terça-feira, 2 de agosto de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA, UM RETRATO (VIII)

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Devemos manter o coração aberto, para os outros … experiências de felicidade!




Iremos hoje encerrar o breve retrato sobre Padre José Correia da Cunha, que apresentámos ao longo de oito publicações.

É com a sua alma de poeta que atesta, num dos seus subtis estilos, finuras e compreensões fadistas.

É através da arte das quadras que ele aproveitou para descrever e modelar a sua imagem.



Não sei,
não sabe ninguém,
porque ando ensonado
todas as manhãs…

E neste tormento,
a cada momento
eu sinto que as tripas
cá dentro se mexem
c’os copos que bebo…


Foi DEUS que me fez assim,
Pequeno e roufenho
fadista e poeta,
e avesso à dieta…


Foi DEUS,
Que me pôs no peito,
a chama da graça
que me limpa e salva,
desta “desgraça”…






















As homilias berradas,
as reuniões adiadas,
as belas sardinhadas, ai!
Qualquer dia, dou em doido…!
Não sei
não sabe ninguém,
que hei-de fazer
P’ra me esconder
de toda esta gente…
E neste lamento,
a cada momento,
eu vou prevenindo
que lá estarei,
se o Papa vier…
Foi DEUS que me pôs aqui
na Feira da Ladra.
Nesta bela Alfama
que tanto me agrada…
Foi DEUS
Que me mandou p’ra aqui
p'ra servir e rezar,
p’ra ser o prior
de S. Vicente.
Do Patriarcado à Marinha
Da Marinha a S.Vicente
de S.Vicente p’ra onde ai!
Quem me dera ir p’ro Céu…





Padre Correia da Cunha
1967

O Padre José Correia da Cunha, nestas quadras, descreve o seu auto-retrato. Neste escrito deixa ouvir a sua voz numa imensa esperança em Deus e no seu Reino.


Não houve da nossa parte a pretensão de sermos os biógrafos desta singular figura da Igreja Diocesana de Lisboa, mas apenas o intuito de revelar testemunhos insuspeitos e sérios, assim como restabelecer a verdade sobre a sua vida sacerdotal. A caridade, acção social e a alma bairrista foram algumas das muitas dimensões que estiveram presentes no seu ministério venerável.


Padre Correia da Cunha tinha sempre uma palavra amiga, um conselho numa atitude de contribuir para a felicidade dos muitos jovens, e não só, que o rodeavam nas actividades paroquiais.



Cremos que este retrato possa contribuir para revelar um homem aberto, um grande parceiro das farras, que reconhecia os seus erros e que não fugia de praticar as suas “loucas” paixões.





Quem conheceu Padre Correia Cunha, bem sabia que não gostava de ser adornado com títulos ou reverências, preferia ser reconhecido pelo seu absoluto segredo, que só era revelado a quem privava com ele no dia-a-dia. Era puro e simples, revelando um total desprendimento das honrarias e dos bens terrenos.


Provirá da sua profunda sabedoria e prudência, a sua serenidade e lucidez que sempre o ajudavam a ultrapassar as várias dificuldades surgidas ao longo da sua vida de Cristão, Padre e Homem.


O 25 de Abril de 1974 foi um processo acolhido com entusiasmo pelo Padre Correia da Cunha, sendo considerado necessário para o desenvolvimento e respeito pelo pluralismo na construção de uma sociedade mais saudável, dinâmica e fraterna.

O seu espírito de luta pela liberdade fazia que contribuísse para roturas e mudanças necessárias nas políticas do país. Era sempre o primeiro subscritor das Petições pela Liberdade de todos os presos políticos e empenhava-se com toda a sua garra na sua defesa.

Mas nos anos do PREC, Padre Correia da Cunha só aludia ao advento de uma “baixa política” que se manifestava na impreparação dos militares e na ambição de alguns novos políticos, que só desejam o poder e o domínio da Nação.




Sem sentido de serviço, impõem novas tábuas, transvalorando todos os valores. Era o nascimento de uma enorme e grande tragédia. Sempre lhe ouvia, a Nova Era não redimirá, não aperfeiçoará o Homem, não o elevará moralmente, não o fará excepcional ou extraordinário; apenas deixará aflorar a sua natureza egoísta, esquecida pela embriaguez das utopias e das quimeras.



Viver uma vida sem rumo era para Padre Correia da Cunha desolador. Interiorizou que não íamos a parte alguma sem melhorarmos o Homem, transformando-se num céptico e compulsivo pessimista dos rumos da Revolução.



Nesta altura, começa-se a aperceber que o seu “navio” abrigara toda espécie de estranhezas. E todos os perigos que nele ocultava, o maior deles consistiam na falsificação de pensamento. Sentiu-se dispensado do convívio diário de muitos “fiéis e leais” amigos: uns que partiram deixando a pátria, outros que buscaram caminhos antagónicos com os valores cristãos e muitos, como ele, que se recolheram na solidão e na coragem para cumpri-la.





Entregue ao isolamento nos seus reduzidos aposentos (quarto dos coadjutores), na sua vida solitária, quase de recolhimento, só os bons livros lhe davam alegrias. Padre Correia da Cunha lia muito, sem parar, o dia inteiro, a noite inteira. O seu mundo era os livros. A imensa correspondência que habitualmente recebia surge em ínfima quantidade.



