sábado, 22 de agosto de 2009

PE. CORREIA DA CUNHA E A PORNOGRAFIA

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…na sexualidade uma coisa é proibida: AMAR SEM AMOR!




Numa tarde de um belo dia de primavera, quando passava nos largos claustros do mosteiro de São Vicente de Fora, fui interpelado pelo Padre Correia da Cunha, manifestando o desejo de ter uma conversa muito séria e em privado comigo. Como se compreenderá, esta sua solicitação representava para mim uma intimidação.

- Que terei feito eu desta vez? - Pensei eu. Nada me ocorria que pudesse merecer uma forte e eventual reprimenda.

Depois de comodamente instalados na Sala da Direcção da Catequese Paroquial, Pe. Correia da Cunha começou por me perguntar (respondendo ele próprio às perguntas que me formulava):

- Se tu estivesse sozinho em casa e aí ocorresse um incêndio, que terias tu de fazer?

- É óbvio que tentavas apagá-lo!

Mas se não o conseguisses fazer sozinho?

Chamarias os teus vizinhos mais próximos, para te ajudarem nessa difícil tarefa?

- Mas mesmo com ajuda dos vizinhos não conseguiam extinguir o incêndio.

Teriam de ser contactados os bombeiros para anularem esse imenso perigo!

- Será assim ou não?

Sabes, houve aqui na paróquia um grandíssimo incêndio. Não estou interessado em saber se tu estás metido nesse grande fogo. O importante é que o terei de eliminar o mais depressa possível.

Ingenuamente, e manifestando-me muito preocupado, perguntei-lhe onde tinha ocorrido esse tão funesto incêndio?

Abrindo a gaveta da antiquíssima e enorme secretária Pe. Correia da Cunha retirou uma revista pornográfica de muito boa impressão a cores. O incêndio está aqui. Ontem, quando passava no corredor das velhas*, um imenso grupo de jovens contemplava fervorosamente revistas indecorosas, tendo deixado na impetuosa fuga para trás esta que aqui guardo.

Padre Correia da Cunha aproveitou para de imediato e freneticamente fazer uma das suas habituais catequeses:


- Estas revistas são uma blasfémia contra o Espírito Santo. Mas o mais grave é que contribuem para destruir a relação com o verdadeiro Amor desejado e querido por Deus para os seus servos.

Como é possível destruírem-se árvores da nossa amada natureza para imprimir estas obscenidades? A pornografia apela aos interesses sexuais mais degradantes e baixos. Ela toca o lado mais estúpido e negro, revelando no homem o que há de mais perverso. Ela promove e contribui para a degradação do ser humano. A pornografia é uma das forças que escraviza e corrompe a base da sociedade de moral cristã.

Para Padre Correia da Cunha a sexualidade envolvia o que havia de mais belo, sublime e íntimo na vida do ser humano. Deus criou a sexualidade no homem e na mulher para num sincero acto de amor electivo unirem os seus corpos numa dávida de entrega total. Todos nós somos fruto dessa forte enunciação de amor de um homem e uma mulher. Como cristãos deveremos dignificar esse acto como algo de maravilhoso e que não podemos deixar que seja adulterado e violentado com a promoção destas obscenas e degradantes revistas.














Dias depois, na reunião do Conselho Paroquial, Padre Correia da Cunha aproveitava para explicar que tinha ''perdido a cabeça'' colocando em défice as contas indigentes da paróquia, mas não havia alternativa para eliminar o incêndio que se propagava na sua Comunidade. Adquirira junto das melhores editoras todo o equipamento disponível em audiovisual sobre a temática da Sexualidade Humana, visando dar início à formação da juventude da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora. Esta ‘’loucura’’ há altura custou-lhe umas boas centenas de contos.

Todos os sábados à tarde os jovens e adolescentes eram convidados assistir às suas explanações sobre a temática da sexualidade. Acompanhado de excelentes slides Padre Correia da Cunha, com linguagem simples e em agradável cavaqueira, lá ia maravilhando os cerca de cinquenta rapazes e raparigas que ali se encontravam ávidos de conhecerem este deslumbrante mundo da sexualidade humana. Padre Correia da Cunha fazia questão que ninguém saísse daquela sala sem entender a linguagem técnica em que naturalmente se apoiava, pois há época todo este material didáctico era de origem estrangeira. Como sabemos Padre Correia da Cunha não se rogava de utilizar uns palavrões em bom português da gíria de marujo. O importante era que tudo fosse compreendido. Sempre reconheci no Padre Correia da Cunha esta sua enorme preocupação: a mensagem tem de ser entendida e absorvida. No final era dado a todos a possibilidade de colocarem as suas dúvidas para serem esclarecidas, pedindo que colocassem as questões como, quando falam com os amigos destas matérias, não fossem pretensiosos na escolha da terminologia.

A grande lição que aprendi com Padre Correia da Cunha foi que DEUS É AMOR, tudo é permitido só uma coisa é proibida na sexualidade AMAR SEM AMOR. A pornografia era bem o espelho dessa proibição.

Padre Correia da Cunha não era um purista nestas matérias, DEUS criou homem e mulher para serem felizes, vivendo o prazer na entrega dos corpos na maior manifestação do amor… da qual todos nós provimos. Dentro deste princípio, o que cada par faz no âmbito da sua vida íntima só a eles próprios interessa, cabe nos a nós respeitar naturalmente a dignidade do ser humano neste aspecto tão maravilhoso para o desenvolvimento integral.

Foi Deus que criou a sexualidade no homem e na mulher para os unir na busca de desejos íntimos de felicidade plena. Nós próprios somos o produto dessa entrega de amor dos nossos pais. Padre Correia da Cunha bem sabia do que falava, pois nunca ocultava a sua contrariedade na observância da castidade…todos os que o conheceram sabem bem a que me refiro, mas para todos nós eram ainda mais enriquecedoras a sua sábias palavras pelas suas vivências nesta sua faceta tão humana e cristã.


* - O corredor designado das velhas é hoje as instalações do Centro Social e Paroquial de São Vicente de Fora. Na época era um local de arrumos degradado, sem cor e de fraca luminosidade.

Renovo o meu pedido a todos os que possuam documentos, cartas, fotografias que me enviem para podermos dar continuação a esta merecida homenagem a Padre José Correia da Cunha.


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