sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

PE CORREIA DA CUNHA E O VINHO

.
.
.
.
...
..


DIVINAIS BANQUETES…



Toda a rebelião e contestação dos anos 60 também estavam espelhadas nos jovens de S. Vicente de Fora. Esta rebeldia estalava na exploração das TORRES da Igreja, procurando nos seus forros e cimalhas caçarem os pombos que ali se acolhiam, que originavam boas patuscadas e um são convívio entre jovens.

Eram pequenos bandos de rapazes a desafiar as ordens e regras estipuladas pelo o Pe. Correia da Cunha, que não permitia o acesso a essas áreas do edifício pelos riscos e insegurança que representavam para os seus jovens.

Naqueles tempos era ‘’ proibido proibir’’, desafiar o risco era uma forma de os jovens contestarem aquilo que consideravam serem mentes envelhecidas, que não os deixavam desenvolver e crescer em liberdade…

Os jovens buscavam situações de provocação, rompendo os bons ensinamentos que diariamente Pe. Cunha lhes ministrava. Esta situação era referida pelo Pe. CUNHA como: SANGUE NA GUELRA.

Depois da visita a essas áreas de exploração interditas, que os deixava cansados pelo esforço desprendido, era chegada a hora de invadir a Sacristia para se refrescarem com um bom copo de vinho sacramental (missa). Todas acções eram desenvolvidas com o máximo cuidado, de forma a não serem detectadas pelo PE. CORREIA DA CUNHA, no caso de falha era de imediato ‘’reprimidas’’ com o respectivo correctivo, um puxão de orelhas e a chamada dos pais ao cartório da Paróquia.

Enquanto um bebia, os restantes vigiavam atentamente os caminhos que conduziam à Sacristia.

O consumo de vinho sacramental começou apresentar níveis inaceitáveis, que obrigou a serem tomadas providências junto de Pe. Correia da Cunha, pelo empregado da igreja.

Ao tomar conhecimento desta situação, Pe Cunha, mandou que se comprasse três litros de vinagre e que fossem colocados nas garrafas vazias do vinho sacramental. Devendo o vinho da missa ser guardado em lugar mais seguro. Esta decisão apenas era do conhecimento do empregado da igreja e do Pe. Correia da Cunha.

Na invasão seguinte à Sacristia, o primeiro a saborear o agradável vinho sacramental, ficou logo sufocado com o tão horrível e acre sabor que já não houve coragem de alguém querer repetir a prova.

Remédio santo, a partir dessa data, o consumo de vinho sacramental retomou o seu consumo normal, ficando colocado no seu lugar habitual. Nunca houve da parte do Pe. Correia da Cunha interesse em saber quem eram os apreciadores do divinal vinho. O seu lema era que não fosse repetida a situação.



Seminário dos Olivais

Em 1982, aquando das Celebrações do IV Centenário da Reconstrução da Igreja e Mosteiro de S.Vicente de Fora, Pe. Teodoro Marques, colega de seminário do Pe. Correia da Cunha, contou a seguinte história:

- O seminarista Correia da Cunha gostava muito de organizar petiscos. No Seminário, lá conseguia de vez enquanto afincar um entrecosto uns chouriços e umas morcelas, depois de bem assados eram comidos na mão em cima de uns bons nacos de pão com o seu grupo de amigos mais próximos. Estas comezainas eram feitas num dos recantos do jardim do Seminário.


O seminarista José Correia da Cunha era o responsável máximo da Capela do Seminário e pelos seus consumíveis. Para estes petiscos, José Correia da Cunha providenciava sempre uma garrafa do bom vinho sacramental, que tornava aqueles momentos de convívio entre amigos em faustosos banquetes.

Um dia chegou ao conhecimento do Reitor do Seminário, Mons. Pereira dos Reis, a utilização do vinho da missa nos celebres convívios promovidos pelo jovem seminarista.

Monsenhor Pereira dos Reis viu-se na obrigação de chamar Correia da Cunha ao seu gabinete.

- Sei que estás a utilizar nas tuas petiscadas, que tanto gostas, vinho da missa.
Porque não pedes antes na cozinha uma garrafa de vinho como requisitas os restantes ingredientes?

- Sabe, Monsenhor, a qualidade das minhas patuscadas são como divinais banquetes para a boca e para o espírito exigem um vinho divino de qualidade superior. Com um vinho corrente do Seminário não seria a mesma coisa!

- Zézito!

Os anos 60 foram vividos de diferente maneira, de acordo com a sociedade vigente. Os ideais contestatários dos jovens manifestavam-se consoante a liberdade que lhe era dada. Pe. Correia da Cunha sempre aproveitava os acontecimentos para chamar atenção para os riscos e apontar caminhos. Eu creio que ele também conhecia e sabia o que era ser irreverente.

PE. CORREIA DA CUNHA PROCUROU ENCONTRAR SEMPRE A ALTURA CERTA PARA EFECTUAR CONNOSCO UMA REFLEXÃO SOBRE ESTES EXTRAVAGANTES ACONTECIMENTOS.
.
.

2 comentários:

  1. Anónimo6.2.09

    UM TESTEMUNHO

    O meu percurso de vida é longo. Tem 55 anos. O homem para ser verdadeiramente homem tem de aprender com os disparates que faz ao longo da vida. Mal do homem que acha imaculado, sem pecado... é preciso aprender com os nossos erros. É verdade que tenho grandes homens e mulheres na minha família. Os meus filhos seguem o caminho do pai. Seria impossível vender-me. Preferia passar fome do que roubar! Não sou corrupto! Tenho defeitos e virtudes, porém por ter sido educado, bem-educado por meus pais e pelo saudoso Padre Correia da Cunha de S. Vicente de Fora teve grande influência nos meus comportamentos. Fui dirigente da JOC com 15 anos e sempre defendi os mais explorados e desafortunados, mas não chega. Queria ser melhor! Quando estudava na Patrício Prazeres tinha uma legião de amigos e amigas, apesar de nesse tempo os recreios serem separados por arame farpado! Sim arame farpado, para não nos encontrar-mos com as colegas. Se, no resto de minha vida, eu consiga contribuir para diminuir o sofrimento e a solidão serei feliz.

    ResponderEliminar
  2. Este testemunho poderia até ser meu. Bastava mudar para 59 anos de idade. Também fui dirigente da JOC, andei na Patrício com arame farpado e fui educado pelo saudoso Padre Cunha, enfim, quase tudo igual. O tempo era um tempo onde tudo era proibido! Será que hoje serei mais livre?
    Rogério Simões

    ResponderEliminar