É sobre a sua secretária de trabalho que toma o seu frugal jantar, sobre o olhar atento de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, oferta do seu amigo do coração João Perestrello (PE).
Esse jantar, de dura dieta, manda adquiri-lo na Casa de Pasto do seu amigo Augusto Salgado e Glória, na Feira da Ladra.



Cada dia que passa é para todos nós mais claro que o mundo actual está carente de pessoas como Padre Correia da Cunha. A sua arraigada Fé na Providência Divina e na Humanidade, a sua presença de espírito assim como a sua disposição para a vida repleta de felicidade são, ainda hoje, fundamentais.








Foi um enorme privilégio para muitos de nós termos tido a oportunidade de conhecer os seus ensinamentos e partilhado da sua colossal sabedoria. Acabam por serem poucos os que conviveram e o conheceram quando começou a sentir-se ameaçado pela dor, pelo sofrimento, pela solidão e pela doença que o debilitava mais e mais, a cada dia que passava. Mas ele soube lidar com essas impotências que encontrou nos últimos anos da sua vida.


Ele sabia que estava a morrer. A cada dia estava mais próximo do encontro com o Pai Celeste.
O melhor método que encontrou para contemplar esses tempos difíceis foi vivê-los de uma forma consciente, compassiva e amorosa.

Não podemos esquecer estas derradeiras lições de vida de Padre Correia da Cunha:



-Parar para pensar naquilo que somos e no que deveríamos ser como cristãos e filhos do mesmo Pai.

-Praticar a solidariedade e a integralidade como uma constância de vida de bondade e honestidade.

A sua coragem e disposição de arrependimento foram tão grandes que nos chegavam a emocionar e a interrogar.

Recordo a título de exemplo um breve acontecimento.

Como todos sabemos, Padre Correia da Cunha nunca teve afeição pelas “velhas beatas” que permanentemente azucrinavam o seu espírito, chegando mesmo a escorraçá-las do templo em grandes berrarias:

“- Suas bruxas, vão para casa cozer as meias ou esfregar o chão!”

No final da sua vida cheguei a ouvir-lhe esta sentida reflexão:

“- São estas Santas Mulheres (outrora velhas beatas) que ainda vão segurando o Mundo da ira de Deus. Estão a rezar pela Humanidade e pedindo a Deus que perdoe este pobre sacerdote e assim o permita admirar o seu Reino.”



Na noite anterior (1 de Abril de 1977) ainda dirigiu os trabalhos do Conselho Paroquial, onde no final expressou um agradecimento renovado e muito sentido aos seus cooperadores nas actividades pastorais da amada Paróquia.


Nos vários “testamentos”, que redigia nos difíceis momentos em que tinha de ser submetido a intervenções cirúrgicas, uma coisa tenho a certeza que constava: “Estou pronto para a morte, como cristão, e como o mais pecador dos sacerdotes. Peço perdão a DEUS e a todos pelo que não fiz e deveria ter feito em prol do Serviço à Igreja e aos meus Irmãos em Cristo. Deixo chama, que espero que possa continuar a iluminar os caminhos em busca da verdadeira felicidade humana. Devemos manter o coração aberto para os outros.”








Foram os seus paroquianos e amigos que mais sentiram, naquela manhã de 2 de Abril de 1977, a perda deste grande homem de cultura, mestre, sacerdote e marujo, que todos ambicionavam escutar e do qual esperavam receber uma palavra de fraterna amizade.

A terminar, saliento que apenas aqui referimos uma pequena parte da enorme história de Padre Correia da Cunha, por desconhecimento e certamente por esquecimento. Seria interessante poder actualizar este breve texto pelo que se agradece todas as informações, de modo a poder melhorar este estudo sobre este grande homem, que viveu num entrega genuína ao seu respeitado Seminário dos Olivais, dilecto Patriarcado de Lisboa, honrosa Marinha Portuguesa, Exército Português (OGFE) e à sua querida e amada Paróquia de São Vicente de Fora.
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domingo, 24 de julho de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E O ALM. GAGO COUTINHO

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ADEUS, GLORIOSO ALMIRANTE...



Poucos dias antes de o seu estado de saúde se agravar irremediavelmente, quando a morte lhe rondava já o leito no Hospital da Marinha, no Campo de Santa Clara – Freguesia de São Vicente de Fora,  o Padre Correia da Cunha aproximou-se do Almirante Gago Coutinho, e com muita cautela e perspicácia, pois sabia que este não era um devoto praticante e “fraco crente”, falou-lhe do sacramento da Confissão (Penitência).

Seria um gesto simples de humildade, sem afectações e sofismas. Feita sim com recta intenção, isto era, sem ser por motivos humanos, mas unicamente para pedir perdão a Deus Pai e Criador.

- Pois é claro, respondeu o Almirante Gago Coutinho – sempre fui um homem de boas contas. Também as quero com Deus…

Segundo testemunho do Visconde do Botelho, Gago Coutinho terá feito a sua confissão com o Capelão Correia da Cunha.

Camões era o poeta da admiração deste ilustre Almirante. “Os Lusíadas” era o guião venerável do seu enorme patriotismo ao qual somaria no final da sua vida outro importante livro: “A Bíblia Sagrada”.

