terça-feira, 6 de setembro de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E A MORTE DE UM AMIGO…

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Hernani com castiçal ao fundo Padre Correia da Cunha

ERA UM CORAÇÃO PARA A TERRA E UM ESPÍRITO PARA O CÉU.


O dia 6 de Setembro do ano de 1965 é hoje aqui recordado com imensa tristeza nos corações de muitos amigos, que ainda conservam nas suas memórias as profundas saudades pela perda, em tão lamentável acontecimento, de um jovem egrégio em idade precoce.

A Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora sentiu muito a morte daquele que durante anos serviu o altar como menino de coro e depois como acólito, na companhia dos seus priores e amigos: Mons. Francisco Esteves e Padre Correia da Cunha.

Hernâni era um jovem guiado por ardentes sentimentos cristãos. Era um coração para a Terra e um espírito para o Céu.

No aniversário de tão triste e lamentável acontecimento, pela perda irreparável deste saudoso jovem amigo, transcrevemos do Blogue de Rogério Martins Simões uma sentida homenagem a Hernâni Anunciação Santos (1949-1965) e publicamos um conjunto de fotos inéditas, tiradas ao Nã no exercício das suas funções litúrgicas.


Hernani menino do coro ao fundo 

Memórias dos meus 16 anos de idade
A morte de um amigo.

Já passaram 46 anos?! Que tragédia! Que trauma o foi para todos nós, jovens da mesma idade, amigos inseparáveis, acólitos e catequistas na Igreja Paroquial de São Vicente de Fora.

Eu ia ao seu lado!

Nascemos no mesmo ano, eu a 5 de Julho, e o Hernâni (Nã) a 29 de Setembro de 1949. À data dos acontecimentos tinha completado os meus 16 anos de idade e recordo que nos preparávamos para a grande festa dos 16 anos do Nã.

Recordar esta tragédia é lembrar um dos acontecimentos mais traumatizantes da minha vida e da vida daqueles que presenciaram, incrédulos, o que ali estava a acontecer. Sim, mesmo ao nosso lado.

Regressávamos de mais uma viagem na camioneta do Patronato. Todo o dia fora divertido, porque, nesse tempo, contentavam-nos com pouco – os nossos pais não tinham viatura, e ir numa excursão à praia das Maçãs; ao Guincho, a Vila Viçosa, ou outro local programado, era sempre um motivo para nos fazer feliz. Tudo correra com normalidade e lá estávamos nós amontoados ao fundo da camioneta.
Muito cantámos, mas o artista era o Hernâni.

Recordo o momento em que a camioneta chegou ao Campo de Santa Clara, local onde se faz a feira da ladra.

Lembro-me da viatura começar a entrar por aquele estreito e maldito portão.

Recordo-me de ver os putos pendurados no estribo da camioneta, ali mesmo ao nosso lado, na parte traseira.

Ainda estou a ver o Nã a gesticular para os garotos e a pedir-lhes para que fugissem; para que não ficassem entalados entre a camioneta e o portão que dá acesso à parte inferior do antigo Mosteiro de São Vicente de Fora.

Recordo o momento em que o Hernâni colocou a cabeça de fora tentando com o braço a afastar os putos. A camioneta a entrar lentamente, uma eternidade, arrastando e esmagando a cabeça do Hernâni contra o portão de ferro.

De o ver cair a meu lado o corpo do Hernâni, jorrando sangue.

Vejo-me a chorar e a correr para a Igreja a rezar e a passar em revista os tempos felizes que vivemos e o dia em que nos conhecemos:

“ Desde menino, quando apenas conhecia os anjos, já escutava na telefonia a bela voz da Amália. A minha mãe lavava a roupa no tanque, num saguão de uma casa na freguesia de São Vicente de Fora, e cantava desconhecidas cantigas da Beira Serra.

Fui crescendo e um dia, no início dos anos 60 do século passado, descobri por acaso os caminhos que me conduziram, durante muitos anos, à Igreja de São Vicente de Fora.

A luta pela vida era tremenda! Levantavam-se pelas 4 horas da manhã, apanhavam o eléctrico que os levava à Praça da Ribeira onde se abasteciam de legumes com que governavam a vida no mercado de Santa Clara. Pela primeira vez entrei nos claustros do Mosteiro de São Vicente de Fora.



Andava eu pelos claustros do Mosteiro quando, em cima da 

hora das cerimónias de posse do novo pároco, faltou à 

chamada um menino de coro! Mas… o Padre Correia da 

Cunha fazia questão em ter doze rapazes! Doze eram os 


Apóstolos e ele só tinha 11.

Tudo tinha sido verdadeiramente programado, ensaiado ao 

pequeno detalhe: os mais pequenos à frente! Tudo em 

carreirinha, em duas filas! – Túnicas novas feitas por 

medida!


Sobrava uma! Era grande – como ela tivesse sido feita de 

propósito para mim!


Pois bem! Não é que fui pescado quando por ali andava 

perdido…


Vestiram-me uma túnica braça.


Cingiram-me com um cordão vermelho.


Em poucos minutos ali estava eu, menino do coro 

repescado, a caminho do altar, lado a lado com o meu bom 

e saudoso amigo, Hernâni Anunciação Santos,”


Volto aos acontecimentos desse trágico dia:


Entrei na Igreja em convulsão. Ajoelhei e pedi a Cristo e aos

Santos para salvarem o Nã - e ELES não me quiseram 

ouvir…


A partir daí deixámos de escutar o seu belo canto no átrio da

Igreja de São Vicente de Fora.


Não mais esqueci aquela tragédia – Tinha então 16 anos de 

idade. Talvez por isso, quando nos juntamos, todos 

cantamos a mesma canção. Assim, e enquanto houver 

memória haveremos de cantar, recordando-o, a sua canção: 

“ A fonte da minha aldeia”.


A fonte da minha aldeia


Quando soluça baixinho


Parece até que rodeia


A poeira do Caminho.


Eterna saudade, do teu eterno amigo,


Rogério Martins Simões
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1 comentário:

  1. Anónimo19.1.17

    Eu sou desse tempo,também andei pelos claustros do Mosteiro e no Patronato Nuno Alvares Pereira Nasci no Pátio dos Quintalinhos em 1946
    Não o conheço mas dou-lhe um grande Abraço

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