segunda-feira, 4 de julho de 2016

II CONFERÊNCIA DE CAPELÃES DA NATO














QUAL A UNIDADE ESPIRITUAL DA NATO QUE BUSCAMOS?



A segunda conferência de Capelães Navais dos países da NATO foi realizada em Outubro de 1957, nos Estados Unidos da América.

Provavelmente, a terceira conferência a realizar, em 1958, será a meio caminho entre a primeira (Haia-Holanda) e a segunda (Washington). Isto era o que se ouvia nos corredores, nas conversas havidas entre todos os capelães chefes, presentes nesta II conferência, no Memorial Building.
O interesse prático destas conferências era o fortalecimento dos laços espirituais, que uniam os países que faziam parte da NATO. Assim, ficou lavrado em acta das conclusões tiradas na primeira conferência de Haia - Holanda. Os capelães devem contribuir para construir pontes entre Nações, independentemente das convicções espirituais.

A abertura desta segunda conferência esteve a cargo do Capelão da Grécia, CDR Epiphanios Kalafatis, chefe dos capelães da Real Armada Grega, que orou para que os esforços colectivos dos delegados ali presentes contribuíssem para a união dos países da NATO no benefício de toda a Humanidade.

O almirante Jerauld Wright, comandante supremo do aliado do atlântico, uniu-se a esta súplica e agradeceu a todos os presentes o empenho nesta reunião, formulando votos para que a poderosa influência unificadora das capelanias, representantes das várias religiões, pudessem trazer à grande aliança a forte determinação na defesa da Paz, Verdade e Justiça.

O presidente dos Estados Unidos, Eisenhower não deixou de enviar uma mensagem à conferência dos capelães, expressando a sua total confiança nestas jornadas: “ Acho que vocês estão fazendo um excelente trabalho. A NATO é uma organização que deverá ser lembrada e respeitada pelas várias histórias nacionais, tanto quanto as vossas bandeiras…”

O Secretário de Marinha dos Estados Unidos da América, Thomas S. Gates Jr. na sua intervenção após ter desejado as boas vindas a todos os delegados, afirmou: “Esta conferência pode trazer um novo significado e esperança a todas as Nações Livres, que desejam construir com os seus cidadãos uma disciplina moral que assegure um Mundo moralmente viril.”

Deu início aos trabalhos o Delegado do Canadá, que suportou a convicção que a religião é a fonte das maiores virtudes sociais de obediência e patriotismo. É dever de todos os governos das nações aqui reunidas dar-lhe estabilidade e resistência.

O capelão Arcediago F. D. Bunt da frota da Real Armada do Reino Unido chamou a atenção para a nobre missão dos capelães: pregar e louvar a fé cristã no sentido de converter aqueles que estão afastados da vida cristã na qual reside a esperança da salvação do homem.
Naturalmente, o capelão Bunt não estava a pensar em termos dos corpos de capelães que possuem capelães judeus e islâmicos.







Nos documentos que tive acesso, produzidos nesta segunda conferência dos capelães da NATO, constato que há um elevado número de problemas semelhantes entre as diversas capelanias.

Monsenhor Cammaert, chefe dos capelães das Forças Armadas da Bélgica afirmou: “Antes da segunda guerra a tendência era para organizar serviços com uma grande exposição fora das unidades militares. No presente é o inverso. As celebrações ocorrem dentro dos estabelecimentos militares com muita dignidade e simplicidade.”

Neste seguimento o capelão chefe da Marinha de Guerra Portuguesa, o Padre Correia da Cunha, referiu que se estavam a envergar grandes esforços, no sentido de se criarem condições dentro das Bases Navais em Portugal para a realização dos actos de culto. Os marinheiros portugueses são incapazes de recorrerem ao clero paroquial para viverem a sua vida cristã.
A Dinamarca já há mais de três séculos que dispõe de templos nos seus estabelecimentos militares que são utilizados como as naturais paróquias da família militar.  

As capelanias francesas estão a reclamar por um crescente apoio legislativo e administrativo, pois já desde 1953 que foi criado um Vicariato Militar e só recentemente foi reconhecida a função de Capelães Judaicos e de Capelães Protestantes.