Padre Correia da Cunha partilhava com o famoso Almirante Gago Coutinho uma paixão comum: a Comunidade Luso-Brasileira. Todos reconheciam que ele conquistara o coração da Nação irmã. Ali era entusiasticamente acolhido e respeitado pelas mais importantes individualidades e elites do Brasil, pelo seu saber, simplicidade e o seu alto espírito. Recordo palavras do amigo Almirante que foram transmitidas ao Capelão Correia da Cunha:

“Não nos esqueçamos de que há uma gigantesca estátua de Cristo Rei, com eloquente expressão da Fé brasileira no alto do Corcovado, e de que Lisboa também já possui o seu majestoso monumento a Cristo Rei. Não são dois Cristos, mas um só, e de braços abertos para o Mundo. Assim, Portugal e Brasil devem continuar a ser uma só alma – aberta a todos os horizontes.”
 





Naquele dia 18 de Fevereiro do ano de 1959, depois de cerrados os seus olhos piedosamente pelo seu bom amigo, Comodoro Luís de Noronha Andrade, todos os presentes naquele quarto deram conta que a Armada acabava de sofrer um enorme e rude golpe com a perda do notável Almirante Gago Coutinho, que tanto a prestigiou e honrou.


Nascera na freguesia de Belém, em Lisboa, a 17 de Fevereiro de 1869, tendo falecido com 90 anos. Tinha a lápide do seu túmulo preparada, para a qual ele próprio redigiu o epitáfio: Gago Coutinho – geógrafo. Estavam já gravadas as datas de 1869, do nascimento e de 195., que seria a do falecimento. Nesta faltava-lhe só o último algarismo. Se ele tivesse vivido mais um ano, outra pedra teria de ser encomendada.


Segundo as suas disposições, o seu funeral seria modesto e muito simples, num despretensioso caixão de pinho. Dispensava as honras militares a que tinha direito como oficial general da Armada Portuguesa.

Este homem humilde, que viveu toda a sua vida com simplicidade, quis baixar à sepultura sem qualquer sinal que o distinguisse do seu semelhante.


Na pequena, mas bela Capela de São Roque do antigo Arsenal da Marinha, o cerimonial celebrado pelo Reverendo Padre Correia da Cunha não teve, por respeito à vontade expressa pelo Almirante, grandes solenidades, que se impunham à sua categoria de herói, sábio, marinheiro, aviador, geógrafo, matemático e historiador.


Contou com a presença dos notáveis colegas da Marinha Portuguesa: Comodoro Eduardo Scarlatti, Comodoro Noronha de Andrade, Comodoro Telmo Correia, Comodoro Negrão Neto, Comodoro Conceição Rocha, Comodoro Alves da Silva, Comodoro Sarmento Rodrigues, Almirante Sousa Faro, Almirante Nuno Brion, Almirante Marques Esparteiro, Almirante Filipe Castela, Almirante João Fialho, Almirante Sousa Uva, Almirante Alves Leite, Almirante Guerreiro Brito e Almirante Oliveira Pinto, entre outros.


Que maior honra poderia ter esse bravo e lucidíssimo Almirante do que sentir-se mergulhado na emoção dos seus colegas que o admiravam e que naquele instante doloroso lhe quiseram prestar uma última e sentida homenagem com as suas presenças. Ele assim viveria eternamente nas suas lembranças.








A sua vontade contudo, não poderia impedir o sentimento da Nação e sobretudo o do povo português, que se manifestou tão expressivamente com foros de glorificação.


O Governo Português declarou luto nacional e associou-se à manifestação fúnebre com uma larga representação. O Presidente da República e todas as mais altas individualidades entre as quais: Príncipes da Igreja, Embaixadores, Reitores de Universidades, Professores Catedráticos, Generais, Escritores e Industriais do País fizeram questão de prestar uma sentida homenagem de apreço pelo saber, pela sua prestigiosa personalidade de português, que muito nobremente serviu Portugal.

O povo formou longas alas para ver pela última vez a passagem do armão que transportava o ataúde coberto com a bandeira nacional. Havia muitos olhos com lágrimas de piedade e soluços comovidos pela perda deste Homem pequeno, franzino, moreno que descendia de uma estirpe nobre caída na plebe, como ele gostava de lembrar.


Na sua actividade científica era incansável. Tinha uma ternura especial pelas crianças, amava as coisas simples e as coisas belas da vida. Era um homem popular e muito querido em todo Portugal. Por isso o povo saiu à rua para chorar a sua morte e a perda de um grande patriota que deu imensas provas de amor ao seu amado País.


Lembro que o Padre Correia da Cunha manifestou, ao longo da sua vida, uma profunda saudade por este Nobre Almirante e referia que todos nós nos deveríamos curvar em memória deste verdadeiro herói nacional!


Adeus glorioso Almirante!


























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sábado, 9 de julho de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA, UM RETRATO (VII)

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“Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É preciso que a pureza e justiça existam dentro de nós.”




O Padre Correia da Cunha, desde o início dos anos 60, serviu a sua Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora com a generosa ajuda dos seus companheiros dos Lions Club. Membro deste honroso clube, Padre Correia da Cunha era uma pessoa com um espírito arrebatado de serviço, que trabalhava obstinada e desinteressadamente a favor da sociedade, promovendo padrões éticos tanto na vida pessoal como nas actividades da pastoral cristã.

