deixava um espaço vazio, mas um novo espaço ocupava nos corações dos seus muitos amigos.

Seria ingrato esquecimento e culpável omissão nossa, não recordarmos este amigo que nos proporcionou imensos momentos de felicidade e muito contribuiu para o aperfeiçoamento da nossa formação humana e cristã.

Todos os que com ele conviveram lhe devem um tributo de agradecimento pois continua a ser padrão de testemunho indelével na construção de uma sociedade baseada nos princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade.

O funeral do Padre João Diogo congregou uma enorme multidão de clérigos vindos de todas as Dioceses do País e por um acto generoso do Revmº Cardeal Patriarca D. António Ribeiro o seu ataúde ficou depositado no Jazigo do Clero do Patriarcado de Lisboa, no cemitério do Alto de São João. Só anos mais tarde foi transladado para jazigo de família no Cemitério da Cidade de Castelo Branco.

Foi este notável apostolo da catequese que o Con. Dr. António Domingos Pereira, com a colaboração da Drª Maria Luísa Trincão de Paiva Boléo, substitui e bem soube perpetuar pela grande renovação e desenvolvimento que aportou à missão que lhe foi confiada: que  só através da educação cristã da infância e adolescência se constrói a realização integral do homem e da humanidade. O Secretariado Nacional da Catequese toma a nova designação de Secretariado Nacional para Educação Cristã da Infância e Adolescência (SNECIA).

São Vicente de Fora e em particular os jovens que com o Padre João Diogo conviveram guardam a sua memória com muitas e profundas saudades.

RECEBEI, SENHOR, NA GLÓRIA DO VOSSO REINO O NOSSO IRMÃO!


O Padre João Saraiva Diogo dorme, hoje um sono sagrado... uma vez que os bons homens nunca morrem. E ele era um Santo Homem.























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2 comentários:

  1. "... belo e justo texto sobre o saudoso padre João Diogo, com quem muito convivi em Portalegre, na MP e na JEC, e a quem agradeço parte do que sou.

    A notícia da sua inesperada morte, estava eu em Viseu, no estágio profissional para o Ciclo Preparatório, emocionou-me e nunca mais o esqueci. A minha gratidão.
    António Martinó

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  2. "Ali foram elaborados os Catecismos Nacionais em 4 volumes, que visavam a preparação para os sacramentos de iniciação cristã." Esta afirmação não é verdadeira. Os quatro catecismos foram elaborados quando o padre Amílcar era pároco de Águeda. Só a partir de 1960 é que se instala em São Vicente de Fora.

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