O delegado alemão disse que, sob orientação do Hitler, o objectivo era suprimir totalmente as capelanias. Hoje, há disposições legais extremamente interessantes para se formar um Ministério que possa gerir adequadamente os capelães, assim como os meios colocados ao seu dispor para o cumprimento cabal da missão das várias capelanias militares.

Na Itália, até ao início da primeira guerra, as capelanias tiveram um glorioso passado. Referiu o Vice-almirante Cândido Brigliardi, depois da guerra todos os capelães foram devolvidos à vida civil (excepto 3 capelães que se encontravam ligados à Marinha Italiana). No ano de 1936, iniciou-se o processo jurídico para dar existência legal aos capelães que deveriam servir os três ramos das forças armadas. Criou-se um Ordinariato Militar, que mais tarde se tornou extensivo também às forças polícia e de segurança.






O Arcediago Bunt, representante da Igreja Anglicana Inglesa, referiu que o suporte para os capelães não anglicanos tem sido bastante travado desde o início do século. Felizmente, no ano de 1943, foi possível alcançar a completa paridade em títulos e condições de serviço. A história do nosso corpo de capelães navais é clara e tem sofrido contínuas melhorias desde 1775. Era obrigatório levar o Serviço Divino a bordo dos Navios da Marinha Continental.

Após a Revolução Francesa, o anticlericalismo, tanto na França como em Portugal, dizimou as venturosas capelanias. Apenas em 1940 e em 1945, em Portugal e França, foram restauradas com muitas limitações nas suas acções. Relembrava o Monsenhor Potevin delegado da Marinha Francesa: “ Eles podem exercer a sua influência nas questões morais e sociais, mas no domínio dos serviços divinos são limitados, no desempenho de funções como a pregação, a realização de culto, celebrações litúrgicas, educação religiosa, retiros espirituais…”

Na Noruega, há preocupações no desenvolvimento de lideranças morais, organizando-se acções de formação e palestras sobre moral.
Em Portugal, segundo informação dos seus delegados há formação moral incluída na recruta dos instruendos da Marinha e diferentes cursos de especialização dos capelães, visando um maior profissionalismo nestas funções pelos clérigos do quadro de capelães navais. Algo parecido também é feito na Royal Navy do Reino Unido. Já na França, o capelão, que é um sacerdote e, cujo seu papel entre outras responsabilidades é o de organizar Cursos de Preparação para o Matrimónio, levando que os novos casais se possam empenhar na acção católica, inspirando-os a exercer influência sobre a sociedade em que se encerem.






Quais são pois as principais diferenças nas capelanias da NATO?

·        Diferenças de antecedentes históricos
·        Diferenças de religiões representadas
·        Diferença no número de capelães por Armada
·        Diferença do tempo de serviço militar obrigatório
·        Diferenças de estatutos, títulos, vencimentos e uniformes

Apesar de algumas lacunas existentes na Capelania Naval Portuguesa, esta conta com mais de oito séculos, idade muito semelhante à Capelania Naval da Grã-Bretanha.
O iluminismo surgido com a Revolução Francesa preparou o caminho para ondas de sentimentos anticlericais tanto em Portugal como na Inglaterra, o renascimento religioso do século XIX trouxe melhores posições e oportunidades aos capelães da armada inglesa.

Falemos um pouco da Turquia. Esta nação é a mais recente a se interessar por qualquer coisa como uma capelania militar. Foi a primeira conferência dos capelães da NATO em 1956, que atraiu a atenção do Ministério Turco da Defesa, que deu início a uma serie de estudos para se elaborar um plano de desenvolvimento das actividades morais e culturais nas suas forças armadas.

Pela primeira vez, surgem nesta conferência «agentes morais e culturais» da Turquia, uma das principais figuras dessa delegação era o Professor Nusret Kaymen, ministro da educação da Turquia. Foi uma surpresa nesta conferencia a presença de «agentes morais e culturais» como capelães navais da Grécia que são clérigos ortodoxos. 






Só dos Estados Unidos da América marcaram presença 824 capelães.

É impossível saber a força numérica dos capelães navais existentes nos países da NATO, devido a estas diferenças; organização militar e eclesiástica. A marinha real dos Países Baixos possui cerca de 40 capelães (20 protestantes e 20 católicos), recebem comissões regulares e podem fazer carreira na Marinha Holandesa.