Nas grandes convenções Lions, que se realizavam na Casa do Leão do Castelo de São Jorge, Padre Correia da Cunha era ladeado de grandes amigos como o Dr. José Jaime Neves, Engº João Korth e Belard da Fonseca, Arqtº Joaquim Tojal, Dr. Mário Fialho e Aragão Pinto, José Trindade Martnez, entre muitos outros. Nestas convenções, estava também presente o seu coadjutor Reverendo José Mitchel, Arquimandrita da Igreja Ortodoxa que proferia nesta magnas reuniões excelentes conferências sobre as suas viagens ao Oriente, onde haviam povos que falavam português e referenciavam Portugal com elevada veneração e muito respeito.






O Padre Correia da Cunha foi um indefectível Lion do Clube Lisboa Mater.

Servir a sua comunidade e atender às necessidades humanas, fomentar o conhecimento, a paz e promover a sã amizade e a compreensão entre todos os homens, filhos do mesmo Pai, era a sua ambiciosa missão. Padre Correia da Cunha era um homem sereno e humilde. Nunca ambicionou lugares elevados na hierarquia eclesial, não por falta de méritos, mas porque sempre esteve imbuído do espírito de circunspecção, serviço e humildade.

Nunca o Padre Correia da Cunha deixou de ter bem presente os seu deveres, para com o seu DEUS, sendo-lhe sempre leal em pensamento, palavras e actos. Todos os serviços religiosos eram administrados gratuitamente na sua comunidade.



Não esquecerei que o Padre Correia da Cunha trabalhava diariamente, enriquecendo a vida de muitos dos seus semelhantes sem exigir glória ou atenção. Fazia autênticos milagres através dos serviços que prestava, preenchendo lacunas e necessidades de muitos dos seus paroquianos carenciados e colocando alimentos em muitos lares. Ajudava as pessoas a obterem um emprego, através da sua intervenção, melhorando assim a sua qualidade de vida. Estes actos íntimos em benefício dos seus irmãos tinham grande influência no mundo de uma forma definitiva.







Era também através dos Lions Club que podia proporcionar aos seus paroquianos mais carenciados Cabazes de Natal, tornando-lhes o Natal mais feliz. O Natal devia ser celebrado com alegria e devoção na reunião dos familiares, lembrando o Padre Correia da Cunha o que foi, para os pobres, o primeiro olhar inocente do Menino Jesus.

Naquela noite, os pobres da sua comunidade deveriam ter mesa igual aos ricos. Só quem vive com o coração aberto para os outros é capaz de encontrar a DEUS. Recordo igualmente as roupas e bens que distribuía pelas crianças da catequese.




O Padre Correia da Cunha, na sua passagem por essa desventurada Comunidade Paroquial, exerceu efectivamente o ministério de um grande pároco pelo que continua a ser recordado pelos seus muitos paroquianos em São Vicente de Fora.






Também não podemos deixar de referir a sua missão de capelão das OGFE (Oficinas Gerais de Fardamento e Equipamento) desde 1961 até 1977.O Padre Correia da Cunha era apreciado como um fiel amigo que todos os dias levava aos trabalhadores, dessa grande instituição, uma palavra que ajudava a resolver as objecções e a encaminhar as ideias e consciências. As suas precisas palavras ajudavam a alimentar e elevar os espíritos e os corações.


Mas uma das obras que foi grande cooperador foi a criação do infantário, nas instalações da cerca, para os filhos dos trabalhadores das oficinas, que como sabemos, em grande percentagem, habitavam na sua paróquia. Daí a sua importância e alcance no que respeita à protecção da infância.


Não vacilo em recordar os altos elogios das várias Direcções daquela casa aos seus notáveis talentos e sobretudo à sua vasta cultura humanista, excelente forma de tratar com os homens, distinção pessoal, cortesia de maneiras e incondicional dedicação à Comunidade. Padre Correia da Cunha no “casão” sempre provocava a mais viva admiração de que era merecedor.




Como sabemos deixou obra escrita no domínio da teologia, da liturgia e um Auto de Teatro.



O Padre Correia da Cunha foi um herói do excesso, no talento, na virtude, na transgressão e no arrependimento. E tudo lhe desagradava em si, talvez porque, projectando-se para o absoluto, reconhecia que o absoluto só podia residir em Deus, no qual ele acreditava profundamente.


Continuo convicto da enorme influência do grande filósofo e teólogo francês Jacques Maritain, no pensamento de Padre Correia da Cunha.

Para este teólogo, um homem era uma pessoa, querendo significar que ele não é uma porção de matéria. O homem é um indivíduo que se sustenta e se conduz pela inteligência e pela vontade. Não existe apenas uma existência física, há nele uma existência mais rica e elevada que o faz super existir em conhecimento e amor…
A amizade e o reconhecimento para com o Homem, seu irmão, que Padre Correia da Cunha sempre tornava como o seu principal símbolo, são merecedores da homenagem que este blogue lhe pretende fazer. Conhecimento, Amor e Paz são valores que tão incessantemente procuramos para esta humanidade…e que ele tão bem nos soube transmitir.

