quarta-feira, 1 de junho de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA, UM RETRATO (VI)

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“Amar é conhecer! Amar é escolher! O amor consiste em querer o bem do outro!” PCC




A cada dia que passava, milhares de casais noivos dirigiam-se à Paróquia de São Vicente de Fora, para ali concretizarem o grande sonho de construir um novo lar.

Padre Correia da Cunha, com o objectivo de ajudar esses jovens a construírem a sua felicidade na nova vida que queriam abraçar, organizava CPM’s (Cursos de Preparação para o Matrimónio).

A finalidade destes Cursos eram ajudar os noivos a tornarem-se casais unidos e cristãos. Nessas reuniões reflectia-se com eles sobre todas as realidades do casamento e difundiam-se os princípios fundamentais da espiritualidade conjugal.

Como pastor, Padre Correia da Cunha não podia deixar de ter esta enorme preocupação: orientar e ajudar estes jovens casais no seu desenvolvimento humano e cristão. Para ele, os noivos deveriam ser mais que simplesmente namorados. Deveriam ser futuros construtores de um lar estável, harmonioso, feliz e criador.


Na organização destes cursos havia uma estrutura de um grupo de trabalho: Padre Correia da Cunha, como assistente, e grupos de casais, com a responsabilidade de dirigir e animar esses frutuosos encontros. Quero hoje aqui recordar alguns desses casais que tanto contribuíram para o êxito destes cursos com o seu agradável testemunho de um matrimónio de verdadeiro Amor: Carlos Diamantino e esposa, Carlos Barradas e esposa, Casimiro Ferreira e esposa, Dr. Gomes da Silva e esposa, Dr. Abílio Fernandes e esposa, entre muitos outros.





Todos os noivos eram convidados a frequentarem os Cursos, devendo fazê-lo livre e espontaneamente, sem serem forçados. Porém, diga-se que Padre Correia da Cunha explorava habilmente a sede de felicidade que todos os noivos demonstram para motivá-los a participarem no CPM.



Todos diziam sim à chamada. A sua preocupação era ajudar a formar e transformar, procurando transmitir a convicção de que é possível ser deveras feliz e ter êxito no casamento, apesar da fraqueza humana e das dificuldades que iriam surgir pela vida fora.



Para Padre Correia da Cunha não havia temas tabu, tudo ali era abordado desde Psicologia masculina e feminina, harmonia e vida sexual, o casamento no plano de Deus, vida e lar. A participação activa dos noivos era considerada por ele como fundamental.



Para a temática sexual era sempre convidado um casal de médicos. Padre Correia da Cunha como toda a sua natural frontalidade também gostava de meter a colherada na temática sexual pois, para ele, o sexo era muito importante como realidade humana e as relações sexuais não eram meros actos físicos; eram manifestações genuínas de amor e doação mútua.


A sua linguagem era muito acessível para os noivos. Nestas reuniões, mantinha os noivos num clima de saudável optimismo e bom humor, mas sem deturpar a verdade. Sempre se dirigia aos noivos como seus amigos e desejando realmente ajudá-los a realizar a sua felicidade, lembrando e insistindo muito sobre a importância do diálogo entre eles. Acrescentava: “Uma flor muito bela, se não for regada com todo o carinho diariamente, rapidamente morrerá. A água do casamento é o diálogo permanentemente.”


O encerramento dos Cursos de Preparação para o Matrimónio era sempre celebrado com uma grandiosa festa, nos claustros do Mosteiro. Reinava um ambiente de uma enorme e verdadeira amizade entre todos os participantes.

Padre Correia da Cunha encarregava-se da preparação do beberete, onde nos frios não poderiam nunca faltar os seus predilectos pastéis de bacalhau. Eram ricos os menus destes jantares volantes e regados com uma boa pinga. Padre Correia da Cunha não dispensava um bom vinho. Degustar um bom vinho era um sublime ritual que ele nunca recusava.

Festa sem boa música também não era festa. A música era seleccionada para que os noivos não resistissem a um bom passo de dança. Recordo que as festas daquele tempo eram feitas de muitas riquezas, onde nunca faltava o respeito entre todos. O espírito era de fraterno ambiente cristão.
Todos os corações estavam alegres e reinava sempre uma alegria estrondosa entre todos os casais de noivos. No final deste fraterno convívio despediam-se, denunciando nos seus olhos uma plena felicidade. Creio mesmo que muitos casais mantiveram contactos douradores pelas suas vidas fora.


Também no tempo de Padre Correia da Cunha, havia na Paróquia de São Vicente de Fora, eventos e cerimónias nupciais de empolgante e rara beleza que mantenho inolvidáveis na minha memória.

Aquele templo era suplicado por muitos “marujos” para cenário dos seus casamentos. Admiradores do Capelão Correia da Cunha, não poderiam de deixar de o convidar para celebrante de tão nobre e inesquecível momento das suas vidas. A celebração de um matrimónio canónico era um momento marcante por excelência, como sabemos é uma decisão que compromete a vida dos noivos para sempre.

Assisti a centenas de Liturgias de Matrimónio celebrada por Padre Correia da Cunha para os seus amigos da armada.


Depois da Missa do meio-dia ninguém arredava pé, caso se constatasse que um oficial da marinha ia casar. A igreja magnificamente engalanada com belas flores povoava-se de muitos convidados. Entre os convidados destacavam-se os camaradas de curso da Escola Naval. Os que não estavam presentes andariam certamente pelo mar longínquo ao serviço da armada, com o sacrifício das suas vidas em prol da Pátria.

Depois de cumpridos os rituais religiosos da longa cerimónia, à porta da majestosa igreja, formavam-se nas harmoniosas escadarias, duas longas filas de oficiais da armada, que quando pressentiam a saída dos noivos, desembainhavam as espadas, que dois a dois cruzavam no ar.
Cumpria-se uma velha tradição. Os recém-casados passavam debaixo daquelas espadas reluzentes e nuas no simbolismo protector de que, sem limites, poderiam contar com a lealdade e solidariedade fraterna dos camaradas de armas.


O copo de água era um serviço rico. Os “marujos” animados, com as suas fardas de gala, que os raios solares reflectiam em brilho das bordaduras e dragonas douradas, colocavam no ambiente uma nota de realeza e júbilo, assim como uma ambiência de afectuosa e sã convivência.

A certa altura o Capelão Correia da Cunha levantava um brinde, com champanhe francês de boa marca para elogiar os noivos e desejar-lhes um futuro pleno de felicidade e muito amor, aproveitando para lhes recordar a homilia, onde fizera um eloquente discurso de Felicidade: “O casamento não é mais do que uma longa viagem marítima, em que ambos embarcaram num navio e largaram através do mar da vida num destino comum.”

Quem não recorda as longas homilias de Padre Correia da Cunha que mais pareciam lições de marinhagem:




Quando o mar é sereno, tudo corre bem, mas, por vezes desencadeiam-se ondas bravias, são as tempestades da vida.
O bom “marujo” tem de ter mão firme no leme e em colaboração íntima com ela vencer o temporal, como comandante que escolheu as rotas e vigia os rumos. Ela, como “zeladora pelo navio”, assim como o imediato, é responsável pelo aspecto impecável da embarcação. Mas não há felicidade a bordo sem o entendimento perfeito de ambos. Só a sua acção conjunta garante a chegada final ao porto de destino.”


Continua…
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