Na Noruega (representada nesta conferência pelo chefe de delegação o Capelão CDR Halvar Maxnes Landsem), onde 96% da população pertence à Igreja Luterana, todo o corpo de capelães pertence a essa Igreja. A Dinamarca que teve como chefe da delegação o Reverendo Dr. Michael Neiiendam, chefe dos capelães da Real Navy e confessor do Rei possui uma situação semelhante à Noruega.

Em Portugal, os cinco capelães navais são da Igreja Católica, pois a população é cerca de 95% católica.
Os Estados Unidos da América, a França e o Reino Unido têm três grupos cada (Católicos, Protestantes e Judeus). A Bélgica, Canadá e Alemanha Federal tem dois grupos (protestantes e católicos).

Diferenças quanto à classificação e estatuto, uniforme, vencimento. Os capelães dos Estados Unidos e Noruega possuem estatuto militar. Os capelães da Alemanha, Bélgica, Canadá, Holanda, Reino Unido, Dinamarca, Portugal e França possuem uma posição pouco definida a que poderemos chamar “equiparado a oficial”.

Os capelães da maioria dos países da NATO usam uniforme militar, mas é opcional. No entanto, os uniformes não são usados por capelães gregos. O título oficial de um capelão belga é simplesmente Monsenhor ou Sir.

Foi um desafio interessante o que o Professor Nusret Koimen ministro da Educação da Turquia lançou nesta segunda conferência. “Sendo o único membro muçulmano da NATO, a Turquia é o único país que poderia servir como agente catalisador na realização da unidade espiritual das nações do mundo”.
Logo de seguida este papel de agente catalisador foi também reivindicado pelo judaísmo. 
Então coloca-se a seguinte questão: Qual a unidade espiritual da NATO que buscamos?

É inteiramente determinada pela oposição ao comunismo e rejeição do ateísmo? É o monoteísmo na sua essência, com a implicação moral que, se Deus é um, só todos os homens estão de alguma forma relacionados? Pode-se fugir a estas questões, baseando-nos no nosso lema “cooperação sem compromisso” ou estarão a ser respondidas pelo curso dos acontecimentos?

Estará assumido por todos nós que a religião só por si é boa? 




O Padre Correia da Cunha foi um sonhador e um visionário que soube incutir em cada marinheiro esse espírito e ambição. A terminar transcrevo o discurso proferido nesta segunda conferência de capelães da NATO pelo Capelão Correia da Cunha para podermos ter uma visão mais aprofundada sobre a capelania naval da armada de Portugal.





Capelão Correia da Cunha



“Por amável convite do Reverendo Almirante Harp, ilustre chefe dos capelães Navais Norte-Americanos (cujas as altas qualidades o impõem ao respeito e admiração e todos sem distinção de Credos), cabe-me a mim a honra de apresentar a Vossas Reverencias uma visão panorâmica da Capelania Naval Portuguesa, que a sua gentileza qualificou de jovem.
Não é intenção minha experimentar a paciência de Vossas Reverencias (sei que todos são almas cheias de tão necessária virtude); mas simplesmente traçar um quadro, necessariamente esquemático, do que foi e do que é a Capelania Naval Portuguesa.

Permitam-me, porém, que, antes de entrar no assunto, agradecendo a intenção do Reverendo Almirante Harp em chamar jovem à nossa Capelania, esclareça, desde já, que ela não é, de facto; tão jovem como parece. Na verdade, apesar de uma ou outra crise transitória, provocada por filosofias mais ou menos materialistas com os correspondentes fenómenos políticos-sociais, a Capelania Naval Portuguesa tem a linda idade de oito séculos…

Portugal é uma Nação cujas fronteiras ficaram definidas, na velha Europa, desde o século XII. Nasceu e cresceu à sombra da Cruz de Cristo, de um movimento de reconquista cristã que bem pode chamar-se uma autentica cruzada contra os usurpadores do seu território.
Geograficamente situado no extremo ocidental da Península Ibérica, é como uma varanda aberta sobre o mar oceano.
Estes dois factores fundamentais fizeram de Portugal uma Nação estruturalmente cristã e marítima.