Ajude-nos com os seus testemunhos sobre Padre Correia da Cunha.

Contínua…
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sexta-feira, 1 de julho de 2011

ALA DOS AMIGOS DE PE. CORREIA DA CUNHA

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Os amigos que partiram…








IN MEMORIAM


ANTÓNIO GERALDES SIMÕES

1925 - 2007






António Geraldes Simões nasceu na Freguesia de Santa Engrácia, Lisboa no dia 26 de Fevereiro 1925. Foi co-participante nas mais áureas épocas da Paróquia de São Vicente de Fora, do século XX, onde auxiliou e contribuiu para a consubstanciação dos ideais de fraternidade cristã na comunidade.

Cúmplice das emblemáticas obras sociais de Monsenhor Francisco Esteves, prior de São Vicente de Fora, entre 1900-1959, António Geraldes Simões nunca se cansou de transmitir, aos mais jovens, os ideais do então pároco. Foi durante esse período que viu concretizados os seus maiores sonhos, tendo vivido grandes e inesquecíveis momentos de felicidade.

Essa fortuna viria a reaparecer nos anos oitenta, com a fundação da Associação dos Antigos Alunos do Patronato de Nuno Álvares Pereira, de que foi presidente e com a publicação de um livro, em que era co-autor, sobre Monsenhor Francisco Esteves de Jesus (1871-1959) – “Uma Figura e uma época da Paróquia de São Vicente de Fora”.

É nosso dever prestar uma merecida Homenagem a António Geraldes Simões, pela total dedicação ao serviço da Comunidade Paroquial de São Vicente de Fora, que vinha desde os tempos do saudoso Monsenhor Francisco Esteves, com quem cooperou na sua vasta e imensa acção apostólica e cívica, e que ainda hoje é reconhecida por todos nós pela sua clara visão social para a época.

António Geraldes Simões esteve entre os muitos que conseguiram perceber o imenso processo de renovação introduzido pelo Padre Correia da Cunha, nos inícios dos anos sessenta.

Foi um grande amigo de Pe. Correia da Cunha. Empenhou-se e deu dinamismo às actividades desenvolvidas na Comunidade, com total e generosa dedicação assim como entusiasmo. Foi catequista, membro do coro paroquial, vicentino e um dinamizador incansável das festividades lúdicas, que contavam sempre com o seu imenso talento de arte cénica.

As suas representações teatrais eram de uma alma embriagada pelas ilusões e sonhos que só ele sabia transmitir em palco. Estas são inolvidáveis por todos que tiveram o grato privilégio de representar com ele.

Todos guardamos as mais gratas recordações da sua vida de incondicional entrega à Paróquia de São Vicente de Fora, que com extrema abnegação serviu como um verdadeiro líder comunitário.

Foi no dia 19 de Dezembro de 2007, que António Geraldes Simões nos deixou. Fica-nos a sua memória. Ele foi repousar na Glória de Deus. Hoje, junto do Pai e dos seus grandes amigos Mons. Francisco Esteves e Pe. Correia da Cunha, estão à nossa espera e entretanto continuarão a interceder por todos nós que não queremos nem podemos esquecer a sua lembrança.

Deixo para os comentários, de muitos seus amigos vivos, que deverão prestar a merecida homenagem à memória deste nosso saudoso e grande amigo de São Vicente de Fora.

São Vicente de Fora guarda-o em seu coração! Deixou em todos muitas saudades.

RECEBEI, SENHOR, NO REINO DOS JUSTOS O NOSSO IRMÃO.
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quinta-feira, 23 de junho de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E O VERÃO

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VERÃO! OLHAR O MAR PARA ELE ERA POESIA. NÃO VIVIA SEM OLHAR PARA O MAR...




Estamos assinalar inquestionavelmente o início do Verão.


Nos anos 60 e 70, o Verão era para os jovens de São Vicente de Fora, meses de férias grandes e de veraneio. (Oh! Os veraneios!). O ponto de encontro de todos os jovens era as instalações da Paróquia, quando não se deslocavam para as “santas terrinhas” dos pais.


O Padre Correia da Cunha, possuidor de uma grande alma de marujo, nos meses de verão, tinha preferências arrebatadas: fugir das escaldantes atmosferas da sua amada paróquia e cidade, em busca de alguns refúgios, para observar o mar, onde podia esquecer o seu próprio esquecimento…Gostava do mar azul, com bastante sol. Não percebia como era possível sobreviver sem olhar o mar.



Possuía um imenso fascínio pela belíssima Estrada Marginal, que ao longo do Atlântico ia até Cascais, numa sucessão de elegantes e preciosas povoações, abrindo invejáveis panoramas. Esta maravilhosa e secular estrada era considerada por ele como uma das mais belas do mundo.


Verão! Olhar o mar para ele era poesia. À beira mar era um romântico que disfarçava a sua postura de integridade quotidiana que a sua incontestável opção de servidor sacerdotal colocara na sua alma.



Um passeio no seu velhinho mini-austin, por esta magnifica estrada, com pausa, num local com vista para o mar, para tomar e saborear uma bebida fresca, numa amena cavaqueira, era para si um forte momento de descanso.


As conversas à beira-mar eram ditames de pensamentos que a sua alma carregava e que os odores do mar tão bem sabiam libertar. Eram nestes diálogos que se modificavam e esclareciam por vezes muitas incertezas e confusões doutrinárias que amordaçavam as nossas emoções.






Nestes espaços reflectiam-se os outros que há em cada um de nós. Olhares discretos sobre a beleza da simplicidade feminina, que deseja sempre tornar ainda mais bela e que animava o nosso âmago e nos fazia sentir mais felizes. 

Ninguém como o Padre Correia da Cunha compreendia esta realidade humana e comportamental. Ainda guardo na memória a sua expressão: “que deveríamos olhar as mulheres num gesto de louvor e admiração como a mais perfeita obra da criação de Deus...”

Também dava preferência a um longo passeio no início das noites quentes, pelas largas ruas da Baixa Lisboeta e Chiado, tomando conhecimento das novidades literárias expostas nos escaparates das seculares livrarias.

Muitas vezes o acompanhei, com outros jovens, nestes passeios de longas horas. Foi nestes que aprendi, com ele, a saber viver as consequências que o destino divino coloca na vida de cada um.






Nessas idades, as nossas férteis imaginações confundem as variedades das concepções comuns, obstinadas com algumas enxurradas de filosofia que muita gente não compreendia, mas que o Padre Correia da Cunha tão bem sabia ler nos nossos subconscientes.


Sem matérias escolares para ocupar as nossas vidas, o Verão em São Vicente de Fora era um tempo para contemplação e para a realização de sonhos esparsos.


Visto a quarenta anos de distância parece um quotidiano triste, mas os jovens divertiam-se imenso.
No mês de Agosto, o  Padre Correia da Cunha retirava-se para a Alemanha Federal, onde procurava descansar e acompanhar de perto as inovações nas áreas da Liturgia e da Arte Sacra.


A hierarquia da Igreja Portuguesa encontrava-se demasiadamente acorrentada ao regime que a tornava muito abúlica.


Quando regressava vinha sempre entranhado de novas ideias e dinâmicas que procurava experimentar na sua Paróquia. Grande parte das alfaias, para os actos litúrgicos, era adquirida nesse país europeu. A singeleza e simplicidade das linhas atraíam o bom gosto de Padre Correia da Cunha.


Também a Igreja Católica Alemã era um modelo para superar os grandes desafios da modernidade, pois segundo o Padre Correia da Cunha dispunha de um conjunto efectivo de organizações que eram verdadeiros motores da doutrina social católica.


Na sua ausência, a calma e tranquilidade da Paróquia viravam numa agitação frenética da juventude irreverente, mas nunca era descorado o profissionalismo dos muitos jovens (cicerone), que se empenhavam no serviço de acompanhamento dos visitantes ao Mosteiro.


Recordo hoje, um cúmplice desse frenesi: o bondoso e saudoso Padre João Saraiva Diogo, que colaborava com oferta de baralhos de cartas e outros jogos, participando activamente com todos os jovens nesses tipos de actividades lúdicas. A maior referência deste sacerdote era viver o amor na alegria e na bondade em pessoa.


As novas sensações de Verão iam-se realizando e nós continuávamos a sonhar com o próximo Verão, na festa da vida.


Ainda hoje sentimos as recordações e as saudades que pairam nos nossos corações.


São essas vivências agitadas e inolvidáveis que influenciaram a nossa formação de homens livres e que deveríamos expressar carinhosamente neste blogue.



Não é demais referir que muito devemos a estes grandes PADRES.Homens enormes com quem convivíamos diariamente na Paróquia de São Vicente de Fora.
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sábado, 11 de junho de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA E A NOITE DE STº ANTÓNIO

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ONDE ESTÁ O CHEIRINHO DAS SARDINHAS ASSADAS ?




Durante o mês de Junho pairava sobre o bairro de São Vicente de Fora um cheiro especial: o cheiro a sardinha assada.

Começava nos bairros históricos de Lisboa mas facilmente se espalhava por todos os outros, por todas as ruas, vielas e becos da cidade.

As festas populares de Lisboa não podiam passar sem que o Padre Correia da Cunha organizasse o seu belo e tradicional Arraial dos Santos Populares, na cerca do Mosteiro de São Vicente de Fora.

A preparação do arraial dos Santos Populares iniciava-se logo no início do mês de Junho. Erguiam-se os mastros, as barracas, as grinaldas e o coreto. As luzes, o festão e as bandeiras povoavam a Cerca do Mosteiro. O Padre Correia da Cunha, em colaboração com os paroquianos, tinha o recinto num autêntico “brinquinho” para os festejos. Era assim em São Vicente de Fora, onde os Santos Populares eram festejados à antiga portuguesa.






A sardinha assada era a grande rainha da festa. O seu cheirinho espalhava-se por aquele enorme espaço ao som de Amália Rodrigues, que interpretava as marchas Populares, fazendo o Padre Correia da Cunha questão de difundir a voz divinal da sua amada fadista, com a ajuda das enormes colunas da sua notável aparelhagem.

Este odor gostoso da sardinha assada ia de Alfama ao Bairro Alto e Campo Grande, onde a Feira Popular era um braseiro constante de tisnar as belas e frescas sardinhas, frangos e pimentos, entre muitos outros.