Não é, pois, de estranhar que, desde o princípio, embora sem a organização que mais tarde viria a ter, Portugal tivesse uma Armada e nela, clérigos que serviam os superiores interesses morais e espirituais dos marinheiros, desses homens fundamentalmente cristãos que tinham por estandarte a Cruz.

Sem falar em antiquíssimas lendas que andam ainda hoje na boca do povo, mas que não podem comprovar-se documentalmente, podemos afirmar com todo o rigor mais exigente critica histórica que, já no século XII havia em Portugal uma pequena, mas eficiente Armada.
Sabe-se, com efeito, que na reconquista cristã da orla marítima do nosso território e sobretudo na reconquista de Lisboa, em 1147, foi importantíssimo decisivo o papel desempenhado na luta pelas pequenas embarcações costeiras das populações ribeirinhas e principalmente pelas naus dos Cruzados Anglo-Saxões e Normandos que, por esse tempo, se dirigiam à Palestina para defenderem o Sepulcro de Cristo.

Documentos coevos afirmam que morreu no Tejo a combater por Cristo um dos capitães das galeras de El-Rei ; e Ausbern, Clérigo Anglo-Saxão, descreve, em preciosa carta para a sua família, os trabalhos passados pelos Cruzados para a reconquista da princesa do Tejo.

Desses e de outros documentos consta o grande número de clérigos que, não sendo capelães, na moderna acepção do termo, eram de facto os Guias Espirituais daquela gente. Tal como acontecia nos exércitos de terra, cuja bandeira era a Cruz alçada por um clérigo, também os Cruzados do Mar eram animados nos combates e fortalecidos nas provaçõe4s por eclesiásticos. Esse era, aliás, o espírito dessa tão caluniada Idade Média em que a Igreja, através da acção missionária dos seus monges, civilizou os Bárbaros e gerou maternalmente as grandes Nações do velho Mundo.

REI D. DINIZ
Um dos clérigos mais célebres na reconquista de Lisboa e que podemos com razão chamar o primeiro capelão naval historicamente conhecido, ao serviço de Portugal, foi Gilberto, Cruzado Anglo-Saxão, a que D. Afonso Henriques, em reconhecimento dos seus feitos e da sua virtude, faz sagrar como Bispo daquela cidade.
Desde então, as Naves Portuguesas tem tido sempre assistência religiosa, mais por imperativo da consciência cristã dos Marinheiros que por imposição legal ou ordenações régias.
Na reconquista cristã do Algarve, em 1249, temos de novo notícia de uma frota cuja principal missão era cortar todo o apoio do Norte de África era prestado aos Mouros daquele Reino.
É, porém, no tempo de D. Dinis (1279-1325) que se organiza com carácter definitivo uma Armada Nacional que dispõe das melhores unidades navais, então possíveis, e se inicia uma instrução naval sistemática.


Esse grande Rei manda vir de Génova e paga a peso de oiro os marinheiros mais experimentados daquele tempo, e nomeia até um dele Manuel Pasagno, almirante da sua frota.


O fundador da Universidade de Coimbra, um dos centros culturais mais célebres da Idade Média, é, ao mesmo tempo, um dos maiores cultores da poesia trovadoresca; é um homem de grandes iniciativas que fomenta a agricultura, o comércio e a indústria; e é o espírito largo que, reconhecendo a distância a grandeza da missão histórica de Portugal, prepara a gloriosa época dos descobrimentos. É, ele, com efeito, quem (como disse) dá uma estrutura técnica e científica à Armada Portuguesa, e, na previsão da expansão marítima de Portugal, manda semear os grandes pinhais de onde haveriam de construir-se as Naus que, pouco mais tarde, cruzavam todos os mares, “ Dando ao Mundo Novos Mundos” e, o que é mais, novas estrelas!”.

Poucos anos volvidos, há notícias das Naus Portuguesas, causando admiração a outros povos marítimos, como a Inglaterra, cujo Rei Eduardo III manda tratar como barcos de país amigo, concedendo-lhes a sua protecção e dando-lhes todas as facilidades para comerciarem à vontade.

E a assistência religiosa era tal, que a Nau “Santa Maria” entre outras que estiveram na Grã-Bretanha em 1352, era comandada por um frade, de nome Domingos…Também em 1385, quando é preciso apontar as galés do norte do país para defenderem Lisboa ameaçada pelos castelhanos, é Dom Lourenço, antigo clérigo das Naus, ao tempo Arcebispo de Braga, quem pessoalmente toma a iniciativa de ordenar a expedição.