O Padre Correia da Cunha referia que Lisboa, na noite de Santo António, não podia ter outro cheiro senão o da sardinha assada em confronto com o dos vasos do manjerico.

Na Paróquia de São Vicente de Fora em de Lisboa não havia na noite de Santo António espaço onde coubesse um alfinete, quanto mais um automóvel. O Padre Correia da Cunha adorava este deslumbrante espectáculo popular, onde não faltavam os ingénuos tronos de Santo António, os festões, a música popular, os manjericos e os “comes e bebes”.





Lembro que o Padre Correia da Cunha sempre procedia solenemente à bênção e inauguração do trono de Santo António, na sede do grupo recreativo da Calçada de São Vicente: “Academia Recreativa Leais Amigos”, que ainda onde hoje organiza a marcha da freguesia de São Vicente.

Para ele o importante era que o povo se divertisse, que os jovens pudessem dar largas à sua alegria, dentro claro dos limites da boa ordem.
A missão de “policiar” era da sua conta. Quando surgia ali algum folião provocador, originando distúrbios, o Padre Correia da Cunha agarrava-o de imediato pelos colarinhos e colocava-o no exterior do recinto com um valente par de bofetadas, garantindo assim que não houvesse tormentos inúteis, pois o arraial era espaço de encontro marcado com a sã convivência e muita alegria e reinação.

Bem agarradinhos, mas claro com todo o respeito, para não parecer mal, as raparigas de mini saias, com os seus belos cabelos compridos e os rapazes, com elegantes camisas, gravatas de seda e com os cabelos penteados, dançavam no grandioso baile, brotando um outro cheiro: o dos perfumes da moda.

Muitos amigos de Padre Correia da Cunha, colocados em altas posições sociais, marcavam com as suas presenças, estes animados arraiais dos Santos Populares da Paróquia de São Vicente de Fora, pois sabiam que o produto destes festejos se destinava aos serviços de beneficência da comunidade paroquial, que tantas dificuldades apresentava, dado o Padre Correia da Cunha teimosamente nunca cobrar emolumentos pelos serviços religiosos. A Graça Divina não podia ter preço!



O CORVO VICENTE



Há quem traga ainda hoje à memória, de que o Padre Correia da Cunha se candidatou para ir à frente da Marcha de São Vicente, no desfile pela Avenida da Liberdade, com o seu afeiçoado corvo Vicente, ao ombro, pulando ao som do cavalinho da marcha.

Todos reconheciam a sua alma foliona e onde houvesse sardinha assada, caldo verde, pastéis de bacalhau, pão saloio, chouriço, pataniscas e bom vinho a jorrar nas jarras, a noite era prolongada até ao romper do dia.









Porém, em São Vicente de Fora, o Padre Correia da Cunha não celebrava apenas os Santos Populares, como também o grande magusto de São Martinho, a quadra Natalícia, com teatro nas escadarias da igreja e concursos de presépios, o dia do Santo Padroeiro e o final do ano catequístico, com passeios e piqueniques pelas mais belas regiões do país. 

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quarta-feira, 1 de junho de 2011

PE. CORREIA DA CUNHA, UM RETRATO (VI)

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“Amar é conhecer! Amar é escolher! O amor consiste em querer o bem do outro!” PCC




A cada dia que passava, milhares de casais noivos dirigiam-se à Paróquia de São Vicente de Fora, para ali concretizarem o grande sonho de construir um novo lar.

Padre Correia da Cunha, com o objectivo de ajudar esses jovens a construírem a sua felicidade na nova vida que queriam abraçar, organizava CPM’s (Cursos de Preparação para o Matrimónio).

A finalidade destes Cursos eram ajudar os noivos a tornarem-se casais unidos e cristãos. Nessas reuniões reflectia-se com eles sobre todas as realidades do casamento e difundiam-se os princípios fundamentais da espiritualidade conjugal.

Como pastor, Padre Correia da Cunha não podia deixar de ter esta enorme preocupação: orientar e ajudar estes jovens casais no seu desenvolvimento humano e cristão. Para ele, os noivos deveriam ser mais que simplesmente namorados. Deveriam ser futuros construtores de um lar estável, harmonioso, feliz e criador.

Na organização destes cursos havia uma estrutura de um grupo de trabalho: Padre Correia da Cunha, como assistente, e grupos de casais, com a responsabilidade de dirigir e animar esses frutuosos encontros. Quero hoje aqui recordar alguns desses casais que tanto contribuíram para o êxito destes cursos com o seu agradável testemunho de um matrimónio de verdadeiro Amor: Carlos Diamantino e esposa, Carlos Barradas e esposa, Casimiro Ferreira e esposa, Dr. Gomes da Silva e esposa, Dr. Abílio Fernandes e esposa, entre muitos outros.





Todos os noivos eram convidados a frequentarem os Cursos, devendo fazê-lo livre e espontaneamente, sem serem forçados. Porém, diga-se que Padre Correia da Cunha explorava habilmente a sede de felicidade que todos os noivos demonstram para motivá-los a participarem no CPM.

Todos diziam sim à chamada. A sua preocupação era ajudar a formar e transformar, procurando transmitir a convicção de que é possível ser deveras feliz e ter êxito no casamento, apesar da fraqueza humana e das dificuldades que iriam surgir pela vida fora.