Do que foi a Epopeia Marítima dos Portugueses, nos séculos XIV, XV e XVI, creio que não haverá ninguém medianamente culto, que não saiba.


Na verdade, quem há aí que ignore terem sido a Fé Religiosa dos Portugueses e a sua ciência náutica e astronómica os factores mais importantes que determinaram uma nova História – A Idade Moderna?

A sombra do grande Infante Dom Henrique, fundador da Escola Náutica de Sagres, no extremo sudoeste de Portugal, projecta-se ainda hoje pela vastidão dos Mares e pela amplidão dos Céus. Foi graças ao seu estudo e às suas iniciativas, que nós descobrimos, no firmamento, o Cruzeiro do Sul, que hoje exorna a bandeira do Brasil, e, na terra, novos e vastos territórios, até então desconhecidos e, o que é mais, povoados das lendas mais tenebrosas.

As Naus e as Caravelas Portuguesas, marcadas a sangue com a Cruz de Cristo, enfrentam todos os mares; os nossos Marinheiros levam nas mãos calosas as chaves dos segredos e mistérios que, então, a Terra ciosamente guardara; e os nossos missionários, com um espírito verdadeiramente apostólico, vão dispostos a transformar o Oceano em Pia de Agua Benta para baptizar o mundo!...

Nem se pense que esta síntese é fácil figura de retorica!

Ei-los que saltam ao Norte de África para aí estabelecer um baluarte que assegure a expansão da Religião Cristã e a dilatação do Império.

Fazem-se depois ao mar misterioso e descobrem a Madeira e os Açores. Desvendam-se e percorrem toda a Costa Ocidental Africana, semeando-a de Padrões (pilares de pedra encimados pela Cruz de Cristo) e estabelecendo feitorias e missões. Dobram o Cabo das Tormentas, a que o próprio Rei dá o nome de Cabo da Boa Esperança. Esquadrinham toda a Costa Oriental Africana, chegando a contacto com o famoso Prestes João. Chegam à Índia, por mares nunca de antes navegados, abrindo assim caminho para o intercâmbio dos povos ocidentais com o misterioso Oriente. Deixam bem assinalada a sua passagem nas Molucas, em Ceilão e em Malaca.

Relacionam-se com o longínquo Dai-Nipon. Estabelecem-se em Macau e em Timor. E nas Américas, descobrem o Brasil, a Terra Nova e o Labrador. E é ainda um Português, Fernão de Magalhães, quem, com a viagem de circum-navegação dá ao mundo a prova experimental de que, de facto, a Terra era redonda.

E (demostração insofismável da sua Fé e do seu Génio!) em toda a parte, onde quer que passa ou se estabeleçam, os Portugueses, respeitando as tradições, usos e costumes que encontram, são apóstolos da Civilização Ocidental e da Religião Cristã, num esforço civilizador e missionário verdadeiramente únicos na História. Lembremos apenas que o primeiro acto que se realizava imediatamente após o desembarque, era o Santo Sacrifício da Missa, celebrado pelos sacerdotes que sempre iam a bordo e cujo primeiro cuidado era procurar ensinar aos indígenas a língua portuguesa para depois os catequizarem distribuindo-lhes livros de doutrina e Bíblias em vernáculo. Ainda hoje, nalgumas regiões de Sumatra se chama «falar cristão» aos dialectos mais ou menos portugueses que por lá existem.


Verdade seja que, ao mesmo tempo que andavam dilatando a Fé, procuravam também alargar as fronteiras políticas do seu Império, e as fronteiras económicas do seu comércio. Mas, com uma visão cristã da sua missão histórica, os Portugueses tinham como supremo objectivo um ideal civilizador e religioso: - sem violentar as consciências e sem abolir os usos dos outros povos, procuravam sempre mostrar-lhes, pela pregação do Evangelho, a grande nova que dos homens faz filhos de Deus e, portanto, irmãos e amigos, como expressamente determinavam o Infante de Sagres e os Reis Dom João II E Dom Manuel I em suas cartas.