Para o Padre Correia da Cunha não havia temas tabu, tudo ali era abordado desde Psicologia masculina e feminina, harmonia e vida sexual, o casamento no plano de Deus, vida e lar. A participação activa dos noivos era considerada por ele como fundamental.

Para a temática sexual era sempre convidado um casal de médicos. Padre Correia da Cunha como toda a sua natural frontalidade também gostava de meter a colherada na temática sexual pois, para ele, o sexo era muito importante como realidade humana e as relações sexuais não eram meros actos físicos; eram manifestações genuínas de amor e doação mútua.

A sua linguagem era muito acessível para os noivos. Nestas reuniões, mantinha os noivos num clima de saudável optimismo e bom humor, mas sem deturpar a verdade. Sempre se dirigia aos noivos como seus amigos e desejando realmente ajudá-los a realizar a sua felicidade, lembrando e insistindo muito sobre a importância do diálogo entre eles. Acrescentava: “Uma flor muito bela, se não for regada com todo o carinho diariamente, rapidamente morrerá. A água do casamento é o diálogo permanentemente.”


O encerramento dos Cursos de Preparação para o Matrimónio era sempre celebrado com uma grandiosa festa, nos claustros do Mosteiro. Reinava um ambiente de uma enorme e verdadeira amizade entre todos os participantes.

O Padre Correia da Cunha encarregava-se da preparação do beberete, onde nos frios não poderiam nunca faltar os seus predilectos pastéis de bacalhau. Eram ricos os menus destes jantares volantes e regados com uma boa pinga. Padre Correia da Cunha não dispensava um bom vinho. Degustar um bom vinho era um sublime ritual que ele nunca recusava.

Festa sem boa música também não era festa. A música era seleccionada para que os noivos não resistissem a um bom passo de dança. Recordo que as festas daquele tempo eram feitas de muitas riquezas, onde nunca faltava o respeito entre todos. O espírito era de fraterno ambiente cristão.
Todos os corações estavam alegres e reinava sempre uma alegria estrondosa entre todos os casais de noivos. No final deste fraterno convívio despediam-se, denunciando nos seus olhos uma plena felicidade. Creio mesmo que muitos casais mantiveram contactos douradores pelas suas vidas fora.


Também no tempo de Padre Correia da Cunha, havia na Paróquia de São Vicente de Fora, eventos e cerimónias nupciais de empolgante e rara beleza que mantenho inolvidáveis na minha memória.

Aquele templo era suplicado por muitos “marujos” para cenário dos seus casamentos. Admiradores do Capelão Correia da Cunha, não poderiam de deixar de o convidar para celebrante de tão nobre e inesquecível momento das suas vidas. A celebração de um matrimónio canónico era um momento marcante por excelência, como sabemos é uma decisão que compromete a vida dos noivos para sempre.

Assisti a centenas de Liturgias de Matrimónio celebrada por Padre Correia da Cunha para os seus amigos da armada.


Depois da Missa do meio-dia ninguém arredava pé, caso se constatasse que um oficial da marinha ia casar. A igreja magnificamente engalanada com belas flores povoava-se de muitos convidados. Entre os convidados destacavam-se os camaradas de curso da Escola Naval. Os que não estavam presentes andariam certamente pelo mar longínquo ao serviço da armada, com o sacrifício das suas vidas em prol da Pátria.

Depois de cumpridos os rituais religiosos da longa cerimónia, à porta da majestosa igreja, formavam-se nas harmoniosas escadarias, duas longas filas de oficiais da armada, que quando pressentiam a saída dos noivos, desembainhavam as espadas, que dois a dois cruzavam no ar.
Cumpria-se uma velha tradição. Os recém-casados passavam debaixo daquelas espadas reluzentes e nuas no simbolismo protector de que, sem limites, poderiam contar com a lealdade e solidariedade fraterna dos camaradas de armas.


O copo de água era um serviço rico. Os “marujos” animados, com as suas fardas de gala, que os raios solares reflectiam em brilho das bordaduras e dragonas douradas, colocavam no ambiente uma nota de realeza e júbilo, assim como uma ambiência de afectuosa e sã convivência.

A certa altura o Capelão Correia da Cunha levantava um brinde, com champanhe francês de boa marca para elogiar os noivos e desejar-lhes um futuro pleno de felicidade e muito amor, aproveitando para lhes recordar a homilia, onde fizera um eloquente discurso de Felicidade: “O casamento não é mais do que uma longa viagem marítima, em que ambos embarcaram num navio e largaram através do mar da vida num destino comum.”

Quem não recorda as longas homilias de Padre Correia da Cunha que mais pareciam lições de marinhagem:




“Quando o mar é sereno, tudo corre bem, mas, por vezes desencadeiam-se ondas bravias, são as tempestades da vida.
O bom “marujo” tem de ter mão firme no leme e em colaboração íntima com ela vencer o temporal, como comandante que escolheu as rotas e vigia os rumos. Ela, como “zeladora pelo navio”, assim como o imediato, é responsável pelo aspecto impecável da embarcação. Mas não há felicidade a bordo sem o entendimento perfeito de ambos. Só a sua acção conjunta garante a chegada final ao porto de destino.”


Continua…
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