Nem de outro modo se explica o facto de, ainda hoje, apesar de todas as vicissitudes políticas, Portugal ser uma Nação repartida em quase todos os Continentes.




E (prova deste espírito de tolerância dos Portugueses) é ainda a actual coexistência das mais variadas religiões nos territórios ultramarinos, designadamente na Índia Portuguesa, onde, sob a bandeira das cinco chagas de Cristo, unidos por um forte sentimento patriótico, vivem irmãos Maumetanos, Hindus, Protestantes e Católicos. 

Outra prova da largueza do espírito missionário português foi a grande inovação de promover a formação e ordenação de clero indígena. Três séculos antes do actual movimento de renovação missionária, já Portugal tinha sacerdotes negros, como ainda há pouco lembrava o grande escritor francês Daniel Rops.


Capelães não seriam (na moderna acepção do termo) os missionários que acompanhavam os Marinheiros. Mas quanta assistência a bordo não prestaram eles? É ler as crónicas do tempo, folhear os diários náuticos, compulsar a História Trágico-Marítima - e ver –se- à o zelo apostólico, o espírito de sacrifício , a abnegação desses Sacerdotes-Marinheiros. Sempre prontos a assistir aos doentes e moribundos; sempre solícitos em consolar os tristes e saudosos; sempre desprendidos dos bens terrenos, para, como São Paulo, serem tudo para todos, a fim de conquistar todos para Cristo.

Dentro de tão curto espaço de tempo (de 1940 até hoje) conseguiu-se ainda a construção de uma Capela na Zona Naval do Alfeite, a restauração de outra no velho Arsenal de Marinha, em Lisboa, e adaptação de salas a capelas nos principais centros de instrução naval, como por exemplo, na Escola de Alunos Marinheiros, no Corpo de Marinheiros e na Escola Naval.

Devido apenas ao exíguo número de capelães, é que somente em viagens de instrução é assegurada aos Marinheiros a assistência religiosa.







No que respeita a problemas sociais, os capelães tem sido elemento indispensável nas obras de previdência e auxilio quer oficiais, como Acção Social da Armada (ASA), quer particulares, como Conferencias de São Vicente de Paulo, fundadas por Oficiais e Cadetes.


Estão ainda a cargo dos Capelães as aulas de Moral aos recrutas e a diversos cursos de especialização de marinheiros, e criou-se um movimento (Associação dos Marinheiros Católicos) para a formação de uma sã consciência religiosa e moral dos seus filiados, que já se contam por centenas e estão espalhados por quase todas as unidades de Marinha, formando em algumas deles núcleos muito activos.

Para os oficiais casados, começaram-se umas reuniões de formação conjugal e familiar, que se procura estender também aos sargentos e praças com famílias constituída.

Esboçou-se e procura-se desenvolver também uma Associação de pessoas de boa vontade, ligadas ou não directamente à Marinha que assegurem eficaz auxílio espiritual e também material aos Padres Católicos.

Quanto à vida religiosa propriamente dita, sempre os Capelães tem posto todo o seu empenho em que ela seja autêntica e sincera, não se limitando, portanto, a encaminharem o pessoal para as cerimónias religiosas, mas procurando que essa vida se traduza numa caridade ardente e numa moral irrepreensível.

Procura-se acima de tudo, não o número que poderia corresponder a um farisaísmo hipócrita, mas a qualidade que significa verdadeira vida de união com Deus.

Presentemente podem reduzir-se a quatro as nossas mais urgentes necessidades:


1- Necessidade de uma organização castrense que tenha autoridade canónica bastante para regulamentar, orientar, coordenar e desenvolver as actividades religiosas dos capelães;

2- Necessidade de mais capelães, para acorrer às mais urgentes necessidades religiosas dos marinheiros;

3- Necessidade de leigos, devidamente preparados, para coadjuvarem os capelães;

4- Necessidade de uma compreensão mais profunda, por parte das Entidades Oficiais, na nossa acção religiosa e de necessidade absoluta de dar à Marinha uma sólida, autêntica e sincera formação pessoal dos marinheiros, maior engrandecimento da Pátria e maior glória a Deus.


Chegado ao fim de tão longo discurso, penso não ter conseguido fazer a paciência de Vossas Reverencias, unicamente por este motivo: É que ela é tão grande como a vossa caridade! 
















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